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2.3 A comunidade Palestina no Chile

3.2.3 Caso 3 Fahim:

O próximo caso analisado é a trajetória de Fahin Quosieh, o tesoureiro da Iglesia Ortodoxa San Jorge, que contribui fundamentalmente com o que foi chamado

de terceira etapa da imigração. Em meu primeiro contato com a Iglesia Ortodoxa San Jorge conheci Fahim, um senhor, de aproximadamente 80 à 90 anos, esguio, cabelos grisalhos, segundo ele mesmo, “um palestino que fugiu da Guerra de 67”21. Fahim está no Chile fazem 48 anos, veio na Guerra de 67, a última guerra, segundo ele.

Apesar de chamar 67 de “a última guerra” ele reconhece a atual ocupação e que esta ocupação tem por objetivo expulsar os árabes de seu território.

Segundo Fahim a imigração ao Chile teve seu início “a partir de 1800 d. C.”, ou seja do final do século XIX, se estendendo ao longo do século XX. Segundo Olguín e Penã (1990), o período mais expressivo de imigração palestina para o Chile foi entre 1905 e 1914. Vários fatores permeiam as narrativas da causa dessa imigração, desde a fuga ao Império Otomano, que, segundo essas narrativas, faziam dos jovens palestinos “carne de canhão”, até a justificativa referente à questão econômica.

Segundo ele, muitos vieram “fazer a vida na América”, chegando ao Chile através da rede de familiares.

As narrativas acerca da imigração palestina para as diversas regiões do Chile são muitas, articulam distintas memórias e experiências. Esta imigração não deve ser vista como uniforme, ou homogênea todavia, por diversas vezes essas narrativas se intercruzam, na maioria das vezes tem por fio condutor a narrativa de “fuga da dominação” e subordinação exercida pelo Império Otomano, principalmente referente ao serviço militar. Majoritariamente, as narrativas das quais tive acesso iniciavam-se com a fuga em virtude de serem usados como “carne de canhão”.

Encontrar un futuro mejor. Esto es lo que motivo a miles de árabes que, a fines del siglo XIX y comienzos del XX, decidieron dejar su tierra natal. Las persecuciones emprendidas por el Imperio Turco Otomano, que reclutaba jóvenes cristianos en sus filas para combatir en los numerosos frentes de batalla que se abrían a medida que el imperio se iba desmembrando, fue un factor preponderante. A esto se sumaron las precarias condiciones de vida y la falta de oportunidades; de acuerdo a la ley imperante, los cristianos no tenían derecho a desempeñarse en cargos públicos. Aunque también constitutían una minoría privilegiada, lo que les permitía vivir relativamente mejor, pero esto no era visto con buenos ojos por parte de sus vecinos musulmanes. Todo esto hizo que muchos emprendieran el largo camino a un destino tan prometedor como incierto: América, continente que por aquella época se constituía en destino preferente de miles de inmigrantes europeos

21Guerra dos seis dias, foi quando se efetivou a ocupação da Cisjordânia e de Gaza por Israel (SAID, [1992] 2011, p.17) A Guerra acontecida em 1967, também conhecida como “Guerra dos Seis dias”

ficou marcada em virtude de tamanha proporção da ofensiva israelense em tão pouco tempo. Estima-se que nessa guerra Israel ocupou cerca de mais 50% do território palestino estabelecido pela acordo da ONU de 1947. As colinas de Golã, foram tomadas da Síria, um ponto estratégico de ataque, o Canal do Suez, do Egito, tal como Gaza que estava sob sua “proteção” e a Jordânia da Cisjordânia.

quienes llegaban bajo el impulso de políticas de colonización. Asunto que no favoreció a los inmigrantes palestinos. (SAFFIE; AGAR, 2012, p. 1).

Muitas são as narrativas em que a motivação de partida da Palestina refere-se ao recrutamento de homens para o refere-serviço militar, por parte dos otomanos, tal como a oportunidade de “hacer la América”. Alguns fatores são relevantes, segundo Baesa (2015), a tragédia palestina teria iniciado no começo do século XX com a dominação Otomana, o que faria da narrativa palestina uma “longa história de expulsões”. A partir desse campo e também da análise da autora, a primeira relevância é que esta narrativa torna-se recorrente nos relatos das famílias palestinas cristãs, desde a primeira até a terceira geração, distinguindo-se primordialmente da narrativa dos refugiados palestinos “iraquis”, que primeiramente migram da palestina para o Iraque, em 1948, devido a Nakbah e só posteriormente migraram para o Chile, em 2008.

Entretanto, devemos considerar que embora essa narrativa da “fuga otomana”

tenha sido oficializada pela historiografia da imigração palestina, como está disposto no texto, assim como também pela grande maioria dos interlocutores, deve ser considerada a seguinte questão: o termo “ocupação otomana” deve ser ponderado, em segundo existem narrativas em oposição. Sobre a utilização do termo ocupação para designar o período de dominação otomana do território da Palestina, devemos ponderar seu uso, considerando que a “ocupação” palestina refere-se a ocupação israelense desse território, que se relaciona com a diáspora palestina, a perda de propriedades e de trabalho, limpeza étnica e a criação dessa gama de refugiados.

Acerca das narrativas em oposição, devemos considerar que a narrativa da “fuga” só está presente entre cristãos e mesmo entre essas pessoas, existem muitos palestinos que não consideram o período otomano como período de dominação e ocupação, mas como um período da história palestina e de seus desdobramentos.

Sobre a especificidade das ondas de imigração, dentre as quais a primeira se constitui de palestinos cristão vindos principalmente de Belém e Beit-Jala (BAESA, 2015, p. 298), assim como as subsequentes que constituem-se quase totalmente de palestinos cristãos, ao passo que após a Nakbah tem-se um fluxo maior de palestinos muçulmanos. Esses dois principais fatores somaram se a outras problemáticas provenientes do campo, tal como a narrativa acerca da “guerra” que os forçou ao exílio, quebrando a especificidade da Nakbah como o marco principal e podendo remeter-se desde as guerras provenientes do período otomano até mesmo a guerra

do Iraque.

2.3.4- Caso 4: Padre George

Uma quarta narrativa que se intersecciona com as anteriores é a do Padre George, um homem de meia idade, bastante reservado. George é de origem Síria, nasceu e viveu lá até os seus 22 anos e me contou que em sua juventude fora estudar teologia no Líbano, local onde viveu mais alguns anos. Foi lá que formou-se teólogo, tornando-se sacerdote e que também casou-se. Deve se ressaltar, que segundo George, na doutrina ortodoxa o homem pode casar-se, desde que tal união seja realizada anteriormente ao seu sacerdócio, no caso contrário, um homem já sacerdote não pode realizar tal feito. Padre George veio para o Chile no ano de 1989, a convite de seu tio, o Monsenhor Sérgio Abade, que ainda permanece como o atual monsenhor da igreja.

Sobre a comunidade Palestina, o padre me disse que a imigração para o Chile iniciou-se no final do século XIX, no ano de 1880. Sendo a maioria desses imigrantes de religião cristã ortodoxa. O motivo da imigração seria a discriminação de forma geral à árabes e cristãos, todavia, segundo ele, devido a corrupção do exército era mais cômodo para os árabes permanecerem no território enquanto os cristãos eram usados como “carne de canhão”, sendo obrigados a fazer a linha de frente do exército, muitas vezes guerreando contra outros cristãos ortodoxos, como na guerra que ocorreu entre otomanos e russos.

Segundo Cecília Baesa, (2015) há a constatação de uma recorrência nas narrativas dos imigrantes palestinos chilenos acerca da emigração, a “fuga “da opressão e perseguição Otomana serviu como “fio condutor à memória coletiva”

(BAESA, 2015, p. 299-300), a autora também constatou a recorrência do discurso do jovem mandado pela família para a América para não acabar como “bucha de canhão”

devido a mudança na lei militar que agora os obrigava a realizar o serviço militar ao invés de pagar um tributo ao governo. (BAESA, 2015, p. 300-301). Porém, Baesa problematiza a questão a partir de uma contra argumentação por parte de alguns historiadores, as quais constatam que existia a ocorrência de perseguições étnicas e religiosas, todavia:

Paradoxalmente, a elite militar turca tinha certa relutância à ideia de incorporar ao exército esses cidadãos de lealdade duvidosa. Por essa razão os cristãos se viram atribuídos geralmente de tarefas trabalhosas (de limpeza ou de construção de rotas e ferrovias) ao invés de portar armas. (ZÜRCHER, 1998 apud BAESA 2015, p. 302)

Essa citação nos permite novamente problematizar a narrativa “mestra da

“fuga” do Império. Entendendo que essa narrativa compõe um quadro de memórias, compartilhadas por um grupo específico, as quais são passadas pelas gerações de palestinos-chilenos, e que refletem uma dentre várias óticas sobre o mesmo processo histórico.

Ainda a respeito da imigração, George relatou que os palestinos haviam migrado para muitos outros destinos, dentre eles o Brasil e a Argentina. No “início havia a grande Síria, mas com o acordo de Sikes Picot, em 1920 dividiram-na criando as fronteiras, e diferenciando Iraque, Síria, Líbano e Palestina…”. A migração ao Chile, dentre outros tantos motivos também teria ocorrido devido à similaridade climática de ambas as regiões (outros interlocutores também fundamentaram essa afirmação), o clima, muito parecido com a palestina era dotado de quatro estações bem delimitadas, rigoroso inverno e verão quente e seco. Após a Nakbah, em 1948, a migração de palestinos ao Chile se potencializou novamente, todavia notoriamente de palestinos cristãos, novamente. Segundo George, embora após a Nakbah o número de muçulmanos tenha aumentado significativamente, ainda continuava pouco expressivo.

2.4 A IGREJA ORTODOXA SAN JORGE E OS ESPAÇOS DE SOCIABILIDADE