CAPÍTULO 1- O DISCURSO DAS PRANCHAS:
1.2. PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS:
1.2.2. Categorias, fichas, e procedimentos de análise:
Dispondo dos projetos, dos editais e das atas dos júris, buscamos:
a) Analisar as pranchas dos projetos em si, segundo os tipos de representação, suas funções, seus destinatários privilegiados, aspectos enfatizados e que potenciais apontaram;
• quantificando tipos e peças de representação empregadas; • verificando como se articulam as peças de representação;
b) Cotejar as pranchas ou peças retóricas com as solicitações dos editais;
• verificando em que medida elas obedeceram, transgrediram, e o que enfatizaram;
Pablo Sousa PPGAU/UFRN Para que ao fim desse estudo se atingissem nossos objetivos específicos de:
1. Verificar a coerência discursiva ou como se articularam os diversos meios de representações;
2. Identificar os destinatários privilegiados, cotejando representações editais e atas, verificando se as propostas dirigiram-se aos que as solicitaram ou aos que as avaliaram.
Entre o aporte dos principais autores que subsidiaram o referencial teórico até aqui apresentado, e a transposição metodológica já parcialmente empregada em nossos estudos anteriores (SOUSA, 2009 e MACEDO, 2009, entre outros), as abordagens de Tostrup (1999) e a Durand (2003) foram as que nos forneceram os instrumentos de análise das representações que melhor se alinharam aos objetivos dessa tese, por isso dedicamos especial destaque a algumas considerações desses dois autores resumidas no Quadro 01.
Quadro 01: Resumo teórico- metodológico
Fonte: Elaborado pelo autor com base na pesquisa realizada.
Tal como resumidos, concordamos com Durand (2003) ao distinguir três formas possíveis de registro do projeto: as que exploram a concepção, ideia matriz, inovadora ou “poder genial” do autor; as que ilustram os atributos físicos emulados, sobretudo, para convencer; e, finalmente, a que recorre à descrição técnica e analítica, conforme medidas e proporções, favorecendo a execução. ]
DURAND (2003): Representações gráficas categorizadas conforme três funções no projeto.
Concepção Do autor para o autor, rascunhos e textos que vão alimentar ESTUDOS PRELIMINARES.
Convencimento, Argumentação, Ilustração
Do autor para um público indistinto, caráter ilustrativo maior que o comprometimento com a execução da obra. Desenho de ANTEPROJETO.
Execução
Do autor para um público técnico. Desenho documental comprometido com a execução fiel da obra tal qual projetada. Desenho de PROJETO EXECUTIVO. TOSTRUP (1999): cada
peça gráfica possui uma carga retórica e sua recorrência indicaria uma tendência na
argumentação.
Plantas e cortes Foco nas qualidades da solução espacial, e da distribuição do programa.
Fachadas, plantas de situação, perspectivas de conjuntos.
Aspectos estéticos, contraste ou continuidade, inovação criatividade versus o precedente no cenário urbano. Fachadas e
perspectivas do edifício isolado
Pablo Sousa PPGAU/UFRN Tratando de ocasiões como as de concursos, seria interessante identificar de que espaço aquelas peças gráficas de execução – mesmo que incompletas – gozam na apresentação dos vencedores.
De Tostrup (1999) emprestamos a correlação entre tipos de informação e peças gráficas específicas – textos, plantas, cortes, fachadas, perspectivas, etc. – para verificar quais discursos foram favorecidos pelas representações predominantes nos projetos vencedores. Além disso, analisamos no que as representações simularam ou dissimularam aspectos específicos do projeto – Baudrillard (1983) – e como textos e vazios participaram desses discursos.
As representações dos projetos analisados foram quantificadas na tabela analítica 0125 - importada de nossa pesquisa de mestrado – em que CONCEPÇÃO, DEMONSTRAÇÃO e EXECUÇÃO – são três categorias analíticas definidas a partir de Durand (2003), entre as quais se mensurou a quantidade e área empregada nas peças gráficas que figuram na raiz de cada linha. Escapando dessas três categorias analíticas, VAZIOS e TEXTOS foram quantificados apenas pelo valor da área ocupada.
Tabela 01: Peças gráficas e categorias de representação.
Fonte: Elaborada pelo autor com base na pesquisa realizada
25 Comparando-se a quantidade de desenhos para cada grupo, com a área que os mesmos ocupam por
prancha obtém-se um valor relativo, percentual, que permite verificar o quanto foram usados. Entendemos que a recorrência seja um indicativo da importância para o autor dedicou, tanto da categoria de RG, quanto do tipo de peça gráfica. Esta mesma tabela foi utilizada para a análise da RG no banco de dados do PROJEDATA, desenvolvido pela base de pesquisa PROJETAR, que atualmente analisa projetos de graduação desenvolvidos por alunos de instituições de ensino superior no Brasil.
PEÇAS GRÁFICAS
CATEGORIAS DE REPRESENTAÇÃO
TOTAIS POR PEÇA
CONCEPÇÃO DEMONSTRAÇÃO EXECUÇÃO
Quantidade Área% Quantidade Área% Quantidade Área% Quantidade Área% Pl. Baixas Cortes Fachadas Perspectivas Detalhes Maquetes Outras Vazios Textos TOTAIS POR CATEGORIA
Pablo Sousa PPGAU/UFRN Através da informação disposta em dados quantitativos, estabelecemos uma análise qualitativa, crítica, do modo como os arquitetos trabalharam a representação de seus projetos: recorrendo às 55 pranchas coletadas nos 08 concursos selecionados entre 2008 e 2011, aferimos em que aspectos os vencedores mais investiram com o intuito de verificar, através do somatório, se representações específicas favoreceram discursos previamente determinados. O processo de quantificação das informações envolveu a utilização de alguns softwares gráficos para permitir a contagem da área que cada representação ocupou em prancha. Tal quantificação foi feita sob o seguinte processo:
a) Os projetos foram coletados em imagens digitais no formato *.JPEG;
b) As imagens foram importadas para o programa Autocad onde se calculou a área que cada representação ocupou nas pranchas;
c) Cada representação gráfica foi agrupada numa das três categorias analíticas definidas através de Durand (2003), e sua área foi calculada e comparada com a total da prancha, estabelecendo uma porcentagem de utilização; d) Os vazios e textos também tiveram sua área calculada e comparada com a
total da prancha, permitindo estabelecer uma porcentagem de utilização; e) As áreas dedicadas a cada grupo de peça gráfica foi somada, e se calculou
uma média de utilização desses grupos em cada projeto.
A quantificação das representações, em cada projeto, permitiu aferir tendências no modo como foram executadas e avaliar sua utilização conforme as categoria em que se agrupem. Numa situação em que se verificou que para um dos grupos houve uma grande quantidade de representações, e que estas ocuparam uma pequena área na prancha, ficou evidente a pouca importância dedicada tanto àquele tipo de representação quanto à informação que veiculou para a defesa. Por exemplo, se uma prancha inteira foi ocupada por apenas um desenho, se verificou um número absoluto gerado pequeno – de apenas 01 (um) – para um número relativo (a área ocupada) grande. Se isto ocorreu num projeto de seis pranchas, o valor da peça isolada equivaleu a 1/6 de tudo apresentado, isso demonstrou que essa peça gráfica recebeu uma grande importância, e que a informação nela depositada foi considerada pelo autor como muito importante, por isso enfatizada numa representação, certamente, julgada como mais convincente do
Pablo Sousa PPGAU/UFRN que outras, resultando numa situação em que um único desenho teria respondido em área a mais do que vários outros juntos.
Foi possível verificar ainda se as representações empregadas pelos vencedores foram aquelas que a bibliografia, sobremaneira os manuais de representação, sugerem como as mais adequadas às etapas de projetos solicitadas nos concursos que analisamos.
As peças escritas foram investigadas em busca das informações que justificassem as escolhas tomadas na projetação, filiações estéticas ou agendas sociais26, como se procedeu com o agenciamento do programa nos espaços, o que se esperava do desempenho do método construtivo, materiais de construção e acabamento especificados, orçamentos, etc. Ou seja, uma gama de dados fundamentais à compreensão e execução do objeto e não tão fáceis de ilustrar via desenho. A partir de estudos anteriores, vislumbramos que essas relações demonstrariam pelo menos as seguintes situações:
a) De coerência e redundância: quando as informações textuais pouco ou nada acrescentam, apenas reforçam ou repetem às já fornecidas via desenho. b) De coerência e complementaridade: em que o texto veio em complemento das informações ausentes no discurso gráfico, informando aspectos difíceis de registrar via desenho como, por exemplo, soluções de ordem tecnológica. c) De coerência e irrelevância: caso se verifique que o texto foi tão pouco
informativo que poderia ser suprimido sem ônus.
d) De incoerência: se as representações colidiram, ou se as informações de uma entraram em conflito com a outra, se o desenho não conduziu à compreensão do texto ou vice e versa.
Atentos a essas considerações metodológicas, no tópico seguinte apresentamos os aspectos gerais dos concursos estudados para, no capítulo dois, desenvolver os estudos de caso dos oito projetos selecionados.
Os anexos dessa tese contêm as transcrições dos memoriais descritivos e as atas dos júris de cada projeto. Os editais dos concursos, a imageria das pranchas, e os demais documentos que definem os programas de projeto, seguem apensos à via digital desse volume.
Pablo Sousa PPGAU/UFRN