Bem-estar-animal – uma questão veterinária! 1. O interesse suscitado pelo tema do texto editado no Suplemento (nº 122, Abr. Jun. 2003) da Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias (Vol. XCVIII, nº 546, p. 51-100), na rubrica “Cartas ao editor”, sob o título “Direitos dos animais – uma questão jurídica?”, aliado ao conjunto de questões afloradas, motivam as presentes considerações; mesmo correndo o risco de poderem ser consideradas polémicas, subjaz a intenção de contribuir, ainda que de forma singela, para a refle-xão que o referido texto sugere.
Apresentado sob a forma de uma acta ou relatório do colóquio referido, que teve lugar entre 13 e 14 de Maio, do corrente ano, na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, reunião a que infelizmente não assisti, a missiva deixa em aberto algumas interroga-ções e aborda um conjunto de conceitos (muito embora não expresse de forma clara a opinião da sua autora), só por si suficientes para provocar e prolongar a refle-xão sobre o tema.
2. Parece pois, mais do que justificável, clarificar a priori, alguns aspectos e conceitos subjacentes na apresentação a começar pela designação de “animais não-humanos”. Se sob o ponto de vista estritamente biológico, a inclusão dos humanos (homo sapiens sapiens) no “reino animal”, não sugere qualquer tipo de objecção, não é menos verdade que, quer sob o ponto de vista moral e civilizacional, quer sob o ponto de vista do psicológico, emocional e cognitivo, a dis-tinção entre animais e humanos estaria mais do que justificada. Mesmo sob o ponto de vista da filosofia do Direito, a qualidade de tudo o que é jurídico, diria respeito apenas às coisas da conduta humana: apenas o Homem, único detentor de espírito, existencial ou transcendental, poderá criar e vivenciar aquela quali-dade.
Ora a designação de “animais não-humanos”, parece querer confundir ou pelo menos tornar difusa aquela distinção, ao aliar as duas designações em oposição; tal circunstância é inaceitável, sendo inclusivamente, susceptível de criar dificuldades, justamente junto dos principais destinatários da regulamentação sobre “Pro-tecção dos animais”, fruto de uma percepção distorcida que possam vir a ter os fundamentos daquela legisla-ção, perdendo-se, desse modo, a capacidade de suscitar a sua motivação e empenho.
A designação de “animal” é aliás frequentemente utilizada, sob o ponto de vista da semântica, como sinónimo de “não-humano”: grosseiro, irracional, rude, ignorante. Embora tal alusão resulte de um discurso
que visa desvalorizar o comportamento de certos espé-cimes humanos e não tanto da incapacidade de reco-nhecer a afectividade e inteligência de algumas espé-cies animais, torna-se, igualmente, por esse motivo, inaceitável.
Por outro lado, a designação de “animal não-humano”, mesmo que pretendendo diluir a distinção entre humanos e animais (pelas razões antes expos-tas), acaba por ter, em muitas circunstâncias, o efeito oposto, visto tratar-se de uma designação redundante: se não houvesse realmente diferença entre humanos e animais, não haveria razão para a subdivisão sugerida entre “humanos” e “não-humanos”.
Tal contradição poderia ser evidenciada pelo próprio texto, se uma das interrogações colocadas fosse refra-seada, utilizando o termo “não-humano”: “…sendo a capacidade de sofrer comum a todos os seres huma-nos, não será também que nos aproxima dos outros animais [não-humanos]?”.
Assim sendo, porque não manter a distinção na base definida: humanos e animais? Parece suficientemente razoável, tecnicamente correcta e “legitimada” pelo uso.
3. O segundo aspecto, que julgo merecer clarifi-cação, relaciona-se com os “direitos dos animais”, por não ser de todo compreensível, em que ponto da “escala de valores” se situa esse “direito”: se sim-plesmente na adopção e cumprimento de legislação de protecção dos animais (sendo essencial crer que a mesma dimana de um sentimento generalizado e de um consenso alargado da comunidade a que se dirige essa legislação) ou se, no outro extremo da escala, considerando que aos “animais” deve ser reconhecida, de alguma forma, personalidade jurídica, fruto da sua incapacidade em “reciprocar” ou por se considerar que em certas circunstâncias existe um “…prolongamento de características humanas.”.
Esta questão desperta, antes de mais, uma crítica à formulação antropomórfica, várias vezes enunciada ao longo da exposição, como argumento que sustentaria o reconhecimento dos “direitos dos animais” e, con-sequentemente o estabelecimento de legislação e san-ções adequadas: os “…estudos de capacidades cogniti-vas…” dos animais; a “…atribuição de alguns direitos aos animais perante circunstâncias que se pudessem considerar como um prolongamento de característi-cas humanas…”; “…a capacidade de sofrer comum a todos os seres humanos…”; “…atribuir direitos a todos os animais que se saiba passarem o patamar cognitivo…” ou a “…perspectiva mais próxima do estatuto da pessoa jurídica.”
O mimetismo com os Direitos consagrados aos humanos não parece, de facto, aceitável, exactamente
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por não se focalizar na questão essencial: a protecção dos animais deverá resultar exclusivamente da natureza dos seus perfis fisiológicos, cuja avaliação científica e experiência acumulada ditarão as regras relativamente às cinco componentes enunciadas: fome e sede, con-forto, dor, comportamento natural, medo e stress.
Por outras palavras se dirá que, qualquer que seja a expressão jurídica, ou melhor, legal, dos “direitos dos animais”, nunca a mesma poderá decorrer por compa-ração, mesmo que absurda, com outro tipo de legisla-ção, mas exclusivamente estatuindo um conjunto de regras (garantidas por meio de uma acção coercitiva do Estado), que sejam o reflexo exacto da ciência e da experiência, quanto às exigências fisiológicas dos animais.
Quanto a este aspecto, a expressão “direitos dos animais” não poderá ser reconhecida como alusiva à natureza intrínseca dos animais, também aqui deverá ser obviado o paralelismo com os “Direitos Humanos”.
Ao contrário, e como referi, qualquer legislação sobre a protecção dos animais, deverá derivar exclusi-vamente das cinco componentes antes referidas, enqua-drando-se em outras áreas do Direito, nos domínios da Saúde Animal, da Higiene Pública Veterinária, do Melhoramento Animal, etc. parecendo portanto mais sensato, falar de Direito Veterinário, identificando-se os animais em quanto coisa jurídica, como um recurso da Humanidade.
Constituindo-se assim, como um ramo do Direito, resultante da diversidade e evolução da vida social e portanto mais coerente, eficiente e eficaz quanto à sua aplicação, o enquadramento das diferentes disposições legais num Código Veterinário, está aliás plasmado no edifício legislativo comunitário, que incluí toda a regu-lamentação em apreço sob a designação de “legislação veterinária e zootécnica”.
Julgo que a designação “direitos dos animais” deverá ser obviada, a favor da legislação, de que a protecção dos animais constituiria um importante pilar, geradora de obrigações jurídicas aos humanos, particularmente aos donos e detentores dos animais (cuja responsa-bilidade deriva da sua personalidade jurídica), mas também às entidades e pessoas (igualmente detento-res de personalidade jurídica), que de algum modo interferem no cumprimento daquela legislação, a cujo conjunto deverá ser atribuída a designação de Direito Veterinário ou de Código Veterinário se assumir esse modelo.
4. O problema anterior coloca, justamente, um outro, estritamente relacionado com a filosofia do Direito: o de saber se os animais poderiam ser detentores de qualidade jurídica. Não detendo qualquer competência na área do Direito, parece-me, ainda assim, que aquela qualidade apenas poderá ser atribuída às coisas de conduta humana, sendo que nestas circunstâncias os animais constituiriam o objecto, o recurso, o bem, con-substanciando um determinado Direito.
Será bom registar que a protecção dos animais, não
merece, quer sob o ponto de vista ético, quer sob o ponto de vista religioso, quer ainda sob o ponto de vista dos costumes, uma unanimidade de opiniões; não existe tão-pouco um consenso social generalizado, das regras a cumprir, pelo que os fundamentos das mesmas não poderão em qualquer circunstância ultrapassar os limites daquelas que forem as referências de natureza fisiológica e experiência acumulada.
É nesta perspectiva que me parece deva ser man-tida pela profissão veterinária uma posição de fiel da balança, não assente em costumes, dogmas ou crenças, resultando na clarificação legal de um conjunto de circunstâncias de que são exemplo: o confinamento de animais de produção, o transporte de animais, a occi-são ou abate, o abate religioso, a competição despor-tiva, o espectáculo envolvendo animais, a caça, etc.
5. Para finalizar e repescando algumas das expres-sões utilizadas em referência aos animais: “estatuto moral”; “direitos dos animais”; “estatuto jurídico”; “protecção jurídica”; “sujeito jurídico” e tendo em conta a interrogação que o título da carta ao editor encerra, parece-me óbvio estarmos perante uma ques-tão veterinária.
Miguel Ângelo Apartado 78 5374 - 909 MIRANDELA [email protected]
Notas sobre publicações
O Diamante
Revista editada pela Associação do Pessoal da Diamang
A história começa em Angola em 1907, quando foi encontrado o primeiro diamante, no então Congo Belga do grande protector dos nativos Rei Leopoldo dos belgas, o qual, como se sabe não se poupou a esforços para o desenvolvimento da extensa concessão que lhe coubera na partilha do continente africano, na Conferência de Berlim, tudo realizado a bem da “civilização”, evidentemente. Essa descoberta deve ter feito nascer a ideia de que onde existia um, existiriam muitos mais. Para dar continuidade às prospecções foi então criada uma empresa denominada “Societè Inter-nationale Forestiére et Miniére du Congo”, abrevia-damente designada por “Forminière”. Ao seu serviço ficaram os dois prospectores americanos chamados Jhonson e Mac Vey que já operavam na área e que, em 1912, na margem direita do rio Chiumbe,
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traram mais sete pedras, concluindo portanto que as jazidas descobertas no Congo tinham continuidade em território angolano. Isso obrigou à formação de uma outra sociedade associada da belga, com algum capital português, que tinha nos seus objectivos a prospecção das jazidas de diamantes presumivelmente existentes em Angola e que se chamou “Companhia de Pesquisas Mineiras de Angola” – a PEMA, em 4 de Setembro de 1912, depois substituída pela constituição da “Compa-nhia de Diamantes de Angola” – a “Diamang” em 16 de Outubro de 1917.
Assim principia a história intitulada “Pioneiros” que nos conta o nosso colega, amigo e condiscípulo Victor d’Albuquerque Matos, a abrir uma interessantíssima publicação intitulada “O Diamante” editada pela “Associação do Pessoal da Diamang” a propósito do XXI encontro de confraternização e convívio dos ex-empregados da Companhia e seus familiares, realizado em 14 de junho último, em Manique do Intendente.
Direi, antes de mais, que essa publicação de 82 pági-nas, com formato de “revista tipo A4”, tem excelente e cuidada apresentação gráfica, com numerosas reprodu-ções fotográficas, quase todas inéditas, não pode deixar de interessar a todos os que se interessem pela História de Angola. A sua tiragem foi limitada e julgo que não esteve, nem está à venda. Pelo menos não a encontrei nas livrarias de Lisboa e o exemplar que possuo foi-me oferecido pelo acima citado amigo e colega. Também não encontrei qualquer referência a preço, ou director, presumindo tratar-se de publicação avulso, não perió-dica, portanto. Para confirmar essa ideia é indicado apenas como seu coordenador o Dr. Bernardo José Ferreira Reis, que foi o último administrador da Dia-mang residente no Dundo, o qual também descreve o último arrear da bandeira portuguesa, feito ao pôr-do-sol no dia 10 de Novembro de 1975, frente à sede da Direcção Geral da Companhia na Praça Henrique de Carvalho, com todo o cerimonial e guarda de honra prestada pelos “cipais” ou “capitas” da policia mineira com bombos, fanfarra e bandeiras, como sucedia todos os domingos e feriados.
A independência de Angola seria declarada no dia seguinte, 11 de Novembro, por cada um dos três movi-mentos que pretendiam governar o novo país, incapa-zes de se entenderem em conjunto, respectivamente, em Luanda, no Huambo e no Ambriz.
Essa publicação é, uma evocação a quantos trabalha-ram na Diamang, abordando factos, situações, aconte-cimentos gerais vividos, mas também homenageando alguns elementos de uma pequenina comunidade perdida no nordeste de Angola que, pelo seu trabalho continuam na lembrança dos vivos e refiro: o médico Dr. João da Rocha Afonso, que durante 15 anos foi o Director dos Serviços de Saúde da Diamang, prestando “incomensurável contribuição na tentativa de solu-cionar três magnas questões da Lunda: a assistência materno-infantil e o combate às graves endemias da lepra e da tuberculose”, na área dos concelhos de
Por-tugália, Cambulo e Verissimo Sarmento, corresponden-tes a 45 483 Km2, qualquer coisa como, aproximada-mente, metade da superfície de Portugal metropolitano, realçando a obra realizada e o grande Hospital que sob sua orientação se construiu no Savacula, para a luta anti-tuberculose, assinado julgo, por quem o substituiu o Dr. José Henrique Santos David; ao Doutor Antó-nio Barros Machado, neto de Bernardino Machado, o cientista, Doutor Honoris causa pela Universidade do Porto, criador do Laboratório de Investigações Bio-lógicas do Dundo e biólogo especialista de renome internacional, em insectos, aranhas, mamíferos, des-crevendo novos géneros e espécies e seus comporta-mentos, enriquecendo os conhecimentos sobre a fauna angolana e obrigando a que as “Publicações Culturais da Diamang” passassem a ser de consulta obrigatória por especialistas de todo o mundo, sem esquecer os seus originais trabalhos sobre a biologia da Glossina ou tsé-tsé (a mosca transmissora da doença do sono) assinados pelo Doutor Eduardo Luna de Carvalho e pelo seu filho David; ao Dr. David Bernardino, assassi-nado pela UNITA, quando saía do Centro de Saúde que construíra com as suas próprias economias no bairro de Cacilhas na sua cidade do Huambo onde nascera, publicando o discurso do Doutor Barros Machado na homenagem prestada à sua memória no Teatro Villa-ret, em Lisboa, focando as suas diversas facetas de médico, de melómano, de escritor, de actor, de poeta e jornalista “um elo de ligação entre as culturas dos povos angolano e português”, “os mandantes dos seus executores, destruíram com este crime um dos valores humanos mais altos do seu próprio país”, “mas o que não puderam destruir foi exemplo que o David nos deixou de toda uma vida de abnegação e de coragem, simbolicamente aniquilada no limiar do seu posto de trabalho de assistência humanitária, que se recusou a desertar, não obstante os perigos que o ameaçavam”.
E ainda outra colaboração talvez menos específica, mas de situações vividas tais como “Quando a vio-lência chega ao paraíso” (o paraíso era obviamente o Dundo) pelo Dr. Américo Botelho ou simples postais de vários autores que já não podemos referenciar, por falta de espaço.
Deixei, propositadamente para o fim a colaboração do meu amigo d’ Albuquerque Matos. A ele pertence o valioso trabalho sobre as origens e a formação da Dia-mang e dos seus Serviços Veterinários, intitulado “Pio-neiros”. Nesse trabalho mostra-nos como a Companhia cresceu rapidamente, avaliando esse desenvolvimento pelo número de engenheiros e profissões ligadas às actividades mineiras, logo seguido pelos agentes agrí-colas – boeres e ingleses – os quais representam o interesse e o esforço que a Companhia sempre dedicou à produção de bens alimentares, numa zona difícil e carenciada.
Por esse tempo a língua falada era quase exclusi-vamente a inglesa, pois a comunidade existente era dominantemente anglo-saxónica. A parte
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tiva estava entregue aos belgas.
Nesse artigo aborda a visita que o Alto Comissário, General Norton de Matos acompanhado pela esposa e a filha em 7 de Janeiro de 1922, viajando de automóvel , realiza à Lunda. O General mostrou-se bem impres-sionado com o que observou, mas não deixou de regis-tar que não se falasse português, que não houvesse uma única bandeira portuguesa hasteada e que não existisse um serviço de veterinária e zootecnia, dado o desenvolvimento das manadas de gado bovino.
Assim veio a nascer o primeiro Serviço Veterinário da Diamang para o qual foi contratado o Dr. Abel Lima do Sacramento Pratas. A presença do colega Pratas na Lunda foi muito curta, pois na sequência de desenten-dimento com o “Acting Manager Engineer Retie, foi-lhe imposto o fim do contrato, nos termos do art.12, ou seja: “quando isso conviesse à Companhia, sem aviso prévio e sem justificar a sua demissão, mediante o pagamento de uma indemnização igual a três meses de ordenado”. Na mesma data foram dados por findos os contratos a mais três empregados portugueses, que se solidarizaram com o Dr. Pratas.
Quando passaram por Luanda, em 2 de Fevereiro de 1922, os portugueses demitidos apresentaram suas queixas ao General Norton de Matos e em consequên-cia dos acontecimentos, foi publicado em 20 de Feve-reiro do mesmo ano o Decreto nº 241, o qual, logo no art. 1º estipulava: “Todas as sociedades, companhias ou empresas, nacionais ou estrangeiras...” são obriga-das: “a) O empregado mais graduado, com residência na Província será sempre cidadão português; b) O administrador ou director geral “in loco” será sempre cidadão português; c) Será constituída por cidadãos portugueses metade pelo menos, quer do pessoal téc-nico, quer do pessoal de carteira e contabilidade; d) O pessoal médico e de enfermagem, será todo portu-guês”... O 20º e último artigo concedia o prazo de um ano, a contar da data de publicação do Decreto, para que lhe fosse dada execução.
Quanto ao Eng. Rettie, a direcção da Companhia considerou que a sua actuação fora precipitada e reco-mendou-lhe especial cuidado na recepção e tratamento dos empregados portugueses.
O Dr. Abel Pratas veio depois a ser contratado para os Serviços Veterinários de Angola, em 1924, sendo colocado como Director interino da Estação Zootéc-nica da Humpata, acumulando com a chefia da Repar-tição Distrital de Veterinária do Distrito da Huíla. Depois, em 1939, foi nomeado para dirigir a Reparti-ção de Pecuária da DirecReparti-ção dos Serviços de Fomento de Angola. Com a remodelação dos Serviços Adminis-trativos de Angola ocupou então o lugar de Director da Repartição Central dos Serviços de Veterinária e da Industria Animal, no qual permaneceu até aos 62 anos, quando foi promovido a Inspector Provincial e aposen-tado, por ter atingido o limite de idade. Escreve então o colega d’Albuquerque Matos: “Durante a sua longa permanência em Angola, quer na Humpata, quer à
frente dos Serviços Veterinários só voltou à Lunda, de onde fora expulso na sua juventude, trinta anos depois, em 1950, sendo recebido com a deferência devida ao seu cargo.”
O Colega Victor Matos escreve que “O contrato, impresso em papel selado com $30 que todos os empregados tinham que assinar...era mais que leonino, era diamantino!” e foi “melhorando” pela aposição de mais cláusulas e novas exigências...” E concluí: “mas ou se tinha necessidade e espirito de aventura ou se rejeitava!” e acrescenta: “Desses contrato assinei eu cinco! Mas de trinta meses, além dos prolongamen-tos...”
O que ele não diz mas eu acrescento, pois ainda me recordo de assistir à sua passagem pela estação do Caminho de Ferro de Nova Lisboa, “comandando a operação” “Arca de Noé” o comboio de gado de várias espécies, com destino à Lunda, para reforço e melho-ramento das explorações pecuárias da Diamang. De facto foi ele o sucessor do Dr. Pratas na Companhia de Diamantes de Angola. Durante 26 anos nunca os diri-gentes da Companhia entenderam necessário disporem de Serviços Veterinários próprios e recorriam ao Dele-gado de Sanidade de Pecuária de Malange.
Nunca visitei a Lunda mas sei que o trabalho reali-zado pelo colega Matos foi verdadeiramente notável. Partindo do zero, levantou as estruturas de um Ser-viço que chegou a ocupar cinco médicos veterinários, além de reestruturar em novas bases as estratégias das deslocações de bovinos para abate, que por vezes ultrapassavam as duas mil cabeças de animais adquiri-das no Sudoeste de Angola e percorriam “a pé-de-boi mais de 2000 quilómetros, como ele gosta de dizer. A História de todo esse trabalho e estudo, de um médico veterinário “pioneiro” na Lunda, numa Companhia que explorava Diamantes, mas que se preocupava também, e isso é preciso que se diga, com o bem estar dos seus empregados e das populações que habitavam as áreas concessionadas, é praticamente desconhecida. As