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O “Caso Aída Curi", deu ensejo ao Recurso Especial 1.335.153, sendo um marco histórico na cidade do Rio de Janeiro, mais especificadamente em Copacabana, tendo repercussão em todo o Brasil.

Pois bem, no dia 14 de julho de 1958, uma jovem de 18 anos, chamada Aída Jacob Curi, sofreu violência sexual pelos autores, Ronaldo Guilherme de Souza, Cássio Murilo Ferreira e, o porteiro do edifício do qual a jovem foi atirada, Antônio João

de Souza, para que todos pensassem que fosse um suicídio, os autores arremessaram a jovem do edifício, ocasionando assim, a sua morte (SOUZA, 2015, s p).

Ronaldo foi submetido a uma pena privativa de liberdade de oito anos e nove meses por homicídio e tentativa de estupro, Cássio foi o considerado o autor do delito, entretanto, como este era menor da época dos fatos, fora absolvido e, Antônio fora absolvido pelo crime de homicídio, entretanto, fugiu (SOUZA, 2015, s p).

Em 2008, o programa Linha Direta Justiça, do Globo Comunicações e Participações S.A. (rede Globo Ltda), transmitiram os fatos e os explorou, devido ao interesse púbico da época e por entender que a pena tivesse sido branda (SOUZA, 2015, s p).

Motivo pelo qual, os irmãos de Aída pleitearam uma ação ordinária de danos morais e materiais em face da emissora de televisão, com o argumento que o programa expos e explorou a imagem da vítima depois de vários anos do acontecimento, lembrando-os de todo o sofrimento da época (SOUZA, 2015, s p).

Entretanto, o juiz do primeiro grau (Juízo de Direito da 47ª Vara Cível da Comarca da Capital/RJ) entendeu que o direito ao esquecimento não é o caminho para salvar tudo, sendo necessário em muitas circunstâncias reviver o passado para que a geração presente e futura tomem conhecimento do caso e, assim, tomem as cautelas precisas. Diante de tal fundamentação, a ação foi julgada improcedente, tendo como argumento a proteção do direito de informação, expressão, manifestação e a liberdade de imprensa (SOUZA, 2015, s p).

Diante da Sentença Improcedente, os autores recorreram para o Superior Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o qual também negou o direito ao esquecimento com o seguinte argumento:

No caso de familiares de vítimas de crimes passados, que só querem esquecer a dor pela qual passaram em determinado momento da vida, há uma infeliz constatação: na medida em que o tempo passa e vai se adquirindo um "direito ao esquecimento", na contramão, a dor vai diminuindo, de modo que, relembrar o fato trágico da vida, a depender do tempo transcorrido, embora possa gerar desconforto, não causa o mesmo abalo de antes.

Entretanto, vale ressaltar, que a Ministra Maria Isabel Galloti, apoiou o direito ao esquecimento e, que a emissora deveria ressarcir a família de Aídi, uma vez

que expos imagem do morto, sendo que a família teria proibido a publicação de referida imagem, violando assim, o artigo 20, do Código Civil e a Súmula 403, do Superior Tribunal de Justiça. Fundamentando que:

[...] a circunstância de ser exibida a foto da vítima, morta, ensanguentada e abraçada com um dos autores, contra a vontade expressamente manifestada por esse autor, faz incidir a regra do art. 20, parte final, quando dispõe que, se for uma imagem destinada a fim comercial, ela não será exibida sem autorização.

Pois bem, os autores recorreram ao Supremo Tribunal Federal, o qual mitigou o direito ao esquecimento, proferindo o seguinte acordão:

RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVL-CONSTIUCIONAL. LIBERDADE DE IMPRENSA VS. DIREITOS DA PERSONALIDADE. LITÍGIO DE SOLUÇÃO TRANSVERSAL. COMPETÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA.

DOCUMENTÁRIO EXIBIDO EM REDE NACIONAL. LINHA DIRETA-JUSTIÇA.

HOMICÍDIO DE REPERCUSSÃO NACIONAL OCORRIDO NO ANO DE 1958.

CASO "AIDA CURI". VEICULAÇÃO, MEIO SÉCULO DEPOIS DO FATO, DO NOME E IMAGEM DA VÍTIMA. NÃO CONSENTIMENTO DOS FAMILARES.

DIREITO AO ESQUECIMENTO. ACOLHIMENTO. NÃO APLICAÇÃO NO CASO CONCRETO. RECONHECIMENTO DA HISTORICIDADE DO FATO PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. IMPOSSIBLIDADE DE DESVINCULAÇÃO DO NOME DA VÍTIMA. ADEMAIS, INEXISTÊNCIA, NO CASO CONCRETO, DE DANO MORAL INDENIZÁVEL. VIOLAÇÃO AO DIREITO DE IMAGEM.

SÚMULA N.403/STJ. NÃO INCIDÊNCIA.

[...] 3. Assim como os condenados que cumpriam pena e os absolvidos que se envolveram em processo-crime (REsp. n1.34/097/RJ), as vítimas de crimes e seus familiares têm direto ao esquecimento –se assim desejarem –,direto esse consiste em não se submeterem a desnecessárias lembranças de fatos passados que lhes causaram, por si, inesquecíveis feridas. Caso contrário, chegar-se-ia à antipática e desumana solução de reconhecer esse direto ao ofensor (que está relacionado com sua ressocialização) e retirá-lo dos ofendidos, permitindo que os canais de informação se enriqueçam mediante a indefinida exploração das desgraças privadas pelas quais passaram. 4. Não obstante isso, assim com o direito ao esquecimento do ofensor – condenado e já penalizado – deve ser ponderado pela questão da historicidade do fato narrado, assim também o direito dos ofendidos deve observar esse mesmo parâmetro. Em um crime de repercussão nacional, a vítima – por torpeza do destino – frequentemente se torna elemento indissociável do delito, circunstância que, na generalidade das vezes, inviabiliza narrativa do crime caso e pretenda omitir afigura do ofendido. 5. Com efeito, direto ao esquecimento que ora se reconhece para todos, ofensor e ofendidos, não alcança o caso dos autos, em que se reviveu, décadas depois do crime, acontecimento que entrou para o domínio público, de modo que se tornar impraticável atividade da imprensa par o desiderato de retratar o caso Aida Curi, sem Aida Curi.6. É evidente ser possível, caso a caso, a ponderação acera de como o crime tornou-se histórico, podendo julgado reconhecer que, desde sempre, o que houve foi uma exacerbada exploração midiática, e permitir novamente essa exploração significaria confirmar-se com um segundo abuso só

porque o primeiro já o ocorrera. Porém, no caso em exame, não ficou reconhecida essa artificiosidade ou o abuso antecedente na cobertura do crime, inserindo-se, portanto, nas exceções decorrentes de ampla publicidade a que podem se sujeitar alguns delitos. 8. A reportagem contra qual se insurgiam os autores foi ao ar50 (cinquenta) anos depois da morte de Aida Curi, circunstância da qual se conclui não ter havido abalo moral apto a gerar responsabilidade civil. Nesse particular, fazendo-se a indispensável ponderação de valores, o acolhimento do direto ao esquecimento, no caso, com a consequente indenização, consubstancia desproporcional corte à liberdade de imprensa, se comparado ao desconforto gerado pela lembrança.

Em mencionado acórdão do STF, o ministro decidiu que a família da vítima tem o mesmo direito de ser esquecido, assim como, o autor do crime, entretanto, neste caso, ambos não poderão ser esquecidos, por se tratar de um caso que já caiu em domínio público e, como já vimos neste mesmo trabalho, uma das limitabilidades do direito ao esquecimento é o fato ter uma importância ao público, não podendo assim, ser esquecido.

Portanto, constatou-se que o direito ao esquecimento não é absoluto, sendo limitado pelo interesse ao público e por se tratar de um marco histórico da cidade do Rio de Janeiro e, até mesmo do país. O STF fundamentou o acórdão no sentido de que, o fato ocorrido há mais de cinquenta anos atrás teve uma repercussão tão grande que tenha caído em domínio público.