Fonte: Foto de Muslim, participante do evento.
125 Nestes momentos introdutórios, foram apresentados e discutidos os princípios da permacultura e sua relação
Durante a oficina, o pesquisador e permacultor Gonzalo126 destacou que os princípios da permacultura estão relacionados ao funcionamento dos sistemas naturais e que devemos lembrar que somos parte desse mesmo sistema. Durante a apresentação destes princípios, foram levantados alguns exemplos sobre como podemos aplicá-los nas diversas situações de nossas vidas:
1. Observe e interaja: Como capoeiristas, aprendemos a observar o contexto, dentro e
fora da capoeira, para sabermos como agir. Na permacultura, esse princípio ensina a observar as condições da natureza, como a direção do vento, de onde vem a água, etc., para se planejar o desenho de um terreno, por exemplo. Observar a natureza para tentar reproduzir os seus padrões e interagir, fazer acontecer.
2. Capte e armazene energia: Hoje em dia, quase ninguém faz isso, pois as pessoas
compram e usam a energia em suas casas e apartamentos. Mas este princípio nos leva a pensar em formas de captar energia em diversas formas: solar, eólica, em alimentos, água. Por exemplo, construindo um poço para captação de água da chuva. Na capoeira, aprendemos a usar o mínimo de energia necessária em um jogo de capoeira. Como diz o a cantiga: “na roda da capoeira, nunca dê seu golpe em vão”.
3. Obter rendimento: Esse princípio significa usar o que você produz para render algo
para você. Visualizar, aprender a perceber os rendimentos, não apenas em dinheiro. Por exemplo: utilizar as sementes dos alimentos que produz para plantá-los novamente; ou, como apontou Alexandre, podemos pensar na própria situação em que nos encontrávamos: “estamos convivendo, trocando conhecimentos e vamos render algo com essas ideias nos seus locais”127.
4. Pratique auto-regulação e aceite Feedback: O resultado das ações realizadas são uma
importante informação. Uma floresta se autorregula, assim como todos os sistemas vivos praticam a auto-regulação, inclusive nosso corpo (temperatura, PH, etc). Muitos dos problemas que temos atualmente são fruto da falta de auto-regulação, como o caso da superpopulação no planeta.
5. Use e valorize os recursos e serviços renováveis: Para explicar este princípio, Gonzalo
começa com a pergunta: “Quem sabe o que são recursos renováveis?”. Algumas respostas
126 Gonzalo é permacultor e artista, nascido no Chile e vive na Califórnia/EUA. É parceiro do Kilombo Tenonde,
e vem participando do evento Permangola anualmente, desde 2009, como um dos responsáveis pelas oficinas de Introdução à Permacultura, organização da programação do evento, rituais sagrados indígenas, dentre outras coisas.
foram: “água, ar, sol, madeira, material orgânico”. Este princípio diz para se colocar um pouco mais destes recursos dentro do sistema do que se tira. Por exemplo, a mandioca, pode-se tirar a raiz e plantar novamente. Alexandre fala sobre os tipos de recursos: “o melhor são os que
aumentam com o uso”. Ex.: conhecimento, inteligência; relações humanas que permitem criar
serviços renováveis; sementes. A própria capoeira é levantada como um exemplo e ainda o amor. O segundo tipo são os recursos que não se alteram com o uso, como o sol, o vento, etc. O terceiro tipo, são os que diminuem com o uso, como os materiais de construção. E o quarto tipo, o pior para ser utilizado, são os que acabam com o uso, como exemplo do petróleo. Como exemplo de serviço renovável foi levantado o serviço de adubação feito pela galinha, a minhoca, o gado, e algumas espécies que vivem na floresta.
6. Não produza desperdício: O ser-humano é a única espécie no planeta que produz lixo.
Uma forma de diminuir o desperdício, levantada como sugestão por uma participante, é dar no mínimo três funções para cada coisa. O desperdício está relacionado ao comodismo, ao querer tudo pronto, como as embalagens rápidas, etc. Poluir a água é também um exemplo de desperdício.
7. Partir dos padrões para chegar aos detalhes: Este princípio nos ensina a observar os
padrões gerais do local, como o padrão do curso d’água, padrão dos ventos, etc., para depois pensar nos detalhes de um desenho do terreno. Uma participante comenta: “hoje a cultura da velocidade, de querer tudo rápido, dificulta a observação”. Na capoeira, precisamos ter muita paciência e anos de experiência para aprender seus liames. Nesse processo de aprendizagem, começamos repetindo alguns padrões para depois entender os detalhes de cada movimento, dos toques e cantigas.
8. e 9. Integrar ao invés de segregar / Use e valorize a diversidade: Gonzalo começou
perguntando o que vemos de relação entre esses princípios e a capoeira. Foram levantados os seguintes pontos: Cada um sabe uma coisa, diferente; a riqueza da troca de conhecimentos; reconhecer o mestre que há nos outros; integrar partes do jogo. A contramestra Gege exemplificou como a diversidade de saberes no próprio Permangola, diferentemente de um evento que seja somente de capoeira, ou seja, por valorizarmos outros saberes, quem não sabe tanto de capoeira, na roda, pode ser respeitado por ter outros conhecimentos tanto quanto quem é mais experiente na capoeira, ajudando a horizontalizar relações.
10. Use soluções pequenas e lentas: Começar do pequeno para expandir, valorizar o
tempo lento necessário para se alcançar a maturidade, ao invés do imperativo da rapidez. Isso também aprendemos com a capoeira angola, trabalhando a paciência do aprendizado a longo
prazo, o tempo de cada coisa dentro da tradição, e, como diz o ditado: “só ponha o seu chapéu onde possa alcançar”.
11. Use as bordas e utilize os elementos marginais: O mangue, a beira do rio, são
exemplos de bordas ou elementos marginais que encontramos na natureza. Este princípio ensina a usar esse tipo de padrão, criando bordas ao desenhar o projeto de uso do espaço. Às vezes elas são invisíveis. Em nossa sociedade, os marginais são excluídos. Esse princípio reconhece seu valor, sua importância e riqueza, reconhecendo, por exemplo, os espaços de origem da capoeira, nas zonas marginais na sociedade. Na horta é benéfico se fazer bordas protetoras. Fazer o máximo possível de bordas. Isso é uma observação da natureza. Podemos também, com esse princípio, questionar a posição centralizadora de poderes em nossa sociedade, que causam diversos tipos de opressão, como as opressões sexistas, racistas, de classe, etc.
12. Use criativamente e responda às mudanças: Esse princípio está também bastante
relacionado à capoeira, pois diz da importância de se utilizar o improviso e a criatividade, o que é um dos elementos fundamentais em um jogo de capoeira, onde não se sabe qual serão os movimentos feitos pelo camarada e deve-se buscar responder ao inesperado de forma surpreendente. Na natureza, também não podemos controlar seus elementos e precisamos aprender a lidar com as situações adversas e utilizar criativamente os recursos que ela nos oferece.
13. O problema é a solução: Este princípio não está descrito no livro “Fundamentos da
Permacultura” (HOLMGREN, 2007) e não foi apresentado durante o Permangola de 2014, mas foi apresentado nos Permangolas de 2012 e 2013 e ficou bem marcado em minha memória, desde a primeira vez em que me deparei com ele, em uma situação, durante o Permangola, em que Gonzalo nos distribuía fichas com os princípios da permacultura durante os treinos de capoeira pela manhã, para que refletíssemos sobre eles. Em uma de nossas conversas, mestre Cobra Mansa falou sobre a relação deste princípio com a capoeira:
Sim, na prática, essa questão da permacultura, de você aprender com você mesmo, aprender com a natureza, e, uma das partes que eu gosto mais, da filosofia da permacultura que tem a ver com a capoeira é: o problema é a solução. (risos). Porque, na capoeira, toda vez que você tem um problema, é uma solução, você tem que arranjar um jeito de sair. O cara te colocou ali naquele sufoco, tá entendendo? Tem que sair daqui! Então, você como capoeirista, vai descobrir um meio de sair dali. E na capoeira angola, você tem que arrumar soluções criativas. (Mestre Cobra Mansa)128
Mestra Tisza também citou esse princípio “O problema é a solução”, ao contar que participou de uma das dinâmicas em que Gonzalo distribuiu fichas com os princípios da permacultura para serem relacionados à capoeira, durante o Permangola. Ela diz que é surpreendente como esses princípios podem ser aplicados à capoeira e contribuir com o aprendizado:
Certos ideais que temos na capoeira angola, ou objetivos de querer melhorar, ter um jogo bacana, ou estar em uma comunidade, ou como professor fazer um grupo crescer, quando você pega aqueles conceitos da permacultura e aplica, Tudo melhora. Você consegue entender uma rasteira, lidar com diferenças, com situações adversas, ao aprender, ensinar, jogar, se relacionar com as pessoas. – “quando o problema passa a ser uma possibilidade, como diz os conceitos da permacultura”. (Mestra Tisza)129