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Mapa 3 – Terra Indígena Kariri-Xocó

2.2 CASAS E MUTIRÕES

Às três horas, numa madrugada fria e chuvosa, cheguei à Propriá / Sergipe, cidade fronteiriça com Porto Real do Colégio /Alagoas. São separadas pelo Rio São Francisco, mas ligadas por uma ponte que une as duas cidades, podendo a travessia ser fluvial ou terrestre, com distância de aproximadamente trinta minutos. A viagem durou pouco mais de seis horas. Ao chegar à cidade, fiquei aguardando o meu anfitrião, que foi buscar-me.

A casa que fiquei durante minha presença em campo, fica localizada em frente à casa do pajé Júlio, um senhor forte e carismático. Possui dois quartos, uma sala, uma cozinha, um banheiro, um quintal com plantações frutíferas e um tanque para a lavagem de panos, como dizem.

Os Kariri-Xocó são bastante acolhedores. Mesmo sendo tímidos, eles mostraram um grande interesse em conversar comigo. Perguntaram de onde eu era, o que estava fazendo lá, se eu estava gostando da aldeia e quando eu retornaria para a minha terra. As crianças também são bem curiosas. Logo, perguntaram meu nome e minha idade. Dentre outras coisas, me perguntaram se eu já havia tomado coalhada e disseram que eu tinha que experimentar, pois era muito gostosa e forte, boa para a saúde. Demonstraram interesse em retornar à Bahia para se apresentarem em escolas e vender artesanatos, relembrando dos lucros que conseguiram quando em viagens anteriores.

O portão na entrada da aldeia ainda relembra a antiga Fazenda Modelo. Mesmo sendo uma terra indígena, a entrada de não-índios acontece com certa frequência. Pude observar pessoas da periferia de Porto Real do Colégio, entrarem na aldeia para a venda de panelas de alumínio, vestuários, roupas de cama, mesa e banho.

Figura 1: Entrada da Aldeia Kariri-Xocó

Foto: Maiara Damasceno, 2014.

As casas são, em sua grande maioria, de alvenaria com telhados de cerâmica, algumas possuem revestimento cerâmico (azulejo) na fachada, mas a maioria é pintada. Em quase todas as casas, há televisão, geladeira, fogão a gás, no entanto, algumas mantêm a tradição do fogão à lenha. Existem aquelas que dispõem de TV com assinatura e máquina de lavar. Algumas possuem piso cerâmico enquanto que em outras o chão é de cimento.

As casas ficam sempre muito arrumadas. As mulheres mostram grande satisfação em deixar suas casas limpas, suas roupas lavadas e sua comida feita logo cedo, pois, sentar-se a porta para conversar e rir ao longo do dia, é parte de sua sociabilidade.

Cada núcleo familiar possui o seu quintal, os quais são separados por uma cerca de arame. Nos quintais, é possível encontrar ervas medicinais, mato, algumas espécies frutíferas e uma lavanderia de cimento dividida em dois compartimentos, um para esfregar e outro para enxaguar os panos. Têm quintais que são maiores que a própria extensão da casa. Geralmente, retiram o mato do quintal, ficando o chão de terra batida. Presenciei uma mulher falando que seu marido precisava capinar o quintal e que se ele não o fizesse, ela mesma o capinaria. No dia seguinte, presenciei o casal limpando o quintal, enquanto ele capinava, ela juntava o lixo com uma pá e colocava-o em um carro de mão, para depois queimá-lo.

O espaço do quintal é usado para a criação de pequenos animais, para lavar e estender

panos, lavar pratos e para as crianças brincarem. Algumas mulheres aproveitam o quintal para

possível encontrar algumas. Um interlocutor me explicou que não é bom fazer o banheiro no quintal, pois, assim, não é necessário sair de casa à noite. O quintal é também um local de perigo, onde seres não-humanos podem circular, por isso tem sido dada atenção especial à construção de banheiros dentro de casa.

Não pagam água encanada, que é “puxada” diretamente do rio, por meio de uma bomba. A água não é tratada e é consumida sem fervura e sem filtragem. Até a minha primeira viagem a campo, não pagavam energia elétrica. Nesse período, quando chegava à noite, tudo estava escuro, pois as ruas não tinham luz elétrica. Após a colocação de novos postes, no mesmo período em que retornei a campo pela segunda vez, os Kariri-Xocó já haviam começado a pagar pelo uso da energia elétrica. Isso se tornou um grande problema, porque muitos deles possuem geladeiras e outros eletrodomésticos velhos que consomem ainda mais energia, chegando a ser cobrado mais de R$ 100,00 de consumo de energia elétrica por cada casa.

A coleta de lixo é precária, às vezes, é necessário ligar para a empresa responsável em recolher o lixo, que só passa um dia por semana, para que faça o recolhimento. O resultado disso é o acúmulo de lixo, o mau cheiro e mosquitos.

O fluxo de moto na região é intenso, inclusive sendo pilotadas por mulheres que geralmente carregam seus filhos na frente ou no meio quando transportam três pessoas. Também, existe o transporte de carroça, mas em número bem menor e ainda há aqueles, em número irrisório, que possuem carro. Muitos deles falam do desejo em adquirir um carro para poder deslocar-se com mais frequência ao Ouricuri, já que o caminho é longo e cansativo para os mais idosos, que, algumas vezes, na falta de moto, deslocam-se a pé.

É constante ver grupos de homens e de mulheres jogando dominó próximo às casas, o jogo pode ser apostado ou não. Os homens jogam dominó após o pôr do sol e as mulheres no início da noite. Enquanto jogam, as mulheres deixam seus filhos em casa com as avós ou levam as crianças pequenas para que as crianças maiores tomem conta. Mulheres e homens não jogam juntos e nem em locais próximos.

Com relação às pessoas mais velhas da Sementeira, elas têm se mostrado interessadas em morar mais distante da aldeia e mais próximas ao Ouricuri. Quase não tem casas nessa região, que é muito cobiçada pelos mais velhos pela sua tranquilidade. Lá, é possível ver toda a aldeia e a baixa do Rio São Francisco. Essa parte do território é rica em árvores frutíferas,

como: juá, pitanga, babão, acerola, manga, coco e cajá. Por ser uma região de muito verde, é constante a presença de aves de rapina.

De modo geral, a relação entre os Kariri-Xocó é mediada por trocas de favores seja no roçado, nas construções de casas, nas atividades domésticas e no cuidado com os recém- nascidos. A retribuição pode não acontecer na mesma ocasião, mas o “favor” que a pessoa prestou não é esquecido.

Tive a oportunidade de presenciar o acontecimento de um mutirão que começou por volta das 9h. Recebe o nome de mutirão, um conjunto de pessoas que se reúnem para realizar uma mesma atividade, principalmente, na limpa do roçado, derrubada da mata para plantações e tapagem de casas (cobrimento da casa com telha).

Na casa onde passei meus dias durante o trabalho de campo, uma parte da laje seria batida, escutei quando o meu anfitrião chamou alguns homens para ajudar no dia anterior. Chegado o dia de bater a laje, juntaram-se mais de quinze homens para ajudar e aqueles que não haviam sido convidados diziam: “- Porque não me avisaram?”. Quem já estava inserido na atividade, entregava um balde para carregar cimento aos que se aproximavam e, assim, estava formado o mutirão. Ao final do trabalho, alguns homens foram para o rio tomar banho, outros permaneceram na casa dos meus anfitriões e lá comeram.

No mutirão que descrevo, não houve cantos de rojões, mas na maioria deles os rojões estão presentes. Os Kariri-Xocó chamam de rojões, os cânticos específicos para os momentos de roçado e tapagem, mas podem ser estendidos também aos mutirões de construção de casas. Os rojões, segundo eles me disseram, são importantes porque tornam o trabalho pesado mais leve. Abaixo são registrados dois rojões, encontrados no livro de Denízia Cruz (2014, p. 49):

Meu Palmerar

Meu palmeira, meu palmerar Da vaca eu quero leite, Do leite eu quero a papa, Do coqueiro eu quero coco, Da palmeira eu quero a palma,

Meu palmeira, meu palmerar Bis,

Bis...

Eu vou, Helena

Vou m’embora, Vou m’embora, Helena,

Eu vou, Helena Tão cedo eu não venho cá,

Helena, Eu vou, Helena.

Na Sementeira, os mutirões são muitos e geralmente acontecem em roças. Aquele que ajuda também espera ser ajudado quando vier a precisar. O mutirão pode ser formado a partir de um convite, a pessoa que necessita de ajuda convida a outra para lhe ajudar na derrubada da mata para o plantio, por exemplo; ou sem o convite, devido à esperada reciprocidade, quando uma pessoa vê a outra trabalhando e resolve ajudar, até que outros se aproximam e também começam a participar, aos poucos, um grupo de pessoas está trabalhando e cantando, formou-se então um mutirão.

No Ouricuri, também são feitos mutirões para a limpeza, principalmente, após o período de permanência no ritual que acontece no mês de janeiro. O mutirão que acontece no Ouricuri é em silêncio, não há rojões e dura em média seis dias, às vezes, chega a mais de duzentas pessoas no mutirão de limpeza.