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5 PROPOSTA DE ADENSAMENTO DO REGIME JURÍDICO DA

5.2 O CASO DO DJ

O som passa, mas não envelhece. Termina, mas não se destrói. O tempo é condição, no sentido mais forte, do seu existir, como se o som contivesse em si próprio a necessidade do tempo, de maneira que se poderia quase afirmar que o próprio existir do som é como se fosse feito de tempo.

Giovanni Piana

O início do desenvolvimento das técnicas de DJs deu-se em Kingston, na Jamaica, a partir da década de 50. Os equipamentos utilizados eram os sound systems, que são inseridos nas caminhonetes e compostos de toca-discos, amplificadores e grandes caixas de som.135.

Nesse período, os DJs eram também chamados de “selectors”, por conta da técnica de seleção e apresentação dos discos, uma vez que sua função era a reprodução das músicas finalizadas.

A partir da década de 70, com a chegada da cultura “disco”, esta prática musical ganha nova envergadura136. Além da reprodução das músicas já

135 ARALDI, Jucilene. Formação e prática musical dos DJs: um estudo multicaso em Porto

Alegre, 2004. Dissertação (Mestrado) em Educação Musical. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004, p. 19.

136 GARSON, Marcelo. Música eletrônica como expressão musical: entre a inclusão e a

finalizadas pelos DJs, os toca-discos passaram a ser utilizados como instrumento para novas criações musicais. Com o aparelho da “mixagem”, o chamado “mixer”, torna-se possível a conexão de várias músicas em um só momento, sobrepondo-as umas às outras137.

Outro legado deste período é o chamado “sampling”. Trata-se de uma maneira diferente de criar uma música, coletando-se fragmentos de uma música alheia, como uma melodia, ou uma parte dos vocais, para utilizá-la em outra composição. O resultado final traduz uma nova produção musical.

Com o advento da indústria cultural138 o papel do DJ139, ganha repercussão para além dos “clubs”. Isso porque sua atuação vai além da reprodução, ao recriar faixas musicais por meio da prática do “remix”.

Com as inovações tecnológicas e incorporações produzidas na década de 80, como já expostas na presente tese, a música eletrônica ganhou papel de grande influência nos espaços musicais.

2008, Natal. Mídia, ecologia e sociedade. Disponível em: < http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/resumos/R3-0913-1.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2014.

137 Os aparelhos utilizados pelos DJs são os discos de vinil, os mixers, “que unem os toca-

discos ou pick-up, e sampleadores, que são os equipamentos digitais que permitem o recorte, as montagens e a sobreposição de músicas que tem andamento, ritmo e tonalidades diferentes” (ARALDI, 2004, p. 20).

138 Cabe ressaltar que o termo indústria cultural, ora retratado, relaciona-se com o sentido

empregado na Convenção sobre a proteção e promoção das expressões culturais, qual seja “às indústrias que produzem e distribuem bens e serviços culturais (...)”, sendo que bens e serviços culturais referem-se “às atividades, bens e serviços que, considerado sob o ponto de vista da sua qualidade, uso ou finalidade específica, incorporam ou transmitem expressões culturais, independentemente do valor comercial que possam ter. As atividades culturais podem ser um fim em si mesmas, ou contribuir para a produção de bens e serviços culturais.” Diverso, portanto, da forma crítica aduzida por Adorno, em Dialética do Esclarecimento, consoante análise realizada na presente tese.

Nova Iorque e Chicago foram as primeiras cidades a inserir a música eletrônica no mercado cultural.

No Brasil, a música eletrônica e a figura do DJ foram introduzidos em São Paulo na década de 60, com Osvaldo Pereira, formado em Rádio e TV, idealizador e criador do toca-discos para o palco140.

Entretanto, o papel e a atuação do DJ como criador (e não apenas mero executor) de música eletrônica encontra-se pouco desenvolvida tecnicamente e cientificamente, principalmente na esfera jurídica. Esta lacuna decorre, em muito, do desconhecimento das particularidades a música eletrônica.

Estas particularidades, como a mixagem e o sampling, ainda não são inteiramente compreendidas por aqueles que não fazem parte deste universo. Desta forma, temos que o entendimento mais comum é aquele segundo o qual esta seria uma atividade de mera mistura, e não de síntese.

Ocorre que a obra deste artista é um construto: fragmentos de faixas musicais, instrumentos eletrônicos, emoções, sentimentos e ruídos. Ao final, submete-se o produto a apreciação do público, recebendo feedback positivo ou negativo. Este esquema em nada difere do processo de elaboração das demais obras artísticas. Trata-se, portanto, de mais uma forma de expressão musical.

Como já visto, na diversidade cultural musical cabe uma grande variedade de expressões, das quais a música eletrônica é, cremos, uma delas.

140 Para a época, era algo inovador e diferente do tradicional baile com banda de música.

Osvaldo relata a emoção de conduzir uma festa utilizando um equipamento eletrônico com caixas de som: “Montei meu toca-discos no palco, distribuí as caixas de som pelo salão. As pessoas que iam chegando não entendiam direito como um som tão potente saía da minha vitrolinha. Tinha gente que subia no palco para ver. Às vezes, eu ficava escondido num cantinho ou deixava a cortina fechada. Aquele sonzão todo e nenhum músico.” Posteriormente o nome da apresentação chamou-se “Orquestra Invisível Let´s Dance”. ASSEF, Cláudia. Todo Dj já sambou: a história do disc-joquei no Brasil. 3. ed. São Paulo: Conrad, 2010, p. 24.

Ocorre que as criações artísticas dos DJs encontram muitos obstáculos para serem reconhecidas por nosso ordenamento

5.3 O REGIME JURÍDICO E A ATIVIDADE DE DJ: DIREITO AUTORAL E