4 RESULTADO DO ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS
4.1 CASO 1
Tipo: reforma de residência unifamiliar;
Local: Colombo/PR, município com 213 mil habitantes, localizado na região metropolitana da capital, Curitiba;
Área construída: aproximadamente 90 m²;
Período de obra: maio a setembro de 2014;
Padrão de acabamento: baixo a normal;
Projetos: obra realizada sem projetos.
O imóvel é distribuído em sala, cozinha, área de serviço, garagem coberta, três quartos e dois banheiros. Os serviços realizados na reforma foram a demolição das paredes antigas em madeira e construção de paredes em alvenaria de tijolos cerâmicos; substituição de parte das instalações elétricas e hidráulicas; substituição de acabamento de pisos, forros, louças, metais, acabamentos elétricos e hidráulicos e de parte das esquadrias; pintura de esquadrias e paredes internas e externas. A FIGURA 11 expõe a fachada da residência após a reforma.
FIGURA 11 – FACHADA DA RESIDÊNCIA DO CASO 1 APÓS A REFORMA
FONTE: O autor (2018).
4.1.1 Perfil do proprietário
A proprietária da obra é diarista e revendedora de cosméticos, possui ensino fundamental completo, é viúva, tem dois filhos que moram com ela e tinha 39 anos na época da reforma. Não possui conhecimento em informática e, embora já tenha realizado compras pela internet, prefere lojas físicas e nunca utilizou sites de compra coletiva. No celular, usa aplicativos de redes sociais, de conversa e de serviços bancários. Costuma usar o cartão de crédito como forma de pagamento. Não teve experiência com obras anteriormente e tampouco experiência profissional na área de compras. Reside com a família há 18 anos na casa reformada e não buscou referências para a obra em revistas ou páginas da internet, apenas nas opções ofertadas em lojas de materiais de construção, que frequenta apenas quando necessário para compra.
4.1.2 Propósito inicial
As paredes originais da casa eram de madeira e estavam deterioradas por cupins. A proprietária decidiu então reformar o imóvel e substituir as paredes em madeira por alvenaria cerâmica, sem alteração da localização dos cômodos. A reforma abrangeu também a troca dos acabamentos e pintura interna e externa e, em decorrência das demolições, foi necessária a substituição de parte das instalações elétricas e hidráulicas.
4.1.3 Contratações
Não foi considerada a contratação de uma empresa construtora, pois a proprietária acreditou que o preço cobrado seria maior do que poderia pagar e buscou orçamento de apenas um empreiteiro de mão de obra já conhecido. Embora nunca tenha prestado serviços anteriormente a ela, o empreiteiro foi contratado sem comparação com preços de outros profissionais e a proprietária se responsabilizou pelo fornecimento de materiais. Para ela, a confiança em um profissional já conhecido ou indicado por um conhecido é determinante para a contratação. Além da equipe principal contratada inicialmente, durante a obra foi necessária a contratação de um eletricista. O empreiteiro indicou seu irmão para execução do serviço, que também foi contratado sem busca por outros orçamentos ou comparação de preços.
4.1.4 Planejamento
Os serviços realizados na reforma foram planejados pela proprietária sem lançar mão de projetos. Antes da obra e durante a sua execução, a proprietária tirou dúvidas e foi orientada apenas pelo empreiteiro e por uma família que já conhecia, que administra uma loja de materiais de construção em seu bairro. Essa loja se tornou o principal fornecedor de materiais da obra. Antes do início da reforma, o empreiteiro fez uma estimativa de gastos com materiais em 25 mil reais. Não foi desenvolvido orçamento em qualquer nível de detalhamento, e tampouco realizada alguma pesquisa prévia de preços de materiais. A proprietária adotou aquele valor como limite e, como não dispunha de recursos próprios para realização da obra, obteve dois financiamentos bancários: 10 mil reais para despesas com mão de obra e 25 mil reais para compra de materiais. O prazo de execução estipulado inicialmente pelo empreiteiro foi de um mês e meio, mas, por precaução, a proprietária decidiu adotar como referência um prazo de três meses. Apesar de não ter sido desenvolvido um cronograma para a obra, o limite de três meses deveria ser respeitado, já que a família alugou outra residência para moradia por esse período, sem possibilidade de prorrogação de contrato de aluguel. Dessa forma, o cumprimento do custo e do prazo foram priorizados em relação à qualidade esperada de materiais e serviços.
4.1.5 Processo de compra de materiais
A compra de materiais durante a reforma não seguiu qualquer planejamento.
A maioria das compras foi efetuada em uma loja de materiais de construção do bairro pela proximidade da obra e pronta entrega de produtos. O próprio empreiteiro buscava a maioria dos materiais, sem dependência de entrega pela loja. Mesmo com limitação de custo final da obra, a proprietária não realizava cotações de preços em outras lojas ou qualquer tipo de negociação de preços nesta loja.
As solicitações de materiais eram frequentemente feitas mais que uma vez ao dia, pela manhã, quando a proprietária visitava a obra antes de ir ao trabalho, ou durante o dia, por ligação telefônica e através de aplicativo de mensagens. O empreiteiro comunicava a proprietária sobre a necessidade de material, ela liberava a compra, ele ia até a loja do bairro e o vendedor ligava para ela confirmando a liberação. Durante o dia, eram frequentes as mensagens e ligações referentes à
obra. A antecedência de solicitação de compras em relação ao uso dos materiais raramente passava de um dia e muitas compras eram solicitadas de forma urgente.
Para a proprietária, o fluxo da obra foi bastante prejudicado pela falta de planejamento do empreiteiro em relação à aquisição e uso dos materiais, com frequentes pausas do serviço para solicitações, inclusive com sua ida à loja, o que aponta como uma das causas para a extrapolação do prazo estimado inicialmente por ele.
O contato com as lojas era feito por telefone ou ida diretamente à loja. A proprietária relatou não ter tido dificuldade com entendimento técnico do uso dos materiais, já que, em geral, o empreiteiro fazia o primeiro contato com a loja do bairro e ela apenas liberava a maioria das compras. Embora ficasse o dia todo disponível para atender o empreiteiro e os vendedores, a proprietária ia à loja do bairro apenas aos sábados, para pagamento das compras realizadas durante a semana e escolha de materiais de acabamento. Outras lojas só eram buscadas quando a do bairro não ofertava o material procurado, o que, segunda a proprietária, ocorreu apenas com o revestimento do piso, luminárias e tintas com cores não comerciais. Apenas um dos registros de compras da obra é de outro fornecedor além da loja do bairro. Mesmo em compras em outros fornecedores, não era feita comparação ou negociação de preços entre lojas, os materiais eram comprados na primeira loja onde eram encontrados.
A utilização dos materiais também não foi controlada de qualquer forma pela proprietária, o empreiteiro era responsável pela sua quantificação, solicitação, recebimento ou busca na loja e conferência. Segundo a proprietária, erros de quantificação podem ter ocorrido por parte do empreiteiro, mas não houve devolução de materiais pois as compras eram realizadas em pequenas quantidades. Ela também considera a possibilidade de mau uso ou desperdício de materiais durante a obra, mas afirma que a falta de conhecimento técnico a impossibilitou de realizar esse tipo de controle.
4.1.6 Registros
O controle de gastos com materiais foi feito exclusivamente através da conferência do saldo disponível do cartão do financiamento. Muitas vezes a proprietária sequer solicitava ou mantinha documentos de compra e todos os
documentos que possui são recibos, como os apresentados na FIGURA 12. Houve gastos não previstos, por exemplo, com os reparos necessários das instalações elétrica e hidráulica com a demolição de paredes.
A proprietária armazenou 26 documentos de compra, listados no apêndice 5.
Os registros abrangem 139 itens comprados, com valor total de R$ 9.994,34. Esse valor representa apenas 43,45% do valor gasto com materiais informado pela proprietária. Dos 139 itens, 44 possuem equivalência única no SINAPI e 19 (43,18%) foram comprados com preços acima da média local. 12 itens com equivalência SINAPI pertencem à faixa A comum de obras residências e, destes, 8 (66,67%) possuem preços acima da média local.
FIGURA 12 – REGISTROS DE COMPRA 016 E 017 DO CASO 1
FONTE: O autor (2018).
4.1.7 Resultado da obra
O processo de compras de materiais é resumido no fluxograma apresentado na FIGURA 13. Não houve mudança do escopo durante a execução, mas com processos de compras e de execução bastante reativos, a obra foi parada em várias ocasiões. Como não havia cronograma, a proprietária não pôde controlar o atraso, mas o prazo inicial estimado pelo empreiteiro em um mês e meio não foi cumprido – foram necessários três meses e meio (233% do prazo estimado) para conclusão.
Com o fim do contrato de locação da residência onde morou durante a obra, a proprietária teve que ocupar sua casa mesmo antes da finalização da reforma e a pintura foi realizada já com a família morando aí. O custo final com materiais foi
calculado pelo saldo final disponível no cartão do financiamento. Foram gastos aproximadamente 21 mil reais, 84% do estimado pelo empreiteiro. Não houve regularização da obra junto a qualquer órgão.
FIGURA 13 – RESUMO DO PROCESSO DE COMPRA DE MATERIAS NA OBRA DO CASO 1
FONTE: O autor (2018).
A proprietária não utilizaria uma plataforma de compra coletiva de materiais de construção. Como não realizou pesquisa de preços ou controle de gastos, não sabe se poderia ter executado a obra por um custo menor. Ela avalia que um serviço de compras de materiais seria útil se pudesse organizar a rotina de compras da obra melhorando o fluxo dos serviços executados, evitando pausas que levam a atrasos.
Ela contrataria esse serviço desde que não tivesse impacto significativo no custo da obra.