4 O SURGIMENTO DO PALHAÇO DE CIRCO
4.2 A DUPLA CLOWN BRANCO E AUGUSTO
4.2.2 A categoria Augusto
Muitos frequentadores de circo, sem ater-se a filigranas de definição, chamam um e outro simplesmente palhaço rico e palhaço pobre. E mesmo sendo ricos, torcem pelo pobre, rindo-se às vezes de suas próprias mazelas... (RUIZ, 1987, p. 11).
O cômico da dupla de palhaços é chamado de Tony, Tony excêntrico. Ele é sempre visto como o bobo, o perdedor, o ingênuo. Devido à sua boa-fé, provoca uma identificação com o público, chegando a superar o clown “fazendo triunfar a pureza sobre a malícia, o bem sobre o mal, a justiça sobre a opressão” (RUIZ, p. 11).
Assim como aconteceu com Joseph Grimaldi na Inglaterra, que teve seu codinome transformado em sinônimo de palhaço, segundo Maria Augusta Fonseca (1979) , autora da obra palhaço da burguesia, um cômico chamado Antony, criou um tipo que adquiriu grande sucesso, emprestando também o seu apelido Tony a uma categoria de palhaço. Ruiz (1987) denomina a dupla de palhaços do circo de Clown e Tony, cabendo ao Tony o papel de cômico, enquanto ao Clown, o papel da razão.
O termo Augusto, segundo Cláudio Thebas (2005), em O livro do palhaço, tem sua origem na língua alemã e teria sido utilizado pela primeira vez em 1869. Um cavaleiro de nome Tom Belling, ao se apresentar, o fez de forma desastrosa provocando uma reação na plateia, que gritava “August”. O termo designa aquele que faz as coisas de forma ridícula, ou se encontra nessa situação.
Ainda segundo Thebas, Tom Belling foi também um grande acrobata e equilibrista. Ele tinha por características fazer muitas gracinhas, o que não agradou ao dono do circo, colocando-o para fora do picadeiro. Essa manobra não teria desagradado a Tom, que, pelo contrário, continuou brincando no camarim, pôs uma peruca velha às avessas na cabeça, fez a mesma coisa com um casaco surrado, o que ocasionou muitas gargalhadas por parte de seus colegas. Esses, a fim de provocá-lo, desafiaram-no, dizendo que ele não teria coragem de entrar no picadeiro daquela forma. Tom respondeu que sim, que tinha. Na entrada do picadeiro, ele deu de cara com o patrão, que caiu na gargalhada, deixando-o sem ação e pegando-o de surpresa. Imediatamente, o patrão o empurrou para dentro do picadeiro, fazendo-o provocar nas pessoas da plateia boas gargalhadas (THEBAS, 2005, p. 39). Ao
entrar atrapalhado, Tom tropeçou e caiu com o nariz no chão, deixando-o avermelhado. Devido ao sucesso inesperado, nas outras noites ele repetiu a cena.
Existem ainda duas versões sobre o termo, a partir da associação com o nome Augusto. A primeira remete à figura de um funcionário do circo (garçom de pista) que, encarregado de colocar os materiais de cena no lugar, se atrapalhou, provocando o riso na plateia. A segunda remete a um cavaleiro, também de nome Augusto, que teria vestido um traje desproporcional ao seu corpo, o que também provocou o riso dos espectadores.
Para Bolognesi (2003), no Brasil “encontra-se no termo palhaço o equivalente mais apropriado do Augusto, ainda que ele englobe outros tipos e possa, com isso, fundir-se ao
Clown” (p. 74).
Posteriormente, tratar-se-á sobre a existente dicotomia entre os termos clown e
palhaço. Aproveitando o ensejo, faz-se conveniente explicitar a origem do termo palhaço. O
termo palhaço deriva do italiano paglia (palha) e do material usado para revestir os colchões. Os palhaços italianos faziam uso desse tecido (grosso e listrado) para construir sua vestimenta, além de afofar as partes mais salientes do corpo a fim de protegê-los, amortecendo os tombos (RUIZ, 1987, p. 12).
Para Andréa Aparecida Pantano (2007), em sua obra A personagem palhaço, o Augusto é aquele que executa as tarefas armadas pelo Clown Branco. Essas tarefas são sempre executadas de forma atrapalhada, cheia de quedas, tropeços e muita bagunça, até o Augusto encontrar um forma de solucionar a tarefa e se sair bem.
Na cena, o papel do Augusto é mostrar-se como andarilho, à margem, que não se ajustou às regras da sociedade. A sua vestimenta deve ser despretensiosa. Ao contrário do Branco, que deve estar sempre alinhado, o Augusto deve mostrar certa despreocupação com as normas vigentes, característica que também deve ser marcada em sua maquiagem. O Augusto é o oposto do Branco: “O augusto, pelo contrário, faz um tipo único que não muda nem pode mudar de roupa. É o mendigo, o menino, o esfarrapado” (FELLINI, 1986, p. 107).
Pantano (2007) questiona: “Mas será mesmo que o Augusto é o expoente da miséria? Não será o Augusto uma personagem que rompeu com todas as normas vigentes, portanto, está longe de se encaixar nesta ou naquela conduta?” (p. 44). A autora cita Fabbri, ao apontar o ano de 1880 como ano de imposição do Augusto. A partir dessa data, a sociedade não aceita mais o esfarrapado. Estatisticamente, a miséria começou a diminuir. Segundo ele, aquele era o momento em que se podia rir da miséria, atitude não aceita nos anos anteriores. Os trajes dos cômicos e saltimbancos das feiras valorizavam o brilho. Até mesmo a roupa do Arlequim, que
deveria ser esfarrapada, cheia de remendos, aos poucos foi ficando estilizada, perdendo a ideia do que realmente deveria ser.
Neste período, a sociedade começava a se industrializar e, juntamente com ela, surgia uma padronização do indivíduo, para que esse se enquadrasse na nova sociedade tecnicista. Não havia mais espaço para a marginalização. O Augusto é a revelação do homem que não conseguiu se encaixar nessa sociedade. E essa falta de ajuste à nova sociedade é revelada em todo o Augusto, na sua roupa, na maquiagem, no seu ar de bobo, no nariz vermelho e na inaptidão para realizar tarefas comuns, o que leva ao riso.
O Augusto, embora seja um cômico por natureza, não deixa de retratar a miséria de sua personagem. Ele faz isso explorando o ridículo. É ele quem melhor representa a humanidade açoitada, pois passa parte de sua vida sendo espancado e humilhado. Essa é a personagem que melhor retrata o cotidiano, as emoções do homem. (PANTANO, 2007. p. 45).