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CAPÍTULO IV DA TEORIA À PRÁTICA

4.2 CATEGORIAS E ANÁLISE TEXTUALMENTE ORIENTADA

4.2.1 Categorias da Análise Textualmente Orientada

As categorias aqui aplicadas, no âmbito da ADC, vêm de Fairclough (2001 e 2003):

 Avaliação: categoria identificacional e que se refere a apreciações ou a perspectivas do locutor sobre aspectos do mundo. Fairclough (2003) relaciona esta categoria com o que é expresso como bom ou ruim, desejável ou não, em um texto. Para ele, o modo como as pessoas se expressam nos textos é uma parte importante da maneira como elas se identificam e estruturam identidades. As avaliações afetivas se referem a afirmações com processos mentais afetivos que envolvem eventos psicológicos, como reflexões, sentimentos e percepções.

 Modalidade (FAIRCLOUGH, 2001): categoria que se refere ao que os autores consideram real, verdadeiro ou necessário; pode ser vista como a questão de como as pessoas se envolvem quando fazem declarações. A modalidade é importante na estruturação de identidades. A forma como uma pessoa representa o mundo, aquilo com o que ela se compromete é parte de como ela se identifica em relação ao outro com quem interage. As

145 identidades são relacionais: quem uma pessoa é constitui o modo como ela se relaciona com o mundo e com as outras pessoas.

 Interdiscursividade (FAIRCLOUGH, 2001): refere-se aos discursos articulados, ou não, nos textos, e suas conexões com lutas hegemônicas mais amplas.

4.2.2 Análise Textualmente Orientada

Os excertos apresentados a seguir se referem a atividades pedagógicas (fichas, provas, exercícios, avaliações) elaboradas pelos professores e encaminhadas à revisão. Imediatamente seguindo esses excertos, encontram-se as categorias de análise, a explicação de sua aplicação aos excertos e as sugestões do revisor à luz dessas categorias da ADC. A cor vermelha chama a atenção para os aspectos abordados às luz dessas categorias.

Atividade Pedagógica 1

Ao revisar o texto, para além das considerações de ordem formal, considerei a categoria de ADC avaliação (FAIRCLOUGH, 2003). Essa é uma categoria identificacional e que se refere a apreciações ou a perspectivas do locutor, no caso, o professor, sobre aspectos do mundo: a importância da figura paterna, tendo o pai como a figura cujos interesses mais comuns e esperados sejam trabalhar, ler e fazer a barba; interesses que representam ações individuais. Bauman (2011) chama a atenção para o problema do postulado da individualidade que se estende no vácuo social:

as raízes do que nos perturba [...] e se coloca no caminho de uma vida digna e moralmente satisfatória [...] são semeadas e cultivadas socialmente e só coletivamente podem ser desenterradas e desintoxicadas. [...] Uma [das principais realizações da individualização] é minar a própria possibilidade de agir socialmente (BAUMAN, 2011, p. 120, grifo nosso).

Na obra de 2003, Fairclough distingue personalidade de identidade social. Sobre esta última, ele diz que as pessoas são involuntariamente posicionadas como agentes primários em grupos nos quais, inicialmente, elas não têm escolha – camponeses, classe operária ou classe média, do sexo masculino ou feminino. Nesse sentido, tornar-se uma personalidade é uma questão de estar apto a (re)formular interesses primários e priorizar seu próprio papel social. Este é um processo de constrangimentos: parte da dialética entre identidade social e identidade pessoal (personalidade) é que a primeira constrange a última (FAIRCLOUGH,

Projeto: Paternagem, um exercício de cuidados.

Atividade: representar o próprio pai fazendo algo que ache interessante: trabalhando, lendo, fazendo a barba.

146 2003, p. 159-161). Neste caso, com o objetivo de fazer a criança “refletir sobre a importância da figura paterna no meio familiar”, o professor contrastou uma ação estereotipada, cotidiana, individual e individualista e atribuída ao gênero masculino – fazer a barba – a com a real importância do pai no meio familiar, inclusive, como exemplo aos filhos. Assim, considerando esses pressupostos avaliativos da ADC e um dos pilares da instituição de ensino – propagar valores humanísticos –, sugeri o que se lê abaixo.

Sugestão do revisor:

Atividade Pedagógica 2

Ao revisar o texto, para além das considerações de ordem formal, apliquei a categoria de ADC interdiscursividade (FAIRCLOUGH, 2001). Neste caso, é possível identificar o discurso capitalista, alimentado pelo consumismo, mesclado ao discurso pedagógico. Ao classificar o aluno como “consumidor” e como desejoso de “possuir todas essas coisas”, o texto pedagógico se alinha ao discurso capitalista que naturaliza a vontade de se possuir todas as coisas anunciadas pelo rádio, pela televisão, pelo correio ou pela internete. Apliquei essa categoria e essas considerações da ADC à luz do projeto anual da instituição de ensino intitulado Consumo, sim. Consumismo, não, o qual ensina que nossa sociedade é uma sociedade de produção e, logo, de consumo, mas que há uma diferença entre este e o consumismo. Bauman (2011, p. 128) é um dos filósofos que embalam esse projeto anual. Ele diz “o impacto mais pernicioso do mercado de consumo é a promessa de que a cura para todos os problemas de que você possa padecer está à espera em alguma loja”. Para ele, quanto mais habilidoso é o consumidor, mais inepto é o cidadão. Assim, considerando o que dizem Fairclough (2001) e Bauman (2011), como revisora, sugeri o que se lê abaixo.

Sugestão do revisor:

Texto: Consumo: você liga o rádio ou a televisão para ouvir uma boa música ou para assistir a seu programa preferido e lá vem comercial de sabão, comercial de carro, comercial de brinquedo... E não para aí... As mensagens publicitárias chegam pelo correio e pela internete, estão nas ruas, nos outdoors, nos folhetos.

Atividade: você é o consumidor: você fica com vontade de possuir todas essas coisas? Se você tivesse uma lâmpada mágica de Aladim, quais seriam seus três desejos? Por meio de uma produção de texto no gênero relato, conte para os colegas o que você pediria.

Substituir "fazendo a barba" por "sendo solidário". Sugiro essa mudança à luz da circular que mandamos aos pais falando do Projeto Valores: focar no pai como um ser social, e não como indivíduo, ou seja, focar no pai preocupado com a sociedade, com a humanidade e não apenas com a própria família ou consigo mesmo. É sairmos do individual para o global, para o social, na linha do pensamento nietzschiniano e baumaniano, os filósofos do projeto anual da escola.

Texto: Consumismo: você liga o rádio ou a televisão (...) folhetos.

Complementar o comando para os alunos entenderem que o que você, professora, quer é fazê-los refletir, e não os induzir, a comprar: “Termine seu texto dizendo se seus desejos

147 Atividade Pedagógica 3

Ao revisar o texto, para além das considerações de ordem formal, apliquei as categorias de ADC avaliação afetiva (FAIRCLOUGH, 2003) e interdiscursividade (FAIRCLOUGH, 2001). Por um lado, as avaliações afetivas são afirmações com processos mentais afetivos que envolvem eventos psicológicos, como reflexões, sentimentos e percepções. A afirmação avaliativa explícita, neste caso, presente na palavra amor expressa uma percepção positiva do professor diante de pátria, avaliação esta que se cruza, em uma interdiscursividade, com o discurso político.

Por outro lado, conforme Fairclough (2001), a relação entre interdiscursividade e hegemonia é importante. Nesse sentido, no atual quadro mundial de incertezas com a diluição das fronteiras entre países, ameaças de terrorismos, agressões ao meio ambiente e atuação do capitalismo que lança significativa parcela da população em condições de desigualdade social e de extrema pobreza interessa, à elite, reforçar a influência positivista no Brasil conformada na bandeira nacional na frase Ordem e Progresso, siginificando: o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por meta.

Devemos ressaltar que as origens do positivismo são cristãs. Na obra de 1852 (traduzida no Brasil em 1895), Augusto Comte se refere à expressão ordem em progresso como forma de viver para outrem, subordinando o indivíduo à pátria. Essa obra é intitulada Catecismo Pozitivista ou Sumária Expozição da Religião Universal. Dessa forma, abordar o positivismo refletido na bandeira nacional sem um estudo histórico e crítico deve dar lugar à abordagem dos assuntos da pátria sob o viés da identidade nacional, que se estabelece pelo idioma materno, pela cultura, pela história de um povo, pela geografia. O amor poderia ser abordade pelo viés filosófico, em que o amor é o princípio da relação entre os homens, e não pelo amor senso comum tomado como condição sine qua non para se ser reconhecido como cidadão.

Sugestão do revisor:

Atividade pedagógica 4

Área Contemplada: língua portuguesa e história

Objetivo: despertar nos alunos o amor e o respeito pela pátria, estudando o passado histórico e a significação da data “sete de setembro”; desenvolver o amor à pátria.

Sugiro mudar o enunciado "desenvolver o amor e o respeito pela pátria" para "desenvolver o patriotismo". O verbete "amor" tem uma conotação de acriticidade (lembra-se do aforismo "o amor é cego"?) e tem várias acepções: platônico, romântico, pragmático, erótico, altruísta, religioso. Então, "amor" pela pátria induz-nos a pensar em certa alienação. Nietzsche, na obra Um olhar sobre o Estado (2000, p. 239), já falou que a subordinação é muito valorizada no Estado militar e burocrático: “mesmo nos Estados militares não basta a coerção física para produzí-la [a subordinação], mas se requer a hereditária adoração do principesco como algo sobre-humano”. Assim,

patriotismo é mais racional, logo, mais crítico. Patriotismo é sentimento de

solidariedade que, ao lado das leis, sustenta uma democracia, no sentido de que quando as pessoas deixam de cumprir as leis, elas enfraquecem o Estado e, consequente e contraditoriamente, sua própria liberdade. Esse é o lado social que esse excerto textual e essa atividade pedagógica devem provocar em seus alunos, e não o lado dogmático.

Ver também

148 Ao revisar o texto, para além das considerações de ordem formal, apliquei as categorias de ADC: modalidade e interdiscursividade (FAIRCLOUGH, 2001). A primeira se refere ao que os autores consideram verdadeiro, logo, é identificacional. Considerando outras formas como o professor poderia ter escrito, infere-se que o que ele realmente escreveu (“o verdadeiro significado da Páscoa”) o envolve na verdade da proposição mais do que a alternativa apresentada pelo setor de revisão (abaixo, na sugestão do revisor). As diferenças entre as sentenças são diferenças na modalidade.

A interdiscursividade, por sua vez, é representacional, pois se volta para os discursos articulados, ou não, nos textos. Neste caso, é possível identificar o discurso pedagógico mesclado ao religioso, que se baseia em dicotomias como bem e mal, verdade e mentira universais, e ao discurso capitalista do consumismo (na palavra “presentear”). A Páscoa é um evento predominantemente cristão, mas há também as comemorações judaicas e mesmo as pagãs, logo, diante do respeito à diversidade de credos propagado pela missão da escola, não há verdades absolutas em uma comunidade que detém várias crenças. Nesta análise, considerei, mais uma vez, os pressupostos avaliativos da ADC e o projeto anual da instituição de ensino intitulado Consumo, sim. Consumismo, não. Como revisora, sugeri o que se lê abaixo.

Sugestão do revisor:

Na minha prática de revisora, não alterei os textos, mas fiz sugestões conforme explicado acima. Nos textos finais, todas essas sugestões foram acatadas pelos professores, referendadas pela Coordenação Pedagógica e autorizadas pela Direção. Com as contribuições da ADC tanto em sua teoria quanto em suas categorias de análise, além dos conceitos de contexto e de ideologia, sobrepus meus papeis de revisora e de analista do discurso e ampliei minhas práticas de revisão sugerindo novos textos.