3 ABORDAGENS DE GÊNERO
4.1 Estudos sobre o riso, o cômico, o humor
4.1.1 Categorias do humor
Travaglia (1989a, p. 47-66) em “O que é engraçado? Categorias do risível e o humor brasileiro na televisão” faz um estudo para investigar o humor nos programas humorísticos na televisão brasileira. Para tanto, estabelece como instrumental para a análise dos gêneros do humor seis categorias, as quais discorro a seguir.
A primeira categoria está relacionada com a forma de composição. Essa categoria é dividida nas seguintes subcategorias: descritivo, narrativo e dissertativo. O descritivo refere- se a como algo ou alguém é. Esse tipo de humor inclui as caretas e trejeitos do comediante, e as caracterizações, caricaturais ou não, dos tipos e personagens. No tipo narrativo o que provoca o riso é o que acontece. No dissertativo o que faz rir são as ideias.
A segunda categoria refere-se ao objetivo do humor. O autor estabelece quatro subcategorias: 1°) Riso pelo riso: o único objetivo do humor seria divertir, fazer rir. Para Travaglia (1989a), é difícil sustentar a existência desse objetivo, uma vez que todo humor acaba sendo liberador, pelo menos, sob o ponto de vista psicológico. De acordo com o autor, a vocação básica do humor é a crítica e a denúncia. 2°) Liberação: apesar desse objetivo ter sido proposto pela abordagem psicológica, não deve ser entendida como extravasão ou catarse. O
caráter da liberação é sócio psicológico; é por meio do humor que se rompe com a proibição e a censura social imposta ao indivíduo ou aos grupos sociais. Mesmo sendo a liberação o objetivo principal do humor, visto que há um rompimento da malha da estrutura social em que as pessoas estão presas, a liberação segue algumas regras para determinados assuntos. Por exemplo, na sociedade brasileira, não se conta piadas sobre sexo para qualquer pessoa ou em qualquer lugar. 3°) Crítica social: A crítica social (que se refere à política, aos costumes, às instituições, aos serviços, ao caráter ou ao tipo humano e ao governo) é um dos objetivos básicos do humor, que visa modificar a sociedade. Por meio da crítica, mostra-se o absurdo e o ridículo de alguns comportamentos humanos, para que com isso as pessoas vejam a necessidade de romper com as estruturas sociais, às quais estão presas. 4°) Denúncia: A crítica se refere aos comportamentos implícitos, velados, não admitidos pela sociedade, os quais se perpetuam graças à dissimulação, à hipocrisia, à concordância da sociedade.
A terceira categoria é a do humor quanto ao grau de polidez, a qual é dividida pelo autor nas seguintes subcategorias: humor de salão, o médio e o sujo ou pesado. O humor de salão caracteriza-se por utilizar uma linguagem polida, nobre, sem palavrões. Para se referir a fatos, acontecimentos relacionados, por exemplo, ao sexo, ao preconceito, utilizam-se metáforas e uma linguagem velada, indireta. O humor sujo ou pesado apresenta características contrárias às do humor de salão. Isto é, utiliza palavras obscenas, palavrões, termos de baixo calão, “e apresenta, de forma direta e explícita, elementos, cuja explicitação quase sempre constitui tabu. ” (TRAVAGLIA, 1989a, p. 52). Travaglia (1989a) propõe o humor médio e explica que esse tipo de humor fica entre o humor educado e polido e o humor agressivo, que não atende às normas sociais. Admite que quase não se ouve falar nesse tipo de humor (o humor ou se insere no humor de salão ou no humor sujo, meio pesado) e que existe certa interferência do analista para se chegar à conclusão do que pertence ao humor médio ou sujo. “O que passa do polido para o razoavelmente polido e para o grosseiro varia de pessoa para pessoa.” (TRAVAGLIA, 1989a, p. 53). Nos resultados de seu estudo, Travaglia (1989a) assevera que, como era de se esperar, apenas o humor de salão e médio é veiculado pela televisão, onde se tem a fiscalização da censura federal e da sociedade. O humor sujo fica restrito a bares, boates, shows em teatro, discos, publicações escritas, etc. Convém ressaltar que esse tipo de humor prevalece nesses eventos, “mesclado”14 com o humor sujo, de salão e médio, ou seja, uma mesma apresentação é composta pelo humor de salão, médio e sujo, com
14 O termo “mesclado” pode ser substituído pelos termos “cruzado” ou “fundido”, utilizados por Travaglia (2007, p. 1299) ao apresentar a relação dos tipos na composição dos gêneros. Nesta pesquisa, o termo “fundido” indica que o gênero stand up apresenta, em uma mesma apresentação, características de duas ou mais subcategorias do humor.
a predominância do humor sujo. Na realidade, esse tipo de controle é feito, de forma velada; ele acontece na medida em que o público decide assistir ou não (ou até mesmo recomendar a outras pessoas) um determinado espetáculo. Sendo assim, o comediante se vê impelido a adequar o seu repertório e suas escolhas linguísticas à plateia. Para determinados públicos o uso de palavrões pode ser bem aceito, para outros, nem tanto, o que pode acarretar em um fracasso da apresentação, com a consequente presença de um número reduzido de pessoas.
A quarta categoria trata sobre o assunto: negro, sexo, social (político, costumes, instituições, serviços, caráter ou tipo humano, governo, classes e língua) e étnico. Nesta categoria, Travaglia (1989a) propõe quatro subcategorias: negro, sexual, social e étnico. No humor social, inclui o político.
O humor negro refere-se ao riso provocado por meio das “tristezas trágicas, de doenças e patologias, das deformidades físicas ou não, das desgraças.” (TRAVAGLIA, 1989a, p. 53). Esse humor é construído de forma agressiva, violenta, focalizando assuntos que a sociedade qualifica como misericordiosos, piedosos, que, por isso mesmo, são resguardados, não são tratados com qualquer pessoa ou em qualquer ambiente. “Ao fazer rir dessas coisas o humor negro parece preparar para fatos terríveis, indesejáveis, através da capacidade de tirar da desgraça algo risível e dessa forma não sucumbir.” (TRAVAGLIA, 1989a, p. 53).
O humor social focaliza “classes e grupos da sociedade e tipos humanos através da crítica de suas características, costumes, preconceitos, atitudes, da denúncia do que fazem contra a própria sociedade ou ajudando-os a libertar-se das amarras de que são vítimas.” (TRAVAGLIA, 1989a, p. 54). Segundo Travaglia (1989a), o humor social pode ser subdividido em político, de costumes, de instituições, de serviços, de caráter, de governo, de classes, de língua.
O humor étnico enfoca características que podem ser reais ou atribuídas a grupos étnicos, raças, povos. Essas características são realizadas por meio dos scripts da estupidez, da astúcia (esperteza), da mesquinhez, da aberração sexual. De acordo com Travaglia (1989a), no humor étnico a desvalorização de um grupo em detrimento a outro é muito comum. Por isso tem-se o uso da estupidez, da mesquinhez e da aberração, por um lado, e o uso da esperteza e da astúcia, de outro.
As zombarias em torno, por exemplo, da etnia, da religião, do sexo, servem, na construção do humor, para fomentar a necessidade das pessoas de mascarar a realidade, expressando de forma amena, até mesmo polida, aquilo de que não é permitido falar abertamente. Para muitos estudiosos, o riso é considerado uma catarse, visto que ajuda a dirimir/expurgar os sentimentos de medo, de angústia.
A quinta categoria é a do humor quanto ao código-verbal ou linguístico e não verbal (situação, gestos, movimentos e atitudes corporais, caracterização, expressão fisionômica, ruídos vocais não linguísticos, objetos, voz). O humor verbal ou linguístico refere-se ao que é dito ou escrito. O humor não verbal refere-se a outros códigos, que não os escritos ou ditos. Esse tipo de humor pode se referir: a) à situação que é engraçada. Travaglia (1989a) exemplifica um quadro em que a pessoa fala mal de uma pessoa para ela própria, pois não a conhece, ou fala de uma pessoa sem perceber que ela está no ambiente. O autor chama atenção para que esse humor não seja confundido com a oposição que Milner estabelece entre o humor enlatado/ humor situacional, “em que ele se refere a piadas prontas contadas (enlatado) e àquelas que são criadas no momento, aproveitando elementos da situação corrente. ” (TRAVAGLIA, 1989a, p. 56); b) gestos; c) movimentos e expressões/ atitudes corporais; d) caraterização dos personagens: neste tipo de humor, de acordo com autor, no que se refere à televisão (acrescento: aos vídeos veiculados pela internet) entra a caricatura
viva e não em desenho. A caracterização dos personagens como, por exemplo, o uso de roupas especiais e maquiagem, não é utilizada pelo comediante nas apresentações do stand
up. Uma das premissas para a elaboração de uma apresentação é o comediante estar de cara
limpa, valendo-se apenas de um microfone (ou, raras vezes, de um banquinho). Isto é, o apresentador deve lançar mão apenas da linguagem verbal e não verbal, sem o apoio de recursos externos: roupas que caracterizem um personagem, música, sons instrumentais, vozes de outras pessoas; e) expressões fisionômicas; f) ruídos vocais não linguísticos; g) objetos, por exemplo, uma bengala, um banco da praça, como utilizado no programa A Praça é Nossa15; h) voz: o tipo de voz, esganiçada, grossa, melosa, ríspida, etc., contribui para desencadear o riso. De acordo com Travaglia (1989a), outros códigos podem ser utilizados como o desenho, a pintura, a cor. A luz e a música entram como auxiliares no humor veiculado pela televisão.
A sexta categoria é o que provoca o riso. Essa categoria está subdivida em duas subcategorias: 1a) scripts (estupidez, esperteza ou astúcia, ridículo, absurdo, mesquinhez); e 2a) mecanismos (cumplicidade, ironia, mistura de lugares sociais ou posições de sujeito, ambiguidade, uso de estereótipos, contradição, sugestão, descontinuidade de tópico, paródia, jogo de palavras, quebra-língua, exagero, desrespeito a regras conversacionais, observações metalinguísticas, violação de normas sociais). A seguir, de forma resumida, apresento a definição das divisões de cada subcategoria. 15
15 Programa humorístico criado por Manuel da Nóbrega em 1956, com o nome A Praça da Alegria, veiculado na televisão brasileira.
O script estupidez diz respeito à falha do personagem, o que o torna bobo, estúpido. No script esperteza ou astúcia, o personagem se mostra esperto diante de uma situação, em que sempre se sai bem. O ridículo tem a ver com a situação em que o personagem ultrapassa a normalidade. De acordo com Travaglia (1989a, p.58), “o ridículo é uma certa inadequação criada pelo exagero.” No script absurdo, o senso comum, as regras são contrariadas. A mesquinhez tem a ver com a avareza, a não generosidade. Segundo Travaglia (1989a), no humor brasileiro esse script é muito usado nas piadas de turcos e judeus.
No mecanismo cumplicidade, a plateia se vê cúmplice daquilo que o comediante diz ou faz e que ninguém ousa dizer ou fazer. A ironia é definida por Bergson (2001, p. 61) como a enunciação do “que deveria ser fingindo-se acreditar ser precisamente o que é.” O mecanismo mistura de lugares sociais ou posições de sujeito indica lugares sociais que o sujeito pode ocupar que não a sua, por exemplo, o empregado falar do lugar patrão. A ambiguidade, de acordo com Travaglia (1989a, p. 60), “tem a ver com a ‘interferência recíproca de séries’ de BERGSON, com os dois scripts de RASKIN e todas as teorias cuja base é a bissociação”. Uso de estereótipo refere-se ao uso de elementos, quase sempre caricaturados, de uma classe ou grupo social, por exemplo, homossexuais, rico, pobre, mulher, gordo, magro, malandro, caipira. Segundo Travaglia (1989a), “o estereótipo no humor é sempre usado com uma dimensão social negativa, pois o riso advém da desvalorização social, do estigma que faz do estereótipo algo ridículo.” O mecanismo contradição pode ser materializado de diferentes formas no humor como: negar verbalmente o que é óbvio em uma situação ou falar alguma coisa e fazer outra. Na sugestão, o humor reside na incompletude do dizer, no dizer implícito, sugerindo algo que não está de acordo com as normas sociais. A descontinuidade de tópico ou quebra de tópico, segundo Travaglia (1989a), é um mecanismo que tem a ver com o desenvolvimento da conversação. A paródia é imitação do original ridicularizada, normalmente, pela caricatura. No mecanismo jogo de palavras lança-se mão de diferentes sentidos explorados por meio da homonímia, polissemia e das semelhanças fônicas. Para Travaglia (1989a, p. 64), “o quebra-língua é uma sequência de palavras que cria dificuldades articulatórias para o falante, levando-o a dizer outras coisas ou a não conseguir dizer a sequência.” O exagero é um forte mecanismo do humor; pode ser materializado, por exemplo, no dizer (repetição, redundância e pleonasmo), na caracterização do personagem, nos gestos. O desrespeito a regras conversacionais, segundo Travaglia (1989a, p. 64), “é calcado na desconsideração de marcadores conversacionais, pares adjacentes, tomada de turno, dicas de correção e outros elementos da estrutura conversacional.” O mecanismo observações metalinguísticas refere-se a observações feitas,
por exemplo, ao próprio cenário, às roupas utilizadas pelos atores, aos atores da apresentação. A violação das normas sociais está diretamente ligada a um dos objetivos do humor que é contestar, de romper com a estrutura social vigente (TRAVAGLIA, 1989a, p. 65). Segundo o autor, esse mecanismo ocorre “quando o personagem se autodeprecia, diz ao outro coisas que as normas da boa educação manda calar, deprecia o outro ou tem comportamentos que contrariam o que a sociedade estabeleceu.”
À subcategoria mecanismo, Sousa (2012) acrescenta a subcategoria criatividade. Segundo Sousa (2012, p. 93), “a criatividade é a própria capacidade de criar, de inventar, mas não necessariamente algo original.” A criatividade tem a ver com a capacidade do comediante de improvisar uma situação inesperada.
A seguir, apresento a teoria semântica do humor com base nos scripts (TSHS), proposta por Raskin (1985), revisada por Attardo e Raskin (1991).