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Carta de Ottawa

No documento DAIS GONÇALVES ROCHA (páginas 85-91)

6. BASES CONCEITUAIS DO MOVIMENTO DA PROMOÇÃO

6.2. Documentos das Conferências

6.2.1. Carta de Ottawa

Na Carta de Ottawa, em 1986, explícita-se o compromisso individual e coletivo que todos devem ter para se atingir o objetivo comum de "Saúde Para Todos Até o Ano 2.000." Para o cumprimento deste objetivo: "A promoção em saúde exige a ação coordenada de todos os setores envolvidos: os governos, os setores sanitários e outros setores sociais e econômicos, as organizações filantrópicas, as autoridades locais, a indústria e os meios de comunicação."

Nessa visão, o conjunto de políticas públicas, numa ação intersetorial se constituiria em um centro de produção social da saúde. Na introdução deste documento se recordam os compromissos com a "Declaração de Alma-Ata", com as diretrizes da OMS sobre "Saúde Para Todos", assim como com as discussões da Assembléia Mundial da Saúde sobre as ações intersetoriais necessárias para o setor.

Mesmo proclamando que a promoção da saúde requer a ação coordenada de todos os setores, assinala-se a "responsabilidade maior do setor saúde." Essa Carta de Intenções ou de Compromissos é considerada como

"uma resposta às crescentes expectativas por uma nova saúde pública, movimento que vem ocorrendo em todo o mundo." Ali se apresentam os "novos temas" que deveriam atrair o foco da atenção da saúde pública: "poluição, trabalho perigoso, questões de habitação e dos assentamentos rurais. (. . .)A política de promoção da saúde tem de combinar enfoques diversos, se bem que complementares, entre os quais figuram a legislação, as medidas fiscais, o sistema tributário e as mudanças organizacionais." (MINISTÉRIO DA SAÚDE 1996)

Nesta Carta apresenta-se a idéia de novos conceitos relacionados a formas de vida saudáveis e estilos de vida, os quais prevalecem na implementação das medidas recomendadas pelo Informe Lalonde. (FERRAZ 1998). Incluíram-se como pré-requisitos essenciais à saúde: paz, habitação, educação, alimentação, renda, eco-sistema estável, recursos sustentáveis, justiça social, eqüidade.

Essa visão de saúde, resultado das condições concretas de vida, aproxima-se do conceito de saúde formalizado na VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília, também, no ano de 1986. (WESTPHAL 1998a).

Teve, portanto, um significativo impacto.

P.B. "A Carta de Ottawa, para mim, é o panfleto, a carta de princípios da promoção de saúde dos industrializados. No Brasil, não vou falar da América Latina, temos nossa "Carta da Promoção", sem esse nome, que é a VIII Conferência Nacional de Saúde e seu relatório final. Ela coloca a determinação múltipla do processo de saúde-doença; a idéia da intersetorialidade na resposta; a participação social. que ela ainda tem o modelo, quer dizer, o modelo que ela propõe é ainda um modelo do sistema de saúde. Quer dizer, não consegue construir as outras pontes ... "

Como se observa no depoimento acima, alguns entrevistados fazem uma análise da afinidade conceitual e de temporal idade (em termos do período de realização) destas conferências, fato que será discutido no tópico sobre os elementos que favoreceram a entrada da promoção da saúde no Brasil.

Os elementos ou as estratégias básicas apontadas pela Carta de Ottawa, elaboração e implementação de políticas públicas saudáveis, criação de ambientes favoráveis à saúde, ação comunitária, desenvolvimento de

habilidades e reorientação dos serviços de saúde. são considerados em termos de sua interdependência.

No depoimento abaixo, nota-se que as cinco estratégias ou campos de ação apresentados em Ottawa, transparecem na definição de promoção da saúde.

J.Y. fundamental, no conceito, considerar as políticas públicas, que são diferentes de políticas governamentais. A política pública envolve o governo e a sociedade civil organizada. Outro conceito muito importante é o que se refere à política pública

e

à política governamental. E, também, os estilos de vida. O estilo de vida tem muita influência na qualidade de vida. Agora, o conceito promoção de saúde chama atenção, também, para a saúde ambiental e meio ambiente, como um entorno importante. Em relação, também, a mudanças de atitude

e

prática. No setor saúde, a Carta de Ottawa especifica um princípio que eu sinto ser pouco trabalhado no serviço de saúde. É um conceito que a promoção de saúde tem explícito, a reorientação dos serviços de saúde. Os serviços de saúde devem ser reorientados através do conceito de promoção de saúde, o que significa como trabalhar o intersetorial, a participação social mais consciente e o conceito de qualidade de vida. É pouco trabalhada a reorientação do modelo de atenção em direção ao conceito de promoção de saúde. "

As premissas da proposta da reorientação dos serviços, no texto da Carta, fundamentam-se em três itens:

"O papel do setor saúde deve mover-se, gradativamente, no sentido da promoção da saúde, além de suas responsabilidades de prover serviços clínicos e de urgência. Os serviços de saúde precisam adotar uma postura abrangente, que perceba

e

respeite as peculiaridades culturais. (. . .) Uma

mudança de atitude e organização dos serviços de saúde para que focalizem as necessidades globais do indivíduo, como pessoa integral que é."

(MINISTÉRIO DA SAÚDE 1996)

À primeira vista, nada de novo ou que já não fizesse parte da discussão acumulada sobre as mudanças necessárias no setor. Destaca-se o que se definiu como novo, nesse documento, por postura mais abrangente do setor e que se evidencia, no depoimento acima apresentado: "Deve apoiar as necessidades individuais e comunitárias para uma vida mais saudável, abrindo canais entre o setor saúde e os setores sociais, políticos econômicos e ambientais. "

Para o cumprimento dessas atribuições, colocam-se três procedimentos de interesse para os profissionais da saúde: defesa da causa de saúde ou

"advocacy'', mediação e capacitação.

P.B. "Na promoção da saúde, o que mais me interessa, é trabalhar os determinantes da saúde de caráter mais estrutural. Eu acho que em termos das funções de "advocacy", mediação, capacitação, a promoção da saúde pode agir no plano estrutural, inclusive politicamente. Quando eu movo, não o faço só tecnicamente, me movo politicamente como pessoa, na direção da promoção da saúde."

No depoimento acima, o entrevistado declara quais os aspectos do conceito de promoção que o interessa. Evidencia-se, mais uma vez, nesse estudo, que várias outras compreensões do conceito de promoção estão no cenário da saúde pública brasileira.

Uma das entrevistadas fez comentários a respeito da reorientação de serviços em termos de sua permeabildade ao saber popular ou às práticas

populares de saúde, considerando, também. a atenção que se deve dar à diversidade cultural da população brasileira.

S.F. "Quando se fala em reorganizar o Serviço de Saúde, reorientar serviços de saúde como, por exemplo, na Carta de Ottawa, acho que nós, no Brasil, temos que repensar as práticas populares, as rezadeiras. Está começando aí, entendeu?"

D: Você estava considerando a permeabilidade do Saber Popular ...

S.F. "É, na melhor orientação do serviço, o papel do município. O médico de família que vai. . Uma coisa que me chamou a atenção, por exemplo, quando eu comecei a trabalhar no Centro de Saúde de ltapecerica [São Paulo], foi a quantidade de migrantes nordestinos e a barreira da língua, da linguagem.

Aprendi muitos termos nordestinos, muita coisa sobre ervas, utilização de ervas. Eu fazia o trabalho com as parteiras, com o treinamento de parteiras e de curandeiros no centro de saúde. Havia um curandeiro na região que era perseguido por médicos e farmacêuticos. Já tinha não sei quantos processos ...

Eu peguei esse curandeiro e fiz um trabalho, porque ele tinha uma liderança enorme junto a mulheres e a gestantes, e eu fazia um trabalho de integração.

Mas isso era naquela época, em 76. Eu era uma autoridade sanitária na época e o pessoal me respeitava."

A incorporação do saber popular em saúde, no cotidiano dos serviços, é defendida visando desenvolver uma prática de saúde, cuja lógica não prenda-se ao saber técnico. A partir do reconhecimento de que a repreprenda-sentação das pessoas sobre saúde-doença é fortemente influenciada pelos valores culturais e pela atuação de outros "cuidadores" da saúde da população são propostas algumas tentativas de integração. Busca-se, assim, melhorar a comunicação

entre profissionais e população, humanizar o atendimento e reforçar práticas populares que favoreçam a saúde.

Discutiu-se alguns aspectos da Carta de Ottawa que evidenciam porque considera-se que ela consagra uma novo marco conceitual para o termo promoção da saúde. Percebe-se que esta requer ser mais estudada, pois a sua difusão, no mundo, tem subsidiado propostas que pretendem inovar o setor saúde. HANCOCK informa sobre a influência mundial deste documento(1998):

"O resultado chave da I Conferência Internacional da Promoção em Saúde foi a adoção da Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde, traduzida para mais de 50 línguas e que se tomou um guia para a promoção em saúde ao redor do mundo."

No documento DAIS GONÇALVES ROCHA (páginas 85-91)