5 BULLYING: DO FAMILIAR AO ESTRANHO E À NOVA FAMILIARIZAÇÃO
5- Virtual ou ciberbullying: compreende violência virtual realizada através de
5.2 Categoria 2 – Bullying: implicações e personagens
Toda prática que leva o indivíduo, seja adulto, criança ou adolescente a sofrer algum dano em sua integridade pode ocasionar mudanças em seus comportamentos, sua afetividade e, principalmente, em seu convívio, prejudicando seu desenvolvimento em sociedade. Assim, a segunda categoria versa sobre os personagens envolvidos nas práticas de bullying, bem como as implicações que ele pode ter na vida dessas pessoas.
A partir dos textos analisados, evidencia-se que a violência produzida pelo bullying, seja psicológica ou física, independentemente do modo que a vítima vivencia as consequências das agressões, são graves. Diante disso, a categoria 2 está entrelaçada por três temas: Impactos; Frequências e Perfis que envolvem o bullying.
5.2.1 Impactos
O primeiro tema desta categoria corresponde aos impactos que o bullying pode provocar nas pessoas envolvidas. Os textos analisados deixam explícito que tais impactos podem ser duros para a vítima, com a mudança no comportamento, baixa autoestima, isolamento, queda no rendimento escolar, como nos trechos que seguem:
Curiosamente, as vítimas de bullying normalmente não contam aos pais e professores o que está acontecendo, porque se tornam reféns do jogo de poder instituído pelos agressores. Na verdade as vítimas não expõem os motivos que estão causando tanto sofrimento, por se acharem covardes, insuficientes, limitadas. Além de ficarem inseguras quanto à reação dos pais ao descobrirem. (CADA MINUTO, 2016, p.1).
O bullying tem sérias consequências tanto para o agressor quanto para a vítima. Tanto aqueles que praticam o bullying quanto as vítimas são mais propensos a faltar às aulas, abandonar os estudos e ter piores desempenhos acadêmicos que aqueles que não têm relações conflituosas com os colegas‟, diz o estudo, que acrescenta que nesses adolescentes estão também mais presentes sintomas de depressão, ansiedade, baixa autoestima e perda de interesse por qualquer atividade. (ALAGOAS 24 HORAS, 2017, p.1).
Lidar com críticas ao nosso respeito sempre é muito difícil, principalmente quando esses atos são preconceituosos e agressivos. O bullying tem nos mostrado que essas características têm causando impactos marcantes na vida de suas vítimas que, em sua maioria, sofrem silenciosamente, pois quem sofre a agressão, constantemente, não conta nem na escola e nem a família.
Há casos em que pessoas passam por todo esse processo de sofrimento e transformam essas agressões em superação, contornando a situação e percebendo suas características como qualidades e não como um problema que um determinado grupo pensa ao definir padrões de sujeitos, criando discriminações e preconceitos. Desse modo, outro impacto que pode ter ao sujeito diz respeito à busca da superação da situação. Mas que para isso precisa de ajuda e apoio da família, escola e todo o contexto em que a vítima está inserida.
“Vítima de bullying na infância, estudante superou ataques e se prepara para cursar medicina em Harvard. O fato é que a jovem aprendeu com o bullying a transformar raiva e angústia em superação” (ALAGOAS 24 HORAS, 2018, p.1).
Os impactos do bullying tornam-se abrangentes para todos os envolvidos, dependendo da circunstância em que se deparem ou do papel que estiverem admitindo. Com consequências, sobretudo, para a vítima que é a mais prejudicada, pois, poderá sofrer os efeitos das humilhações ao longo da vida, causando consequências físicas, emocionais e na trajetória escolar.
Isso afetará o seu comportamento e a construção dos seus pensamentos e de sua inteligência, gerando sentimentos negativos e pensamentos de vingança, baixa autoestima, dificuldades de aprendizagem, queda do rendimento escolar, podendo desenvolver transtornos mentais e psicopatologias graves, além de sintomatologia e doenças de fundo psicossomático, transformando-a em um adulto com dificuldades de relacionamentos e com outros graves problemas. (FANTE 2005, p. 79):
Os problemas causados pelo bullying para serem superados dependem do sujeito, mas, principalmente, da assistência que a vítima recebe na ocasião que sofre o bullying. O impacto que o fenômeno pode causar deixa traumas que afetarão o convívio social da vítima em diversos contextos.
5.2.2 Frequências
Este tema apresenta as estatísticas e ocorrências que as matérias dos sites apresentam para expor o bullying na sociedade brasileira. É preciso compreender melhor o quão recorrente é a prática do bullying, entender como esse fenômeno tem sido apresentado e a frequência com que tal se apresenta no mundo todo, o que pode ser observado nas matérias, que indicam como essa prática está presente no cotidiano das pessoas principalmente jovens e o quanto é importante compreender esse fenômeno. Dados a seguir demostram como atos de bullying estão presentes em nossa sociedade.
Segundo Rosania Lisboa, psicóloga do Hospital Geral do Estado (HGE), o bullying é um problema mundial, ocorre em praticamente qualquer contexto que haja interação social, como escola, universidade, família, além do local de trabalho e entre vizinhos. Porém, sua maior incidência ainda é a escola, principalmente entre os adolescentes. (CADA MINUTO, 2016, p.2).
No Brasil, 17,5 disseram sofrer alguma das formas de bullying „algumas vezes por mês‟; 7,8 disseram ser excluídos pelos colegas; 3, ser alvo de piadas; 4,1, serem ameaçados; 3,2, empurrados e agredidos fisicamente. Outros 5,3 disseram que os colegas frequentemente pegam e destroem as coisas deles e 7, são alvo de rumores maldosos. Com base nos relatos dos estudantes, foram classificados no estudo como vítimas frequentes de bullying, ou seja, estão no topo do indicador de agressões e mais expostos a essa situação. (ALAGOAS 24 HORAS, 2017, p.2).
Dezenas de crianças e adolescentes são alvo de piadas e boatos maldosos, além de serem excluídos pelos colegas. Um em cada dez estudantes no Brasil é vítima frequente de bullying, de acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Dados do relatório mostram que 17,5% dos alunos brasileiros, na faixa dos 15 anos, sofreram algum tipo de bullying pelo menos algumas vezes no mês. (CADA MINUTO, 2017, p.1).
Quando se expõe, nos textos, estatísticas diversas sobre o fenômeno, busca-se afirmar a materialidade desse fenômeno, ratificando que ele está presente no cotidiano das pessoas, devendo ser motivo de discussão. Em pesquisas realizadas (ORGANIZAÇÃO DAS AÇÕES UNIDAS, 2017) com 100 mil crianças e jovens de 18 países, verificou-se que, em média, metade deles sofreu algum tipo de bullying por razões como aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem. No Brasil, a porcentagem é de 43% e se aproxima dos índices registrados em outros países da América Latina. Outro índice importante exposto pelo estudo é que tanto as vítimas quanto os agressores têm sérias consequências em situações de desenvolvimento e socialização, o que pode afetar a trajetória do indivíduo também na vida adulta, como observamos no tema Impacto.
5.2.3 Perfis
Os agentes do bullying, ou seja, as vítimas e os agressores apresentam características distintas, o que faz com que se observe a existência um “padrão” que as identifique. Em relatos das matérias, é possível notar os perfis tanto de agressores como das vítimas.
a) As vítimas
As vítimas sempre são caracterizadas como as mais frágeis, pouco sociáveis e que não sabem reagir às provocações que se exalam desde a aparência física, a idade e, até mesmo, por causa do nível de inteligência e mesmo assim não revidam por vergonha ou por conformismo.
“As notas altas sempre fizeram a diferença. Era um dos motivos do abuso na escola” (ALAGOAS 24 HORAS, 2015, p.2).
Muitas das vezes, eles trabalham em conjunto, para atingir quem está mais desfavorável, seja por situação socioeconômica, de idade ou de porte físico. E outro obedece por medo‟, disse a especialista. „Além disso, de forma geral, as vítimas apresentam algo que difere aos olhos do grupo, como timidez, cor da pele, introspecção ou orientação sexual. (CADA MINUTO, 2016, p.1).
Foi um período muito complexo para mim, e o tipo de bullying que eu sofri foi por causa das minhas características físicas. Hoje em dia em tenho um sério problema por causa da minha aparência, lembra a estudante. (CADA MINUTO, 2017, p.2). “Foi muito difícil. Eu era uma criança gordinha com a voz afeminada e de cabelo grande” (ALAGOAS 24 HORAS, 2018, p.1).
Conforme Silva (2010), as vítimas do bullying são diversas e cada uma delas tem um modo de enfrentar essas situações, pois cada um tem particularidades que lhe são únicas. Contudo, a vítima do bullying passa por sofrimentos, alguns de caráter moderado e outros bem graves, o que exige a necessidade de apoio especializado para superação das marcas deixadas pelas agressões e os problemas que o fenômeno provoca nas pessoas.
Ainda, as vítimas do bullying são os sujeitos atingidos pelas agressões praticadas por uma pessoa ou grupo e provocam reações que impedem a vítima de comentar sobre as agressões sofridas por vergonha ou por medo. São indivíduos que apresentam impasses em se adequar ao grupo, por serem tímidas, inseguras, sensíveis e têm dificuldade para se defender dos ataques. Essa insegurança pode impedir as vítimas de pedir ajuda para se defender. (SANTOS, 2016).
Essa não adequação de perfil exigida pela maioria que se considera normal nos remete ao conceito de sujeito estigmatizado, que caracteriza os indivíduos que não estão adequados ao padrão requerido pela sociedade. De acordo com Goffman (1988), o estigma é o resultado de atribuições e estereótipos que os indivíduos desenvolvem nas relações sociais. Assim como o bullying, o sujeito estigmatizado é designado dos demais por apresentar características que destoam do que é valorizado socialmente, no que diz respeito à raça, nação, religião, orientação sexual, etc. Criam-se rótulos preconcebidos que desviam e desestabilizam o contato face a face em meio aos indivíduos e categorizando entre normais e desviantes do padrão.
Embora tais características sejam fatores para disseminar a estigmatização em sociedade, Goffman expõe que:
O termo estigma será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem honroso nem desonroso. (Goffman, 1988, p. 13)
Isto significa que a prática do bullying está, pois, associada a esse exercício de estigmatizar alguém, depreciando as características da vítima de modo a confirmar a normalidade e a hegemonia do grupo que agride.
b) Os agressores
Os textos analisados também se ocupam de descrever o perfil de possíveis agressores, estes podem agir em grupo ou sozinho, em sua maioria têm uma atitude positiva em relação à violência e à sua utilização, se aproveitam das frágeis condições de reação da vítima e ainda a ameaça de fazer o pior, caso a vítima conte para alguém. Conforme as matérias, são populares e caracterizados como valentes e demonstram muita impulsividade, têm necessidade e gosto por dominar os outros, não têm empatia por suas vítimas.
Eles colocam apelidos pejorativos, fazem gozações, difamam, constrangem, ameaçam, menosprezam e constrangem outros alunos‟, listou a psicóloga. Segundo ela, além disso, muitos chegam a furtar ou roubar dinheiro, lanches e pertences de outros estudantes, divertindo-se à custa do sofrimento alheio. (CADA MINUTO, 2016, p.1).
[...] no ambiente doméstico, os agressores mantêm atitudes desafiadoras e agressivas em relação aos familiares. São arrogantes no agir, no falar e no vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para livrar-se das confusões em que se envolve. (CADA MINUTO, 2016, p.2).
Os agentes de bullying são agressivos, impulsivos, mais fortes que seus alvos, populares, obtêm ganhos materiais e ascensão sobre o grupo por suas atitudes e pela imposição do medo. Algumas questões familiares como as relações afetivas, violência doméstica ou permissividade e tolerância excessivas podem ser fatores que explicam os atos praticados pelos agressores (LOPES NETO, 2005).
A falta de atenção nos ambientes em que os agressores estão inseridos faz com que eles procurem chamar a atenção de todos para si, buscando popularidade e tornando-a um artifício em suas ações. Em sua maioria, os agentes provocadores sentem a falta de afeto explícito que pode estar relacionada com dificuldades familiares, falta de limite, dentre outros fatores que provocam a alteração nos indivíduos e desenvolvam esses comportamentos de rebeldia (SILVA, 2010).
Sabemos que os agressores podem ser de ambos os gêneros, porém, nas matérias, foi possível notar uma diferenciação de gênero na prática do bullying. Em sua maioria, agem em grupo, em que o poder de inferiorização fica ainda mais forte, ampliando seu território e sua capacidade de humilhar cada vez mais as vítimas.
Para a psicóloga, Rosania Lisboa existe um equilíbrio de gênero sobre o fenômeno do bullying. No entanto, por serem mais agressivos e utilizarem da força física, as atitudes dos meninos são mais aparentes, enquanto as posturas das meninas passam despercebidas tanto na escola quanto no ambiente doméstico, uma vez que elas costumam praticar o bullying mais na base de intrigas, humilhação e de isolamento das colegas. (CADA MINUTO, 2016, p.2).
Estudos apontam que há uma distinção entre meninos e meninas na prática do bullying. Os meninos, por valer-se mais da força física, suas atitudes são mais percebidas na escola. Já as agressões praticadas pelas meninas, em sua maioria são ignoradas por produzir consequências praticamente irreversíveis na autoestima das vítimas (SILVA, 2010).
Como observado durante a produção dessa categoria, notamos que ela reúne características dos personagens e as implicações que o fenômeno bullying pode causar aos seus envolvidos. Sabemos que os adolescentes estão relacionados com a maioria dos casos que diz respeito ao bullying. Sabemos que a adolescência se constitui como um fenômeno sócio-histórico (OZELLA, 2002), assim, em nossa sociedade, observa-se que, na adolescência, há uma tendência para o convívio em grupo no qual eles podem vir a assumir diferentes identidades, transitórias, ocasionais e circunstanciais. Além disso, podem vivenciar o pertencimento e conhecimento das coisas ao seu redor, dando sentido e significado para a suas descobertas.
Dessa maneira, é perceptível que a convivência em grupo provoca nos sujeitos a desconstrução dos conceitos que lhe são apresentados e que se configuram a partir das relações em sociedade. Todavia, vale a atenção ao processo de individualização da violência ligada ao bullying. O indivíduo não está só nas relações de violência, sendo as mesmas constituídas por múltiplos fatores. Esse modo de individualizar e responsabilizar os sujeitos de ser culpado pelos problemas que o envolvem, na verdade, serve para ocultar as desigualdades sociais e as responsabilidades do estado, da sociedade, da educação, que omitem as necessidades exigidas, transferindo os problemas para apenas um interlocutor.
Quando as matérias expõem as estatísticas ou explicitam as consequências e os perfis das pessoas envolvidas em uma relação de bullying, percebe-se uma tentativa de ancorar e
objetivar o fenômeno representacional. De acordo com Moscovici (2015), para se construir representações sociais, o grupo inicia um processo de objetivação do fenômeno a ser representado, em que compreende a presença desse fenômeno no mundo de modo significativo, estabelecendo seus próprios conceitos sobre ele e transformando-os em imagens. Ou seja, a objetivação tem a finalidade de transformar algo abstrato, em algo quase concreto, resultando na concretização e a naturalização de uma representação social.
Já a ancoragem também é um processo que propõe familiarizar os fenômenos, mas com o objetivo de integrá-los àquilo que já é conhecido, classificando, nomeado, transformando o novo conceito e unificando aos conhecimentos já instituídos (MOSCOVICI, 2015).
Traduzir o bullying em frequências, impactos e perfis implica na tentativa de objetivar e ancorar o referido fenômeno na medida em que as pessoas tenham um a maior entendimento sobre o fenômeno, possibilitando a quebra de vinculação com os conteúdos já existentes e consolidando os novos conhecimentos fazendo com que o conceito se naturalize dentro do grupo social.
Por fim, outro ponto a ser observado é conexão que esse tema tem com o sistema de comunicação chamado de propaganda que, de acordo com Jodelet (2001), é um sistema de comunicação com relações de grupos conflituosas, em que cada grupo específico buscar impor suas ideias através de estratégias de persuasão, em que suas mensagens são estruturadas em dicotomias e produz estereótipos através da manipulação do saber. É o que acontece quando analisamos as implicações e os personagens que estão envolvidos nos casos de bullying: cada matéria a ser publicada desperta nos leitores a convicção de uma representação que pode estar elencada pelos estereótipos já firmados ou provocar reações passionais e uma compreensão dicotômica da realidade.