6 CONCEPÇÕES E AÇÕES DOS PROFESSORES, GESTORES E INSPETORES DE
6.1 Categoria I – Conhecimento e implementação
Como pergunta inicial da entrevista, as pessoas foram indagadas se conheciam e o que conheciam sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Quilombola. Dos 18 entrevistados, 8 afirmaram não ter conhecimento das diretrizes. 4 pessoas afirmaram saber da existência das diretrizes, mas nunca leram o documento. 5 afirmaram ter pouco conhecimento ou pouco aprofundamento sobre. Somente 1 afirmou conhecer integralmente as diretrizes e ter trabalhado com sua a implementação. Dessa forma, temos uma porcentagem de 66% dos
funcionários dessas escolas que desconhecem essas diretrizes. Algumas das respostas foram bem contundentes e diretas sobre esse desconhecimento.
A professora da Escola Municipal de Quartel do Indaiá, ao ser questionada se conhecia as diretrizes afirmam que não e enfatiza o caráter não quilombola da escola
En: Não. A educação aqui é... é igual as outras. É comum igual às outras. Escola normal. A gente não tem uma específica pra Educação Quilombola. Nada. (Professora da Escola Municipal de Quartel do Indaiá)
Tanto professores, inspetores, e gestores afirmaram o não conhecimento da legislação. En: Pra ser sincero eu não conheço. Não tive ainda a oportunidade de tá estudando né, lendo sobre isso. Até pelo fato do tempo né. Muito corrido e talvez a gente teria que ter mais, já era até pra eu ter, por parte minha tá mais por dentro. Até por causa da reivindicação. Infelizmente eu to em débito com isso.
(Gestor da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Pq: Aí a minha primeira pergunta é se você conhece e o que você conhece sobre essas diretrizes?
En: Não...
Pq: Você não conhece?
En: Não conheço não. Já até ouvi falar, mas nunca... Pq: Você sabe que ela existe?
En: Eu sei que ela existe, mas nunca... Pq: Mas nunca leu não?
En: Não, não.
(Professora da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck) En: Não eu ainda não conheço.
Pq: Mas você sabia da existência delas ou não?
En: Já sei que existe. Até que foi cobrado no último concurso. Apesar deu não ter feito, eu fiquei sabendo que foi cobrado. E eu também já vi em jornais né?
Pq: Mas você não chegou a ler a diretrizes? En: Não.
(Professora da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
En: Bom, eu conheço as Diretrizes, sei que elas existem. Mas eu não sei falar com propriedade delas não.
(Professora Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
En: Olha, eu li pouco né sobre essa educação quilombola aqui, pro concurso muito pouco né. Então num sei muita coisa não, eu nem estudei direito, acabei nem lendo.
(Professora da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Pq: E aí eu queria saber se você conhece essas diretrizes, e se você conhece o que você conhece?
En: Não conheço. Pq: Você não conhece?
En: Não
(Professora da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Os depoimentos acima demonstram a falta de conhecimento desses funcionários sobre a educação quilombola. O que é uma realidade da maioria dos professores que trabalham na educação quilombola. Miranda (2012) afirma que maioria dos professores desconhece essa modalidade de educação. Mesmo os entrevistados que afirmaram ter um pouco de conhecimento das diretrizes afirmam o caráter não aprofundado desse conhecimento.
En: Então, eu conheço as diretrizes. Já tive a oportunidade de ler sobre elas, mas assim nunca me aprofundei, nunca fiz um estudo específico das diretrizes não. E o que eu conheço é que na verdade nós temos que trabalhar é focando a questão cultural do quilombola né, da educação quilombola. Só que na realidade que nós trabalhamos, eu ainda acho que é preciso mudar muito, muito mesmo pra poder atender às diretrizes. É preciso assim, haver uma reestruturação do currículo escolar. Porque na verdade a escola ainda não trabalha focado. Embora a gente faça um atendimento diferenciado né, pelas peculiaridades mesmo da região, o estudo tem que ser diferenciado lá. Mas ainda tem muito que avançar na questão das práticas propostas das diretrizes curriculares.
(Gestora da Escola Municipal Quartel do Indaiá)
En: Meu conhecimento sobre ela não é assim, não vou falar com você específico. Porque tem muito pouco tempo que a gente começa, estamos trabalhando dentro da escola, tivemos essa oportunidade de abertura pra gente tá trabalhando a questão quilombola na escola. Antes a gente não, quando eu comecei não tinha. A gente trabalhava muito a cultura daqui em agosto, no dia 20 de agosto né. No folclore. E no dia 20 de novembro agora a gente tem toda essa abertura de tá trabalhando essas diretrizes que fazem parte da escola. O sexto ano já vem com um conteúdo específico, que é né, trabalhar o índio e o quilombo. Já bem pouco tempo, deve ter uns 4 anos por aí que a gente tá trabalhando específico. E, mas na escola aqui, essa oportunidade de tá trabalhando o quilombo de tá fazendo, tem bem pouco tempo que tem essa abertura aqui dentro sabe? A gente fazia muito, no folclore a gente fazia. Eu já fiz aqui recapitulação de como que era o enterro lá nos Quartéis do Indaiá, as danças. Já trouxe aqui muitas vezes pessoas de lá pra cantar os Vissungos. Já trabalhei com eles, já levei os meninos daqui no Quartel do Indaiá pra gente fazer apresentação do Livro Terra Deu Terra Come. (Professora da Escola Estadual Juscelino Kubitscheck).
De todas as entrevistas somente um professor afirmou que conhecia totalmente o documento. Segundo ele,
En: Deixa eu te falar, na verdade por ela ter sido implantado em 2012 e a própria Secretaria começou a cobrar foi realmente ano passado né. Aliás cobrar no sentido de que fosse implantado até com uma matéria curricular. E na verdade a grade curricular que não permite que coloque. Mas eu acho que por nós vivermos numa região que convivemos com essa comunidade, cabe a cada um de nós trabalhar essa diversidade que existe entre as comunidades e implantar no seu projeto de programa de curso entendeu?
Pq: Então você conhece né, as diretrizes? En: Conheço.
Pq: Você chegou a ler?
En: Cheguei, até trabalhei com a implantação na escola né. (Se referindo a outra escola, não quilombola, onde ocupava um cargo anteriormente.) (Professor da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Os depoimentos acima demonstram que apesar da existência dessa política para educação quilombola a mesma ainda não é sequer conhecida pelos agentes educadores. Munanga (2005) afirma esse desconhecimento por parte dos professores da cultura negra, é o que leva à desvalorização da mesma. O autor ainda afirma que a cultura eurocêntrica que marca a educação contribui para esse processo. E assinala a necessidade de professores capacitados para trabalhar essas questões. Essa afirmação do Munanga vai de encontro com o que vivenciei em minha vida acadêmica, onde os saberes quilombolas não foram trabalhados no currículo da graduação. Isso contribuiu para o não conhecimento dos professores sobre o tema que muitas vezes acreditam não ser capazes de trabalhar com essa forma de educação.
No texto de referência para a elaboração das DCNEEQEB, Moura (2011) afirma que existe uma ausência dessa discussão nas escolas do Brasil e nos cursos de pedagogia e licenciatura e que isso se deve a um desconhecimento do poder público e da universidade sobre o tema. Esse fato reverbera no desconhecimento dos sujeitos entrevistados sobre essa modalidade de educação e sua formação.
Como já apontado anteriormente, a formação dos professores se mostra como um dos principais motivos da não efetivação da educação quilombola. Moura (2005) assinala que é
Só a partir da formação de professores capacitados a criar, levantar possibilidades, inventar novas situações de aprendizagem em sala de aula, frente à especificidade do contexto em que conduz o processo de ensino- aprendizagem, imbuídos do sentido de sua profissão e de sua responsabilidade na sociedade, poder-se-á desenvolver um processo escolar de educação consoante à realidade sócio cultural brasileira (MOURA, 2005, p. 79-80).
Dessa forma, outra pergunta realizada para os sujeitos foi se durante sua formação, tanto inicial quanto continuada, eles teriam tido algum contato com a educação quilombola. Dos entrevistados, todos possuem curso superior, 8 deles possuem algum tipo de pós-graduação, entre estes um mestrado. Dos 18 entrevistados somente 3 afirmaram ter tido algum contato com a educação quilombola em sua formação, os outros 15, ou seja 83,3% do total, afirmaram não ter tido nenhum contato.
Dos 3 que a presença da educação quilombola em sua formação, foram em situações específicas. Uma professora, que possuí Pós-Graduação em História do Brasil afirmou ter tido contato.
Pq: Entendi. Então voltando aqui na questão da sua formação, você diz que tem pós em História do Brasil, quando você fez essa pós eles abordaram em algum momento a educação quilombola?
En: Abordaram. Abordaram muito a questão de... a questão quilombola e já assim, prevendo o futuro que já seria dentro de onde tem descendentes de quilombo. Que já seria um conteúdo dentro da grade curricular.
(Professora da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Entretanto esse é um fato isolado. Os dois outros professores que afirmaram ter tido esse contato afirmaram que este não foi feito de forma abrangente. Um dos professores possui Licenciatura em Educação do Campo e foi nesse curso seu contato, apesar de não ter acontecido de forma muito aprofundada.
Pq: Você teve contato na graduação? En: Na graduação.
Pq: Disciplina, projeto?
En: É... mais é... até mesmo porque eu conheci o que que era foi na graduação. E falou muito sobre a valorização dos quilombos é...é... e tal. E assim... não viu muito a fundo. Mas a valorização até dos alunos mesmo, através de bolsa pra eles tá na faculdade tudo aí eu conheci pela minha graduação.
(Professor da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Já o outro professor afirmou que seu pouco contato se deu dentro da Universidade, mas por interesse próprio, que o mesmo levou essa discussão para o ambiente acadêmico.
En: Ah eu tive pouco. Mas porque eu mesmo levei a discussão. Eu que tenho mais tempo de formado, 35 anos de magistério, cê vai ver que eu já trabalhava isso desde quando eu estudei. Num estudei foi em Diamantina não, foi em Sete Lagoas. Já levava pra lá essa discussão
Pq: Então quando você tava na faculdade partiu de você a discussão, não... En: Dentro da Universidade, partiu de mim lá dentro. Tinha um professor, chamado Carlos Leão, inclusive eu trouxe ele aqui. Nós falamos sobre... na época, não me recordo, acho que foi o Brasil colônia mesmo, dentro da história. E aí eu propus ele pra fazer um trabalho aqui. Ah, o cara ficou doido. Ele, na Universidade dele, ele não teve.
(Professor da Escola Estadual Governador Juscelino Kubitscheck)
Todos os demais professores, inspetores e gestores afirmaram prontamente que essa discussão não se fez presente em suas graduações. Mostrando assim que, independente da área de formação, e grau de escolaridade os cursos de formação de professores, parecem estar
negligenciando o cumprimento das DCNEEQEB e a obrigatoriedade do ensino de cultura afro brasileira nas escolas. Os artigos 48 e 49 do documento afirmam que,
Art. 48 A Educação Escolar Quilombola deverá ser conduzida, preferencialmente, por professores pertencentes às comunidades quilombolas.
Art. 49 Os sistemas de ensino, no âmbito da Política Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, deverão estimular a criação e implementar programas de formação inicial de professores em licenciatura para atuação em escolas quilombolas e escolas que atendem estudantes oriundos de territórios quilombolas ou ainda em cursos de magistério de nível médio na modalidade normal, de acordo com a necessidade das comunidades quilombolas (BRASIL, 2012, p. 16).
O documento ainda afirma que a formação inicial deverá ser ofertada em curso de licenciatura para esses professores, oferecido se necessário concomitante com o trabalho. Deve também propiciar a participação dos graduandos na elaboração dos currículos quilombolas assim como a produção de materiais específicos. Deve garantir utilização de metodologias e estratégias adequadas de ensino no currículo visando inserção e articulação entre conhecimentos científicos e tradicionais. Deve propiciar o estudo das metodologias e conteúdos curriculares da base nacional comum e também o estudo do trabalho, da memória, da ancestralidade, da oralidade, da corporeidade. Deve garantir a realização de estágio curricular na realidade quilombola e deverá haver discussões sobre as lutas quilombolas ao longo da historia, o papel dos quilombos nos processos de libertação e no contexto atual da sociedade, as ações afirmativas, articulação entre conhecimento cientifico e quilombola, superação do racismo pelo cumprimento das leis 99394/96 10639/03 resolução 1/200. Garantir o estágio dos cursos de licenciatura nas comunidades e o transporte, acomodação e segurança desses professores devem ser feitos em parceria com o poder publico. A formação continuada deve ser assegurada pelos sistemas de ensino como componente primordial da profissionalização docente a partir de cursos presenciais ou à distância em atividades em consonância com os projetos das escolas.
Moura (2011) no texto base para elaboração das DCNEEQEB, fala sobre os professores e aponta a realidade que encontramos na comunidade de Quartel do Indaiá.
Nem sempre esses docentes têm garantido o seu direito à formação inicial e continuada de qualidade e há casos até de professores leigos nessas instituições.
Nas escolas localizadas em regiões quilombolas e que atendem a estudantes dessa região, também atuam docentes que não são de origem quilombola. Esses também vivenciam condições precárias de formação inicial e continuada e necessitam ter esse direito a uma formação digna e de
qualidade garantido. Precisam, sobretudo de que no seu processo de formação sejam incluídos discussões, reflexões e estudos sobre a realidade quilombola local, regional e nacional (MOURA, 2011, p. 35).
Apesar dessas exigências, pela leitura e análise das entrevistas fica evidente que os cursos de formação, dos referidos professores, ignoraram os princípios regidos pela legislação. Interessante ressaltar que alguns professores se formaram há muito tempo atrás onde essa discussão ainda não possuíam o alcance que possuí hoje, assim como suas próprias leis e diretrizes. Entretanto, alguns professores têm formação recente, 2 anos, e ainda sim não tiveram acesso a esse conteúdo. O que mostra que apesar desses anos de políticas públicas vigentes sobre o direito à educação, à diferença e à uma educação de qualidade, estes ainda não foram alcançados na prática.