David Harvey, em seu livro Cidades Rebeldes - do Direito à cidade à Revolução
produção capitalista, portanto, um fenômeno moderno. Na busca por mais-valia, a classe capitalista produz um excedente de mercadorias que precisa ser vendido a fim de completar o ciclo econômico. Em alusão ao método marxista, explica-se a questão da moradia com referência nas relações sociais construídas no capitalismo, não sendo possível compreender o primeiro sem o segundo, pois “o capital é a potência econômica da sociedade burguesa que domina tudo” (MARX,1983, p. 267). Nas palavras de Villaça, (1986) a transformação da habitação em “casa própria” é uma necessidade histórica do capitalismo. (VILLAÇA, 1986, p.19.)
Dentro da lógica do capitalismo, se todo mundo precisa de um produto, cabe ao mercado fixar o seu preço e seu respectivo padrão de qualidade, dentro da disponibilidade de produção e, sendo a habitação uma mercadoria, ela está sujeita a essa regulação. Assim, em um cenário capitalista, eis o problema: nem todos os homens têm como comprar tal mercadoria, principalmente aqueles que detém baixo poder aquisitivo. Com o capitalismo, esses meios de produção passam a ser propriedade do capitalista e ao trabalhador cabe a única alternativa: vender no mercado a sua força de trabalho. O trabalhador passa a ser assalariado e a força de seu trabalho passa a ser uma mercadoria. A difusão do trabalho assalariado e da forma de mercadoria que passam a assumir os produtos do trabalho, significa que a roupa, a comida, a casa, e enfim, tudo o que o trabalhador precisa para viver e se reproduzir, passa a ser comprado no mercado através do salário. Dentro da lógica produzida pelo capitalismo e com as configurações históricas dadas por esse modo de produção, o problema habitacional torna-se uma necessidade, sendo assim um bem rentável, entretanto, de alto valor aquisitivo, o que o torna um produto para poucos (VILLAÇA,1968).
A escassez precisa ser produzida e controlada na sociedade capitalista pois sem ela o mercado não funcionaria enquanto mecanismo fixador de preços. O capitalismo precisa criar permanentemente a escassez para poder haver concorrência, sem a qual ele também não sobreviveria. A escassez não precisa necessariamente ser criada entre as classes mais pobres, mas ela também é criada nessas classes, fazendo inclusive parte da manutenção do chamado “exército de reserva” e sendo um dos mecanismos de rebaixamento dos custos de reprodução da força de trabalho (VILLAÇA, 1986 p.6.).
Nesse contexto, surge o termo “necessidade habitacional” como conceito social para a demanda por moradia. Oliveira et al (2009) referem-se, também, a esse termo como realidade da população que não tem condições financeiras para adquirir ou
mudar-se para uma residência nova do mercado formal de habitação, residindo em domicílios inadequados e/ou adensados. Entretanto, a transformação da moradia em mercadoria, independentemente da vontade do trabalhador em ter tal bem, faz com que a única solução para a segurança habitacional seja a propriedade. A casa se transformou em um bem que só é legítimo quando o título de propriedade existe. A sua aquisição, através de compra no mercado imobiliário, gera e perpetua o sistema de mais-valia na produção. Para Villaça (1986), o problema vai além da propriedade da casa: para este autor, o cerne da questão está no modelo capitalista que conseguiu instituir a propriedade privada da terra, pelo fato de ela ser divisível e apropriável em parcelas de dimensões fixas, razoavelmente delimitáveis e mediante recursos facilmente registrados. Portanto, quem tem essas grandes faixas de terra, tem o poder de transformar a propriedade privada da terra em mercadoria; essas são apontadas como soluções para o problema da habitação no capitalismo.
Ainda para Villaça (1986), o mecanismo de mercado ou a chamada “livre iniciativa”, não poderia ser o caminho para atender as necessidades habitacionais da maioria da nossa população. Para tanto, o Estado também se torna um facilitador da habitação, através da modalidade de interesse social, em que esse ator tem diferentes formas de ação. Uma delas é o subsídio, ou seja, a aplicação de recursos públicos sem a expectativa de um retorno. Os moradores das habitações construídas pelo Estado, por não terem condições de cobrir seu preço, pagariam por elas uma quantia menor que esse preço, um valor simbólico. Os recursos destinados aos subsídios são retirados de fundos tidos como perdidos, já que o retorno lucrativo não é possível, por não haver taxas de juros. Outra forma de intervenção do Estado na questão habitacional tem sido a regulamentação do mercado habitacional privado, como as faixas e taxas de juros destinadas ao Programa PMCMV. Neste caso, os empresários imobiliários são os fornecedores de moradia para a camada social de baixa renda, porém, são sujeitos às regulamentações oficiais, como os padrões construtivos e as condições de venda, sendo reguladas pelos Bancos públicos.
Contudo, para produzir a mais-valia, os capitalistas têm de produzir excedentes de produção. Isso significa que o capitalismo está eternamente produzindo e os excedentes de produção exigidos pela urbanização. A relação inversa também se aplica. O capitalismo precisa da urbanização para absorver o excedente de produção que nunca deixa de produzir. Dessa maneira, surge uma ligação íntima entre o desenvolvimento do capitalismo e a urbanização. (HARVEY, 2014, p.30.)
A habitação está inteiramente ligada ao processo de financeirização, sendo uma mercadoria, ainda que esteja no âmbito de política pública. Nessa lógica, no caso da habitação de interesse social, há a importante mediação de agências governamentais (de âmbitos federal, estadual, municipal). Mas essa mediação, na visão de Rolnik (2015), não irá assegurar uma moradia digna e adequada, para os beneficiários, que vai além da unidade habitacional. Uma moradia que compreenda um conjunto de serviços, mobilidade, e integração a cidades e bairros. A construção pela construção e o isolamento social, muitas vezes causado pelos conjuntos habitacionais construídos sem uma infraestrutura completa, não resolve o problema do déficit habitacional e das ocupações precárias no mundo, sendo, portanto, mais um desafio ao acesso democrático e menos desigual à cidade e aos serviços nela oferecidos.