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CAPÍTULO II – INOVAÇÕES INTRODUZIDAS PELA LEI 12.403/11

2.3 CASOS PRÁTICOS: ANÁLISE DE JURISPRUDÊNCIA

Neste tópico, serão analisados casos já julgados pelo Tribunal de Justiça, a partir de uma pesquisa jurisprudencial realizada entre o período de 05 de julho até 05 de novembro de 2011. O período foi delimitado em 4 meses, no intuito de perceber os julgados mais recentes, e analisar as decisões referente à aplicação das inovadoras medidas cautelares.

Durante a pesquisa, foram encontrados 453 acórdãos, dos quais foram selecionados 10% e analisados os casos pontuais que revelam questões pertinentes à temática da prisão.



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O primeiro caso prático a ser analisado, é um Habeas Corpus da 6º Câmara Criminal da Comarca de Sapucaia do Sul, no qual pleiteava-se a concessão do benefício da liberdade provisória, em substituição da prisão preventiva, devido o réu ser primário possuir bons antecedentes, residência fixa e vínculo empregatício, além de entender ausente o fumus boni iuris. Assim vejamos:

HABEAS CORPUS. SUPOSTA PRÁTICA DE CRIMES

CONTRA O PATRIMÔNIO. ROUBO MAJORADO. PRISÃO PREVENTIVA DECERTADA. REVOGAÇÃO. APLICAÇÃO DE MEDIDA CAUTELAR.

Ainda que possível a decretação da prisão preventiva ante a pena abstratamente prevista o delito em apreço (artigo 157, §2º, inc. I e II, do CP), possível se faz a aplicação de medida cautelar diversa desta. O fato de o paciente ser primário e não responder a qualquer processo na esfera criminal acarreta presunção de que este não volte a delinqüir, desnecessária assim a prisão preventiva.

CONCEDIDA PARCIALMENTE A ORDEM DE HABEAS

CORPUS.72

Esse acórdão refere-se ao crime de roubo majorado, com concurso de pessoas, não resultando com êxito a prática do delito, devido a polícia ter chego no local momentos antes da prática do crime, e teve como resultado a prisão do réu e seu comparsa em flagrante de delito.

O pedido de liberdade provisória impetrado pela defesa foi indeferido pelo Tribunal, no qual entende ser descabível a aplicação das medidas alternativas diante da gravidade do delito cometido, bem como o concurso de pessoas, que põem risco à ordem pública. Encontra-se presente nos autos, o fumus comissi delicti, uma vez que a prisão em flagrante do paciente em posse da res furtiva, comprova a materialidade do delito a ele imputado, assim como o reconhecimento realizado pela vítima, evidencia indícios suficientes de autoria, conforme relata o juiz julgador.

Por entender não ser o caso da aplicação das medidas cautelares aqui, o juiz homologou o auto de prisão em flagrante, convertendo em prisão preventiva.



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RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. Sexta Câmara Criminal. Habeas Corpus nº 70045509502, Julgado em 03/11/2011. Disponível em: www.tj.rs.gov.br. Acesso em 09/11/2011.

Todavia, considerando que o réu é primário, não teria razões para continuidade do seu encarceramento, podendo haver a possibilidade de substituição de pena privativa de liberdade por restritivas de direitos, a manutenção da prisão preventiva não se mostra a medida mais adequada, pois o objetivo da nova lei é tornar a prisão preventiva na exceção da exceção.

Já no segundo grau, o Tribunal firmou o entendimento no sentido de que embora o crime tenha sido praticado mediante o emprego de violência ou grave ameaça à pessoa, o acusado é réu primário, sequer responde a qualquer outro processo na esfera criminal, o que leva à presunção de que não virá o mesmo a praticar novos delitos, não havendo, no entanto, a periculosidade à ordem pública a sugerir o periculum libertatis capaz de justificar a imposição de medida cautelar diversa da prisão preventiva consistente na apresentação semanal em juízo para informar e justificar as atividades, nos termos do disposto no art. 282, inc.II, § 6º e no art. 139, inc. I, ambos do Código de Processo Penal.

O descumprimento da obrigação imposta importará nova decretação da prisão preventiva.

Ante o exposto, foi concedida parcialmente a ordem de Habeas Corpus, mediante a imposição da medida acima referida.

Portanto, conforme visto, o Tribunal inferiu-se em tal decisão que vem a ser, de encontro com as inovações aqui abordadas, ou seja, substituir a pena de prisão preventiva em medida cautelar.

O segundo acórdão a ser apresentado, é um Habeas Corpus contra ato da juíza, que estaria a submeter o paciente à prisão provisória sem justa causa, pleiteou-se a concessão liminar, conforme acórdão abaixo:

HABEAS CORPUS LIBERATÓRIO. PRISÃO PREVENTIVA QUE NÃO SE MOSTRA PROPORCIONAL E ADEQUADA AO

CASO CONCRETO. FIXAÇÃO DE MEDIDA DE

COMPARECIMENTO PERIÓDICO EM JUÍZO.

1. A Lei nº 12.403/2011 estabeleceu um filtro hermenêutico para aplicação das medidas cautelares em matéria penal, exigindo a “adequação da medida à gravidade do crime,

circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou acusado” (art. 282, II, CPP). Assim, além dos já

conhecidos requisitos do fumus comissi delicti e

periculum libertatis, exige-se do julgador especial

valoração da necessidade da medida à luz do postulado da proporcionalidade.

3. No eterno conflito entre o interesse coletivo e o interesse individual convém sempre adotar uma política de redução de danos, poupando o cidadão réu das mais graves cerimônias degradantes do processo, salvo quando forem estritamente necessárias.

4. No caso concreto, a prisão preventiva (medida cautelar extrema) não se revela adequada nem proporcional à situação acautelada, sendo suficiente, por ora, a imposição da medida cautelar de comparecimento periódico em juízo

para informar e justificar atividades (art. 319, I, CPP).

ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA.73

Trata-se de prisão em flagrante pelo cometimento do delito de furto simples.

A defesa argumenta que a prisão preventiva não poderia ser decretada de ofício, sem requerimento ministerial ou representação da autoridade policial, que o paciente tem domicílio próprio e não representa risco para a instrução. Acrescenta que não houve propriamente o decreto de prisão preventiva e sim, conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva.

A decisão foi fundamentada de acordo com os requisitos materiais e formais, ou seja, a presença de indícios de autoria e prova da existência do fato, bem como possui antecedentes criminais. Diante dos fatos expostos, foi homologada a prisão em flagrante.

Cabe ao magistrado verificar uma medida menos drástica do que a prisão, verificando se a liberdade do paciente iria importar risco para sociedade.

Posterior à decisão, a defesa contesta que independente de estar presente o fumus comissi delicti e o periculum libertatis, a Lei nº 12.403/11 estabeleceu um parâmetro para aplicação das medidas cautelares, exigindo a adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou acusado.

Em exposição da sentença, entendeu-se que trata de delito punido com pena privativa de liberdade de um a quatro anos, elemento objetivo que obstaria a decretação da preventiva, se não fosse a reincidência do agente. A reincidência específica iria impedir a substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos, tornando obrigatório o regime inicial 

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RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. Sexta Câmara Criminal. Habeas Corpus nº 70045899341, julgado em 24/11/2011. Disponível em: www.tj.rs.gov.br. Acesso em 20/11/2011.

semiaberto. Com isso, torna pouco recomendável a prisão, em razão de violar o princípio da proporcionalidade. Ainda com base na proporcionalidade, analisou o Tribunal, quanto à intensidade do risco individual de dano irreparável e do risco de dano coletivo.

Com esse entendimento, o Tribunal votou em conceder parcialmente a ordem, determinando o relaxamento da prisão preventiva e, impondo a medida cautelar de comparecimento mensal no juízo em que está sendo processado para informar e justificar suas atividades.

Estamos verificando que as medidas cautelares estão sendo impostas na prática, não está apenas na teoria conforme muitos pensam.

O terceiro acórdão estudado é um Habeas Corpus da Sexta Câmara Criminal da Comarca de Porto Alegre, no qual o paciente cometeu o delito de furto simples tentado, e sustentam em manter a sua prisão pelo motivo do réu ser reincidente.

HABEAS CORPUS.

FURTO SIMPLES TENTADO.

Apesar de presentes os requisitos da prisão preventiva no caso, ela se mostra desproporcional, pois o fato imputado em tese ao paciente não envolve violência e/ou grave ameaça à pessoa e, apesar de reincidente, muito provavelmente cumprirá eventual e futura pena em regime menos gravoso que o fechado. Assim, plenamente aplicáveis ao caso as medidas cautelares alternativas. Liberdade provisória concedida, mediante condições.

ORDEM CONCEDIDA.74

Trata de Habeas Corpus impetrado pela Defensoria Pública, a fim de requerer a liminar de liberdade provisória, a favor do réu que estava sendo investigado pela prática do crime de furto simples tentado. A impetrante ainda sustenta que não estão presentes, no caso, fatos concretos que fundamentem o decreto de prisão preventiva do paciente, especialmente porque cabíveis, no caso, as medidas cautelares alternativas.

O desembargador presidente e relator, entendeu primeiramente que se for analisar somente no delito cometido em relação à pena aplicada, torna- se desproporcional. De outro lado, sendo o paciente reincidente, a prisão se torna legal, verificando, também, a presença do periculum libertatis.



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RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. SextaCâmara Criminal. Habeas Corpus nº 70045573656, julgado em 03/11/2011. Disponível em www.tj.rs.gov.br. Acesso em 01/11/2011.

No caso concreto, a prisão preventiva, não se revela adequada nem proporcional à situação acautelada, sendo suficiente, por ora, a imposição da medida cautelar de comparecimento periódico em juízo para informar e justificar atividades.

Contudo, entende-se que a medida alternativa somente deverá ser utilizada quando cabível a prisão preventiva, mas, em razão da proporcionalidade, haver outra restrição, menos onerosa, que sirva para tutelar aquela situação. Esse foi o entendimento do Tribunal, diante disso foi concedida a liberdade provisória ao paciente, com aplicação da medida cautelar de comparecimento periódico quinzenalmente em juízo, para informar e justificar suas atividades, não se ausentar do distrito da culpa sem prévia autorização do juízo, e por fim comparecer a todos os atos do processo-crime originário, tudo sob pena de revogação da medida ora deferida.

O último acórdão a ser estudado, é de um Habeas Corpus impetrado na Sexta Câmara Criminal da Comarca de Camaquã, com pedido de liberdade provisória, referente ao cometimento do delito de roubo majorado para réu primário.

HABEAS CORPUS. SUPOSTA PRÁTICA DE CRIME

CONTRA O PATRIMÔNIO. ROUBO MAJORADO. PRISÃO PREVENTIVA DECRETADA. MANUTENÇÃO.

Possível afigura-se a decretação da prisão preventiva ante a pena abstratamente prevista para o delito em questão (artigo 157, §2º, inc. I e II, do CP). Inadequada a aplicação de medidas cautelares diversas da segregação ante a presença do fumus

comissi delicti e do periculum libertatis.

RATIFICADA A LIMINAR PELA QUAL FOI DENEGADA A ORDEM DE HABEAS CORPUS.75

O relator ao aplicar seus votos, entendeu que fosse ratificado a liminar pela qual foi denegada a ordem de Habeas Corpus, com o fundamento na qual estava presente a materialidade do fato e indícios de autoria.

Os fundamentos para ter sido decretada a prisão, foi pertinente a violência e ameaça exercida com arma de fogo e ter mantido um Policial Militar refém. Portanto, devido a gravidade do delito, entende-se que não será cabível 

75

RIO GRANDE DO SUL, Tribunal de Justiça. Sexta Câmara Criminal. Habeas Corpus nº 70045574076, julgado em 03/11/2011. Disponível em: www.tj.rs.gov.br. Acesso em 01/11/2011.

o benefício das medidas cautelares em substituição da prisão preventiva, não sendo suficientes para a preservação da ordem pública.

Dessa forma, foi homologado o auto de prisão em flagrante, e posteriormente convertido o flagrante em prisão preventiva.

Quanto aos requisitos do cabimento da prisão preventiva, está de acordo pela pena do delito ser superior a 4 anos, com emprego de violência.

Já no requisito da necessidade da prisão preventiva, o magistrado entendeu ser cabível tal aplicação sob os fundamentos do fumus comissi delicti e periculum libertatis. O primeiro vem representado pelos indícios suficientes acerca da autoria e pela prova da materialidade do delito, ao passo que o segundo vincula-se à garantia da ordem pública e da ordem econômica, à conveniência da instrução criminal e à garantia da aplicação da lei penal.

Foi negada a liminar de liberdade provisória impetrada pela defesa, com os argumentos que não é proporcional a aplicação das medidas devido o crime ser grave, o que se extrai evidente ameaça social.

Assim como foi analisado, a lei 12.403/11 estabeleceu um filtro hermenêutico para aplicação das medidas cautelares em matéria penal, exigindo a adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou acusado, além dos requisitos do fumus comissi delicti e periculum libertatis, exige-se do julgador especial valoração da necessidade da medida à luz do postulado da proporcionalidade.

Essa decisão dirigiu-se à valoração do agente e do fato praticado como: levar em consideração a individualidade do agente sobre qual é imposta (valorando-se suas condições pessoais); as circunstâncias em que esse fato é praticado (denotando maior ou menor periculosidade na conduta do agente) e gravidade do tipo penal previsto para o fato praticado (evitando a utilização da medida cautelar extrema para fatos não rigorosamente punidos após cognição exauriente e juízo positivo de culpabilidade).

Foram analisados, portanto, quatro acórdãos de diferentes casos com a aplicação da devida Lei nº 12.403/11, para ser visto como estão sendo aplicadas as medidas cautelares para substituir a prisão preventiva.

É um contra-senso restringir-se a liberdade de alguém durante o curso das investigações criminais ou do próprio processo-crime.

Poderia o réu sofrer condenação à pena privativa de liberdade, com substituição preconizada pelo artigo 44 do Código Penal. A reincidência somente é obstáculo para a concessão de substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos quando for específica.

A criação das medidas cautelares diversas da prisão é uma necessária referência ao princípio constitucional da presunção de inocência.

A prisão provisória deixou de ser a única saída do juiz para acautelar os escopos do processo penal. A prisão provisória, efetivamente necessária, não viola o princípio do estado de inocência, ao contrário, significa uma legítima exceção a ele.

Na prática é diferente, muitas vezes essas prisões cautelares são decretadas sem o pressuposto da real necessidade, numa indevida antecipação de pena cuja aplicação é incerta. Prova disso são as importantes jurisprudências que constantemente, revogam e relaxam prisões provisórias decretadas sem um mínimo de fundamentação consistente e de demonstração empírica de necessidade.

Por isso, vieram em boa hora em nosso ordenamento jurídico as medidas cautelares diversas da prisão, para evitar encarceramentos prolongados e decretados sem o cuidado devido e sem a efetiva necessidade.

Por fim, a prisão cautelar, passou a constituir ultima ratio das cautelares, somente podendo ser decretada se demonstrada de forma fundamentada, a fragilidade das outras medidas.

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