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ENTREVISTADA I Dejamir Cristina

CATEGORIA: SOCIABILIDADE

P: Descreva sua trajetória profissional, se trabalhava, por quanto tempo. Comente um pouco sobre sua experiência profissional

E: Eu trabalhava na saúde bucal, trabalhei na zona rural e na cidade. Trabalhava nas escolas e nas UBS - Unidade Básica de Saúde. Trabalhei por 25 anos e quando me aposentei eu estava atuando na UBS do bairro Dona Zulmira. Quando eu morava em São Paulo eu fiz muitas coisas até me mudar para Uberlândia, em 1988. Daí em diante, sempre atuei na Prefeitura Municipal de Uberlândia, na função que desempenhei por 25 anos. Nos 25 anos em que trabalhei na saúde bucal, trabalhei em vários lugares da cidade, inclusive na zona rural.

O que eu mais gostava no meu trabalho era o bem que a gente fazia para as outras pessoas. Principalmente crianças. Eu me lembro que quando eu trabalhava na zona rural e nas periferias da cidade, passavam pela mão da equipe que eu fazia parte, todos os membros de uma família: avós, mães e netos. Então todos os membros das famílias passavam pelas nossas mãos. Então eu via na boca de uma família inteira, o nosso trabalho do tempo de escola. Assim, grande parte da população de Uberlândia tem a dentição boa graças a implementação desse trabalho e a nossa dedicação. No início as condições de trabalho eram bem precárias, não tínhamos materiais suficientes, mas todo o esforço valeu a pena. Eu fiz parte da 2ª equipe da saúde bucal em Uberlândia. Quando esse trabalho havia sido implementado há 1 ano. Eu considero que esse trabalho nosso foi muito importante para as famílias carentes e sem acesso à saúde bucal. Foi um serviço essencial que nós executamos e por isso foi muito gratificante para mim. P: Existia uma relação de amizade entre a equipe de trabalho e a população atendida?

E: Sim. A gente tinha uma proximidade muito grande. Fiz muitos amigos da equipe de trabalho e também com os professores, enfermeiros, médicos e até mesmo dos alunos atendidos e seus pais. Até hoje essas pessoas lembram de mim. Outro dia eu fui comprar um sapato e quem me atendeu foi uma menina que eu atendi há muito tempo na comunidade de Olhos D'Agua, que fica na zona rural daqui. Eu não a reconheci, porque ela já está adulta, mas ela me reconheceu. Eu fiquei muito feliz.

P: Qual seu conceito de amizade?

E: Para mim, amizade é você ter aquele contentamento ao encontrar pessoas, de relembrar passagens do tempo em que esteve mais próxima daquelas pessoas. É ter intimidade com outra pessoa. Às vezes eu encontro pessoas que me perguntam coisas da minha vida, da minha família. Então, ainda que já tenha passado muito tempo sem encontrar, esse amigo lembra de coisas que eu compartilhei em conversas.

Amizade é uma escolha. Então se eu escolho uma pessoa, eu vou ter contato, vou ter intimidade e convivência com aquela pessoa. Toda a minha vida eu penso minhas amizades dessa forma. Apesar da velhice, eu não acho que hoje seja diferente.

P: Há quanto tempo frequenta o SESC? O que te motivou a procurar a instituição?

E: Há dois anos. Embora eu tenha ficado quase 1 ano afastada, mas comecei a frequentar o SESC há dois anos. Quando eu entrei na informática, eu já fazia coral, alongamento, academia. Eu procurei o SESC pela necessidade de fazer uma atividade física e de manter a socialização com outras pessoas. Quando a gente se aposenta, a gente corre o risco de perder o contato com as outras pessoas. Embora eu ainda tenha contato com os colegas do trabalho, depois que me aposentei, eu não tenho mais aquele convívio diário da rotina de trabalho. Então, a vida da gente se modifica depois que vem a aposentadoria, então é preciso de procurar um meio para socializar, para não ficar isolada dentro de casa. E por questão de saúde, também, houve recomendação médica porque eu tenho histórico de problemas de saúde que exigem que eu faça atividade física.

Quando eu trabalhava, a minha vida era muito corrida por causa do trabalho. Sempre eu tive que cuidar da minha casa, da minha família. Era casada, mas depois me separei. Aí depois que me aposentei tive mais tempo para cuidar de mim. Eu procuro fazer mais coisas pensando na minha saúde.

P: No SESC, durante o curso de informática, você se lembra de alguma atividade que marcou sua memória?

E: Eu gostava muito do professor. Ele era muito atencioso e delicado com a gente. Quando eu entrei na informática, eu entrei mesmo pela necessidade porque hoje em dia é tudo informatizado na vida. Mas eu tenho uma certa resistência a informatização, embora eu saiba que é um mal necessário. Eu sempre fui muito desenvolta com o que faço e eu vejo que na informática as coisas são muito lentas, travam muito. Eu acho que não tem muito suporte. Então, quando eu estou conectada ou preciso fazer alguma coisa, eu fico muito angustiada porque as coisas são muito lentas e ficam travando demais.

A minha rejeição é mais nesse aspecto. Embora eu tenha consciência do risco que temos de perder a nossa privacidade porque tem muita gente fazendo maldade e dando golpes por aí. Isso também me preocupa porque eu acho que não tem uma lei que garante a preservação da privacidade das pessoas que usam a internet. Então, eu acho que a internet ajuda muito em determinados pontos, mas em outros, prejudica.

Principalmente para pessoas da minha idade ou o pessoal mais antigo que não tem muita intimidade com a informatização cai muito em golpes.

Eu, felizmente, mexo pouco. Só o necessário, aprendo uma coisa aqui, outra li. E não vou dando muita abertura não, por isso é mais difícil para alguém me enganar. Mas não é todo mundo que consegue se segurar, filtrar e analisar se aquilo pode ser algo positivo ou negativo.

P: No curso do SESC foi seu primeiro contato com a informática?

E: Domínio, domínio eu não tenho até hoje. Na época do curso eu não tinha computador. O professor pedia sempre para a gente fazer tarefas no computador em casa para treinar. Então, eu usava o computador da minha filha, mas como ela é professora, eu tinha muito de sumir com algumas coisas de escola dela, por isso eu tinha um pouco de medo de mexer. Quando eu comprei o meu, já estava no final do curso. Eu até levei ele para o professor ver. Muita gente do curso comprou também. Só que aí eu comecei a ter problemas de saúde na família, então não deu tempo de treinar muito. Mas ainda assim, de vez enquanto eu uso o meu, faço alguns joguinhos, abro meu e-mail, pesquiso algum lugar de férias que eu pretendo viajar. Então me ajuda em algumas coisas.

de amizade?

E: O nosso grupinho é um grupinho bom, mas são poucas as pessoas que eu tenho contato. Porque eu não sou muito de ficar em rede social. Tem algumas pessoas que eu não tenho como não responder porque mandam coisas para mim todos os dias. Mas, no geral, eu creio que melhorou.

P: Você acha que após ter aprendido a acessar as redes sociais no curso de informática, seu número de amigos se ampliou?

E: Não. Eu acho que o número de amigos que eu tenho não foi ampliado por causa do curso de informática.

P: Quem são as pessoas que estão em seu Facebook?

E: São amigos que eu acumulei ao longo da vida e pessoas da minha família. P: O que você pensa do Facebook, WhatsApp?

E: Como eu te disse eu não sou muito ligada nisso. Mas eu acho que agiliza o contato imediato com alguém, o acesso a notícias, do nascimento ou da morte de alguém. Coisas que levariam mais tempo para ficar sabendo, a gente descobre nas redes sociais. Eu uso minhas redes sociais só para isso. Compartilhar e, principalmente, receber informações. Tem vez que eu passo até 1 semana sem usar o Facebook.

Agora a gente tem o "zap" fica mais fácil saber das coisas, combinar coisas pelo celular. Então o Facebook, eu quase nem uso mais para isso.

P: O acesso as redes sociais pelo computador ou celular te faz ficar mais próxima ou mais distante das outras pessoas?

E: Eu acredito que vai de lá para cá. Eu tenho muitas amigas, por exemplo, que eu sei que se eu não tivesse o Facebook ou o zap seria mais difícil para elas entrarem em contato comigo. Então, o contato delas comigo, com certeza, é facilitado. No meu caso, eu prefiro pegar o telefone fixo e ligar. Você acredita que eu prefiro mandar um cartão? Eu gosto do intimismo. A internet deixa as relações muito frias. Eu, até hoje, mando cartas. Eu tinha uma amiga em Guarulhos, que faleceu, que e a gente se escrevia o ano inteiro. Tenho outra em Guarulhos que a gente se escreve com frequência. Eu acho que isso torna as relações mais afetivas e verdadeiras.