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Categoria de pessoa em que se projetam os interlocutores no enunciado (1ª ou 3ª)

No documento 2015RafaellyAndressaSchallemberger (páginas 115-120)

Foto 8 – Avó no enterro de Bernardo (p 82)

8 ANÁLISE DOS DADOS

8.3 Instância do interlocutor

8.3.1 Categoria de pessoa em que se projetam os interlocutores no enunciado (1ª ou 3ª)

Fiorin (2008) explica que diferentes efeitos de sentido são obtidos a partir do uso de 1ª ou 3ª pessoa na enunciação. Como vimos, o uso de terceira pessoa produz efeito de distanciamento e objetividade em relação aos fatos. Já o uso de 1ª pessoa produz o efeito de subjetividade e aproximação em relação aos fatos, porque a pessoa instaura um eu que diz alguma coisa sob o seu ponto de vista, denotando, também, no enunciado, os sentimentos passionais que a pessoa está vivendo no momento. O eu é enunciativo, porque troca de lugar com o tu na enunciação (GREIMAS, 2013). É quem toma a palavra e se dirige a um tu. Crestani (2010) explica que o discurso direto mostra uma enunciação dentro de outra, ou seja, o discurso do interlocutor englobado pelo do narrador, que é quem constrói a reportagem a partir de vários recortes de entrevistas e do seu próprio texto.

Nos trechos que seguem, ocorrem debreagens internas de 2º grau, ou seja, o narrador delega voz aos interlocutores. Os interlocutores que recebem voz pelo narrador são os

seguintes: Bernardo (o que ele teria dito quando vivo), a promotora Dinamárcia Maciel de Oliveira, a delegada Caroline Machado, a amiga Sandra Cavalheiro, a prima de Bernardo Fátima Uglione a ex-vizinha Carmina Lúcia Negrini, o ginecologista Ivo Weis, colega e ex- vizinho de Boldrini, a empregada Margarete Machado e a avó Jussara Uglione. Neste momento nos deteremos apenas em analisar as projeções de pessoa dos interlocutores, deixando as escolhas linguísticas dos interlocutores e os efeitos de sentido que projetam para o momento seguinte.

x Interlocutor Bernardo

“Ninguém me dá bola lá. Eu quero uma família que cuide de mim”. Bernardo Uglione Boldrini, p. 76.

Nesse trecho, o narrador dá voz ao interlocutor Bernardo. Este se enuncia por meio de debreagem actancial enunciativa, porque se manifesta em primeira pessoa, instaurando-se como eu no enunciado. Chama, dessa forma, a atenção para si mesmo, para a carência e o descaso que vivia. Esse trecho gera a comoção passional do leitor, conforme Barros (2012) não há quem passe inerte por esse tipo de escolha linguística. Some-se a isso a caracterização do menino dada pelo narrador no início da reportagem, como sendo magricela, de onze anos, que falava em voz baixa. Essa descrição do menino como um personagem frágil, em conjunto com a fala acima, acionam a afetividade do leitor que o reconhece, pelo discurso, como sendo um menino carente, que não obtinha cuidados e atenção.

x Interlocutora Dinamárcia Maciel de Oliveira (promotora)

“Foi a primeira vez em quinze anos de Ministério Público que uma criança veio nos

procurar”, diz a promotora (Dinamárcia Maciel de Oliveira, p. 76-79).

A promotora emprega a expressão “nos procurar”, enunciando-se, portanto, por meio da primeira pessoa do plural. Através dessa estratégia, ela se projeta como membro representante do Ministério Público, fala em seu nome e do órgão que representa. Assim,

através de uma embreagem actancial enunciativa em “nós”, convoca todos os representantes do órgão como avalistas do seu dizer.

x Interlocutora Caroline Machado (delegada)

Na quinta-feira, a delegada Caroline Machado disse ao site de VEJA não ter dúvidas sobre a autoria do crime: “Bernardo foi morto pela madrasta com a ajuda de uma amiga. E seu pai participou do crime” (p. 79).

No trecho da delegada, o narrador começa em discurso indireto e logo após da voz a Caroline em discurso direto. No trecho em discurso direto temos uma debreagem actancial enunciva, porque ela poderia ter dito “Eu afirmo que Bernardo foi morto pela madrasta com a ajuda de uma amiga. E seu pai participou do crime”, mas ela apaga o eu e projeta no enunciado apenas o ele (Bernardo), a terceira pessoa, instaurando debreagem enunciva. Entretanto, se bem observarmos, o discurso indireto diz que “a delegada Caroline Machado disse ao site de VEJA não ter dúvidas sobre a autoria do crime”. A forma como o narrador dispõe o texto faz com que o leitor perceba essa certeza que vem da delegada, que não necessariamente precisa usar primeira pessoa, mas que assume com convicção assassinato, pelo discurso veiculado, a partir de suas investigações.

x Interlocutora Sandra Cavalheiro (amiga de Graciele)

“Graciele sempre quis se casar com um médico”, diz a amiga Sandra Cavalheiro (p. 79).

A amiga enuncia em terceira pessoa (debreagem actancial enunciva), explicando que Graciele (a madrasta do menino) sempre quis casar com um médico, que era um sonho dela. Contudo, quem poderia confirmar esse fato era a própria Graciele, que não foi ouvida pela reportagem. Da forma como o enunciado da amiga de Graciele foi reproduzido, este incita o leitor a pensar que a madrasta do menino não mediria esforços para realizar seu sonho e que Bernardo poderia estar sendo um obstáculo à felicidade do casal. Assim, o texto remete às narrativas dos contos de fadas clássicos. Lembra, ao mesmo tempo, o conto da Cinderela, a

menina pobre que deseja casar-se com o príncipe, e o da Branca de Neve, cuja madrasta, invejosa da criança, manda matá-la. Esse depoimento, na realidade, não é relevante para a reportagem no sentido informativo, mas sim no sentido persuasivo, sensível , que faz com que o leitor crie simulacros acerca da história do menino e da madrasta de quem se fala.

x Interlocutor Fátima Ugline (prima de Bernardo)

Apesar de pertencer a uma família de classe alta, morar em uma casa com piscina e vaga para quatro carros, o menino vivia “como um miserável”, conta a ex-vizinha Carmina Lúcia Negrini. “Num dia de muito frio, ele estava trancado do lado de fora só com chinelo de dedo. Uma dentista ficou com pena e o levou para casa. Era sempre assim”. (p. 79)

“A Juçara até cortava as unhas dele”, contou Fátima Ugline, prima de Bernardo (p. 79). No início desse trecho, o narrador começa a contar os fatos e traz um trecho do depoimento da vizinha em discurso direto para afirmar que Bernardo, apesar de ser um menino de classe média alta, vivia “como um miserável”. A seguir, delega voz à vizinha que enuncia em terceira pessoa (debreagem actancial enunciva) e narra como Bernardo era esquecido fora de casa. O mesmo processo de debreagem actancial enunciva acontece no depoimento da prima.

x Ivo Weis (médico amigo e ex-vizinho de Leandro)

O ginecologista Ivo Weis, colega e ex-vizinho de Boldrini, afirma que Graciele tentava jogar o marido contra o filho. “Segundo uma babá, ela inventava coisas que o Bernardo teria feito para que o pai o castigasse quando chegasse em casa”, diz (p. 79).

O ginecologista não fala por si mesmo, mas atribui o que diz ao que ouviu de uma babá. Emprega a terceira pessoa ao falar de Graciele. Realiza uma debreagem actancial enunciva.

x Interlocutor Margarete Machado (empregada da família)

No dia em que ele desapareceu, no entanto, Graciele deixou que ele a abraçasse. “Ela nem exigiu que ele lavasse as mãos. Achamos tão estranho que até comentamos, eu e a babá do

nenê”, conta a empregada Margarete Machado (p. 79).

A empregada instaura um ela e um ele, ou seja, debreagens actanciais enuncivas. Em seguida, projeta-se em nós, ou seja, debreagem actancial enunciativa, porque ela se mostra no enunciado. Esse trecho aponta o fato de que o menino nunca podia brincar com a irmãzinha e para abraçá-la ou tocá-la precisava lavar suas mãos antes. Esse distanciamento e essas exigências eram impostos pela madrasta.

x Interlocutor Jussara Uglione (avó materna de Bernardo)

Trechos da entrevista com a avó

Nunca gostei dele. Nem fui ao casamento dele com a Odilaine porque não fazia gosto.

Leandro andou pulando a cerca, sempre foi “chineiro” (mulherengo). Essa mulher

(Graciele) era uma das que mais andavam com ele quando ainda era casado com minha

filha. Ela trabalhava num posto de saúde desses de interior e depois foi ser secretária.

Não. Ela era miudinha, não tinha condições de espichar o braço com um 38 na mão e atirar nela mesma. Sempre desconfiei dele.

Em janeiro ele veio a Santa Maria. Fomos ao supermercado, levei-o para patinar no gelo. Mas, quando o vi, nem parecia o mesmo Bernardo que eu conhecia, de tão magrinho.

Quatro anos. O Leandro não deixava eu visitá-los. Desde que minha filha morreu, quis romper conosco, disse que estava numa outra etapa da vida. Eu ligava, fui várias vezes a Três Passos, mas ele não me atendia e não me recebia.

Via que ele não podia falar muito. Ficava mais calado. Eu perguntava: “Como está a vida

por lá?” Ele só dizia: “Muito diferente”. Ou então: “A Keli (apelido da madrasta) brigou comigo”.

Conforme é possível perceber, a avó realiza debreagens actanciais enunciativas, instaurando-se como eu no enunciado. Em relação a Leandro, Graciele, Bernardo e Odilaine usa a terceira pessoa, ele, ela, ou o nome deles.

Os trechos também apontam opiniões pessoais de Jussara em relação ao pai de Bernardo, à madrasta e à Odilaine. A avó explica que foi proibida pelo pai de ver o menino,

que Leandro era um homem mulherengo, usa a expressão “chineiro”. Aborda as traições do ex-genro e o tratamento da madrasta em relação ao menino. Ou seja, em uma linguagem simples e bem próxima do interlocutor, repassa um ponto de vista muito particular sobre os envolvidos no caso e, para isso, emprega adjetivos e emite juízos de valor. Esses elementos também contribuem na sensibilização do leitor.

Portanto, no discurso dos interlocutores, mesclam-se debreagens actanciais enunciativas e enuncivas. Mas é possível perceber que as debreagens actanciais enuncivas (que projetam efeitos de distanciamento do interlocutor em relação aos fatos) predominam nos enunciados dos interlocutores não envolvidos no caso. Por outro lado, no enunciado dos sujeitos mais envolvidos (como a delegada, o menino, a empregada, a avó) as debreagens enunciativas predominaram e os interlocutores se projetaram no enunciado em 1ª pessoa. Isso também é um indício de subjetividade de quem está emocionalmente envolvido no caso.

Assim, vemos que o narrador dá voz às pessoas cujo depoimento pode contribuir para a comoção, para a afirmação da inocência e ingenuidade do menino e para incriminar o pai e a madrasta.

8.3.2 Escolhas linguísticas projetadas nos enunciados dos interlocutores (estratégias

No documento 2015RafaellyAndressaSchallemberger (páginas 115-120)