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Um caso singular: aprender dentro do bairro a viver fora do bairro?

Cristina nasceu em Lisboa, no Bairro das Portas de Benfica, em 1980. Os seus pais tinham chegado de Cabo Verde apenas dois anos antes. O pai fez a tropa em Angola, de onde veio directamente para Lisboa. Já em Portugal, casou-se por procuração com a mãe. Construiu uma casa no Bairro das Portas de Benfica, ao lado do sobrinho e com a ajuda deste, tendo depois chamado a mulher para se lhe juntar. Nesse bairro vivem todos até hoje - Cristina, os pais e uma irmã, ao lado do padrinho e sua família. No final do ano, está prevista a mudança da família para Alfragide Sul, para uma casa semi-financiada pelo Estado Português e semi-paga por eles mesmos. O pai de Cristina foi sempre polícia e trabalhou também, depois de se reformar, como guarda e jardineiro de escolas. A mãe trabalhou durante alguns anos nas limpezas, primeiro numa escola, depois no Centro Social do Bairro 6 de Maio. Contudo, com o incentivo e o apoio das freiras deste bairro, conseguiu fazer o 5º e o 6º anos.

Hoje em dia trabalha nesse mesmo centro, como auxiliar de educação infantil. Todas as sociabilidades de Cristina se tecem através do Centro Social do Bairro 6 de Maio. Foi lá que conheceu o namorado, os amigos e é lá que pratica todas as suas actividades de lazer: dar catequese, teatro, cantar no coro da missa, etc. Actualmente, Cristina está a tirar um curso superior de contabilidade, para completar um curso técnico-profissional que já tem - e com o qual já exerce algumas pequenas actividades

remuneradas, principalmente para o Centro Social. Não tem intenção alguma de ir viver, um dia, para Cabo Verde: sente-se «demasiado» adaptada a Portugal.

A família de Cristina apresenta características socioprofissionais bastante diferentes das famílias dos restantes novos luso-africanos, mais próximas das fracções mais baixas da classe média. No entanto, esta posição é essencialmente fruto de um esforço e de um protagonismo pessoais, mais saliente na trajectória da mãe. Doméstica enquanto as filhas cresceram (o marido era polícia, pelo que podia dar-se a esse

“luxo”), a mãe de Cristina começou por trabalhar nas limpezas. Contudo, o seu esforço pessoal e a vontade de melhorar de vida levá-la-iam a estudar para melhorar as suas qualificações profissionais, podendo hoje em dia desempenhar uma profissão menos desqualificada (vigilante de crianças). Esta mobilidade presente no seu percurso aproxima-a dos primeiros luso-africanos referidos atrás. A valorização do percurso escolar da filha coroa o esforço desta família para melhorar de vida. Com efeito, com a frequência do ensino superior e na iminência de vir a ser contabilista, Cristina protagoniza uma mobilidade ascendente de maior alcance que a de sua mãe.

Mas que factores estarão na base deste impulso e deste protagonismo em direcção a uma vida melhor? Porque razão encontramos, entre os grupos domésticos dos novos luso-africanos da mesma condição social, perspectivas de futuro tão diferentes, nuns casos de possível integração nas subclasses e, neste caso específico de que temos vindo a falar, de possível integração na classe média?

Em nosso entender, o elemento central que nos pode ajudar a explicar esta diferença inesperada é o capital social da família e da comunidade, isto é, o tipo e a qualidade das redes de relações entre as pessoas que se estabelecem dentro da família e desta em relação à comunidade (Coleman, in Zhou e Bankston III, 1996: 200). Estas redes fornecem apoio, solidariedade e entreajuda, ao mesmo tempo que exercem um forte controlo sobre os seus membros.

Por um lado, a família de Cristina parece ser uma verdadeira família bastião (Kellerhals, 1987; Monteiro, 1998): normativa (autoridade centrada na figura do pai), fusional (tentam fazer tudo juntos, desde as refeições a passear) e fechada ao exterior,

isto é, centrada na comunidade. Os pais de Cristina educaram-na nos valores da obediência, da tradição e da conformidade social.

A sua educação proporcionou-lhe, assim, níveis de sucesso escolar satisfatório.

Cristina foi incentivada a estudar: todos os dias, o pai lhe pergunta como vão os estudos, os dois conversam frequentemente de assuntos escolares. Desta forma, e contrariando as teorias assimilacionistas, apesar dos seus pais possuírem fracos recursos escolares, a sua filha tornou-se uma aluna de sucesso, porque na sua educação foi valorizada a importância do estudo e do esforço pessoal. Assim, o capital social da família é convertido, na segunda geração, em capital escolar.

Por outro lado, a integração normativa dos indivíduos faz-se, não só na família, mas no âmbito da comunidade mais alargada. Neste caso específico, o Centro Social do Bairro 6 de Maio, liderado pelas freiras da Congregação de S. Vicente de Paulo, desempenhou um papel especial na integração desta família. Através das actividades deste Centro e da acção das religiosas que lá trabalham, Cristina adquiriu um elevado grau de envolvimento e de integração na comunidade e na vida do bairro. Empenha-se nas suas actividades, adopta as suas regras, esforça-se por manter vivas as especificidades da cultura africana. Este envolvimento serve-lhe, assim, de escudo em relação a possíveis influências de grupos menos motivados e integrados. Pode assim desenhar-se, em casos como este, um percurso de integração económica, acompanhado de preservação da cultura de origem (Zhou, 1997).

Em conclusão, família e comunidade desempenham um papel fundamental, não só como mediadores da cultura de origem destes jovens, mas principalmente como mediadores de um sistema de valores que lhes permitirá corresponderem às exigências da sua vida futura, que lhes possibilitará talvez uma boa integração na sociedade portuguesa. Desta forma, o tipo e a qualidade de interacções no seio da família e da comunidade, bem como os estilos educativos (Kellerhals et al., 1991) em que os jovens luso-africanos são educados, poderão contribuir para explicar de que modo alguns destes jovens aprenderam dentro do bairro a viver fora do bairro.

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