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3 PODCAST

3.6 Estratégia de classificações de podcasts

3.6.3 Casts: Pod, Video, Audio, Screen e Enhanced

Como já apresentado, a possibilidade de incorporação de arquivos de áudio digital na assinatura de RSS, por meio do enclosure desenvolvido pelo programador Dave Winner, propiciou a materialização da ideia de distribuição de áudio elaborada pelo “pai” do podcast, Adam Curry. Após tal desenvolvimento, como seria de imaginar, a inserção de outros tipos de arquivos multimídia foi uma ocorrência natural diante das funções técnicas disponíveis, iniciando a ramificação de designação de casts, dando origem às concepções de videocast ou vodcast, enhanced podcasts, audiocast e screencast. Nas designações desses casts na literatura da área, observa-se, à semelhança do que ocorre com o podcast, a repetição da centralização nos aspectos técnicos, como apresentado a seguir.

Para Bottentuit & Lisbôa & Coutinho (2009, p. 282), “O vodcast ou videocast corresponde à comunicação de vídeos através da internet”. De forma semelhante, para Moura (2010, p. 88) aquela tecnologia simplesmente trata-se de arquivos de vídeo que podem ser assinados através de um sistema de Feed. Igualmente focado em quesitos técnicos, Behar & et al. (2011) afirmam que “O vodcast ou videocast é semelhante ao podcast, porém possibilita a distribuição não somente de áudio, mas também de vídeo” (p. 4). O direcionamento apontado é reproduzido por Leite & Leão & Andrade (2010, p.3), para os quais videocast pode ser definido como “um termo usado para distribuição online de ‘vídeos sobre uma demanda’”.

A definição de “enhanced podcasts” - em tradução livre, “podcasts melhorados” - também segue parâmetros similares aos apresentados. Por tais quesitos, a expressão refere-se à inserção de imagens estáticas na tela do dispositivo que executa o arquivo do podcast (ASSIS & SALVES & GUANABARA, 2010, p. 13), proporcionando, desse modo, a combinação de imagem e locução no podcast (CRUZ, 2009, p. 68; CUNHA, et al., 2009, p. 5496) com a intenção de complementar visualmente o que está sendo apresentado (CARVALHO, 2009, p. 3), oferecendo, ainda, “hiperligação entre diferentes elementos” (FURTOSO & GOMES, 2011, p. 1040). Por essa ótica, Enhanced podcasts “são podcasts, como a própria designação indica, melhorados,

98 capazes de mostrar áudio, imagens fixas, endereços de ligação à internet e marcadores de capítulos” (CAMPOS, et al., 2009, p. 5928).

No contexto observado neste trabalho, constata-se também a presença de um entendimento a considerar os diversos casts como formas diferenciadas de podcasts, apontanto, por exemplo, o videocast como um “podcast de vídeo, que se publica e agrega-se com tecnologias similares aos podcasts de audio” (BORGES, 2009, p.77). Em função dessa perspectiva, cunhou-se o termo audiocast para remissão ao sentido técnico original de podcasts, desprovidos do uso de recursos como vídeo e imagens (AGUIAR & CARVALHO & MACIEL, 2009, p. 141; BEHAR, 2011, p.4; CAMPOS, et.al, 2009, p. 5928; UDO, et al., 2010, p. 1). Autores como McLoughlin & Lee (2007 Apud BEHAR, 2011) propõem, ainda, que o termo seja utilizado como referência a publicações semelhantes ao podcast em áudio, mas sem periodicidade.

Outro tipo de cast, o screencast, é apresentado como um formato em vídeo cujas imagens correspondem à tela do computador (AGUIAR & CARVALHO & MACIEL, 2009, p. 141), geralmente acompanhadas de locução (CRUZ, 2009, p. 68; CAMPOS, et al., 2009, p. 5928). Em uma explicação simples, entende-se o screencast como um vídeo resultante da captura da tela de um computador, normalmente acompanhada por uma narração (ELI, 2006, p. 1). Através daquele tipo de cast, é possível “fazer tutoriais que se podem rentabilizar em diferentes contextos” (CARVALHO, 2009, p. 7), tornando-o, assim, bastante apropriado para o ensino sobre o uso de softwares.

A diversidade de casts aponta não haver como designar podcast toda e qualquer elaboração tecnológica que reproduz oralidade. Afinal, é de constatação óbvia que, por exemplo, uma série de TV reproduz, além de imagens, oralidade. No entanto, ainda mais evidente é a percepção de que não há sentido em chamar essa produção de podcast, mesmo que se extraia seu áudio para distribuição por aquela tecnologia. Isso se sustenta pelo entendimento de que uma realização televisiva é essencialmente uma produção de articulação, realizada pela associação entre imagens fluídas e expressões de oralidade e/ou sonoplastia.

Apesar disso, pelo viés aqui elencado, igualmente não se pode afirmar como televisiva toda produção com imagens em movimento, se assim o fosse, como já dito, a filmagem da gravação de um programa radiofônico iria “transformar” tal atividade centralizada em oralidade em uma produção televisiva. Essa hipótese, como qualquer um que já assistiu registros em vídeo semelhantes poderá atestar, mostra-se distante da realidade, devido a tal captura em vídeo constituir-se de um simples registro de um

99 momento de atividade oral, pouco semelhante a uma elaboração televisiva, a qual se marca pela imagem.

Balizadas em tais concepções, serão elaboradas as definições aqui propostas. Para isso, tomar-se-á como ponto de partida as designações vigentes dos múltiplos casts na exposta bibliografia da área, contextualizando-as aos norteadores aqui elencados, no que diz respeito ao referencial de tecnologias na educação constituído.

Pelo encaminhamento proposto, é válido iniciar a reflexão seguinte a partir da afirmativa de Medeiros (2006, p. 2) acerca do videocast, quando esse apresenta que o “[...] Videocast ou Vídeo Podcast, deixando de ter uma característica eminentemente sonora para ser também uma característica visual”. O autor caracteriza o videocast a partir da inclusão de aspectos visuais na produção eminentemente sonora do podcast. Apesar disso, não é proposta a relativização da relação entre som e vídeo na produção em questão, de modo a observar se aquela se trata de uma produção visual permeada por sons ou uma realização sonora ilustrada por imagens.

Trazendo novamente à tona os exemplos utilizados na conceituação de podcast elaborada na proposta desta tese, é possível observar a pertinência da relativização citada levando em conta as notórias distinções entre a filmagem da gravação de um programa de rádio, a veiculação do áudio de um debate oral no youtube utilizando imagens de fundo e uma realização cinematográfica tradicional.

Esses exemplos ressaltam que, mais que pelo uso técnico de som, vídeo ou imagens estáticas, uma produção define-se pelo foco de sua realização, tende neste o principal aspecto a marcar seu papel em um contexto educativo. Pela razão exposta, emerge a relevância de definir-se o videocast não pela inclusão de uma característica visual - dinâmica ou estática -, mas em vista do quesito dessa inserção, se periférica ou hegemônica na produção em exercício. Do mesmo modo, retorna-se ao fazer educativo como critério balizador da definição de tecnologias na educação.

Em razão disso, o videocast pode ser definido como um modo de produção/disseminação livre de programas distribuídos sob demanda e focados na reprodução de imagens em movimento, que podem ser articuladas com oralidade, música/sons e/ou escritos. De forma similar ao podcast, pode-se dizer que o videocast marca-se fortemente por sua natureza on-line. Todavia, a definição proposta, de teor amplo, acaba por caracterizar a tecnologia aqui conceituada através de seu “fazer” próprio, abarcando o teor sinônimo do videocast de hoje com práticas de produção livre distribuídas em fitas VHS, gravadas por Sujeitos ávidos em estender suas vozes e

100 imagens aos demais. As duas práticas citadas, é possível afirmar, são contempladas pela definição aqui proposta.

Nesse direcionamento, esclarece-se também o entendimento de que filmar a gravação de um podcast e postar esse material on-line não tornaria tal produção um videocast, tanto quanto um programa de debate esportivo na TV não perderia seu teor de tecnologia de oralidade por estar na televisão. Assim, o que, a partir de uma definição conceitual, irá diferenciar um podcast de um videocast será o mesmo que diferenciará o rádio da TV: o foco de sua produção - se na oralidade e/ou música/sons ou nas imagens em movimento.

O critério proposto auxilia, igualmente, ao esclarecimento da distinção entre enhanced podcasts e screencasts. Tal entendimento qualifica sua importância diante da reflexão seguinte. Questões técnicas podem apontar para maior viabilidade de produção de um screencast por meio de imagens estáticas.

No caso de um vídeo instrutivo - modelo usual desse tipo de produção -, ou mesmo na apresentação de um conteúdo de simples, como um guia para instalação de um software, por vezes opta-se pelo uso de printscreens, “fotos” da tela, de modo a produzir-se um arquivo de vídeo de menor tamanho - pelo significativo menor número de quadros42 que contém. Esse processo, ao final, proporcionará um vídeo que ocupará menos espaço de armazenamento e, igualmente, funcionará bem mesmo em conexões de internet de menor capacidade, como as discadas. Nesse cenário, no screencast em questão irá desenvolver-se uma articulação entre narração e imagens estáticas, definição, essa, atribuída ao enhanced podcast.

A coincidência das definições apresentadas aponta para a percepção de que a principal diferença entre enhanced podcasts e screencasts não é o teor das imagens utilizadas - estáticas no primeiro e em formato de vídeo no segundo -, mas a relativização entre os quesitos de oralidade e imagens. Enquanto no enhanced podcast as imagens ilustram a oralidade, inserindo-se como periféricas, no screencast a oralidade mostra-se secundária às imagens da tela do computador, tendo como função dar suporte ao entendimento dos movimentos vistos. Assim, sublinha-se a percepção do screencast como um modo particular de videocast, detido na apresentação de práticas com software.

42 Por uma imagem em movimento ser composta por diversos quadros por segundo (24 no caso de vídeos

cinematorgráficos, por exemplo), um arquivo de vídeo é diversas vezes mais “pesado”, constituído de arquivos bastante maiores que os de imagens estáticas.

101 Por meio desse posicionamento, enhanced podcast pode ser definido como um modo de produção/disseminação livre de programas distribuídos sob demanda e focados na reprodução de oralidade e/ou de músicas/sons ilustrados por imagens estáticas. Screencasts, por sua vez, podem ser definidos como um modo de produção/disseminação livre de programas distribuídos sob demanda e focados na reprodução de imagens em movimento relativas à telas de software, articuladas com oralidade, música/sons.

Vale salientar que diversos screencasts não utilizam áudio, direcionando a narração realizada para textos escritos43. Apesar disso, levando em conta o direcionamento de tais instruções - relacionadas a reproduzir o que seria a fala daquele que explica o que está sendo exposto -, pode-se associá-las à oralidade, tomando o referencial da relação entre oral e escrito delineado por Marcuschi, já abordado neste estudo. Em vista disso, é possível classificar o screencast, independente de inserção de áudio, como uma tecnologia articulada com oralidade.

Por meio das definições expostas, delineando as tecnologias cast, torna-se dispensável a utilização do termo audiocast, sendo esse, portanto, desconsiderado nas definições de tecnologia construídas neste estudo. Desse modo, pelas construções aqui elaboradas, definem-se assim as tecnologias ramificadas do podcast:

Podcast - modo de produção/disseminação livre de programas distribuídos sob

demanda e focados na reprodução de oralidade e/ou de músicas/sons.

Videocast - modo de produção/disseminação livre de programas distribuídos sob

demanda e focados na reprodução de imagens em movimento, que podem ser articuladas com oralidade, música/sons e/ou escritos.

Screencast - modo de produção/disseminação livre de programas distribuídos

sob demanda e focados na reprodução de imagens em movimento relativas a telas de software, articuladas com oralidade e música/sons.

43 Exemplos desse tipo de screencast podem ser encontrados em:

<http://www.youtube.com/watch?v=nsIH3Xl7slI&feature=related>,

<http://www.youtube.com/watch?v=s_VbAjuMczk&feature=related> e <http://www.youtube.com/watch?v=wSsqT5m22pY>.

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Enhanced podcast - modo de produção/disseminação de programas distribuídos

sob demanda e focados na reprodução de oralidade e/ou de músicas/sons ilustrados por imagens.