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Categoria 1: Finalidades Educativas e Objetivos

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CAPÍTULO III O ENSINO MÉDIO INTEGRADO NO INSTITUTO FEDERAL

3.4 Categoria 1: Finalidades Educativas e Objetivos

Quanto à experiência na área do magistério, 30% dos participantes disseram ter até 5 anos de experiência, 24,3% de 6 a 10 anos, 15% de 11 a 15 anos, 10% de 16 a 20 anos, 13,5% de 21 a 25 anos, 6,5% mais de 25 anos de magistério.

3.3.4 Apresentação e análise dos dados conforme categorias

Conforme mencionado, para tratamento dos dados, foram reunidas as informações obtidas pela análise dos documentos, os dados das observações e questionário, e os depoimentos das entrevistas, os quais foram agrupados em cinco categorias, a saber: a) Finalidades Educativas e Objetivos; b) Concepções/visões sobre Ensino de Qualidade; c) Organização Curricular do EMI; d) Organização Pedagógico-Didática; e) Condições Operacionais.

3.4 Categoria 1: Finalidades Educativas e Objetivos

De acordo com Ferreira (2010), a definição de finalidade é abrangente. O autor afirma que, dentro de uma de suas concepções mais básicas, trata-se de um fim a que se destina uma coisa, um objetivo, um alvo ou uma destinação. Enquanto finalidade externa, seria a que tem por fim um ser diferente daquele que é meio de realizar esse fim. E, do ponto de vista de finalidade transcendente, seria a que se realiza em um ser pela ação que sobre ele exerce outro ser, visando ao fim considerado (Ib., p. 947). Já para Lenoir (2016, p. 612), finalidade é um princípio de orientação filosófica: “Por finalidade entendemos, um enunciado de princípio que indica a orientação geral da filosofia, das concepções e dos valores de um conjunto de pessoas, de recursos e de atividades”. Assim, finalidade educativa escolar, que é o conceito de destaque nesta categoria, deve refletir diretamente as concepções e o conjunto de valores de um grupo de pessoas, de uma comunidade, ou de um sistema educacional estabelecido. Dentro de uma visão humanista, Lenoir se apoia em Schnapper para explicar que a finalidade primeira de todo sistema de educação concebido no contexto de um Estado-nação democrático é formar seres humanos emancipados, iguais, livres. Sua especificidade é integrar as populações em uma comunidade de cidadãos e lhes garantir o exercício de práticas democráticas, o que requer a instituição de uma escola democrática que deve dar a todos as capacidades intelectuais necessárias para participar efetivamente da vida pública (Ib, p. 5).

Libâneo também ensina que a discussão sobre as finalidades e objetivos da educação é inseparável da questão das políticas públicas, uma vez que a definição de finalidades

educacionais antecede e norteia decisões sobre políticas educacionais, orientações curriculares, expectativas de formação, formas de organização e gestão, ações de ensino-aprendizagem, diretrizes de formação de professores, políticas de avaliação externa e formas de avaliação das aprendizagens escolares. Finalidades e objetivos estabelecem, também, referências para formulação de critérios de qualidade da escola que repercutem no trabalho das escolas e professores. Porém, o autor explica que as finalidades e objetivos educacionais, à medida que orientam decisões tanto dos sistemas de ensino quanto das práticas educativas, devem ser vistas em sua contextualização ideológica, política e cultural, pois, inevitavelmente, vinculam-se a interesses de grupos e às relações de poder em âmbito internacional e nacional. No campo das ciências humanas e da educação, estão ligadas aos embates teóricos e político-ideológicos sobre objetivos da escola, formas de organização e gestão, formas de concretização do processo de ensino- aprendizagem (LIBÂNEO, 2017).

Estudos como os de Libâneo (2017, 2016), Frigotto, Ciavatta e Ramos (2012), entre outros, discutem as relações entre finalidades e objetivos dos sistemas escolares de vários países e as orientações de organismos internacionais, como por exemplo, o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a UNESCO. Esses organismos, a partir de 1990, têm influenciado cada vez mais os países em desenvolvimento quanto às suas normas e procedimentos educacionais de tal forma a interferir nas suas definições de finalidades educativas escolares, impregnando decisões institucionais dos países em relação a reformas educacionais, planos, diretrizes curriculares, processos pedagógico- didáticos, rapidamente assimilados por gestores de órgãos públicos, administradores do sistema educacional, dirigentes escolares, professores, pesquisadores, formadores de professores (LIBÂNEO, 2017).

Também nesse cenário, Lenoir nos traz duas visões de educação dos anos 90:

No que diz respeito a estas últimas décadas, segundo Chawla-Duggan e Lowe (2010), os anos 90 foram marcados no plano internacional pela intenção de assegurar a todos a educação: o acesso à escola primária. A Conferência de Jomtien e a Declaração Mundial sobre Educação para Todos tinham como meta oferecer essa educação de base a todos até 2005. Os resultados constatados quando da conferência de Dakar em 2000 foram decepcionantes, pois o fato, entre outros, de aumentar consideravelmente o número de crianças nas escolas primárias não permitiu alcançar a meta fixada. Hoje, a questão da qualidade da educação [isto é, sua eficácia] está no cerne dos debates e a noção do que deveria ser “a escola obrigatória” [compulsory education] ultrapassa largamente a aquisição de conhecimentos básicos [basic education]. Nas sociedades ocidentais avançadas, esses dois autores consideram que havia duas visões da educação nos anos 90: a primeira tinha como meta a democracia e as oportunidades sociais; a segunda, o desenvolvimento neoliberal, o individualismo e o enriquecimento pessoal. Retomando Rizvi e Lingard (2006), eles constatam que é a segunda visão das Finalidades Educativas Escolares que se sobressai e que se reflete atualmente (LENOIR, 2016).

Freitas (2011) também argumenta que os organismos multilaterais, ONGs e movimentos pela educação vinculados a corporações empresariais “procuram implementar a visão de educação como subsistema do aparato produtivo”, definindo objetivos para a escola a partir de necessidades estratégicas de mão de obra. Trata-se de uma política explícita do governo, alinhada aos interesses corporativos empresariais, de vincular políticas educacionais à produtividade do trabalho, regulando a formação de trabalhadores para necessidades imediatas da economia. Tais políticas têm fundamentação nas diretrizes do Banco Mundial, orientadas para a “satisfação das necessidades mínimas de aprendizagem das massas de modo que todos os indivíduos possam participar eficazmente no processo de desenvolvimento” e, por conseguinte, “ser útil para incrementar a produtividade e, também, melhorar as oportunidades dos grupos menos favorecidos” (BANCO MUNDIAL, 1974, p. 60).

Nesta perspectiva, Libâneo complementa que as finalidades educativas resultam de um jogo de forças em que se defrontam interesses particulares, sistemas de valores e grupos sociais. Portanto, não existem finalidades transhistóricas, transculturais e universais. Desse modo, ao educador não basta dedicar-se apenas aos aspectos internos da escola e do ensino, é preciso que saiba situá-los na complexidade da realidade social que caracteriza uma sociedade, compreendendo o sentido das finalidades escolares numa perspectiva sócio-histórica (LIBÂNEO, 2017).

Como pode ser observado, a visão das finalidades educativas impostas pelos organismos internacionais traz claramente o cunho assistencialista, onde o foco da educação nos países emergentes deve ser direcionado para a satisfação de necessidades básicas de aprendizagem, “capacitando-os” para enfrentar seus problemas mais urgentes, como combate à pobreza, para que os indivíduos possam ter uma melhora das condições de vida e como resultado, possam aumentar sua produtividade e seu consumo.

Outro elemento que pode ser destacado é a preocupação dos organismos multilaterais com o “desenvolvimento humano”, desenvolvimento no qual o bem-estar de todos deve ser o objetivo dos esforços em prol do desenvolvimento social, evitando que populações permaneçam na marginalidade e na pobreza:

A educação básica é mais do que uma finalidade em si mesma; ela é a base para a aprendizagem e o desenvolvimento humano permanentes, sobre a qual os países podem construir, sistematicamente, níveis e tipos mais adiantados de educação e capacitação (UNESCO, 1990).

Infelizmente, a finalidade educativa acima enunciada não tem caráter humanista, porém somente econômica, uma vez que o desenvolvimento humano ali expresso visa muito mais

potencializar as energias produtivas dos menos favorecidos e conservar sua capacidade e sua força de trabalho para os donos do capital. Assim se apresenta a educação para o mercado de trabalho, a educação para a sociabilidade e a integração social, ou seja, os vínculos diretos entre educação e a economia.

Neste contexto, é possível visualizar a relação entre as finalidades educativas e seus consequentes impactos na escola, como por exemplo, no currículo e na didática, uma vez que no modelo neoliberal, as finalidades educativas escolares surgem subordinadas a formas de governabilidade sustentadas pelo mercado, que segundo Libâneo:

[...] leva à redução do currículo a uma lista de competências e a um tipo de avaliação reduzida a padrões técnicos e racionais, perdendo-se as peculiaridades do ato educativo como a formação científica, o desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento da personalidade (LIBÂNEO, 2016, p.12).

Apoiado em Bourdieu, Lenoir (2016) traz as finalidades educativas, expressando as funções da escola. Assim, as finalidades são entendidas como funções, as quais são classificadas em Funções Internas e Funções Externas. Enquanto Função Interna do sistema educativo, estas podem ser divididas em: Funções de Conservação Cultural, que trata da legitimação cultural, transmissão da cultura do passado e da autoperpetuação do sistema escolar. Já como Função Externa, ela pode ser classificada como Função de Adaptação, que é composta por Integração do Corpo Social e Preparação para uma Profissão. Nesta última, afirma o autor, o objetivo é atender às necessidades da economia, onde a escola passa a ter como função assegurar uma formação profissional levando em conta a divisão social e técnica em vigor na sociedade e as visões econômicas que esta privilegia.

Neste contexto, a LDB traz como finalidade da educação básica “o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Lei nº 9.394/96, Art. 2º). Uma finalidade também expressa na LDB em seu Art. 22, é fornecer ao educando “meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”, que apresenta-se como instância complementar com a possibilidade de sua capacitação/qualificação para o mercado de trabalho, como função expressa anteriormente por Bourdieu.

A educação como finalidade de capacitação para o trabalho, também tem fundamentação na Constituição Federal de 1988, no Art. 214, que vem garantir através do estabelecimento do Plano Nacional de Educação:

[...] assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam à: erradicação do analfabetismo; universalização do atendimento escolar; melhoria da qualidade do ensino; formação para o trabalho; promoção humanística, científica e tecnológica do País e estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto (BRASIL, 1988, grifo meu).

Destaca-se também a Lei 11.892, de 29 de dezembro de 2008, que instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (RFEPCT), e criou os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs). Em se tratando do EMI, por força desta Lei, os IFs tem como finalidade:

Art. 6º Os Institutos Federais têm por finalidades e características:

I - ofertar educação profissional e tecnológica, em todos os seus níveis e modalidades, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional;

II - desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e peculiaridades regionais;

III - promover a integração e a verticalização da educação básica à educação profissional e educação superior, otimizando a infraestrutura física, os quadros de pessoal e os recursos de gestão;

IV - orientar sua oferta formativa em benefício da consolidação e fortalecimento dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados com base no mapeamento das potencialidades de desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito de atuação do Instituto Federal;

V - constituir-se em centro de excelência na oferta do ensino de ciências, em geral, e de ciências aplicadas, em particular, estimulando o desenvolvimento de espírito crítico, voltado à investigação empírica;

VI - qualificar-se como centro de referência no apoio à oferta do ensino de ciências nas instituições públicas de ensino, oferecendo capacitação técnica e atualização pedagógica aos docentes das redes públicas de ensino;

VII - desenvolver programas de extensão e de divulgação científica e tecnológica; VIII - realizar e estimular a pesquisa aplicada, a produção cultural, o empreendedorismo, o cooperativismo e o desenvolvimento científico e tecnológico; IX - promover a produção, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais, notadamente as voltadas à preservação do meio ambiente (BRASIL, 2008).

Essa lei também traz em seu texto, no inciso I do caput do Art 7º, o seguinte objetivo: “ministrar educação profissional técnica de nível médio, prioritariamente na forma de cursos integrados, para os concluintes do ensino fundamental e para o público da educação de jovens

e adultos” (BRASIL, 2008, grifo meu).

E em seu Art. 8º, ela assegura a porcentagem mínima que deve ser a oferta de vagas dos cursos técnicos de nível médio: “No desenvolvimento da sua ação acadêmica, o Instituto Federal, em cada exercício, deverá garantir o mínimo de 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para atender aos objetivos definidos no inciso I do caput do art. 7º desta Lei [...]” (Ib.)

É importante ressaltar que, do ponto de vista do EMI, essas foram as principais mudanças realizadas no âmbito da educação profissional, as quais ocorreram durante o governo Lula. Dentre as várias políticas públicas que fomentaram relevantes mudanças, essa foi uma conquista no campo da educação e especialmente do ensino profissional, se comparada com a concepção neoliberal, a qual teve sua maior expressão a partir da década de 90, principalmente no governo de FHC, com a reforma do ensino profissional pela configuração do Decreto 2.208/1997.

3.4.1 Finalidades e Objetivos nos documentos do IF Goiano.

Como resultado desta pesquisa, identificou-se que o IF Goiano adotou as finalidades e características expressas no Art. 6º da Lei 11.892/2008. É exatamente a mesma redação descrita acima que aparece no PDI 2014-2018 da instituição (IF GOIANO, 2014, p.11). Quanto aos objetivos, o PDI traz também os mesmos objetivos descritos no Art. 7º da referida Lei, da seguinte forma:

Art. 7º Observadas as finalidades e características definidas no art. 6º desta Lei, são objetivos dos Institutos Federais:

I. ministrar educação profissional técnica de nível médio, prioritariamente na forma de cursos integrados, para os concluintes do ensino fundamental e para o público da educação de jovens e adultos;

II. ministrar cursos de formação inicial e continuada de trabalhadores, objetivando a capacitação, o aperfeiçoamento, a especialização e a atualização de profissionais, em todos os níveis de escolaridade, nas áreas da educação profissional e tecnológica; III. realizar pesquisas aplicadas, estimulando o desenvolvimento de soluções técnicas e tecnológicas, estendendo seus benefícios à comunidade;

IV. desenvolver atividades de extensão de acordo com os princípios e finalidades da educação profissional e tecnológica, em articulação com o mundo do trabalho e os segmentos sociais, e com ênfase na produção, desenvolvimento e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos;

V. estimular e apoiar processos educativos que levem à geração de trabalho e renda e à emancipação do cidadão na perspectiva do desenvolvimento socioeconômico local e regional; e

VI. ministrar em nível de educação superior:

a) cursos superiores de tecnologia visando à formação de profissionais para os diferentes setores da economia;

b) cursos de licenciatura, bem como programas especiais de formação pedagógica, com vistas na formação de professores para a educação básica, sobretudo nas áreas de

ciências e matemática, e para a educação profissional;

c) cursos de bacharelado e engenharia, visando à formação de profissionais para os diferentes setores da economia e áreas do conhecimento;

d) cursos de pós-graduação lato sensu de aperfeiçoamento e especialização, visando à formação de especialistas nas diferentes áreas do conhecimento; e

e) cursos de pós-graduação stricto sensu de mestrado e doutorado, que contribuam para promover o estabelecimento de bases sólidas em educação, ciência e tecnologia, com vistas no processo de geração e inovação tecnológica (IF GOIANO, 2014).

Analisando os objetivos expressos nos PPCs, foi verificado que os objetivos dos cursos propostos em cada um deles estão em conformidade com os objetivos expressos no PDI. Assim, o entendimento quanto ao fato dos objetivos expressos no PDI serem os mesmos da Lei 11.892/2008, é que o IF Goiano, enquanto membro da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica tem interesse de conseguir cumprir tudo aquilo que está previsto na lei de sua criação, assumindo como sendo sua responsabilidade e até mesmo reconhecendo como sua função educacional essa execução e, por isso, reforçou tais preceitos em seu Plano de Desenvolvimento Institucional. Pode-se observar a presença das Funções Internas e Externas em tais objetivos, como mencionado anteriormente por Bourdieu.

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