Ao chegar às terras brasileiras, a partir do século XVI, os portugueses disseminaram a religião católica com suas doutrinas, crenças e regras, com o intuito de controlar e catequizar os indígenas, nativos deste território, bem como os africanos, que vieram para ser escravizados.
As festas religiosas foram os meios utilizados pelo Estado e a Igreja para manterem o controle sobre a população colonizada. Tudo que acontecia na colônia, a Igreja e o Estado tinham o domínio e nenhuma festividade era realizada sem suas autorizações. As culturas dos negros africanos e a dos indígenas estavam subordinadas às representações religiosas católicas.
Por isso, é importante rememorar a chegada dos portugueses ao Brasil, no inicio do século XVI, como um momento de definições. A aliança entre os interesses do Estado português e da Igreja conhecida como regime do Padroado que vigoraria entre o período colonial e imperial estaria associada, certamente, a uma expressão hibrida de fé controlada pela Igreja em favor da Coroa. (BUENO, 2009, p. 55).
Segundo o autor, por meio da união com o Estado, a Igreja estava ligada e subordinada à Coroa portuguesa. O colonizador mantinha o poder sobre a sociedade dominada, o que proporcionou a origem de manifestações sincréticas, cujas festividades contavam com romarias, danças, procissões e rituais. Essa convivência transforma o panorama das tradições católicas originadas na Europa com o multiculturalismo de crenças e ritos religiosos pelas nações existentes no país.
O período do Padroado se deu da aliança entre a coroa e o clero, ou seja, a Coroa portuguesa mantinha o poder sobre a Igreja, porém não tinham rígidas regras para levar as mensagens ao povo. Portanto, somos herdeiros de tradições ibéricas, que hoje têm forte influência sobre nossos hábitos. Prova desta realidade é, quando entramos nas igrejas, capelas, santuários, oratórios, casas dos fiéis, ou quando observamos nas paredes, nas estantes, nas travesseiras das camas ou em
pequenos altares, inúmeras imagens de santos católicos, a exemplo, Nossa Senhora do Rosário, Virgem Maria, São Sebastião, São Jorge, entre tantos outros. “(...) O mundo religioso (…) era o de um domínio popular imediato, fiscalizado à distância por funcionários regionais da Igreja Católica que, em muito pouco participavam da vida religiosa (...).” (BRANDÃO, 1986, p. 88-89).
Os leigos foram criando maneiras de manter a religiosidade e a caridade por meio das construções das Irmandades. Logo, a organização e a preservação deste catolicismo eram feitas por pessoas leigas, sem vínculo com os sacramentos do catolicismo, mas que, de uma forma ou outra, conseguiam adeptos para a Igreja.
(...) a reprodução do catolicismo nos contextos urbanos dependia fundamentalmente das Irmandades e no meio rural dos beatos e monges e dos rezadores ou rezadeiras locais responsáveis pela manutenção cotidiana das crenças e rituais. O padre era geralmente uma figura distante, que visitava os santuários por ocasião das festas e as comunidades locais a cada dois anos, quando eram realizados os batizados e casamentos. É preciso ter presente, contudo, que esse modelo tradicional prevaleceu como a forma dominante e hegemônica do catolicismo no Brasil por mais de 300anos. (VALLA, 2001, p. 19).
Ao se buscar identificar o catolicismo tradicional brasileiro, deve-se ater às suas principais características: sua origem laica, seu sentido devocional e seu caráter penitencial. Pode-se dizer que estas três características são partes integrantes do catolicismo tradicional, com as imagens dos santos, as crenças e os mitos.
Para Hoornaert (1974), o catolicismo popular seria aquele praticado pelos gentios, indígenas e escravos. Neste sentido, nas festividades religiosas do período colonial, as pessoas procuravam demonstrar formas rituais de comunicação entre si e com seus deuses e santos católicos num ato simbólico, por meio da devoção, respeito, musicalidade, rituais e danças. Por isso, os grupos criavam suas culturas e formavam suas identidades para garantir a sua sobrevivência em meio ao pluralismo cultural.
Por conseguinte, os colonizadores mantinham o poder sobre os colonizados. Entretanto, não conseguiram proibir os negros africanos e os indígenas de realizar seus cultos, os quais eram formas de fortalecerem-se e preservarem suas tradições. Assim, eles fizeram uma inversão, colocando nomes de santos da Igreja Católica nas suas divindades. “O catolicismo oficial se diluiu em uma religião que podemos
chamar de popular. A colonização no Brasil foi um campo fértil para miscigenação étnica, cultural e religiosa”. (SILVA, 2012, p. 26).
A partir deste contexto, constatamos que, o catolicismo popular no Brasil se formou por intermédio de várias etnias no período colonial, com o surgimento de diversas práticas religiosas, formando essa singularidade popular brasileira, que Freyre (1992) relata:
No século XVII, mesmo no XVIII, não houve senhor branco, por mais indolente que se furtasse ao sagrado esforço de rezar ajoelhado diante dos nichos; às vezes, rezas quase sem fim, tiradas por negros e mulatos. O terço, a coroa de Cristo, as ladainhas. Saltava-se das redes para rezar nos oratórios: era obrigação. Andava-se de rosário na mão, bentos, relicários, patuás, Santo-antônios pendurados no pescoço, todo o material necessário às devoções e às rezas... Dentro de casa, rezava-se de manhã, à hora das refeições, ao meio-dia e de noite, no quarto dos santos; os escravos acompanhavam os brandos no terço e na salve- rainha. Havendo capelão, canta-se: mater puríssima, ora pro nobis... Ao jantar, diz-nos um cronista que o patriarca benzia a mesa e dada qual deitava a farinha no prato em forma de cruz. Outros benziam a água ou o vinho fazendo antes no ar uma cruz com o copo. Ao deitar-se rezavam os brancos da casa-grande e, na senzala, os negros veteranos... Quando trovejava forte, brancos e escravos reuniam-se na capela ou no quarto do santuário para cantar o bendito, rezar o Magnificat, a oração de São Brás, de São Jerônimo, de Santa Bárbara. Acendiam-se velas, queimavam ramos bentos. (FREYRE, 1992, p. 651).
Nota-se uma mistura de crenças e fé, em que não há separação entre senhores e escravos, quando louvam, adoram, cantam e ritualizam os santos católicos, não importando com a hora dos cultos: manhã, tarde ou noite. A força do colonizador ligado a Igreja católica sobre as pessoas dominadas repercutiu em manifestações sincréticas como a devoção de vários santos.
O catolicismo popular no Brasil não seguiu fielmente preceitos de Roma. Outros fatores tais como a escassez de padres com devida formação, a distância geográfica e a dimensão da colônia contribuíram para tal quadro. A vertente católica popular, maleável e plástica, reinterpretou e sincretizou os preceitos católicos oficiais. (MACEDO, 2008, p. 20).
Fato é que, houve a participação de várias etnias, culturas e religiões na formação do catolicismo popular. Negros africanos, indígenas e colonizadores participaram da história do Brasil, cujas raízes culturais cresceram e frutificaram em terras brasileiras.
1.5 IRMANDADES: ESPAÇO DE REORGANIZAÇÃO E RECONSTRUÇÃO DA