As rezas feitas na oga guasu (casa grande, segundo a tradução literal para o português, ou casa de rezas, como também a chamam) podem dar lugar a reuniões políticas.
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Forma como são chamados os imigrantes de europeus, estes que predominam na ocupação das áreas rurais da região. Nas imediações da área indígenas de Oco‟y estes colonos são principalmente descendentes de alemães e, na sua grande maioria, provenientes da área onde foi fundado, em 1939, o Parque Nacional do Iguaçu. Eles foram transferidos para esta região através do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA – em um processo que foi conflituoso desde o seu início, já que, como veremos, estes produtores rurais formam transferidos num primeiro momento para a área indígena de Jacutinga (que ficava no município de Foz do Iguaçu e que foi alagada) e, depois, tanto os indígenas como os agricultores que estavam na área hoje alagada de Jacutinga, foram transferidos para lotes agrícolas na região entre as vilas de Santa Rosa e Santa Cruz de Oco‟y, em São Miguel do Iguaçu.
Isto, se o cacique ou o vice-cacique estiverem na oga guasu e se eles tomarem a palavra para falar dos problemas da comunidade, da necessidade de se reunirem para se fortalecerem enquanto grupo e da terra que precisam para viver.
Logo após o primeiro acesso à aldeia, do lado direito da estrada de chão de quem vai em direção à vila de Santa Cruz30 e do lado esquerdo de quem entra por este acesso, está a casa do cacique. No começo de 2008 a UH Itaipu construiu no pátio de sua casa um barracão com cerca de 20 metros de comprimento, onde são realizadas reuniões políticas e onde, a partir de maio de 2008, foi instalada uma escola indígena de 5ª. a 8ª. séries. A instalação desta escola era uma antiga reivindicação das lideranças políticas desta área indígena. Em frente a este primeiro acesso, do lado esquerdo da estrada principal, localiza- se a casa de um dos oporaívas da área,31 nome na língua Guarani para o que eles chamam também de pajé, xamã e rezador.32 Esta casa é o centro de referência de várias casas de parentes, incluindo a do cacique, que é seu sobrinho. Juntas elas formam o agrupamento da maior família-extensa de Oco‟y: são 12 casas de famílias-nucleares (pais, filhos e agregados) relacionadas por alguma relação de parentesco entre si e todas com alguma conexão de parentesco (de afinidade ou descendência) com o casal de anciãos (o oporaíva Gregório e sua esposa Maria), entre filhos e filhas, netos e netas, sobrinhos e sobrinhas. Entrando por este primeiro acesso à aldeia, depois de passar pela casa do cacique à esquerda, várias casas de outras famílias indígenas estão dispostas deste mesmo lado. O lado direito é todo ocupado por uma fazenda de plantação de grande escala (soja, trigo e milho). Os Ava-Guarani afirmam que a proximidade desta e da outra fazenda que margeia o outro extremo da área indígena de Oco‟y tem causado sérios problemas para eles. Isto, tanto porque os fazendeiros avançaram com suas plantações para dentro da terra indígena, como também porque o agrotóxico que usam contamina o ar e o lago que está no interior da área indígena, causando doenças nas pessoas e mortes de peixes.
30
Isto para quem vem do centro do município de São Miguel do Iguaçu pela PR 497 em direção ao município de Itaipulândia, entrando a esquerda em direção à Vila de Santa Rosa e seguindo a estrada de chão em direção à vila de Santa Cruz.
31
Este oporaíva, que se chama Gregório, em maio de 2008 foi para um dos acampamentos feitos pelos Ava- Guarani como forma de reivindicação por mais terra (como será detalhado no capítulo dois), mas deixou os parentes que compõem a sua família-extensa em Oco‟y.
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Com a ressalva de que os anciãos que rezam para os seus parentes, no interior de suas famílias-extensas, também são chamados de rezadores.
Seguindo esta primeira entrada encontra-se um barracão onde são realizadas algumas das maiores reuniões da comunidade e onde toda terça-feira a Pastoral da Criança do Município de São Miguel do Iguaçu, juntamente com o Programa do Voluntariado do Paraná (PROVOPAR), a Secretaria Municipal de Ação Social e com a ajuda da Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, distribuem sopa para as crianças e mulheres da área indígena. Neste dia as enfermeiras do posto de saúde pesam e medem as crianças da área para acompanhar o seu desenvolvimento e evitar a desnutrição infantil, a qual, segundo elas, a sopa, mesmo distribuída apenas uma vez por semana, tem, consideravelmente, contribuído para diminuir. Seguindo ainda por esta estrada chega-se em um lugar que, em temos de contato com o exterior, é central para a aldeia, pois ali está o escritório do Posto da Fundação Nacional do Índio (Funai), o Posto de Saúde da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e a Escola Indígena Ava-Guarani de Oco‟y de 1ª a 4ª. séries. Neste espaço circulam os funcionários que trabalham naquelas instituições, os Ava-Guarani que passam por ali para visitar algum parente ou ir buscar a casa de rezas e o auxílio (ou o conforto) de algum oporaíva, as crianças que freqüentam a escola, os pais destas quando têm que resolver algum problema escolar de seus filhos ou participar de alguma reunião da escola, as pessoas que buscam atendimento médico no Posto de Saúde e os que procuram algum auxílio no posto da Fundação Nacional do Índio /Funai - como encaminhamento de documentos de identidade ou de aposentadoria e passagens para participar em alguma reunião em outra área indígena. Quem chega neste centro logo encontra o escritório da Funai à direita. Ele não está sempre aberto porque o chefe do posto, Imélio, que não é um índio33 e trabalha ali desde o final da década de 1990, também é responsável pela área indígena Tekohá Anhetéte34 (que fica no município de Diamante do Oeste, a mais ou menos 70 km de Oco‟y), dividindo seu tempo entre estas duas áreas.35
33
Durante o meu trabalho de campo de mestrado, em janeiro de 2003, na área indígena de Caarapó (que abrigava, neste período, cerca 3000 indígenas, na sua maioria Kaiowá, mas também cerca de 200 Nhandéva, localizada no sul do Mato Grosso do Sul), constatei que o cargo de chefe do Posto da Funai é ocupado por um indígena, o qual é uma liderança política reconhecida em Caarapó.
34
Formada com as famílias que saíram da área indígena de Oco‟y em 1997.
35
O chefe do posto da Funai anterior a Imélio se chamava Jorge Tavares e, segundo me contaram, destacava- se por saber falar o guarani e ter um relacionamento pacífico com o pessoal do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que naquele período freqüentava a área indigna, o que foi fundamental para a articulação que resultou na aquisição do Tekohá Anhetéte em 1997. Antes deste, Miguel Gonçalves cuidava do posto. Este assumiu na década de 90 e, segundo a enfermeira que trabalha há mais tempo em Oco‟y, expulsou as