Estâncias de Rio Pardo: 1780-1882 4.1 Extensão e valor das fazendas
4.12 Cativos para herdeiros, impostos e dívidas
Por fim, falta analisar a situação das relações familiares entre a escravaria nos anos de 1781-1809 na região de Rio Pardo. No inventário de André Pinto Bandeira, 1781, estão declarados três cativos africanos: José e Domingos de 20 anos e Maria de 30 anos. Não constam crianças nos bens arrolados. Por mais forte que fosse a repressão do proprietário, razoável propor que existisse motivação erótico-afetiva entre o trio. Na possibilidade de, nos moldes tradicionais familial, Maria eventualmente estar arranchada somente com um dos dois, o casal precisaria de uma estrutura mínima, uma palhoça, alguns instrumentos de trabalho, um naco de terra para agricultura auto-sustentável, tempo disponível para trabalhar em prol do núcleo familiar e, sobretudo, da autorização do senhor para constituir uma família nesta micro-estrutura.
Outra Possibilidade seria Maria amancebar-se com os dois. Importante resgatar, embora a observação refira-se as fazendas do centro do país e tenha sido feita em período diferenciado, a visão do viajante e pintor francês, Jean Baptiste Debret, que esteve no Brasil entre os anos de 1816 a 1831. Escreveu o autor: “Como um proprietário não pode, sem ir de encontro à natureza, impedir aos negros de freqüentarem às negras, tem-se por hábito, nas grandes propriedades, reservar uma negra para cada quatro homens; cabe-lhes arranjar-se para compartilharem
sossegadamente o fruto dessa concessão, feita para evitar os pretextos de fuga como em vista de uma procriação destinada a equilibrar os efeitos da mortalidade”.294
Fortemente questionados pela historiografia, comumente desde ponto de vista moralista, tais arranjos familiares, possivelmente nascidos da vontade dos escravizados, não devem ser descartados, sem comprovações positivas, também para os campos sulinos. Na Partilha, a herdeira Brígida levou Maria; o herdeiro Francisco ficou com José e o cativo Domingos foi fatiado em partes de 12$800 entre os cinco herdeiros.
O inventário de Celestino Franco, de 1786, traz informação atinente sobre a questão. Nele estão arrolados onze cativos sendo sete homens e quatro mulheres. O cativo José, Benguela, 50 anos, era casado com a cativa Izabel, 30 anos, e tinha três filhos crioulos: Pedro, três anos; Feliciano, 12 anos e Maria, 13 anos. José benguela tinha outro filho, Miguel, crioulo, 15, com a cativa Maria, 47 anos, crioula. Na partilha, José, Izabel, Miguel crioulo e Maria foram destinados ao pagamento da tercinha – imposto de 1/3 de todo o montante apurado no inventário destinado aos cofres do Estado. O herdeiro Francisco Fernandes ficou com os cativos Miguel benguela e Brígida; Dorotéia herdou os cativos Feliciano e Mariana [filhos do casal]; a herdeira Delfina levou os cativos Antônio e Pedro [filho do casal] e Plácido herdou o cativo João.
Na estância de Cláudio José Moura, inventariada em 1786, encontramos cinco cativos: Antônio Moleque, benguela, 18 anos; Antônio Velho, mina, 50 anos; Felícia, rebola, 50 anos; Caberina, crioula, nove anos, e Maria, crioula, seis anos. Possivelmente Antônio Moleque e as duas cativas “molecas” fossem filha de Antônio Velho e Felícia. No momento da partilha, o cativo Felício foi destinado ao pagamento da terça; os cativos Antônio Moleque e Felícia foram herdados por Teodora; a cativa Maria teve seu valor, 32$000, dividido entre os herdeiros Ana e Joaquim e a cativa Caberina ficou com o herdeiro José.
No inventário de Sebastião da Costa, de 1789, estão relacionados sete cativos e duas cativas. Três crioulos e seis mulatos. Oito são “moleques” tendo o mais novo três anos e a mais velha 13 anos. A cativa Simoa tinha 40 anos e,
294DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Livraria Martins. EdiUSP, 1972. p. 196.
possivelmente, era a mãe da molecada. Na Partilha, a herdeira Ana Maria ficou com os cativos Simoa, Vicente, Bento e Victorino; a herdeira Terezinha com o cativo Antônio; Francisca herdou o cativo Joaquim; Ricardo levou Belchior; Leonor ficou com o cativo Thomas e Leonardo herdou a cativa Maria.
Em 1799, na propriedade de Roque Goulart Pinto existia onze cativos: quatro cativos entre 25 e 30 anos; um cativo adolescente de 15; um cativo “moleque” de quatro anos; duas cativas adultas acima de 30 anos e três cativas “molecas” entre cinco e sete anos. A documentação sugere que os moleques eram filhos ou de Izabel ou de Ana ou, talvez, parte de uma e parte de outra com um ou outro cativo da estância. No momento da partilha, a molecada foi separada dos possíveis pais. A herdeira Helena levou os cativos Luis, Isabel, Antônio benguela e Manoel rebolo; Rosa herdou o cativo José; o herdeiro Ludovico ficou com o mulatinho Vicente e com Damião. A moleca Joana foi destinada ao pagamento da terça; a moleca Tereza foi herdada por Andreza e a herdeira Mariana ficou com a moleca Maria.
Na estância de Domingos Vieira, inventariada em 1805, encontramos três cativos: Caetano, 19 anos; Joana, 40 anos e Eva de quatro anos. Possivelmente a moleca Eva era filha dos cativos Caetano e Joana. No momento da partilha, o cativo Caetano teve seu valor dividido em duas partes de 21$333 e uma parte de 21$334 e distribuído entre os herdeiros Emiliana, Domingos e Sebastião. Da cativa Joana, 24$000 foi destinado ao pagamento da tercinha, o restante, 76$000 não consta no documento a destinação do valor. A moleca Eva teve seu valor dividido em duas partes de 25$600 e entregues aos herdeiros Cândida e Alexandre.
No inventário de Francisco Ribeiro Veloso, 1805, estão relacionados 28 cativos e três cativas. O mais novo com dez e o mais velho com 60 anos. A idade de maioria dos cativos (20) oscilava entre os 20 e 40 anos. Destes, o documento registrou que os cativos Antônio era casado com Joana e Rita era casada com Manoel sapateiro.Os demais não consta especificado o estado civil. Moleques apenas dois: Alexandre, crioulo, dez anos e José, crioulo, 14 anos.
No momento da Partilha, o credor Manoel da Silva Paranhos levou o cativo Ignácio pedreiro; o credor Manoel José da Silva ficou com a cativa Joana [mulher do Antônio]. Para pagamento da tercinha foram destinados os cativos José,
Joaquim Rufão, Simão, Manoel, Joaquim e José. O credor Antônio de Brito Bueira recebeu os cativos Francisco e Manoel Campeiro. A herdeira Joana levou os cativos Antônio Benguela, José Benguela, José Pinto e Antônio. A herdeira Manoela ficou com Rita, João Benguela, Joaquim Mogumbe e Manoel. Silvia herdou os cativos Manoel, Alexandre, José Crioulo e Ignácio Benguela. O herdeiro Manoel levou José, Francisco Benguela, Mateus Benguela, Vicente e Joaquim Benguela; e, o herdeiro João ficou com Bibiana. Os três restantes, não constam na partilha.
Na propriedade de Francisco de Lima e Veiga, inventariada em 1805, existia seis cativos: Benedito [47]; Gonçalo [30] e Vicente [30]; Josefa [32]; Izabel [5] e Luzia [3]. Gonçalo e Vicente encontravam-se “fugidos para apanha”. Possivelmente as molecas Izabel e Luzia eram filhas de Josefa. Na partilha, os cativos Benedito, Josefa, Gonçalo e Vicente – se fossem pegos! – destinaram-se ao pagamento da tercinha. A herdeira Maria ficou com Izabel e Florinda herdou Luzia.
Na estância de Ana do Rosário, 1805, o documento registrou 17 cativos: 15 homens e duas mulheres. A cativa Josefa era mãe dos cativos José e Albino. Na partilha, a credora Maria Salustiana teve sua dívida saldada com o cativo Domingos. A tercinha abocanhou o cativo liberto [sic] Manoel e metade de Agostinho. A herdeira Maria levou os cativos Joaquim, Miguel, Vicentino, José [filho de Josefa], Pascoal e Miguel Cozinheiro. O herdeiro Manoel levou os cativos Gregório e Albino [filho de Josefa]. Mariana herdou Joaquim Angola e Luis. A herdeira Gertrudes levou os cativos Clara e José. A herdeira Inácia ficou com o cativo Gregório Benguela e Ana herdou a cativa Maria. A outra metade do cativo Agostinho e a cativa Josefa não constam na partilha.
Em 1807, a propriedade do capitão Manoel José Machado, em sociedade com o capitão-mor João Marcos, residente no Rio de janeiro, possuía trinta cativos e oito cativas. Na partilha, a viúva de Manoel José Machado herdou 21 cativos de ambos os sexos e a viúva do capitão-mor, os outros dezessete. Em 1809, o inventário de Francisco Borges do Canto registrou dez cativos: Manoel [40], Antônio [36], Miguel [s/i] casado com Ana [30], Joaquim [18], Rita [11], Segunda [9], Tom [5], Doralina [4] e Floriano [2]. Possivelmente os moleques eram filhos de dos cativos Miguel e Ana. Na partilha, os cativos Manoel, Ana, Rita e Doralina pagaram a tercinha. A herdeira Maria ficou com Antônio e Miguel. Joaquina herdou
o cativo Joaquim. Os cativos Segunda, Tom e Floriano ficaram, respectivamente, com os herdeiros Ana, Manoel e Alexandrina.
A conclusão é clara e pesada. Ao menos nos inventários analisados, é fato rotineiro a separação entre pais e filhos no momento da partilha. Não somente na partilha essa separação acontecia. Já que a unidade ou os laços familiares escravizados não eram reconhecidos civilmente pelo regime escravocrata, os proprietários vendiam, alugavam, separavam marido e mulher, pais e filhos, sem restrições, até 1871. O eventual respeito tático, pelos escravistas, à família escravizada, sob a forma que se apresentasse, proposto por autores recentes, como meio de gestão da oposição do trabalhador escravizado, não é confirmado pela documentação, referente a essa região e há esses anos. Registre-se que na documentação analisada encontramos sete cativos “fugidos” [4,6%].