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O fenômeno do jornalista que cobre os acontecimentos na sua posição de trabalho na redação não acontece apenas pela praticidade da tecnologia, mas também pela precarização das relações de trabalho e das sucessivas demissões em empresas de comunicação no mundo todo. Ter um jornalista na rua é algo que demanda mais recursos financeiros em transporte e equipe de apoio. Pode parecer inclusive pouco sensível tratar a situação dessa forma, mas uma das habilidades que o jornalista precisa ter no contemporâneo é a de administrar o seu trabalho em um

ambiente extremamente precarizado e vendido como tons de alta modernidade

em uma verdadeira “uberização" do jornalismo que o obriga a construir, em muitos momentos, uma carreira patchwork (DEUZE; WITSCHGE, 2016) mais focada em explicar o número de trabalhos freelancers realizados em diferentes empresas do que na trajetória desenvolvida em um único veículo.

Me refiro à uberização do jornalismo comparando nossa situação com a dos motoristas particulares que costumam oferecer seus serviços em plataformas como

24 "Of course, journalism has always had its sedentary side. Typewriting, for example, aslo involved seated production; phone use before the era of mobile telephony likewise. The crucial difference between previous forms of "sedentary journalism” and its contemporary variant is how screenwork currently channels an unprecedent number of key journalistic tasks (e.g., word processing, text editing, archival research, breaking news monitoring, surveillance of the competition, and intraoffice communication and coordination) through a single interface with a normally fixed location". Tradução livre.

Uber. Por um lado, eles não possuem vínculo empregatício com as empresas que estão associados para captar clientes, mas por outro necessitam seguir uma série de regras de atendimento, qualidade, tipos de carros aceitos e toda a transação de pagamento é feita por intermédio de uma empresa que fica com uma porcentagem do valor. Direitos trabalhistas como décimo terceiro salário, plano de saúde e vale alimentação são naturalizados como coisas que não são de merecimento ou discussão nesse tipo de contratação por que, afinal, são microempreendedores individuais (ou seja, empresas) que demandam à plataforma o uso do seu banco de dados de clientes. Por outro lado, em um cenário bastante fragilizado economicamente, acaba se tornando uma possibilidade minimamente rentável para quem talvez não encontrasse emprego de outra forma e facilita a locomoção de clientes que não gostam de se sentir dependente do sistema de táxis convencionais. A teia de relações é tão complexa que traz questionamentos desde o sucateamento da infraestrutura de transportes públicos até benefícios ambientais provenientes do compartilhamento de carros. No jornalismo, se sente também essa preocupante precarização das relações de trabalho misturada a um necessário repensar das formas de produção com um véu de modernização que não se sabe quanto é real e quanto é marketing do mais bem feito com intenções incógnitas.

Se no capítulo anterior percebemos que em um capitalismo cognitivo os profissionais tendem cada vez mais a seguir uma lógica de "eu-empresa” ou “eu- marca”, na realidade é necessário entender que o simples fato de ter um cadastro de Microempreendedor Individual (MEI), um dos artifícios utilizados para pagar menos pelo trabalho feito e manter menos vínculos trabalhistas25, não garante que o jornalista tenha a mesma estrutura de apoio que uma empresa, que receba os benefícios fiscais que as corporações possuem, que contem com um departamento voltado às vendas

25O Microempeendedor Individual (MEI) é uma categoria empresarial surgida em 2008 com o objetivo de trazer para a formalidade profissionais individuais que executam trabalhos informalizados e que possuem lucro de até R$ 60 mil anuais (o que dá R$ 6.750 por mês) e assim possam recolher contribuições à previdência e ter acesso a apoios em caso de acidente. Entre as diversas categorias, estão a de pipoqueiro, coveiro, açougueiro, artesão, cabeleireiro e engraxate, por exemplo. Algumas funções, entretanto, dão conta de atividades da área da comunicação, como coletador de matérias de jornais (clliping), editor de jornais, livros e vídeos, filmador e fotógrafo. Tem se tornado comum que grandes empresas de jornalismo, que já contratavam profissionais temporários como pessoas jurídicas em modalidades que pagam mais impostos, solicitem que os jornalistas se tornem MEI para que se onere ainda menos fornecendo notas com descrições genéricas como se não estivessem fazendo reportagem. Na prática, chega a se usar o vexatório termo "freela fixo” para designar os freelancers que apesar de não ter nenhum vínculo empregatício acumulam anos de relação com a empresa e seguem exatamente as mesmas exigências de rotina que os contratados pelas normas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

e à realização de acordos econômicos ou até mesmo uma equipe jurídica que vá proteger o profissional em caso de necessidade. Se por um lado, vemos o surgimento de agências de comunicação voltadas à produção de reportagens especializadas para venda aos veículos de comunicação tradicionais e nisso haja grandes doses de inovação, por exemplo, por outro precisamos ressalvar que essa é uma forma bastante sofisticada de as empresas tradicionais não precisarem mais manter continuamente profissionais extremamente qualificados e caros para realizar seu próprio trabalho fim. Essas relações ficam cada vez mais evidentes principalmente a repórteres jovens e a trabalhadores mais velhos demitidos das empresas jornalísticas nos tantos passaralhos que já fazem parte do imaginário da profissão (DEUZE; WITSCHGE, 2016).

A formação da cultura do jornalista enquanto um empreendedor, segundo Deuze e Witschge (2016) o força a repensar a sua identidade ao ter que assumir uma série de reinterpretações de questões como efetividade, autonomia, independência e produtivismo. Em suma, pelo menos emocionalmente, se passa ao indivíduo a responsabilidade sobre o sucesso das estratégias da corporação, mesmo que ele não tenha participado em nenhum momento do estabelecimento delas. Mas ao mesmo tempo, há que se reconhecer que é necessário pensar o trabalho do jornalista fora do ambiente da redação, já que ela se reconfigura com velocidade e, dependendo da situação, até desapareça nos modelos ao qual conhecemos. Precisamos estudar cada vez mais o jornalismo feito fora das organizações tradicionais no qual a lógica redacional já não se aplica (DEUZE E WITSCHGE, 2016). E dos modelos disponíveis, os de empresas, ONGs, projetos jornalísticos e coletivos editoriais acabam abarcando um certo grau de independência (editorial e de organização da rotina de trabalho) que de fato pode ser útil e agradável ao jornalista. Portanto, feita a ressalva de que muito do discurso do jornalista-empreendedor vem acompanhado de uma aceitação pouco crítica da precarização das relações de trabalho, acredito que se deve pensar sobre como as habilidades de empreendedorismo e administração são úteis e necessárias para que o jornalista se mantenha em uma posição de protagonismo no estabelecimento dos rumos da profissão.

Paulino e Xavier (2015) percebem que para a manutenção de uma organização jornalística é necessário que se possa lidar com práticas de empreendedorismo, mas que é comum que os profissionais iniciem as carreiras motivados apenas para lidar

com a produção de conteúdo e se demonstre pouco interesse em romper a já tradicional barreira entre o comercial e o editorial.

Mas esta barreira perde sua razão de ser em negócios em escala menor e em um cenário que demanda profissionais de jornalismo capazes de executar multitarefas. Isto é, pensar desde a estratégia de captação de receita para a produção de determinado conteúdo, apurar, redigir (ou gravar áudio/vídeo, fazer foto, infográfico), editar, publicar e distribuir via site, blog e redes sociais. (PAULINO e XAVIER, 2015, p. 167)

A resistência e falta de habilidades para lidar com práticas de empreendedorismo fica evidente em algumas situações que serão descritas no capítulo 5, de análise dos resultados.