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2.4. Categorias e Elementos Descritores da Pesquisa

2.4.1. Categorias

Para analisar as alterações ocorridas nas experiências descritas no presente trabalho, verificando se houve reflexão significativa sobre o trabalho pedagógico desenvolvido e se essa reflexão provocou alterações na prática, utilizarei três categorias, apoiada em Martins (2000) e Gouveia (2000): profissional liberal da educação, assalariado do ensino e profissional da educação. Diante disso, torna-se necessário situar historicamente o surgimento destas categorias.

Martins elaborou seu trabalho na década de 80. Momento em que se iniciou em nosso país, a abertura política do regime militar instalado em 1964, e pelo acirramento das lutas de classes. Foi neste cenário que autora construiu suas concepções sobre assalariado de ensino e profissional da educação. Atualmente, estas concepções ainda permanecem, mas há uma flexibilidade em relação ao professor.

É aceito que há uma contradição entre a formação inicial do docente e o trabalho existente na escola. De acordo com Martins (p. 77), o professor em sua formação inicial é preparado para conceber, executar e controlar o seu trabalho. Ser autônomo. Tem-se a idéia que o professor é “dono do seu trabalho”, ou seja, um profissional liberal. Aquele que é independente, capaz de determinar as próprias normas de conduta.

O pressuposto básico dos cursos de formação inicial de professores é que a teoria precede a prática, acredita-se que dominando a teoria, a prática pedagógica ocorrerá satisfatoriamente.

Os futuros professores recebem em sua formação o enfoque na competência técnica, tratada de forma padronizada, neutra e podendo ser aplicada em qualquer situação.

O professor vai para escola dominando os conteúdos abordados nas disciplinas pedagógicas, que não levam em consideração as implicações sociais que existem no espaço escolar. E mesmo assim são considerados habilitados para trabalhar no magistério.

Entretanto, quando o professor chega à escola, a realidade que encontra é bem diferente. A atribuição de planejamento e avaliação lhe é negada. O que lhe cabe é

executar um plano de ensino elaborado por terceiros. Não lhe é permitido conceber e controlar os resultados do seu trabalho.

Segundo Martins “... Entre o profissional liberal, delineado pela Didática teórica, e o assalariado do ensino vivenciando a Didática prática, há uma grande distância.” (2000, p. 78).

O conceito de professor assalariado do ensino refere-se à época da ditadura em que os professores eram sufocados pelo medo da repressão, calando-se e procurando atender o que era permitido. A repressão fez com que o professor se calasse e cumprisse ordens superiores. O assalariado significa “você trabalha para uma empresa, portanto ordens devem ser cumpridas.” Devemos lembrar que todo professor pertence a uma empresa educacional, publica ou privada, assim somos na realidade assalariados. Cumprir ou não ordens vai depender da liberdade que a empresa permite e nós realizamos.

O professor apresenta imensa insegurança sobre a qualidade do seu trabalho, e isto provoca uma dificuldade em mudar, vê-se preso e sem liberdade para transformar sua prática. O docente sente-se imobilizado devido às exigências impostas pelo sistema econômico e político em que a escola está inserida.

Os cursos de formação de profissionais do magistério não consideram as implicações existentes no espaço escolar e as características do sistema capitalista, as quais determinam o modo de ser da escola.

A análise das implicações provocadas pela influência da organização do trabalho da escola no desenvolvimento do processo educativo é desprezada e, também, não leva em conta a história deste professor, ou seja, não é preparado para o exercício real da sua profissão. (Martins, 2000).

Diante desta contradição em formar-se um profissional liberal e ter que se tornar um assalariado do ensino, o professor desenvolve meios para reagir.

Concordando com Martins (2000), o professor busca espaços e meios, para criar novos caminhos, a partir das necessidades dos seus alunos e das contradições vivenciadas por ele, constituindo os germes de uma teoria pedagógica alternativa. Esta contradição pode promover a transformação da prática pedagógica por meio da investigação, levando em consideração a realidade dos alunos. Porém, não consegue ser

O assalariado do ensino executa o trabalho determinado por especialistas, dependente das amarras do sistema capitalista. Chega a ter uma visão crítica da sua realidade, mas são as condições objetivas de trabalho que o fazem ficar preso e muitas vezes não vê saída para resolver os entraves vivenciados.

Já o profissional liberal é independente, constrói suas normas para se tornar “dono do seu trabalho”. Porém, sabe-se que a existência deste profissional está no plano do ideal, pois o sistema capitalista, em que a sociedade está inserida, controla as normas e não permite que o trabalhador, mesmo conhecendo a sua realidade e as implicações sociais que a influenciam, torne-se independente, autônomo.

Diante disso, para complementar as concepções de Martins, trago à tona as concepções de Gouveia para melhor categorizar o papel do professor diante do seu trabalho.

Gouveia (2000) escreveu seu artigo em um momento que há uma grande liberdade de expressão da sociedade. Afirma em um dos seus artigos que o professor tem recebido vários adjetivos, tais como, professor reflexivo, pesquisador, crítico e cidadão, mas pouco tem se discutido sobre como este professor pode tornar-se um profissional da educação. Enfim, há uma preocupação em caracterizar o professor, mas pouco se tem discutido sobre caminhos que possibilitem ao professor transformar seu trabalho, permitindo que tome decisões e aproximando a teoria da prática.

Para Gouveia (p.02), o profissional da educação é aquele professor que é sujeito de ações transformadoras, produtor de conhecimento, podendo tomar decisões sobre o seu trabalho. Aquele que compreende o processo alienador em que a sociedade vive e rompe a dicotomia entre a teoria e a prática: “... articulando teoria e prática num movimento contínuo de reflexão sobre o próprio trabalho.” (2000, p.02).

Para que o professor deixe de ser um mero executor de tarefas é necessário que encontre um espaço para refletir sobre o próprio trabalho, compreendendo os obstáculos que surgem no seu cotidiano, desenvolvendo ações político-educativas não neutras (Gouveia, p.02).

O profissional da educação compreende as limitações, as amarras que o sistema capitalista impõe, para concretizar seu trabalho. Conhece as implicações sociais que ocorrem na escola e visualiza espaços e meios para se mobilizar, provocando a transformação do seu trabalho.

É aquele profissional assalariado, pois trabalha mediante salário, mas que compreende a razão de ser da realidade e luta para tornar-se autônomo.

Portanto, é aquele que investiga sua prática a fim de compreender os resultados obtidos, produz conhecimento a partir da sua prática social e é capaz de tomar decisões sobre o seu trabalho, apesar dos obstáculos impostos pelo sistema capitalista.

Diante destas concepções e apoiada em Martins e Gouveia, passarei a utilizar as categorias: profissional liberal da educação, assalariado do ensino e profissional da educação.

Os elementos descritores selecionados para auxiliar este processo de análise foram aqueles considerados mais relevantes para o professor e que estão presentes no seu trabalho: planejamento, conteúdo, metodologia, avaliação, relação professor - aluno e relação professor – professor.

No documento O professor que aprende enquanto ensina (páginas 61-65)