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4. JORNALISMO PÓS-INDUSTRIAL

4.2. Cauda longa e próspera! E free!

Na Coreia do Sul, 40 mil voluntários produzem e entregam, por dia, 150 a 200

artigos que são responsáveis por mais de dois terços do conteúdo publicado no

OhmyNews, o primeiro website de notícias do país asiático a aceitar, editar e publicar

material enviado pelos leitores. A agência criada em Fevereiro de 2000 cujo lema é “cada

cidadão é um repórter” também é considerada como uma das pioneiras no mundo a

conduzir um tipo de negócio baseado em jornalismo cidadão. Em troca das publicações,

os voluntários, que vão desde estudantes do ensino fundamental até professores

universitários, recebem um tímido estímulo monetário: se o artigo conseguir emplacar a

primeira página do site de notícias, privilégio alcançado por uma pequena fração do total,

o autor do artigo recebe cerca de US$ 20,00. Considerando que ser pago pelo trabalho de

escrever o artigo é uma condição para poucos e, ainda assim, incerta, porque não há

garantias de que a publicação consiga atingir os parâmetros e pré-requisitos para obter a

remuneração, então, qual a motivação dessas dezenas de milhares de pessoas que

continuam contribuindo? "Estão escrevendo artigos para mudar o mundo, não para

ganhar dinheiro", diz Oh Yeon Ho, fundador do site. (ANDERSON, 2006). Uma visão

menos romântica justifica o comportamento dos voluntários com a existência de uma

moeda capaz de ser tão motivadora quanto o dinheiro: a reputação. “Medida pelo grau de

atenção atraída pelo produto, a reputação pode ser convertida em outras coisas de valor:

trabalho, estabilidade, público e ofertas lucrativas de todos os tipos”. (ANDERSON,

2006) É o que o professor de direito da Columbia University, Tim Wu, chama de

fenômeno de “cultura da exposição” (WU, 2005). Seja pela nobre e ambiciosa motivação

de transformar o mundo ou para ganhar reputação e convertê-la posteriormente em algo

lucrativo, essas novas variáveis econômicas ainda não-precificáveis e que, por isso,

muitas vezes são ignoradas por quem gere modelos de negócios de mídia, devem ser

levadas em consideração não apenas porque mexe na sustentabilidade das organizações,

mas porque carregam consigo também mudanças na relação que as pessoas estabelecem

com o conteúdo noticioso e altera o comportamento a respeito do que está sendo

produzido dentro de uma lógica de gift economy ou “economia da doação”, desde a

blogsfera até a fonte aberta (ANDERSON, 2006).

No centro dessa lógica vigorosamente atuante no jornalismo pós-industrial estão o

como o povo antes conhecido como audiência – é o termo cunhado pelo acadêmico Jay

Rosen, da New York University, ao observar que as pessoas haviam se tornado mais do

que meros recipientes da informação. O conceito foi usado para “descrever de que

maneira grupos até então passivos de consumidores tinham se convertido em criadores,

editores, juízes e veículos da informação” (ANDERSON, C.W., BELL, SHIRKY, 2012).

Mudanças que são, de uma forma ou de outra, vislumbradas há muito tempo, como

mostrado neste artigo, mas que a mídia tradicional foi reconhecendo apenas

paulatinamente e de forma contrariada e até reativa e combativa, em vez de antecipar um

planejamento para que pudesse extrair o melhor dessa nova “Arquitetura da Participação”

(O’REILLY, 2004).

Então, dentro de uma web 3.0, em que as máquinas ganham cada vez mais

autonomia, temos uma nova arquitetura de participação em que a estrutura é centrada nas

pessoas e não na tecnologia, apesar de só ter sido viabilizada a partir do desenvolvimento

da internet. Essa aparente contradição, na verdade, representa caminhos não-excludentes

e que seguem interligados na sociedade pós-materialista. A partir disso, faz-se necessário

um mapeamento mais abrangente que abrigue rotas inéditas como a que põe em lados

diferentes o consumismo e o que o autor Doe Searls chama de producismo participativo

(ANDERSON, 2006), a aderência de Malcolm Gladwell e a propagabilidade de Jenkins

(JENKINS, 2014) e também a que faz distinção entre jornalismo como profissão e o

jornalismo como ocupação (ANDERSON, 2009).

De certa medida, os conceitos dos quais estamos falando neste documento tem

vínculos estreitos com a Teoria da Cauda Longa, ou seja, como nossa cultura e nossa

economia estão “cada vez mais se afastando do foco em alguns hits relativamente pouco

numerosos [...] e avançando em direção a uma grande quantidade de nichos na parte

inferior ou na cauda da curva de demanda” (ANDERSON, 2006, grifo nosso) e os

impactos para o jornalismo também. A despeito disso, é preciso também pontuar algumas

considerações sobre os reflexos não tão positivos da cultura online. Apesar de não ser

temática, nem proposta deste trabalho, é importante questionar se a hipótese das opções

infinitas na internet trata de fato de uma expansão das escolhas ou acarreta o

embotamento do gosto? Estamos construindo teatros pessoais ecléticos ou sofisticadas

câmaras de eco? Estimulando a polarização de grupos, criando bolhas e redomas de

egocasting numa repetição enfadonha de fetiches? (ROSEN, C., 2005) É de se refletir

também que viemos falando de economia de abundância e de toda uma lógica

político-social desenvolvida a partir disso, completamente diferente do que o consumo estabelecia

até décadas atrás. É imperativo, nesse sentido, aprendermos lições importantes com a

indústria do plástico, por exemplo, que de uma revolução científica e tecnológica atingiu

o êxtase comercial modificando o mundo moderno ao ponto de sair do controle, criou

uma cultura do descartável e resvalou em todas as esferas sociais. O jornalismo

pós-industrial deve ser pensado sob a ótica da liquidez do mundo moderno e deve-se propor

modelos de produção e distribuição de notícias que atendam às novas exigências

modernas de abundância e do grátis, mas que sobretudo reencontrem um local de

relevância; e que não sirva de combustível para esse mundo cada vez mais descartável e

líquido (BAUMAN, 2007).