IV – A PRESENTAÇÃO E D ISCUSSÃO DOS R ESULTADOS
IV. 4 – DISSEMINAÇÃO DOS RESULTADOS DA DISSERTAÇÃO
IV.5: SUGESTÕES PARA MELHORAR A DISSEMINAÇÃO
IV.5.1. Categoria de Conteúdo: Dificuldades de Articulação entre a
Investigação e as Práticas
Nesta fase da entrevista, foi solicitado aos entrevistados que exprimissem a sua opinião sobre diferentes aspectos que conduzem ao afastamento dos resultados da investigação das práticas. Estes aspectos estão intimamente relacionados com os constrangimentos inerentes à disseminação dos resultados da investigação. Assim, baseando-nos nas respostas dadas, construímos as seguintes categorias de resposta:
- Trabalhos pouco relevantes para os professores: abrange as
respostas dos entrevistados que consideram que os trabalhos realizados pela Investigação Educacional em Ciência são pouco relevantes para a melhoria das suas práticas, uma vez que não respondem às suas necessidades;
- Linguagem usada nos trabalhos de investigação: abarca as opiniões dos entrevistados que defendem que a terminologia usada neste tipo de trabalhos é demasiado académica, dificultando a sua compreensão;
- Publicações pouco acessíveis: categoria que engloba as respostas
dadas que apontam para a pouca acessibilidade às publicações da investigação por parte dos práticos.
O seguinte gráfico demonstra a distribuição das respostas dadas pelas diferentes categorias apresentadas anteriormente.
Figura IV.18: Número de professores em função das suas opiniões sobre os aspectos que afastam os resultados da investigação das práticas.
A partir da análise do gráfico anterior, apuramos que 3 dos entrevistados consideram que a Investigação Educacional em Ciência produz trabalhos pouco
relevantes para os professores, tal como exemplificam os seguintes excertos de
respostas dadas:
- “Interessam [referindo-se aos trabalhos de investigação], mas não considero que sejam relevantes. (…) Não é a nossa realidade. (…) Nós, por exemplo, podemos adaptar (…). E, muitas vezes, até para adaptar há tantos obstáculos. Por exemplo, há escolas que nem têm laboratórios!” (Professor C);
- “Acho que há muitos trabalhos que estão afastados da realidade. E isso cria dificuldades na comunicação. O próprio discurso resulta do próprio conteúdo do trabalho. Porque se o trabalho é muito teórico, depois a divulgação é muito teórica. As pessoas têm dificuldades depois em contextualizar, em pegar no conteúdo do trabalho e simplificá-lo” (Professor G).
Desta forma, notamos também que os professores são da opinião que a natureza do objecto de estudo de alguns destes trabalhos os torna demasiado teóricos e afastados da realidade das escolas, dificultando assim a sua aplicabilidade e disseminação pelos práticos. Realçamos a importância que deve ser dada pelos investigadores na transposição daquilo que estudam para o contexto real das práticas, considerando os obstáculos com que os professores se deparam diariamente (por exemplo, do tipo logístico, tal como a falta de
condições para a realização de trabalho experimental ou laboratorial). Por isso, estes trabalhos devem ser ricos na apresentação de propostas didácticas directamente relacionadas com os programas das disciplinas escolares, de modo a facilitar a sua adaptação para o contexto prático. Para finalizar esta parte da análise, salientamos a opinião do Entrevistado J: “pode haver trabalhos muito teóricos”, mas os professores “gostam de coisas práticas”. Estas opiniões dos entrevistados vão de encontro com os indicadores resultantes de alguns estudos realizados anteriormente, nomeadamente Kempa (2002) e Loureiro et al. (2006).
Os entrevistados foram igualmente questionados sobre a acessibilidade, ou não, do tipo de linguagem usada nos trabalhos de investigação. Para isso, a investigadora perguntou-lhes se acham que a linguagem usada neste tipo de trabalhos dificulta a sua disseminação, obtendo diferentes respostas. Dos 3 entrevistados que apontam o tipo de linguagem deste tipo de trabalhos um factor que os afasta dos práticos, destacamos o seguinte exemplo:
- “Às vezes acho que sim [referindo-se ao facto da linguagem utilizada dificultar a disseminação]. Porque nós temos acesso a determinados temas e também a linguagem que está associada a esses temas (…) estou-me a lembrar do CTS e do CSTA que agora é muito divulgado por causa dos novos programas, mas que quando os programas vieram cá para fora, nós que frequentamos as ciências da educação ao nível do mestrado já estamos familiarizados, mas as minhas colegas aqui não. Nós tínhamos que explicar, porque nunca tinham ouvido falar em nada disso” (Professor D).
Constatamos que, para alguns professores, o uso de terminologia específica nos artigos de Investigação Educacional em Ciência dificulta a sua compreensão por parte dos práticos, constituindo um entrave à sua disseminação e aplicabilidade. O uso deste tipo de termos específicos torna os trabalhos demasiado académicos e, frequentemente, só são compreensíveis para quem está mais familiarizado com esse contexto, como por exemplo, os professores que frequentaram pós-graduações nas universidades. Este facto também aponta para a ocorrência de uma formação inicial e contínua de professores inadequada e afastada da Investigação Educacional em Ciência, reflectindo-se na dificuldade
que muitos práticos têm em interpretar documentos produzidos por investigadores, tal como indica o estudo de Loureiro et al. (2006).
Contudo, queremos também destacar o facto de 7 dos 10 entrevistados referirem que a linguagem não constitui um entrave à compreensão por parte dos práticos e, por conseguinte, à disseminação e à aplicabilidade dos conteúdos apresentados nesses trabalhos. Destacamos os seguintes exemplos de respostas:
- “Não creio [que a linguagem usada nos artigos de investigação dificulte a sua disseminação]. (…) uma coisa seria estarmos a falar em disseminar os resultados para o público em geral, outra coisa é estarmos a falar em disseminar os resultados a nível da escola para professores. No fundo, nós estamos a falar de professores para professores. (…) O que eu vejo como limitação é o facto das escolas não terem um fácil acesso a esse tipo de revistas” (Professor F);
- “Acho que a linguagem que utilizei na dissertação, como a usada noutros trabalhos de investigação que eu li nessa altura, não tinham uma linguagem inacessível para os professores da área. Achei que estavam bem. Até mesmo artigos, o único problema é o facto da maior parte ser em língua inglesa” (Professor I).
Com as respostas dadas, verificamos que estes entrevistados consideram que o tipo de linguagem utilizada nos trabalhos de investigação é perfeitamente compreensível, pois, no fundo, trata-se de “falar de professores para professores” (Professor F).
Nestas respostas constatamos que o facto de os artigos estarem escritos numa língua estrangeira e o seu difícil acesso são aspectos apontados que dificultam a sua disseminação, ao invés da linguagem utilizada. Por isso, de seguida é explorada a categoria de respostas que indica que a pouca acessibilidade a este tipo de publicações é o factor mais mencionado como determinante do afastamento destes trabalhos dos práticos. Contudo, realçamos o facto de estas respostas serem dadas por professores mestres, não correspondendo à realidade da maioria dos professores.
A maioria dos entrevistados considera que o principal factor de afastamento entre os trabalhos de investigação e as práticas está relacionado com o facto de estes serem divulgados em publicações pouco acessíveis à generalidade dos professores. Este aspecto está retratado nos seguintes exemplos de respostas:
- “Acessíveis não estão [referindo-se às revistas onde vulgarmente são publicados os resultados da investigação]! Porque, se nós quisermos consultar, temos que nos deslocar às universidades” (Professor B);
- “ (…) mesmo nas escolas, eu não sei como isso funciona, nós temos poucas informações de revistas de didáctica ou de trabalhos. Porque a maior parte deles são publicados em revistas estrangeiras (…) Eu, por exemplo, a questão da didáctica, eu aprendi no mestrado muita coisa, porque havia um desconhecimento muito grande” (Professor C).
Constatamos que, na opinião dos entrevistados, as publicações da investigação encontram-se pouco acessíveis para os professores, estando muito centralizadas nas universidades. Este aspecto faz com que a maioria dos professores não tenha conhecimentos mais actualizados em determinadas áreas do saber. Estes resultados estão em consonância com os indicadores emergentes do estudo de Costa (2003).
Para finalizarmos a análise desta fase da entrevista, destacamos a seguinte resposta:
- “ (…) eu acho de extrema importância para a melhoria das práticas. Agora a forma como eles não são disseminados leva que muitas vezes fiquem aquém, que fiquem fechados nas prateleiras das bibliotecas das universidades” (Professor E).
Concluímos, assim, que o factor mais relevante, na perspectiva dos professores mestres, que dificulta a aplicação dos resultados da investigação nas práticas, prende-se com a falta de disseminação desses. Pois, mesmo sendo resultados relevantes para a melhoria das práticas, a sua deficiente disseminação faz com que os seus objectivos e as suas possíveis contribuições nunca cheguem a ser satisfatoriamente atingidos. Por isso, na entrevista os professores
participantes também apresentaram as suas opiniões sobre como melhorar essa disseminação. Essas sugestões são exploradas de seguida.