Olá Umbigo,
Os dois primeiros exames deste semestre até nem correram mal de todo, mas com o resultado deste último estou muito apreensivo. À porta da sala de exame, devias ter visto, a turba acotovelava-se exalando um burburinho nervoso e indefinido que intoxicava o estreito corredor. Os alunos irrequietos marcavam vez junto à porta, como se esperassem o início de um concerto dos magníficos “Vomita-aqui”. O entusiasmo espelhado nos rostos é que talvez fosse um pouco diferente, ou talvez não.
Algumas colegas mascavam pastilha elástica com tal intensidade que os maxilares ameaçavam desconjuntar-se a qualquer instante, fiz algu- mas apostas sobre o momento exacto em que tal aconteceria, mas não fui bem sucedido. Outros, carregados de folhas escritas em letra miudi- nha, faziam revisões apressadas, discutindo em voz alta partes soltas das matérias. A enxurrada de questões e respostas incendiou o corredor, per- turbando os mais impávidos. Fazer mergulho de profundidade nos tópi- cos das matérias, aprendendo à pressa conteúdos desgarrados, parece- -me perigoso e tão absurdo quanto uma reunião de bacalhaus para discutir o acompanhamento na ceia de Natal; mas, enfim, gostos!
Também passaram pelos meus ouvidos as mais disparatadas con- versas, por exemplo, uma aluna magríssima receava um enfarte a meio de exame por ter comido um profiterole na véspera…
Mais afastado, um outro grupinho falava dos próximos exames, do espaçamento do tempo de estudo, dos boatos sobre a dificuldade das diferentes cadeiras, dos comportamentos mais ou menos bizarros de alguns professores, eu sei lá. Acho que naquele ambiente até uma preguiça pachor- renta ficaria electrizada e com ataques de pânico.
A verdade é que depois de nos sentarmos no anfiteatro, sem nada mais do que a caneta, o cartão de estudante, o neurónio e algum conhe- cimento – no meu caso bastante pouco –, as pernas começaram a fraquejar enquanto o coração insistia em forçar um caminho para fora do peito. Eu estava pouco seguro, tinha estudado a correr e com pouca profundidade, embora a suficiente para me preocupar com o resultado final.
Durante o exame fui assaltado por pensamentos que me afastavam definitivamente dali. Lembro-me de que pensei como seria bom se o relógio se adiantasse três horas e já tudo tivesse terminado, mas também me assustei com o elevado nível de concentração dos que estavam à minha volta. Ninguém levantava a cabeça da folha de teste para recolher uma vista panorâmica, imagina só?!
Liguei o meu instinto de detective e varri a sala tentando descobrir alunos em pleno copianço. Conheço algumas técnicas, umas mais sofis- ticadas do que outras, mas eu não conseguiria copiar mantendo a postura. No meio daquele emaranhado de ideias ainda me lembrei de uma dis- cussão na aula sobre “plagiar” e “copiar”. Recorrendo a um exemplo grá- fico, uma das professoras disse-nos que copiar era tão absurdo quanto retirarmos consequências práticas para a nossa saúde a partir da infor- mação de um termómetro colocado numa axila próxima, supostamente de aspecto mais saudável. Bem, se a axilinha fosse a da Kátia Vanessa não me importava, mas não pude deixar de tirar o chapéu ao argumento. Profe 1, Copianços 0.
A verdade é que, apesar de não mexer um músculo, o meu pensa- mento vagueava esbanjando tempo sob o olhar implacável do relógio. No entretanto, os meus olhos escorregavam em algumas questões que só conseguiria resolver se o génio da lâmpada do Aladino tivesse a delica- deza de me visitar, oferecendo-me um pacote de desejos. Só te conto isto a ti porque teria vergonha se alguém ouvisse as coisas que invadem a minha cabeça durante o exame, escorraçando os pensamentos e os raciocínios que a deveriam ocupar.
Em vez de ler o teste todo antes de iniciar as respostas, avancei para a primeira questão com a voracidade de um lutador de Sumo. A meio da pergunta entrei em desequilíbrio e perdi imediatamente o combate. Li e reli a questão fazendo riscos circulares na folha de exame, tentando despistar o caos que ameaçava tomar conta da minha caneta. Saltei umas quatro perguntas antes de descansar numa questão familiar que me devolveu o alívio, mas os meus indisciplinados olhos, como que respon-
dendo a uma ordem sem voz, não largaram as questões assassinas. Li e reli vezes sem conta aquelas frases com um ponto de interrogação na cauda, sem que surgisse qualquer pista. A minha memória parecia ter tirado férias, justo naquele dia. Li e reli, mas como não avançava no exame, o chumbo que me sorriria mal cruzasse a porta da sala ocupou o restante espaço dos meus pensamentos. Todo o corpo parecia compreen- der o meu problema e atrapalhação, mostrando simpatia: os músculos estavam tensos, as mãos suavam e doía-me um pouco a cabeça. Foram minutos de intranquilidade e de alguma angústia. Exausto, pensei várias vezes em abandonar a sala, nem sei bem porque não o fiz.
Suei como se estivesse a correr numa maratona. Só reparei nisso quando, a meio do exame, uma colega de mola protectora no maltratado nariz me ofereceu um desodorizante embrulhado em sorriso amarelo. Colorido de brasa incandescente, tropecei na resposta, e só consegui arti- cular um atarantado: “hãn, hãn que bom. Estava mesmo a precisar.” Enfim, um episódio para esquecer.
Tentei acalmar-me, mas por azar, a minha caprichosa caneta deci- diu fazer greve. Como não antecipei essa eventualidade, tive de pedir uma emprestada, e distraí-me, ficando um pouco mais nervoso.
Não li o teste todo antes de começar a escrever, e não ajustei o tempo disponível para cada resposta. Resultado: faltava meia hora para terminar e ainda tinha metade das perguntas do exame por resolver. Respondi a correr, com um português fatal e uma grafia que me confun- diria com um árabe…
Quando abandonei a sala nem queria acreditar.
Nunca fui atacado por dores na barriga, nem por aquela necessi- dade premente de passar a vida na casa de banho, mas há quem refira este tipo de incómodas queixas. Conversando com uns colegas, percebi que o que me acontece, que não sei muito bem como lhe chamar, é bastante mais frequente do que eu imaginava. Uma das raparigas falou- -nos de uma amiga que recorreu ao serviço de consulta psicológica da Universidade por causa do seu nervosismo e desconforto nas situações de avaliação.
Afinal, o que é isso da ansiedade face aos testes?, alguém pergun- tou. O relato pormenorizado demonstrava um conhecimento tão completo da ansiedade face aos testes que, provavelmente, nos falava dela própria, escondendo-se confortavelmente atrás das saias de uma amiga. Não tenho a certeza, mas, neste caso, talvez não seja muito importante.
Disse-nos que a ansiedade inclui duas componentes: a cognitiva (Preocupação) e a afectiva (Emocionalidade). A preocupação está relacio- nada com os pensamentos sobre as consequências de um possível insucesso e as dúvidas sobre a própria competência para realizar as tare- fas com sucesso. A emocionalidade, por sua vez, refere-se às reacções fisiológicas causadas pelo stress da avaliação.
No meio do seu sermão aos ansiosos, socorreu-se de um exemplo que tinha aprendido com a tal amiga – isto é, com ela própria. A ansie- dade, tinha-lhe explicado a psicóloga, é como a corda de uma viola: tem uma tensão óptima. Se estiver lassa, o som sai distorcido, mas se muito esticada, a corda rompe-se escondendo a voz do som. A moral da metá- fora da corda da viola sugere que um quanto baste de ansiedade é fun- damental para nos mantermos activos e centrados na tarefa, mas que muito menos ou muito mais perturbaria a nossa realização comprome- tendo-a. Este quanto baste não é igual para toda a gente. Há quem comece a tremer de nervoseira um mês antes do exame, qual formiguinha à beira de um esgotamento nervoso – a Kátia Vanessa –, mas também há quem só se preocupe muito perto do exame, apresentando uma tal passi- vidade que escandaliza até as impávidas preguiças – eu!
Talvez nenhum dos comportamentos seja melhor que o outro, tal- vez cada um tenha de conhecer o seu estilo e aprender a lidar com ele, talvez…
Pelos vistos, esta ansiedade não surge apenas durante as provas, também nos ataca antes do exame, corroendo-nos a capacidade de nos concentrarmos no estudo, de conseguirmos organizar a informação nova e de a ligarmos aos conhecimentos que já possuímos. A ansiedade tem o poder de nos desfocar, de nos levar a pensar no tempo que já não temos para estudar e não no que ainda nos resta. Encaramos o que não sabe- mos ou o que não conseguimos resolver como fatalidades e não como oportunidades de melhoria.
Disse-nos a aprendiz de “catedrática” que a ansiedade funciona um pouco como a areia movediça: quanto mais esbracejarmos sem estraté- gia, mais nos enterramos.
Falava com uma irritante segurança de ferro, como se estivesse a discursar na cerimónia de entrega do Nobel da Ansiedade, mas a verdade é que tinha conseguido levar a minha curiosidade ao rubro. Felizmente, alguém lhe perguntou o que fazer contra a ansiedade face aos testes. Sin- tonizei a orelha tentando escutar a fórmula mágica, e esperei que a cera
acumulada nos meus pavilhões auriculares não impedisse o trânsito da informação. A resposta foi bastante desenxabida: “a melhor arma contra a ansiedade é um estudo profundo e uma sólida preparação para o exame.”
Esperava um pitéu, a água já me escorria na boca, e saiu-me uma batata cozida sem sal, e ainda por cima algo presumida. Consegues ima- ginar a minha desilusão?
Ignorando olimpicamente o sonoro “ÓÓÓ” que ocupou o espaço da conversa, continuou a explicar-nos que a ansiedade, tal como a auto- -regulação, também tem um antes, um durante e um depois. A ansieda- de movimenta-se no terreno da dúvida: Será que vou conseguir passar? E se no exame sair aquela matéria que eu não estudei bem? E se os exercícios e os problemas forem difíceis e incompreensíveis? E se eu tropeçar nas armadilhas da escolha múltipla? E se os meus dedos parali- sarem?…
Claro que é sempre possível que alguma coisa corra mal durante o teste, num jogo de futebol, numa viagem de autocarro, a atravessar a rua… mas contra as dúvidas, mesmo as mais agressivas e corrosivas, as certe- zas sólidas são o único remédio: se estudei pausadamente a matéria; se fiz exercícios, os sugeridos, mas não só; se estudei os textos e os artigos distribuídos; se tentei resolver exames anteriores; se consegui elaborar uma lista de possíveis questões, se realizei um trabalho profundo… então a possibilidade de o exame correr bem aumenta.
Nunca amealhamos a certeza absoluta de que vamos controlar tudo e na justa medida que desejamos. Há sempre muitos, demasiados, impon- deráveis que cercam a nossa vida. Pelos vistos, neste caso, a solução é tentarmos reduzir a incerteza, estudando com profundidade para que o resultado se aproxime dos nossos objectivos. Fazia sentido, mas parecia demasiado fácil, ali devia haver algum truque de vendedor da banha da cobra.
A quem lhe perguntou como ajudar alunos que abandonam a sala porque não conseguem sequer ler as perguntas do teste, a “catedrática” da ansiedade respondeu com exercícios de relaxamento. Aprender algu- mas técnicas de relaxamento pode ser decisivo. Por exemplo, sentar-se numa posição confortável de olhos fechados e expirar lentamente pelo nariz. (Pelo menos nesta técnica eu não preciso de grandes lições!) Depois, tentar relaxar os músculos começando por imaginar que os pés estão a ficar moles e deixar que este sentir vá subindo pelo corpo acima. Ajuda respirar pausadamente pelo nariz concentrando-se no próprio acto de respirar. A ideia geral é conseguir que o corpo e a mente sejam invadi-
dos por uma tranquilidade que expulse os pensamentos e os sentimentos de desconforto. Não consegui ouvir o pacote completo das técnicas de relaxamento, mas desta lembro-me:
1. Senta-te confortável. Deixa cair os braços e as pernas. 2. Fecha os olhos.
3. Inspira profundamente e conta devagarinho 1… 2… 3… 4 (…) 6. 4. Deixa sair o ar lentamente, contando 1… 2… 3… 4 (…) 6. 5. Repete os passos 3 e 4 colocando as mãos no estômago e sente
o movimento ascendente.
6. Deixa sair o ar lentamente, sentindo o ar sair. 7. Repete estes movimentos algumas vezes. 8. Abre os olhos.
Eu adormeceria passados três segundos de olhos fechados, mas não custa tentar, pode ser que me ajude.
Ela não o disse, mas imagino que estas técnicas de relaxamento devem ser usadas antes do exame, não exactamente durante a sua reali- zação. Ainda bem, porque não sei se alguns alunos aguentariam o potente cheiro das minhas meias… Acho que eu próprio morreria intoxicado na sala de exame.
No fim disto tudo recordei que somos filhos dos nossos actos, tal como defende o D. Quixote. Bem, neste particular devo ser órfão, mas o que é que posso fazer?
Um abraço ansioso, G.