• Nenhum resultado encontrado

Casos recentes que envolveram o compartilhamento

“Você é aquilo que você compartilha. Compartilhar é preciso.” (Aguiar & Marques, 2011, p.13). É esta regra que esses autores) tentam transmitir como um man- tra a ser repetido. : . No entanto, uma ressalva é feita: deve-se distinguir o que se é on- line e do que se é offline. A rede, assim, seria um híbrido entre a possibilidade de exer- cer certa liberdade e de estar dentro de um mecanismo de controle. O “eu” que apare- ce no Orkut, no Facebook, no Linkedin não passa de formulários preenchidos, platafor- mas em que somos moldados em formato, cor e linguagem.

Uma coisa é informação e outra é o eu, e o significado não estaria presente na informação disponível objetivamente no mundo virtual, mas no processo de

representação da informação para o sujeito, para os significados que o eu constrói dentro dele. Mais uma vez, o significado está no eu-sujeito, e não nas coisas, daí a importância da razão para se ter senso crítico e discernimento. (AGUIAR & MARQUES, 2011, p.12 – grifo dos autores)

O que os autores não levam em consideração são as informações que são com- partilhadas além da vontade do sujeito, que constituem fatos que nunca mais saem da memória dos buscadores, das páginas do Facebook, comunidades do Orkut e assim por diante.

Em 10 de Outubro de 2012, Amanda Todd16, de 15 anos, pôs fim à própria vi-

da e à perseguição que sofria há três anos. A canadense cometeu o erro de mostrar os seios para um estranho em um chat da Internet, que, por sua vez, registrou o ato da garota e o disseminou pela rede.

A página criada no Facebook pelo perseguidor de Amanda tinha no perfil a foto tirada sem o seu consentimento. A página rapidamente tornou-se viral entre seus cole- gas de escola, o que a fez sofrer com os chistes e as ameaças físicas por parte de cole- gas. Os pais de Amanda a trocaram de colégio mas o assédio continuou, seu persegui- dor repetiu o mesmo padrão de compartilhamento pela Internet, enviando a foto por email a todos os colegas da nova escola. As crises de ansiedade da menina aumenta- ram, assim como seu isolamento social. A rejeição era em demasia.

A história foi relatada pela própria Amanda em um vídeo postado no YouTu- be17 poucos dias antes de seu suicídio. A menina não aparece e nem fala no vídeo de

quase nove minutos, são apenas papeis que são passados e que revelam uma história de dor e sofrimento.

Figure 12 - Imagem do vídeo postado por Amanda Todd

16

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/10/121015_amanda_todd_ru.shtml - a- cessada em 19 de outubro de 2012

Durante o vídeo, ela conta as tentativas de suicídio, a forma com que se viciou em antidepressivos e como era difícil a sua vida na escola, que incluíu uma surra dada por 15 meninas em frente à escola. Ao final do vídeo, ela diz que o fez, não porque queria atenção, mas porque desejava que outras pessoas como ela se identificassem com a situação. Ao término do vídeo, ela escreveu frases como: “Todo dia eu penso porque ainda estou aqui”. “Não tenho ninguém. Preciso de alguém”.

Amanda Todd se enforcou três dias após a postagem do vídeo no YouTube. O caso causou repercussão mundial e motivou discussões sobre a criminaliza- ção do cyberbulling no Canadá, com a intromissão de uma facção do grupo cyberativis- ta Anonymous, que teria identificado o perseguidor de Amanda, um homem de 32 a- nos. As investigações o isentaram de qualquer suspeita18.

Figure 13 - Página do Facebook feito em homenagem póstuma

Ainda na página do Facebook, em meio às homenagens, houve manifestações de alunos do colégio de Amanda, que continuaram a postar mensagens depreciativas

18

http://oglobo.globo.com/mundo/assediada-na-internet-jovem-canadense-se-mata-apos-ter-

em relação à garota. O nome de Amanda, segundo o Google19 foi, em 2012, o oitavo

termo mais buscado em uma lista de 21.

Na mesma época acontecia no Brasil um caso não tão trágico mas, igualmente, sintomático. Trata-se do “Nissin Ourfali”, em que se produziu um vídeo para a co- memoração do Bar Mitzvah, cerimônia de inserção do menino Nissin, de 13 anos, como membro maduro na comunidade judaica. Este vídeo tornou-se um dos grandes virais do ano de 2012. O vídeo mostra o garoto dublando uma paródia da música What makes you beautiful, do grupo One Direction, em que relata seu cotidiano com a família e seus hábitos. A cena de maior destaque é aquela em que o menino aparece numa montagem em cima de uma baleia, referência a viagens familiares auma praia no litoral norte de São Paulo. O refrão é: “E meus pais são demais/Como eles, não tem/Quando a gente viaja é irado, é 10!/Mas o melhor é quando vamos pra Balei- a/Eu sou o Nissim Ourfali !”

O vídeoteve grande repercussão na rede, acabou sendo acessado como piada, e a família, inconformada, entrou na justiça pedindo 30 mil reais de indenização ao Google, assim como a retirada do vídeo20. A família ganhou a causa no final de outu-

bro de 2012. É difícil tentar o acesso às informações sobre o caso, aparecendo apenas em retrospectivas e ainda no arquivo de imagens do Google, assim como os memes feitos a partir da imagem que se tornou famosa.21

Figure 14 – A imagem de Nissim Ourfali na Baleia

19http://tecnologia.terra.com.br/google-revela-termos-mais-buscados-no-mundo-em- 2012,218a5b9b9709b310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html - acessado 19 de outubro de 2012

20http://colunas.revistaepoca.globo.com/bombounaweb/2012/10/10/nissim-ourfali-pede-r-30-mil- em-processo-contra-google/ - acessado em novembro de 2012

21 Vídeo da produtora explicando a concepção do vídeo, como se tornou viral e a recepção deste

A questão de como a memória opera na Internet é um tema delicado que mere- ce ser aprofundado em trabalhos futuros, pois um fato pode ser difícil de ser retomado mas não impossível. Esta é uma das constatações de Keen e Sherry Turkle: não há mais o esquecimento, sempre haverá algum registro nos buscadores. Em ambos os ca- sos citados há essa marca. Amanda Todd declara durante o vídeo: “Perdi todos meus amigos e o respeito das pessoas. Nunca poderei recuperar essa foto. Está aí para sem- pre”. E mesmo que a família Ourfali tenha vencido o processo contra o Google, as i- magens sempre estarão lá, para qualquer um que digitar seus nomes ou palavra- chaves.

Nenhum dos dois são pessoas célebres; eles se tornaram por causa da Internet. Ela, ganhou, sem dúvida, tarde demais o apoio de estranhos, que precisou durante sua curta vida. Ele tornou-se uma discutível “celebridade” em sua escola e talvez não te- nha sofrido grandes rejeições, pelo menos são as afirmações da produtora do vídeo.

Além do corte da experienciação dos múltiplos, as “provas de realidade” co- meçam a ficar mais intensas. Pedir para ver a pessoa pela webcam já garantia a fidedig- nidade da descrição física; depois disso, a extinção dos Nicks deu a possibilidade de colocar o nome da pessoa no buscador e checar se as informações dadas por ela eram corretas, assim como ver informações que estão além do controlado, como, por exem- plo, processos na justiça, fotos publicadas e etc.

2. Segundo Ponto Nodal: O Virtual, a Cibercultura e a

produção do Tecnototemismo