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2.5 Uma análise do exercício do poder diretivo na organização empresarial

2.5.2 O caso Arthur Lundgren Tecidos S.A – Casas Pernambucanas

A segunda ação fiscal cujo relatório será aqui analisado se desenvolveu em oficinas de produção e em empresas pretensas fornecedoras de peças para a empresa líder Arthur Lundgren Tecidos S.A. – Casas Pernambucanas, grande empresa de produção e comércio de roupas. Esta ação ocorreu no período de 11 de agosto de 2010 a 31 de março de 2011 e nela foram resgatados dezesseis empregados - sendo sete homens e nove mulheres - em condições análogas às de escravo por submissão a condições degradantes de trabalho e jornadas exaustivas.

O processo produtivo é bem parecido com o que descrevemos anteriormente. Segundo o relatório de fiscalização, a gerente de produto da empresa líder declarou que, por meio de viagens ao exterior, são identificadas as tendências de moda, após o que há reuniões da equipe de estilistas da empresa para adaptação ao mercado brasileiro e que:

...após o desenvolvimento completo da coleção, os fornecedores iniciam a produção das peças, de acordo com as orientações das Casas Pernambucanas, e desenvolvem a princípio, duas peças-piloto. Essas peças são encaminhadas para dois setores diferentes, dentro da empresa Casas Pernambucanas: setor de compras e setor de qualidade. Ambos os setores devem fornecer o aval conjuntamente para que as Casas Pernambucanas determinem a fabricação em série da peça. Após a fabricação o lote é então encaminhado para o Centro de Distribuição da empresa, em Barueri, para entrega nas lojas que vão comercializá-lo. (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2011b, p. 37).

Nesse caso, ficou demonstrado também a total ingerência da empresa líder no processo produtivo das oficinas. Essa ingerência era exercida por meio das empresas intermediárias, pretensas fornecedoras de peças de roupa. Além disso, a baixa remuneração paga pela empresa líder por peça produzida, também era a causa tanto das péssimas condições de trabalho às quais os trabalhadores se encontravam submetidos, quanto das jornadas exaustivas que trabalhavam.

A jornada exaustiva imposta aos trabalhadores bolivianos está diretamente relacionada ao baixo valor pago pela Pernambucanas para cada peça costurada. Apenas com muitas horas de trabalho os trabalhadores MIGRANTES conseguiriam gerar renda suficiente para garantir as despesas com alimentação e moradia providas por cada um oficinistas,

(sic) (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2011b, p. 92).

Por isso, a conclusão da equipe de fiscalização foi no sentido de que as empresas pretensas fornecedoras, eram na verdade células de produção da empresa líder:

Tais pseudo empresas interpostas, chamadas pela autuada de fornecedoras, funcionam, na realidade, como verdadeiras células de produção da empresa PERNAMBUCANAS, todas interligadas em rede por contratos simulando prestação de serviço, mas que, na realidade, encobertam nítida relação de emprego entre todos os obreiros das empresas interpostas e a empresa autuada. o nível de dependência da rede varejista às suas "marcas próprias", é tão elevado que exige forte gestão de fornecedores (definição de peças, Qualidade, preço, logística, etc ). (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2011b, p. 97).

A empresa líder interpôs ação anulatória dos autos de infração contra si, lavrados na ação fiscal a que foi submetida por não reconhecer o vínculo de emprego com os trabalhadores encontrados em condições degradantes de trabalho e sob jornadas exaustivas. A decisão do juízo de primeiro grau entendeu que existia subordinação daqueles trabalhadores diretamente à empresa líder, pela ingerência no processo produtivo e que, em verdade, houve a utilização de empresa interposta para a obtenção de produtos para si.49

49“A autora afirma que mesmo não se considerando os vícios formais alegados, não estariam presentes os

pressupostos que autorizariam se concluir pela existência de vínculo de emprego com os trabalhadores encontrados na oficina de costura diligenciada, o que implicaria na insubsistência material de todos os autos de infração, fundados em sua existência.

No entanto, o pedido não merece procedência. Segundo a prova destes autos, a autora efetivamente não firmou contrato de trabalho direto com os trabalhadores encontrados na oficina onde eram produzidas peças de vestuário

Vemos, portanto, que nos dois casos aqui analisados, as empresas líderes formalizam os contratos referentes à produção das peças de vestuário que comercializam como se fossem contratos de fornecimento entre si e um segundo nível de empresas pretensas fornecedoras. Essas, por sua vez, por não terem estrutura produtiva suficiente para cumprir a demanda que lhes é atribuída, contratam com oficinas a produção das peças.

As oficinas, devido à baixa remuneração que recebem pela produção de cada peça, preço este definido desde a empresa líder, mantém seus empregados sob péssimas condições de trabalho e de remuneração, que, segundo a conclusão das equipes de fiscalização, configuram submissão dos trabalhadores a condições abaixo do mínimo de dignidade que deve ser dispensada ao ser humano.

Os dois pretensos contratos de fornecimento – um entre empresa líder e intermediária e outro entre esta última e a oficina – pressupõem autonomia das empresas neles envolvidas, a nova autonomia de que tanto se fala ocorrer nos processos produtivos contemporâneos. Autonomia essa que, segundo o que ficou consignado tanto nos relatórios de inspeção quanto nas sentenças judiciais em que os casos foram discutidos, não passava de aparência, pela ingerência da empresa líder durante todo o processo produtivo:

Esta “nova autonomia” é também, frequentemente, uma autonomia aparente ou fictícia: uma empresa, no quadro da sua atividade produtiva normal, põe a cargo de seus “colaboradores externos” tarefas parciais, que eles executam pessoalmente, sem meios organizativos dignos de nota, em regime de apertada vinculação às determinações da empresa. Um programa contratual extremamente constringente (cujo cumprimento muitas vezes só se compadece com a exclusividade, sem formalmente a impor) substitui o poder de direcção da entidade patronal. (RIBEIRO, 2007, p. 375).

Assim, entendemos que nos dois casos analisados, ocorre o exercício do poder diretivo do empregador de forma diferida. Porque as atividades dos trabalhadores das oficinas, ainda que fisicamente distantes, encontravam-se inseridas no contexto do processo produtivo das empresas líderes. Pela necessidade de controle inerente à busca de eficiência e de redução de custos, característica do mercado capitalista competitivo, a empresa líder somente insere alguma atividade em seu processo produtivo se puder controlá-la, o que torna inafastável o reconhecimento da relação de emprego daqueles trabalhadores com quem efetivamente controla sua atividade laboral.

por si encomendadas, mas demonstra que se utilizou de intermediação de empresa interposta para obter a produção de bens próprios, trilhando o caminho inverso da legalidade a que se refere a Súmula 331 do Colendo TST.”

Se o poder diretivo do empregador sofreu diversas modificações em sua forma de manifestação no decorrer da evolução dos processos produtivos, devemos analisar os reflexos dessa modificações sobre a subordinação como pressuposto da relação de empego, posto, que ela é uma decorrência do poder diretivo do empregador. A isso se destinará o próximo capítulo, com uma análise das concepções clássica e contemporâneas da subordinação.

CAPÍTULO 3 A SUBORDINAÇÃO EM SUAS CONCEPÇÕES CLÁSSICA E