4.3 OS OBJETOS DE ANÁLISE
4.3.1 Apresentando Veja e CartaCapital
4.3.1.2 CartaCapital
A revista CartaCapital, por sua vez, foi Fundada por Mino Carta (que, curiosamente, também participou da fundação das revistas Veja e Istoé) em 1994, tendo início como uma publicação mensal, passando a ser semanal apenas em agosto de 2001. Seu posicionamento é apresentado de forma clara em texto apropriadamente chamado de Manifesto. O texto afirma que
[...] o jornalismo vigia a fronteira entre a civilização e a barbárie. Fiscaliza o poder em todas as suas dimensões. Persegue incansavelmente a verdade factual. Respeita a inteligência de quem lê, ouve ou assiste. Está a serviço da democracia e da diversidade de opinião, contra a escuridão do autoritarismo do pensamento único, da ignorância e da brutalidade. CartaCapital pratica jornalismo em sua essência, crítico e transparente, desde a sua fundação, em 1994. Pois não há esperança de sobrevivência humana sem homens e mulheres dispostos a dizer o que acontece, e o que acontece porque é. 31
Em um texto de apresentação utilizado em diversos meios - como, por exemplo, no anúncio de seu aplicativo32 -, a revista se apresenta da seguinte forma:Alternativa ao
pensamento único da imprensa brasileira, CartaCapital, publicada pela Editora Confiança, nasceu calcada no tripé do bom jornalismo baseado na fidelidade à verdade factual, no exercício do espírito crítico e na fiscalização do poder onde quer que se manifeste.
Em termos de circulação, CartaCapital ocupa apenas a 18a posição no ranking nacional, com uma tiragem de pouco mais de 29,5 mil exemplares semanais. Para fins desta análise, a distância entre as duas publicações no ranking das revistas mais vendidas do país é menos importante do que o posicionamento que cada uma apresenta. Como descrito acima, Carta se coloca como “alternativa ao pensamento único da imprensa brasileira”, presumindo uma homogeneidade ideológica da qual pretende se afastar.
A editoria dedicada à cultura, em Carta, é composta por duas grandes seções - Plural e Bravo! -, embora não existam fronteiras bem definidas sobre esta escolha editorial: tanto Plural quanto Bravo! têm os mesmos autores e temas, o que possibilitou a análise em conjunto. Semelhante ao que ocorre em Veja, as páginas finais de cada editoria de cultura se dedicam a recomendações curtas de produtos e eventos.
Há, entretanto, uma diferença: a página que fecha a editoria - que, em Veja, é ocupada por uma coluna política - não possui formato fixo, transitando entre textos de maior extensão (que, neste caso, foram utilizados nesta análise), recomendações (descartadas pelos mesmos motivos apresentados em Veja) ou resenhas de dois ou mais produtos que têm um fio condutor temático, como, por exemplo, os discos The thread that keeps us, da banda Calexico, e Camila, de Camila Cabello, que foram agrupados no texto Canções acima do muro, tendo a musicalidade mexicana como ponto em comum. Este formato, que predominou nos meses iniciais de 2018, foi incluído na análise. Nos meses finais da amostra, Carta abandonou progressivamente este tipo de texto. Portanto, em Carta, foram utilizados todos os textos da parte inicial da seção de Cultura. Mas, enquanto em Veja, a parte final da editoria foi excluída em todo o período, devido à sua constância de formato, em Carta isso nem sempre ocorreu, variando de acordo com o formato adotado em cada edição.
O distanciamento editorial entre Veja e CartaCapital já foi objeto de análise, por exemplo, em temas como privatizações (BONONE, 2013), caso mensalão (BRAZ, 2015), corrupção (GOMES, 2016) e eleições presidenciais (FARO, 2014; IWANIKOW, 2013;
32 Disponível em:
https://play.google.com/store/apps/details?id=air.com.editoraconfiancarevistaCartaCapital&hl=pt_BR Acesso em: 7 mar. 2018.
SILVA, 2016). Em todos estes casos, as conclusões dos estudos apontaram para percepções distintas dos veículos sobre os temas em questão. Ou seja, academicamente há uma percepção de diferenças bem demarcadas em temas pertinentes, principalmente, a acontecimentos políticos.
5 COLETA DE DADOS: RECORTE, AMOSTRAGEM E DETALHAMENTO
O delineamento da amostra tem como objetivo recortar períodos suficientemente representativos do universo que se pretende observar. Ao fragmentar o quadro em elementos que compõem um pacote interpretativo, deixamos de avaliar um único elemento abstrato - o frame - para observar parcelas mais objetivas deste. A questão qualitativa, entretanto, segue preponderante na análise.
Como já apresentado nesta dissertação, o enquadramento enquanto metodologia é visto com maior frequência em trabalhos que têm determinado episódio (impeachment, eleições) como objeto de análise. São temas controversos, nos quais é possível identificar os ciclos de atenção. No caso da cultura como aqui observada, estes elementos não se fazem presentes: não há uma questão controversa, nem um acontecimento específico.
O corpus foi recortado buscando um equilíbrio entre representatividade e exequibilidade. Inicialmente foi cogitada a observância de um ano - 2017 ou 2018 -, mas, dado o caráter qualitativo da análise, isto se mostrou inviável já no momento das coletas- piloto. Desta forma, definiu-se que o primeiro semestre de 2018 equacionaria um tamanho representativo de amostra com a viabilidade temporal necessária para a execução do trabalho.
No período analisado, cada revista apresentou 26 edições. Veja disponibiliza seu acervo na íntegra, gratuitamente. Carta, por sua vez, oferece seus conteúdos de edições anteriores mediante o plano Sócio CartaCapital. A assinatura do plano, entretanto, não se mostrou frutífera para esta análise: diferente do anunciado no site da Editora Confiança, o plano não dá, de fato, acesso ao acervo. A primeira solução, então, foi adquirir a versão digital de cada exemplar. Mas isto também não resolveu o problema de acesso ao material, pois, embora o conteúdo seja integralmente disponibilizado, são feitas adaptações para o meio digital, como a retirada da paginação, a inserção de hyperlinks e alterações na diagramação. Este formato de certa forma híbrido - meio impresso, meio digital - dificultou a equivalência entre os veículos. A solução, portanto, foi adquirir os exemplares físicos de CartaCapital.