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4.2. CURSOS SOBRE A LAI: CATEGORIZANDO O PERFIL DOS SERVIDORES

4.3.4. Categoria: OBSTÁCULOS à transparência da UFPB

Nesta categoria, buscamos extrair das respostas dos servidores situações e atitudes que, em suas opiniões, impedem a condução de uma gestão transparente através da pergunta n.º 24: “Em sua opinião, quais são os possíveis obstáculos a uma gestão transparente?”. As

respostas fornecidas foram as mais diversas, ao que procuramos agrupá-las nas seguintes subcategorias: interesses pessoais e política; burocracia; cultura organizacional desfavorável; má execução ou entendimento da LAI; infraestrutura de sistema informatizado.

4.3.4.1. Subcategoria: Interesses pessoais e política

Nesta subcategoria, vemos que os servidores deixaram claro através de suas respostas que há atitudes de cunho personalístico e de viés político que representam entraves a uma gestão pública mais transparente, como nas respostas seguintes:

Interesses contrários a uma boa gestão” (NUP 00001)

Jogo de Interesses” (NUP 00007)

Amizade ou interesse pessoais” (NUP 00008)

“Receio de questionamentos, da opinião pública, de debater política pública, de perder posse do cargo, interesses pessoais e etc.” (NUP 00015)

FAVORES” (NUP 00027)

Falta de interesse político, ou casos isolados de corrupção.” (NUP 00033)

Os termos destacados denotam que um dos princípios constitucionais da administração pública nem sempre é respeitado e se torna um fator importante para que a gestão da UFPB deixe de ser proativa no concernente à transparência: o princípio da impessoalidade.

O princípio da impessoalidade consta no art. 37 da CF 88. A evolução da administração pública para a gestão pública, em busca de mais eficiência do estado, comprometimento com a coisa pública e mais transparência das ações dos governantes e funcionários públicos, tratou de consolidar a sua aplicação de fato. Este princípio visa a garantir que as atuações dos agentes públicos estejam em observância estrita às leis, com o

interesse público como objetivo último, vedando qualquer forma de favorecimento ou prejuízo a pessoas ou grupos (NASCIMENTO, 2014; MEIRELLES, 2008) Na contramão, resulta o que se depreende das palavras de nossos respondentes: interesse pessoal, receio da perda do cargo e favores prejudicando a percepção de transparência.

4.3.4.2. Subcategoria: Burocracia

Os respondentes também mencionaram como obstáculo para a transparência na instituição outro aspecto que se procura evitar ou mitigar com a nova gestão pública: a burocracia. Alguns deles perceberam o elo existente entre a burocracia e a política, vista na subcategoria anterior:

“Burocracia e politicagem” (NUP 00005)

“Burocracia e disputa de poder.” (NUP 00028)

“Burocracia” (NUP 00030)

“Burocracia” (NUP 00032)

Comprovamos assim, a colocação de Jardim (2008), a partir da concepção de Weber (1982), de que a burocracia é uma forma de poder na medida em que confere vantagens decisórias àqueles que possuem informações. Sob a análise em tela, a ocultação de informações confere vantagem a agentes públicos na função de gestores da UFPB, sobretudo pela maneira que os respondentes colocam, inclusive utilizando-se de uma expressão pejorativa. A UFPB como toda entidade pública detém, coleta e produz informações daqueles que utilizam seus serviços ou fazem parte do seu quadro.

Outrossim, é preciso lembrar que o excesso de procedimentos burocráticos não mais encontra respaldo no campo administrativo público da atualidade, apesar de ter servido de contraponto ao patrimonialismo que existia nos Estados absolutistas e autocráticos antes do surgimento do liberalismo. Hoje a burocracia implica em excesso de especialização de funções ou cargos, de regras de formalização de solicitações, de hierarquia (NASCIMENTO, 2014).

Contudo, as respostas dos servidores à questão n.º 24 a consideram como aspecto puramente negativo, um obstáculo. Suas opiniões alinham-se ao argumento em favor da administração pública gerencial, ou nova gestão pública, que visa aos resultados e é fruto de uma demanda de cidadãos mais escolarizados e acostumados aos altos padrões de serviços, descontentes com serviços públicos inflexíveis e burocráticos (MATIAS-PEREIRA, 2016).

4.3.4.3. Subcategoria: Cultura organizacional desfavorável

Novamente surge um tema já explorado e que agora retomamos, desta vez suscitado de forma espontânea nas respostas do atores da pesquisa. A cultura organizacional, que foi discutida à luz das questões n.º 13, 14, 22 e 23 do questionário, foi trazida à tona nas seguintes respostas à questão n.º 24:

“Cultura Organizacional” (NUP 00002)

Discricionariedade administrativa” (NUP 00003)

Falta de vontade de ser transparente” (NUP 00004)

“A cultura de acreditar que as informações devem sempre ser mantidas em sigilo e apenas serem disponibilizadas com autorização das chefias.” (NUP 00009)

“O maior deles é a cultura organizacional. A mentalidade das pessoas ainda não entende que os dados devem estar disponíveis, independente de solicitação.” (NUP 00012)

“A cultura de não se dar publicidade às ações de gestão.” (NUP 00016)

“FALTA DE INTEGRAÇÃO ENTRE SETORES DIVERSOS.” (NUP 00020)

“A cultura presa ao passado” (NUP 00021)

“Os principais obstáculos seriam uma visão arcaica de não se atentar a demonstrar para a população qual a realidade da instituição.” (NUP

00036)

O papel desempenhado pela cultura organizacional é tão crucial que pode levar a organização a ser ineficiente. As crenças compartilhadas facilitam as comunicações, contribuem para a tomada de decisão, além de serem importantes para a motivação, a cooperação e o compromisso dos membros desta organização, segundo Dias (2013).

Aparentemente, na UFPB a incerteza detectada anteriormente sobre a influência da cultura organizacional na cultura de transparência foi esclarecida com estes depoimentos que a posicionam como um dos principais fatores para os problemas de falta de transparência. Isto também explica a discrepância apontada na subcategoria da transparência interna (ver 4.2.3.2) pelo motivo apontado no parágrafo anterior: a cultura organizacional não tem facilitado a comunicação interna da instituição e refletido positivamente na percepção da transparência em geral.

4.3.4.4. Subcategoria: Má execução ou entendimento da LAI

Nesta subcategoria, agrupamos as respostas que implicam em descumprimento em relação ao que determinam as normas quanto à gestão das informações públicas, inclusive sua produção e execução. Em suas respostas à questão n.º 24, os servidores mencionam os seguintes entraves para a transparência:

“O portal de transparência não oferece uma linguagem comum a todos.” (NUP 00011)

Clareza sobre a responsabilidades dos chefes de setores sobre a necessidade de publicizar os dados gerados na sua gestão.” (NUP 00013)

“Falta de informaçao correta e desconhecimento das normas” (NUP 00019)

“Falta de conhecimento dos gestores sobre a necessidade de ter uma rotina de transparência nas decisões e ações tomadas por um

setor, assim como uma falta de uma sistematização/prestação de contas das informações que precisam ser publicizadas.” (NUP 00025)

Falta de publicidade” (NUP 00023)

“Publicidade e facilidade de acesso à informação.” (NUP 00024)

Má gestão de informações e de dados.” (NUP 00034)

Dos preceitos das legislações sobre a transparência, no entendimento dos servidores, a questão da publicidade como regra não chega ao entendimento de todos os servidores da UFPB, sobretudo daqueles investidos em função de chefia, como nas palavras dos NUPs 00013 e 00025. Novamente, surge o papel de decisão dos gestores como um aspecto do qual depende as iniciativas de transparência.

Outra questão abordada é sobre a qualidade das informações, como pontuado pelos NUPs 00019, 00025 e 00034. Subentendemos aqui que a qualidade seja relativa à confiabilidade da informação, informação completa e atualizada, conforme um dos problemas apontados na introdução deste trabalho. A LAI define termos no tocante à qualidade da informação em seu art. 4º, dos quais associamos diretamente nesta subcategoria: tratamento da informação (inciso V), disponibilidade (inciso VI), autenticidade (inciso VII), integridade (inciso VIII) e primariedade (inciso IX) (BRASIL, 2011).

Além destes, o quesito linguagem acessível e padronizada é mencionado pelo NUP 00011. Este comentário encontra respaldo no art. 5º da LAI que estabelece que o acesso à informação será franqueado de forma clara, transparente e em linguagem de fácil compreensão (BRASIL, 2011). Complementando este entendimento, o Guia da Transparência Ativa (GTA) utiliza o termo linguagem cidadã, cujo uso objetiva evitar que o entendimento das informações divulgadas seja prejudicado por uso de nomenclaturas pouco conhecidas ou termos técnicos (CGU, 2019).

4.3.4.5. Subcategoria: Infraestrutura de sistema informatizado

A execução da LAI prevê que ela se dará primariamente através do ciberespaço, a rede mundial de computadores, especialmente os pontos elencados para a transparência ativa.

Assim toda a infraestrutura de sistemas é vital para o sucesso das comunicações e intercâmbios informacionais. Destarte, para alguns servidores, a administração pública, incluída a UFPB, ainda carece de investimento em infraestrutura informática adequada:

“organizacao e falta de tecnologia” (NUP 00006)

Sistemas de informações mais eficientes e interligados aos diversos processos e às diversas áreas de serviços da UFPB.” (NUP 00010)

“Falta de modernização.” (NUP 00022)

“requisitos, parâmetros e escolha de sistemas e sistemáticas eficientes” (NUP 00031)

Como se lê nas falas acima há uma percepção de que os sistemas informatizados utilizados pela UFPB não satisfazem completamente as necessidades dos servidores, implicando que os mesmos contribuem em alguma medida para gerar entraves à transparência das informações. Suas palavras são genéricas e, dada a complexidade do tópico, apenas podemos depreender que os sistemas utilizados têm sido ineficientes em relação à interligação das informações com as quais os diversos órgãos internos da UFPB lidam (entre os setores da UFPB e entre a universidade e outras entidades públicas, como o próprio MEC).

Conforme publicizado no website da Superintendência de Tecnologia da Informação (STI), órgão auxiliar de direção superior da UFPB cujo objetivo é apoiar a instituição no desenvolvimento de suas atividades através de serviços de tecnologia da informação e comunicação (TIC), os sistemas institucionais principais são o pacote do Sistema Integrado de Gestão (SIG): o Sistema Integrado de Patrimônio, Administração e Contratos (SIPAC), o Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA) e o Sistema Integrado de Gestão de Planejamento e de Recursos Humanos (SIGRH). Como suas denominações explicitam, cada um é utilizado para o gerenciamento de ações em suas áreas específicas (ensino, pesquisa, extensão, administração financeira e patrimonial e gestão de pessoal).

Além desses, sendo uma autarquia da rede federal de administração pública, utiliza outros sistemas do governo federal especialmente os de administração financeira e

orçamentária cuja manutenção, aprimoramento e suporte são de responsabilidade do governo federal, diferente do SIG, mantido localmente pela STI.

Podemos olhar para esta questão através do modelo de governo eletrônico para o qual a infraestrutura de sistemas eficientes é fundamental. O governo eletrônico tem por objetivo aproximar os serviços públicos do cidadão e sua desburocratização, além de facilitar a integração governamental em seus vários níveis (BARRETO JR.; RODRIGUES, 2013). Contudo, apesar dos esforços governamentais para a melhoria do governo eletrônico empreendido no país desde os anos 2000, o desafio de interligação entre os diversos sistemas informáticos entre os sistemas de governo e do governo com os demais negócios parece ser constante, não obstante a evolução das tecnologias informáticas.

Isto resulta no imperativo de desenvolvimento de sistemas informáticos complexos. As TICs utilizadas para a prestação de serviços pelo governo são plataformas que lidam com tais sistemas que se caracterizam pela enorme dimensão em número de usuários, centenas de funções, e que mudam ao longo do tempo para acomodar novas necessidades na medida em que os sistemas evoluem (TAKAHASHI, 2000).

Um resultado prático da comunicação dos diversos sistemas que integram o governo eletrônico é o aumento da eficiência e da eficácia, bem como a ampliação da transparência, pois facilita a divulgação de dados estabelecidos na legislação pertinente (BRASIL, 2011; 2012; 2016). No caso colocado pelos respondentes, que são operadores de ao menos um dos sistemas mencionados, quando a interoperabilidade entre os sistemas ocorre de forma ineficiente, prejudicam a percepção de transparência das informações necessárias às ações rotineiras e disponibilização ao grande público.