Aconteceu em Cuba, de 31 de julho a 10 de agosto de 1967, a conferência da OLAS (Organização Latino-americana de Solidariedade). Essa conferência foi o marco da saída oficial de Carlos Marighella do PCB, depois de tentar vários movimentos para redirecionar o partido para a Corrente Revolucionária e não obter êxito. Marighella viajou a Cuba a convite de Fidel Castro, mas não integrou nenhuma comitiva oficial de representação institucional. Porém, participou ativamente como
observador e convidado. Sua viagem se estendeu por mais tempo do que a duração da conferência, pois ficou em Havana, capital cubana, até dezembro de 1967.
Marighella registrou sua participação em várias locuções e entrevistas à Rádio de Havana e em uma dessas entrevistas tomou ciência, por meio do entrevistador, de que o PCB oficializara, junto ao Comitê Central do Partido Comunista Cubano, de que ele não representava os comunistas brasileiros na conferência, havendo de ser tomadas medidas pela insubordinação.
As locuções de Marighella na Rádio de Havana estão devidamente registradas em documentos e arquivos sobre ele e a ALN. O que parece intrigante é a questão da saída de Marighella, pois historiadores como Jacob Gorender (2014) e Daniel Aarão Reis(1990) apresentam-na como um ato de expulsão pelo PCB, feito em setembro de 1967.
Todavia, encontra-se no Arquivo Nacional em Brasília a reprodução de uma ―Carta Renúncia‖ datada de 17 de agosto de 1967, na qual Marighella anuncia ao Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro seu desligamento do partido. É relevante registrar não ser essa informação uma novidade absoluta, já que a encontramos presente nos estudos do historiador Muniz Ferreira (1999). Mas, de forma geral, a bibliografia atual não apresenta a saída de Marighella como uma postura pessoal, mas sim uma expulsão, que de fato houve, entretanto, apenas depois de seu desligamento via carta ao PCB, quando Marighella ainda se encontrava em Cuba. Vejamos um trecho dessa correspondência:
Em minha condição de comunista, à qual jamais renunciarei, e que não pode ser dada nem retirada pelo Comitê Central, pois o Partido Comunista e o marxismo-leninismo não têm donos e não são monopólio de ninguém, prosseguirei pelo caminho da luta armada, reafirmando minha atitude revolucionária e rompendo em definitivo com vocês. (MARIGHELLA, 1972, [1967]).
Marighella apresentou nesta carta sua conclusiva visão sobre a máquina partidária e a estrutura diretiva do Comitê Central. Para ele, chegara a hora de a ação revolucionária ocupar todo o espaço e a guerrilha era a única prática aceitável, uma vez que as discussões, as reflexões, os debates e as reuniões em torno de temas como o amadurecimento das forças objetivas e a correlação de forças entre as classes sociais e suas instituições representativas tornaram-se airadas e voláteis.
Alguns temas eram discutidos pelo partido de forma acadêmica e subjetiva, como as polêmicas acerca da natureza da formação social brasileira; o caráter e a hierarquia de suas contradições; as discussões a respeito da disponibilidade de recursos para o desenvolvimento das ações revolucionárias; e as questões sobre a relevância de fatores subjetivos, como a consciência das massas, para o desenrolar do processo. Essas discussões não mais agradavam Marighella, pois este ansiava por transformações mais objetivas.
Nesse caminho de amadurecimento intelectual, depois de anos de discussões internas com o partido e da experiência em Cuba, ele anunciou firmemente não pretender repetir as práticas partidárias, nem reproduzir o erro de construir um novo partido.
Quero, porém, tranquilizar os companheiros. Esta declaração não significa que eu esteja trabalhando para organizar um terceiro partido. Não estou preocupado em fazer mais um Partido para ficar na cidade. Os camaradas do CC estão certamente lembrados de que cheguei a propor que um terço do Comitê Central fosse deslocado para o campo. Tal proposta foi solenemente rechaçada. Para mim, chegou o momento em que os esforços revolucionários devem ser concentrados na área rural. O papel de uma direção proletária, marxista-leninista, na América Latina, é estar no campo e não na cidade. E se não acontece com a direção, que aconteça com os dirigentes. (MARIGHELLA, 1972, [1967]).
A escolha pela ação armada não se deu de maneira arbitrária, mas por uma leitura, percebida por Marighella, de que após o golpe de 1964 existiam duas concepções de trabalho de massas, Uma era ligada às lutas reivindicatórias, que procuraram ganhá-las para a revolução. Contudo, a ditadura militar não admitia a luta reivindicatória e esta perdeu quase absolutamente a razão de existir a partir da instituição da repressão e da violência. A segunda concentrava-se no terreno da luta armada e contava com a potência de fogo para agir. Em torno dessa última concepção, a ideia era a de que o movimento iria crescer e a massa se reunir e construir sua unidade, marchando rumo à tomada do poder.
Segundo meu modo de ver, a luta guerrilheira é a única maneira de reunir os revolucionários brasileiros e de levar nosso povo à conquista do poder. Recursos humanos e condições para a guerrilha não faltam no Brasil. A
consciência revolucionária, que brota na luta, se incumbirá do resto. A
guerrilha é o que pode haver de mais anticonvencional e de mais anti- burocrático, o que mais se distancia de um sistema tradicional de um partido da cidade. (MARIGHELLA, 1972, [1967]).
A ditadura militar havia, portanto, radicalizado as coisas ao obstruir qualquer possibilidade de ação de massas pacíficas, não havia deixado outra alternativa senão o confronto armado. A fórmula para o fortalecimento do movimento armado seria, segundo Marighella, amealhar prestígio e atrair adesão dos elementos revolucionários das massas, por meio dos exemplos fornecidos através das ações revolucionárias. Deste modo, ele lançou o rompimento com os métodos tradicionais dos partidos políticos.
O que se verifica nos textos de Marighella, a partir de sua renúncia ao partido e da declaração geral da OLAS, é uma escalada teórico-metodológica sobre a melhor maneira de se implantar a guerrilha no Brasil. As discussões, as análises, as reflexões de conjunturas e os debates de convencimento dão lugar às verificações de experiências revolucionárias de outros países e, principalmente, à compreensão de que a experiência cubana oferecia uma nova perspectiva de luta para o campo marxista-leninista.
As novas perspectivas apresentadas em Cuba, unidas às suas vivências no partido, deram espaço à escrita de um novo documento denominado Algumas
questões sobre a guerrilha no Brasil, que surge com alguns princípios de um tipo de
guerrilha a qual iria se organizar no Brasil.