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CATEGORIAS E MEDIAÇÕES CONFORMATIVAS DO ESPAÇO TURÍSTICO

A geografia histórica do capitalismo tem sido absolutamente notável. Povos dotados de total diversidade de experiências históricas, vivendo em uma incrível variedade de circunstâncias físicas, têm-se unido, às vezes de modo grandioso e por convencimento, mas mais frequentemente mediante o exercício de uma força bruta implacável, em uma unidade complexa no âmbito da divisão internacional do trabalho. As relações monetárias têm penetrado em cada canto do mundo e em quase todos os aspectos da vida social e até mesmo da vida privada. Essa subordinação formal da atividade humana ao capital, exercida pelo mercado, tem sido cada vez mais complementada por aquela subordinação real que requer a conversão do trabalho na mercadoria força de trabalho por meio da acumulação primitiva. Essa transformação radical das relações sociais não ocorreu de modo regular. Ela se moveu mais rápido em alguns lugares do que em outros. Tem resistido mais fortemente aqui e sido mais bem vinda ali.

Tem penetrado de maneira relativamente pacífica em um lugar e com uma violência genocida em outro. David Harvey.

Mas, o capital não é coisa [...]. O capital não é a soma dos meios de produção materiais e produzidos. Karl Marx.

[...] Olhou as casas, as igrejas, os palácios e lembrou-se das guerras, do sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida, a história e o heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos.

Lima Barreto.

3.1.DO VALOR AO VALOR-CAPITAL

A experiência cotidiana de compra e venda e a orientação pelas manifestações e aparências socioespaciais levam os indivíduos a imaginar que as mercadorias sempre exerceram o papel dominante que possuem atualmente ou que elas são entidades naturais das relações entre os seres. Mas isso não é verídico: as mercadorias ou valores não devem ser confundidos com produtos ou valores de uso.

Para isso, uma simples comparação do capitalismo com a estrutura social da qual emergiu demonstra o caráter histórico-processual das mercadorias. Isso quer dizer que se os valores de uso são comuns a todas as formas sociais, os valores correspondem a certo estágio da humanidade, ou seja, eles integram-se aos valores de uso mediante diversos processos de desenvolvimento das forças produtivas sob a ampliação do regime de propriedade privada dos meios fundamentais de produção e das relações daí decorrentes, processos esses que já foram abordados na segunda parte em que se tratou das categorias liberdade e tempo livre. O certo é que para a humanidade alcançar uma forma social mais desenvolvida em que os produtos do trabalho sejam pensados e concretizados para atender ao conjunto social e não a anseios individuais de acumulação, essa deve estabelecer “uma base material ou [...] uma série de condições materiais de existência, que, por sua vez, só podem ser resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento” (MARX, 2008, v.I, p.101), o qual, quanto mais se estende, mais contradições gera.

Se nas estruturas sociais que antecedem o capitalismo é possível verificar a produção de produtos e de mercadorias, sendo que essas exercem papel secundário nas interações humanas em âmbito geral, nesse modo de produção os valores de uso definitivamente não são pensados por eles mesmos, mas como valores para a troca.

Uma vez apontado que existem diferenças e relações entre valor de uso, valor e valor de troca, é preciso compreendê-las para se chegar à forma mais desenvolvida de valor, o qual pode ser chamado de capital. Marx (2008, v.I, p.58) aponta que a riqueza de qualquer sociedade é composta, independentemente do modo de organização social para a produção, pelos valores de uso que detêm: “os valores-de-uso constituem o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social dela”. O

valor de uso refere-se às particularidades dos elementos existentes, os quais, devido às suas características peculiares irão atender as carências e necessidades humanas.

Ao mencionar o valor de uso como algo qualitativo e intrínseco a cada ente natural ou artificial, Marx faz a diferenciação com o valor e coloca em evidência esse último, assim como lança luz sobre a mercadoria:

Uma coisa pode ser valor-de-uso sem ser valor. É o que sucede quando sua utilidade para o ser humano não decorre do trabalho.

Exemplos: o ar, a terra virgem, seus pastos naturais, a madeira que cresce espontânea na selva, etc. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. Quem, com seu produto, satisfaz a própria necessidade gera valor-de-uso, mas não mercadoria. Para criar mercadoria, é mister não só produzir valor-de-uso, mas produzi-lo para outros, dar origem a valor-de-uso social. ‘E mais. O camponês medieval produzia o trigo para o senhor feudal, o trigo do dízimo para o cura. Mas, embora fossem produzidos para terceiros, nem o trigo do tributo nem o do dízimo eram mercadoria. O produto, para se tornar mercadoria, tem de ser transferido a quem vai servir como valor-de-uso por meio da troca’ (MARX, 2008, v.I, p.63).

Fica claro no primeiro capítulo d’O Capital que, tanto o trabalho como a natureza se constituem como produtores dos valores de uso: “O trabalho não é [...] a única fonte dos valores-de-uso que produz, da riqueza material. Conforme diz William Petty, o trabalho é o pai, mas a mãe é a terra” (MARX, 2008, v.I, p.64). Mas, se o estudo efetivado por Marx focaliza a formação capitalista, os itens centrais de averiguação não são os valores de uso ou a substancialidade das coisas por si mesmas, mas sim os processos que irão projetá-las para a troca, fazendo com que, cada vez mais, os produtos do trabalho e demais elementos da natureza sejam passiveis de comercialização, ou, em outras palavras, sejam detentores de valor. Para além do valor de uso, o que seria o valor?

Quando dois itens são confrontados para que sejam trocados é preciso que se considere uma terceira propriedade que não diz respeito às características particulares de cada um deles (seus valores de uso), mas expresse uma propriedade comum a ambos. Marx (2008, v.I, p.59) relata que “algo comum, com a mesma grandeza, existe em duas coisas diferentes [...]. As duas coisas são, portanto, iguais a uma terceira, que, por sua vez, delas difere”. O que iguala diferentes mercadorias produzidas por

distintas atividades de trabalho é o valor: “na própria relação de permuta das mercadorias, seu de-troca revela-se, de todo, independentemente de seu valor-de-uso. Pondo-se de lado o valor-de-uso dos produtos do trabalho, obtêm-se seu valor [...]” (MARX, 2008, v.I, p.60).

O valor é, portanto, um atributo social e não natural da mercadoria: “vire-se e revire-se, á vontade, uma mercadoria: a coisa-valor se mantém imperceptível aos sentidos” (MARX, 2008, v.I, p.69). Para se constituírem como valores, é preciso antes que as coisas sejam úteis de alguma forma, mas o fato é que a substancialidade dos valores de uso é reduzida a um denominador comum quando o foco é o intercâmbio, sendo que a economia vulgar olvida “que duas coisas diferentes só se tornam quantitativamente comparáveis depois de sua conversão a uma mesma coisa”

(MARX, 2008, v.I, p.71, grifo nosso). Como seria possível estabelecer uma relação entre mercadorias ou de mercado (e não simplesmente entre valores de uso) se não houvesse esse algo comum entre coisas diferentes? Marx empreende seu estudo sobre a categoria valor, demonstrando sua paulatina evolução e transformação sucessiva, abarcando:

a) a sua “forma simples, singular ou fortuita”, onde um bem é comparado com outro, manifestando o seu valor em relação a outra mercadoria que lhe é equivalente.

Nas relações pautadas pela forma simplificada, a dinâmica social ainda não está baseada pela troca regular, sobressaindo a produção de valores de uso, no entanto, Marx (2008, v.I, p.70) diz que “todo o segredo da forma valor encerra-se nessa forma simples” e isso, em linhas gerais, porque é a partir dela que um determinado produto (A) pega emprestada a materialidade ou o valor de uso de outro (B) para se manifestar como valor, sendo isso possível pelo reconhecimento social de ambos como valores que podem ser intercambiados em proporções diversas. Marx (2008, v.I, p.80) aponta, ainda, que a posição de equivalente (B) (na qual o valor de A é expresso) possui um caráter misterioso por esconder uma relação social, uma vez que todas as mercadorias que se figuram como tal, além de se expressarem como valores parecem ter como origem de suas propriedades as próprias relações com as outras e não o fato de serem produtos do trabalho e de fazerem parte de uma interação social. Por isso, Marx (2008, v.I, p.105) evidencia que “até hoje, nenhum químico descobriu

valor-de-troca [ou a forma de o valor se expressar] em pérolas ou diamantes” e que a posição de equivalente é um poder social dado a algo para expressar o valor de outra coisa, o qual irá culminar com a forma-dinheiro como equivalente universal. Nesse sentido,

“Marx trata a simples forma da mercadoria como o ‘germe’ da forma dinheiro”

(HARVEY, 2013, p.54);

b) A forma simples evolui para a “forma total ou extensiva” onde as trocas passam a ser usuais justamente pelo reconhecimento de mercadorias específicas como entes mensurativos de valor de vários outros produtos. Nessa, um valor de uso firmado como valor não está posto em relação comparativa apenas com outro elemento diferente dele, mas pode estabelecer relação com várias mercadorias que dele diferem. Tal forma “distingue o valor de uma mercadoria do próprio valor-de-uso de maneira mais completa [que a simplificada, pois] na expressão de valor de cada mercadoria, todas as demais mercadorias aparecem apenas sob a forma de equivalente” (MARX, 2008, v.I, p.87, 88). Conforme explica Carcanholo (2011, p.58), nessa forma em que a troca mercantil já é sistemática, “cada vez mais [...] cresce o número de novas mercadorias que aparecem como equivalentes de [outros valores de uso]”, sendo que, justamente por isso, tal forma guarda uma contradição que impõe barreiras à expansão das relações de troca: a cada nova mercadoria que surge, há

“material para nova expressão de valor” (MARX, 2008, v.I, p.88), não havendo ainda um equivalente único ou geral e, portanto, as relações de troca ainda são pautadas pelo desejo do valor de uso das mercadorias que exercem papel de equivalentes.

Carcanholo (2011, p.58), ao exemplificar a relação de troca entre uma mercadoria A e outra B, relata que “o produtor de A quer o valor de uso B [sendo que] para que ele seja atendido, não é suficiente que A seja um valor de uso social, [mas] é necessário que A seja valor de uso para o possuidor [de B]”. Por isso, B é ainda um equivalente restrito a alguns outros produtos, sendo que essa relação somente tem condições de ser ultrapassada quando se desconsidera desse equivalente o seu valor de uso. Isso equivale a dizer que B precisa se constituir em “representante social do valor”

(CARCANHOLO, 2011, p.58).

c) A forma extensiva é alcançada e superada pela “forma geral” em momentos socioespaciais em que algo é reconhecido como único equivalente ou medida de valor

universal, representando os valores de todas as mercadorias por meio de uma relação de igualdade entre elas, ou seja, pelo valor. Se, tanto na forma simples como na extensiva “assumir uma forma de valor é, por assim dizer, negócio privado de cada mercadoria [...]” (MARX, 2008, v.I, p.88), na geral isso não ocorre, pois está posto socialmente o equivalente universal no qual cada mercadoria tem que se expressar:

“daí ser esta a forma que primeiro relaciona as mercadorias, como valores, umas com as outras, fazendo-as revelarem-se, reciprocamente, valores-de-troca” (MARX, 2008, v.I, p.88). Diferentemente da forma simples em que um dado valor de uso pode se expressar tanto como valor relativo ou equivalente, aqui “a forma equivalente fica aderida exclusivamente em uma única mercadoria específica, determinada”

(CARCANHOLO, 2011, p.63). A forma geral tem no dinheiro esse equivalente socialmente reconhecido, perante o qual todas as coisas são mensuradas.

O valor é ele próprio um processo ao qual não deixam de estar conectadas as suas formas iniciais, mas seu desenvolvimento tende a transfigurá-las diante da forma mais avançada, a qual tem o dinheiro como um fluído que possibilita a troca generalizada. Nesse sentido, o valor e não o valor de uso ou as particularidades dos produtos torna-se a mediação predominante nas relações sociais: “[...] a lógica de funcionamento da sociedade (o sociometabolismo), a ação do dia a dia dos agentes, que no início do surgimento mercantil está determinada pelo valor de uso, passa progressivamente a ser dominada pelo valor” (CARCANHOLO, 2011, p.71). Percebe-se, então, que o valor constitui-se em ingrediente socioespacial predominante, sendo que algo será preferível de ser produzido não necessariamente pelo fato de ser melhor ou pelos benefícios que acarreta, mas essencialmente pelo valor que lhe dá projeção em uma dada realidade.

Sendo o valor uma grandeza comum a duas coisas diferentes, quem o estabelece? Marx explica que a magnitude ou a grandeza do valor é mensurada pela quantidade de trabalho socialmente necessária ou o tempo despendido para a produção de algo ou prestação de um serviço segundo condições tecnológicas e graus de complexidade do trabalho em diferentes períodos da sociedade: o tempo ou a quantidade de trabalho social é aquele demandado “para produzir um valor-de-uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais existentes e com o grau

social médio de destreza e intensidade do trabalho” (MARX, 2008, v.I, p.61). Amorim (2009, p.25) chama a atenção de que a teoria do valor-trabalho não diz respeito a “algo essencialmente calculável [e] aritmeticamente previsível”, mas trata-se de um atributo social dado às atividades laborativas mescladas ao momento histórico e circunstâncias socioespaciais das forças produtivas, das quais a principal é o trabalho106.

Obviamente que a quantidade de trabalho requerida para a prestação de um serviço, por exemplo, é perfeitamente mensurável (unidades habitacionais limpas por camareiras, passeios de gôndola em um dia, pacotes de viagens vendidos por mês) e está associada à qualificação exigida para cada atividade em um todo social, o qual irá atribuir mais ou menos valor a esse ou aquele trabalho. No entanto, a pura mensurabilidade em relação a trabalhos específicos é algo secundário, pois, por ela mesma, explica-se somente “como se produz na sociedade capitalista e não como se produz a sociedade capitalista” (AMORIM, 2009, p.31). A tentativa de uma formulação desvirtuada desse foco como a de Gorz (2005, p.15), para o qual no trabalho imaterial

“os padrões clássicos de medida não mais podem se aplicar”, acaba se perdendo em um mero jogo de palavras ao desconsiderar que as interações produtivas nos e para os serviços não passam de formas preservacionistas para a valorização do valor conforme veremos.

A atividade laborativa, independentemente da sua feição qualitativa, acaba tendo por medida o valor do que cria: “a força humana de trabalho em ação ou o trabalho humano cria valor, mas não é valor. Vem a ser valor, torna-se valor, quando se cristaliza [em algo material ou imaterial]” (MARX, 2008, v.I, p.73). Verifica-se, então, que se a magnitude do valor ou a sua grandeza é fixada pelo trabalho social, ele é também algo relacional ou uma “espécie de carimbo que a sociedade estampa sobre [...] cada valor de uso, transformando-o em mercadoria, [inclusive o trabalho]”

(CARCANHOLO, 2001, p.36). Justamente por isso, Carcanholo (2011, p.18) alerta que

106 Por isso, deve-se considerar que a remuneração pelo tempo de trabalho socialmente necessário à produção de algo tem como parâmetro os preços do conjunto de elementos que asseguram a reprodução do trabalhador e da sua família (moradia, alimentação, transporte, entre outras), com particularidades espaciais e temporais. Por exemplo: as necessidades ou padrão de consumo de trabalhadores brasileiros podem ser diferentes dos alcançados pelos franceses; ou as necessidades que se constituíam de uma forma no início do século XX, formatam-se de outra no começo do XXI com a expansão das cidades e aumento das distâncias, encarecimento dos terrenos, novas necessidades de qualificação, entre outras. Para tentar assegurar a fluidez do capital, o Estado estabelece o nível mínimo salarial.

a ação laborativa contempla a magnitude do valor, mas não a sua natureza, a qual diz respeito ao valor “como expressão objetivada das relações sociais mercantis [e capitalistas]”.

Se o valor de uso é uma propriedade intrínseca a uma objetivação humana ou ente natural, o valor é algo conferido ou atribuído a um valor de uso pelo decurso da sociedade que conjuga trabalho e reconhecimento social do seu produto acabado, seja como meio para outra produção ou troca, seja como fim para o consumo. Mas, ao se abordar a categoria valor, deve ser destacado que não pode haver confusão com o valor de troca, mesmo porque esse é somente uma forma de o valor se apresentar.

Nessa diferenciação (valor e valor de troca) reside a distância relacional entre valor e preço: uma vez materializado o resultado do trabalho, esse se confronta com uma realidade socioeconômica que pode redimensionar o preço correspondente ao seu valor de origem, ou seja, as situações conjunturais previsíveis e imprevisíveis (como as crises, os períodos de crescimento econômico ou mesmo os momentos políticos favoráveis durante os quais estruturações realizadas pelo Estado acabam sendo vantajosas a alguns grupos que possuem conhecimento privilegiado antes da sua execução107) irão projetar para mais ou para menos o valor original através dos preços:

[...] os preços de mercado se distanciam, mais ou menos, [dos] preços correspondentes aos valores, fazendo com que o poder original de compra não se efetive exatamente. [Dessa forma] a magnitude do valor de uma mercadoria determina a grandeza da riqueza social que ele representa e mede a riqueza produzida socialmente no instante de sua produção. No entanto, a riqueza que ela representa em cada instante para seu possuidor [...], ao contrário, mede-se pela capacidade que a mercadoria possui realmente e ‘em média’ de, no mercado, apropriar-se de valor sob a forma de outra mercadoria ou de dinheiro (CARCANHOLO, 2011, p.17)

Marx exemplifica as variações de uma dada magnitude de valor fixada pelo trabalho social quando aborda a forma relativa de valor, isto é, quando uma mercadoria tem o seu preço ou valor de troca expresso em outra. Nesse caso, se o valor de uma mercadoria A subir em relação a B, a qual permanece constante, na

107 Como, por exemplo, a compra de terrenos para especulação em áreas que serão estruturadas para o turismo.

Tal questão será abordada adiante.

proporção de troca entre elas, somente com maior quantidade de B será possível adquirir (trocar) a mesma quantidade de A, ou seja, B desvaloriza-se. Com a

“determinação quantitativa da forma relativa de valor”, Marx (2008, v.I, p.77) desmistifica duas questões: “a que assevera ser o valor de um artigo regulado pelo trabalho nele contido, e a que afirma ser o valor de um artigo regulado pelo seu custo”.

O valor é determinado pelo trabalho social, mas não regulado por ele, assim como o custo final ou o valor de troca tem fundamento na produção, mas sofre variações no processo de distribuição, troca e consumo. Isso demonstra que, muito embora a magnitude do valor seja proveniente da produção, a flutuação do preço correspondente faz parte de um todo social, onde as relações estabelecidas nesse processo irão propiciar a alguns grupos a apropriação de mercadorias abaixo ou acima dos seus valores correspondentes em momentos que outros indivíduos precisam ou aproveitam para transferir valores ao se depararem com situações onde o preço não tem correspondência efetiva com o valor de origem. Um exemplo é o valor médio dos imóveis no balneário de Caiobá, em Matinhos-PR, local que se caracteriza pelo uso quase que exclusivo de residências temporárias nos períodos de verão. O valor fixado pelo trabalho social permanece nos imóveis, mas o bairro que já possuiu o segundo metro quadrado mais caro do Brasil nos anos 90, perdeu a referência que tinha como destinação devido a proximidade com cidades litorâneas de Santa Catarina que passaram a ser mais atrativas, tanto em investimentos de capital como em relação à estruturação turística. Se uma mercadoria e, nesse caso um apartamento qualquer, detêm grandeza de valor devido ao trabalho social, o seu poder de permutabilidade sofrerá variação de acordo com questões estruturais (como, por exemplo, o redirecionamento dos fluxos) e, também, em relação à oferta e a procura na alta e baixa estação. Nesse sentido, Carcanholo (2011, p.16) explica que “o poder original (determinado diretamente pelo valor); o poder real (que difere do anterior por determinações estruturais do sistema); e o poder efetivo (caracterizado pelo preço de mercado) que flutua no dia a dia [devido a] oferta e [a] demanda”, estão diretamente relacionados, mas não se constituem na mesma coisa quando se aborda o poder de compra de algo. Se o preço tem correspondência com o valor de troca e pode ser

mensurado pela simples lei da oferta e da procura ou da dinâmica da própria forma social, o valor é constituído por relações mais essenciais.

Mas se o valor de uso é considerado mediante o valor (expressão social) que detém e é resultado do trabalho humano, é preciso evidenciar que o ato laborativo tornou-se, com isso, um componente comum a diferentes materialidades e

Mas se o valor de uso é considerado mediante o valor (expressão social) que detém e é resultado do trabalho humano, é preciso evidenciar que o ato laborativo tornou-se, com isso, um componente comum a diferentes materialidades e

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