bem, pelo Espirita-Santo, visando a mesma Sabarábos-sú, uma entrada cujo cabo foi Marcos Antonio de Aze-redo Coutinho, o velho, 4.ue 'trouxe, em_ 1611, amostras de esmeraldas.
Em São Paulo, continuava na faina de buscar pra-ta no Araçoyaba, que até então e sempre apenas reve-lou possuir ferro. Curiosa, sobre tal ponto, a noticia que dava em 1612 e portanto contemporaneamente, o escrip-tor Ruy Diaz de Gusman, na sua "Argentina". O Ara-çoyaba para elle era uma montanha que se denominava
"serro de Nossa Senhora do Monte Serrate, que tem o circulo de cinco leguas, de cujas fraldas extrahem os portuguezes muito ouro de vinte e tres quilates e em·
seu cume, encontram-se muitas betas de prata; perto desse serro, d. Francisco de Sousa, cavalleiro daquella nação, fundou um povoado que continúa dedicando-se ao beneficio dessas minas de ouro e prata."
Não encontrára no· entanto o fidalgo governador nesse local os metaes nobres que tanto ambicionava. E mergulhado no isolamento dessas paragens desde ja-neiro de 1611, desamparado de toda sua antiga comitiva e de todo seu antigo fausto, veio em final a perecer, em meiados de junho, como o mais humilde e desbaratado dos seus antigos caminheiros do desconhecido.
Da melancolia e da singularidade deste fim do magnifico cortezão dos reis de Castella, nasceram a ma-neira de legendas, versões varias. Dom Antonio de Afias-co Afias-contava que morrera de desgosto ao receber a falsa noticia da morte do seu filho Antonio, colhido por
pi-BANDEIRAS E BANDEIRANTES DE S. PAULO 51 ratas argelinós, em alto mar, quando levava presentes de ouro a El-Rei.
Frei Vicente do Salvador annotava, entristecida- . mente, que perecera duma epidemia em São Paulo e tão pobre, que se não fôra a piedade dum theatino, nem uma vela teria na sua agonia.
·· E por ultimo, o governador Antonio Paes de Sande, . no final do seculo, fabulava em carta a El-Rei, que o fidalgo governador da repartição do sul se extinguira de desalento, por lhe terem os paulistas morto ao mi-neiro que enviára a Sabarábossú, portador de amostras de prata e dum roteiro, que todos foram consumidos.
V
AS BANDEIRAS DE D. LUIZ DE SOUSA HENRIQUES
O successor de d. Francisco de Sousa no governo da repartição do sul, em virtude duma autorisação régia, foi seu filho d. Luiz de Sousa Henriques, que assumiu o cargo e as prerogativas, a 12 de junho de 1611. Buscou . elle continuar a faina paterna, incentivando varias en-tradas na demanda dos metaes preciosos. Repartindo porém o seu ephemero governo entre São Paulo e o Rio de Janeiro, quasi nada poude fazer. E' assim que em fins de 1611 vemol-o naquella ultima cidade, onde a 3 de dezembro a camara lhe dava pósse, para em outu-bro de 1612 constatai-o em São Paulo, accudindo a cer-.
tos sertanistas que haviam sido castigados pela edilidade.
A 2 de março de 1613 ainda continuava nessa villa, mas em fins desse mez retornava ao Rio, onde o gover-nador-geral Gaspar de Sousa, por intermédio do seu pro-curador, Martim Corrêa de Sá, se empossava do domi- · nio da repartição do sul, a 2.4 de abril de 1613, segundo affirma frei Caetano de Sousa.
BANDEIRAS E BANDEIRANTES DE S. PAULO 53 Na capitania vicentina instituira elle os loco-tenen-tes annuaes e, no anno de sua pósse, confirmára em tal cargo a Gaspar Conquero, fidalgo da casa real, natural de Triana, piloto que fôra do navio "São Nicolau", da armada de d. Diogo Flores de Valdés. Em 1612, substi-tuira-o por Luiz de Freitas Mattoso e, antes de deixar o governo, nomeara a Francisco de Sá Soutomaior, escre-vendo nesse sentido a Gaspar de Souza, empenhando-se . para que confirmasse tal acto. Prevenia tambem ao
mes-mo governador-geral que iria a Olinda expor-lhe as ra-zões e o delegado régio, emb6ra houvesse provido a Nuno Pereira Freire para esse cargo, respondeu-lhe, em carta de 14 de agosto de 1613, assentindo, pelo que Fran-cisco de Sá Soutomaior, tomou pósse em Santos, a 10 de dezembro do mencionado anno, não obstante não estar accórde com estes dados o illustrado frei Gaspar da Madre de Deus.
Passando a jurisdicção, manifestou d. Luiz de Sousa . Henriques a falta de defesa da capitania, pois alli dei-xava apenas em São Vicente, duas fortalezas, com oito peças de artilharia de ferro coado, sem polvora e sem munições - e lamentava o abuso com que alli se pene-travam os sertões, "para se apanharem gentios e se ven-derem com.o escrayos, contra os quaes se praticavam mil insultos e deshumanidades", ap6s o que, o filho de d.
Francisco de Sousa embarcou para Pernambuco, nos ul-.
timos mezes de 1613, indo alli se fixar, pelo casamento.
Não era no entanto sincera a sue magua, ao ence-rar a questão dos selvicolas na capitania vicentina.
An-. 54 CARVAL_HO FRANCO
tes, taxavam-no de fomentador de entradas escravagis-
r
tas e as actas · da camara de São Paulo estão ahi para assegurar a veracidade de tal increpação. Obedecendo a esse movei, nascera · ao seu tempo, a luta com os je-suitas. E as suas bandeiras não foram numerosas, por- ' que não lhe sobrou o. tempo.
Valendo-nos da magnifica ''Historia Geral", de Tau-nay, podemos citar as de Pedro Vaz de Barros e de Sebastião Preto, ao Guayrá; as de Diogo Fernandes, aos · pés largos e Garcia Rodrigues Velho, aos bilreiros. A Nuno Pereira e Francisco Magalhães, autorisára uma en-trada aos Patos - e a Diogo de Quadros, consentiu uma jornada para rumo que não ficou registado.
Ha ainda a considerar uma bandeira, na qual fi-gurava Pedro Domingues, o moço, e revelada por urn documento publicado pelo padre Serafim Leite, mas . que si formos tirar illações, seria a mesma de Garcia Ro-drigues Velho, realisada contra os bilreiros ou cayapós, entre 1612 e 1613.
Colloca ·Pedro Taques no rói das . bandeiras de d.
Luiz de Sousa Henriques, a de Antonio Pedroso de Alva-renga, realisada muito posteriormente, em 1615. Accen-túa que o movei era a descoberta de minas. E conta que Alvarenga, "formando uma grande tropa á sua custa, com ella penetrou distante de São Paulo mais de trezen-tas legues e se achou em 1616 postado no centro do ser-tão do grande rio Paraupava, ao norte da capitania que é hoje de Goyazes, e encaminha o curso de suas aguas a
·sepultai-as no caudaloso rio do Maranhão."
BANDEIRAS E BANDEIRANTES DE S. PAULO 55 Estivemos verificando que a unica fonte desta as-. serção de Pedro Taques foi o inventario de Pedro de
Araujo, cunhado de Antonio Pedroso de Alvarenga e fallecido no mencionado sertão do Paraupava, topony-mico esse que foi, por sua vez, a exclusiva base para a exegese do roteiro dado. Revimos tambem com cuidado, obedecendo a certas duvidas, os inventarios de Francis-·
co de Almeida, Pedro Sardinha e Martim do Prado, pra-ças todas que figuraram nas diligencias, não só de Alva-renga, como do capitão-mór Lazaro da Costa.
Tal leiturl!l no!! conduziu á constatação de que tan-to o capitão-mór Lazaro ·da Costa, como Antan-tonio Pedro-so de Alvarenga, que todos os tratadistas dão como che-fes de duas bandeiras distinctas, haviam sahido de São Paulo ao mesmo tempo, isto é, pouco depois de 13 de
· , julho de 1615. Além disso, encontramos no inventario de Francisco de Almeida, igualmente cunhado de Anto-nio Pedroso de Alvarenga e que falleceu no mesmo ser-tão do Paraupava, no ultimo dia de abril de 1616, acos-tada pelo escrivão Simão Borges Cerqueira, a seguinte declaração, que foi escripta nas vesperas da partida:
"Digo eu, Francisco de Almeida, morador nesta villa, que devo ao senhor Aleixo Jorge, nove reales em dinhei-ro, os quaes lhe pagarei trazendo-nos Nosso Senhor desta viagem que embóra vamos em companhia de Lazaro da Costa, todas as vezes que m'os pedir e por verdade me assignei aqui hoje, doze de julho de seiscentos e quinze annos. Francisco de Almeida."
56 CARVALHO FRANCO
E accrescendo que no testamento de Pedro de Arau- . jo, escripto no mesmo sertão do Paraupava, a 25 de abril de 1616, ficou assignalado que a bandeira passára antes pelo sitio denominado "aldeia dos gualachos", logicamen-te reconstituimos o seguinlogicamen-te:
Pouco depois de 13 de julho de 1615, o capitão-mór Lazaro da Costa, chefiando uma grande bandeira em que ia, talvez como immediato, Antonio Pedroso de Alvarenga, sahiu de São Paulo e, em dezembro des-se mesmo anno, como des-se vê do inventario de Pedro Sar-dinha, attingia o denominado "sertão dos carijós". Dahi, por qualquer circumstancia, com parte da comitiva, o capitão-mór retornou a São Paulo, onde chegou em maio de 1616.
Antonio Pedroso de Alvarenga proseguio com o restante da tropa, passando pela "aldeia dos gualachos"
e attingindo, em abril de 1616, o chamado "sertão do Paraupava". Ahi ainda ·permanecia em dezembro des-. se mesmo anno, tendo, porém, entendimento relativa-mente facil com a villa de São Paulo, pois havendo Pe-dro de Araujo fallecido a 29 de dezembro de 1616, e não de 1617, como vem sendo escripto por alguns autores, já em 18 de maio de 1617 se tinha aviso em povoado, pois é essa a data em que foi iniciado ahi .o seu inven-tario.
Que desse sertão do Paraupava se vinha com segu-rança e facilidade a São Paulo, demonstra-o o seguinte
" · termo .do inventario de Pedro de Araujo, lavrado no re-ferido sertão: "Digo eu Antonio Pedroso, curador deste
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· inventario, que neste inventario comprou Domingos Mar-ques Requeixo quantia de tres mil e trezentos reis dos quaes foi fiador Ascenso Luiz Grou, e porque 6ra se ia para São Paulo, lhe ( faltam palavras) e por assim pas-. sar na verdade nos assignados aqui, hoje quatro de abril
de 1617 annos. Antonio Pedroso de Alvarenga - Do-mingos Marques_ Requeixo."
As praças da bandeira abandonavam desse modo o sertão do Paraupava, vindo a São Paulo. E aos poucos foram retornando até que por ultimo regressou Antonio · Pedroso Alvarenga, achando-se na villa paulista em mar-. ço de 1618mar-. Chrysostomo Alvares, componente dessa
entrada, faz declaração expressa de ter permanecido no sertão durante dous annos ou pouco mais.
Na toponymia bandeirante é indiséutivel a existen-cia de mais de um lugar com a designação de Paraupava.
Num delles andou o fundidor Domingos Rodrigues, apre-sando indios da nação "guoaya", o que faz suppôr fôsse em Goyaz. A acta de 1 de julho de 1590, referindo-se a um assalto de indigenas á aldeia dos Pinheiros, pedia ao capitão-mór que providenciasse fazendo-lhes logo guer-.
ra, "antes de vir gente de Paraupava e de outras partes, - em ajuda dos ditos índios topynaquis''. Tal paragem não
devia portanto ser muito distante de São Paulo.
Concluir assim por um s6 sertão denominado Parau-. pava, e que elle demorava sempre ao norte do paiz, na·
divisão do Maranhão com o Pará, parece-nos um com-pleto engano. E' verdade que as entradas para busca de metaes preciosos tinham o caracter de verdadeiras