CAPÍTULO 4 PROPRIEDADES GRAMATICAIS DAS RELAÇÕES DE
5.2 CAUSALIDADE DE CONTEÚDO (OU REAL) EM LIBRAS
O domínio de conteúdo marca a causalidade entre eventos no mundo real, segundo Sweetser (1990). Nesse domínio, é estabelecida uma relação temporal entre a causa e a consequência, em que um evento P causa um evento Q e a relação de causalidade ocorre mediante o nexo semântico entre P e Q.
Conforme a revisão bibliográfica apresentada na seção anterior, a sequência temporal da causalidade está subordinada à escolha que o falante faz da apresentação dos fatos, a qual reflete a distribuição da informação e a percepção dos eventos em uma perspectiva semântico-cognitiva. Em Libras, é possível identificar o uso da sequência temporal na expressão da relação de causalidade de conteúdo nos exemplos a seguir, já apresentados no capítulo anterior:
(19) [PHOMEM BEBER BEBIDA] [QCARRO-BATER.]
‘O homem bebeu; o carro bateu’.
Em (19), a relação de causalidade é expressa por meio da sequência temporal entre
homem beber e o carro bater. Também, no exemplo em (20), há uma estrutura bastante
149 (20) [PHOMEM CARRO BEBER] [Q CARRO-BATER.]
‘O homem bebeu; o carro bateu’.
No dado (20), podemos notar que o colaborador infere, a partir de seu conhecimento enciclopédico, que a ingestão de bebida e direção são a causa da batida do carro. Em (19) e em (20), os colaboradores produzem uma relação icônica de causalidade (SWEETSER, 1990), com a apresentação da causa e, posteriormente, da consequência. Porém, não há o uso de qualquer sinal manual referente ao conectivo e a relação causal se dá por meio de um processo de justaposição – possibilidade essa já salientada por Sanders, Spooren e Noordman (1992) –, em que há uma relação lógica de valor de verdade na implicatura entre o homem beber e o carro bater.
Ainda na perspectiva de Sanders, Spooren e Noordman (1992), identificamos que as operações primitivas em (19) e (20) tomam os valores: + semântico, uma vez que o conteúdo dos eventos está relacionado e há coerência entre os eventos o homem beber e
o carro bater; e + polaridade: a relação entre os eventos é de natureza positiva. Essa
combinação determina a coerência entre os eventos P e Q, que constitui uma relação de causalidade de conteúdo.
Sobre a objetividade/subjetividade entre falante e sujeito de consciência (SANDERS e SWEETSER, 2009; SANDERS et al., 2009), nas sequências (19) e (20), trata-se de uma relação causal objetiva, construída no espaço de conteúdo não volitivo. Nos dois casos, o sinal HOMEM é uma referência objetivamente construída para identificar o participante do evento, que é o sujeito sintático.
No exemplo (21) a seguir, reproduzido do capítulo 4, identificamos uma construção semanticamente semelhante à realizada em (19) e em (20), uma vez que se trata da mesma situação, porém com uma estrutura sintática diferente, com o uso de um conectivo:
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_______sl/lq _______________sl
(21) [QCARROCARRO-BATER] [PPORQUE IX [el@] BEBER.]
‘O carro bateu porque ele [o homem] bebeu’.
Em (21), o evento Q CARRO-BATER é uma consequência da causa P PORQUE IX [EL@] BEBER. Nesse caso, o estabelecimento da relação de causalidade ocorre sob um espaço temporal não icônico (SWEETSER, 1990), com a ordem consequência-causa. Aqui a relação causal foi construída com o uso do sinal manual PORQUE como introdutor da causa, confirmando a análise de Sweetser, segundo a qual a presença do conectivo é suficiente para denotar a causalidade, independentemente da ordem entre o antecedente e o consequente.
No caso das operações primitivas (SANDERS, SPOOREN e NOORDMAN, 1992), em (21), essas tomam os valores: + semântico, uma vez que o conteúdo dos eventos P e Q está relacionado à sua realização no mundo real: carro bater e antes beber; e + polaridade, tendo em vista que a relação entre os eventos é de natureza positiva. Vemos, assim, que essas operações denotam a coerência da relação de causalidade apresentada em (21).
No que diz respeito ao grau de envolvimento entre o falante e o sujeito de consciência (SANDERS e SWEETSER, 2009; SANDERS et al., 2009), a colaboradora se utiliza de um sujeito sintático, identificado pelo uso do sinal de terceira pessoa em Libras, o qual indica uma relação causal objetiva produzida no espaço de conteúdo não volitivo.
Desse modo, os exemplos em (19), (20) e (21) indicam que a causalidade de conteúdo é uma relação identificada como eventos no mundo real (SWEETSER, 1990, p. 113).
Outro contexto em que se evidencia a realização da ordem de causa-consequência na relação de causalidade de conteúdo em Libras pode ser identificado nas construções
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com o uso do conectivo DEPOIS, em uma sequência temporal, como vemos nos dados em (22) e (23), também apresentados no capítulo anterior:
______________________________sf ____________sf
(22) [PHOMEM COMER-MUITO DIFERENTE FRANGO SANDUÍCHE COMER DIFERENTE
___________________________________________sl ___________________________________________sf
CHEIO COMER] [QDEPOIS ESTÔMAGO DOR-MUITO.]
‘O homem comeu muito várias coisas diferentes - frango, sanduíche, comidas diferentes - depois ficou com muita dor de estômago’.
________________ sf _______ sl _____________________________ sf
(23) [PCOMER-MUITO] [QDEPOIS HORAS DOR-MUITO ESTÔMAGO.]
‘[Pessoa] comeu muito depois de horas ficou com dor de estômago’.
O sinal manual DEPOIS representa um conectivo temporal, que estabelece uma ordem icônica de causalidade (SWEETSER, 1990), uma vez que há a indicação inicial de uma causa, COMER-MUITO, nos exemplos (22) e (23), e de uma consequência, DEPOIS ESTÔMAGO DOR-MUITO e DEPOIS HORAS DOR ESTÔMAGO, respectivamente. Notamos que a configuração semântica para expressar a causalidade é bastante semelhante entre esses exemplos. Uma possível explicação, nesses casos, é o fato de a imagem-base vir em
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uma sequência de ações, o que, provavelmente, levou as colaboradoras a produzirem uma série temporal de apresentação dos fatos por elas identificados.
Além disso, em (22) e (23), ao considerarmos a visão de Sanders, Spooren e Noordman (1992) sobre as operações primitivas, obtivemos os seguintes resultados: + semântica: o conteúdo dos eventos está relacionado no mundo real: comer muito e dor
de estômago; e + polaridade: a relação entre os eventos é de natureza positiva. Há,
portanto, coerência e relação lógica de valor de verdade entre os eventos comer muito e
dor de estômago, as quais constituem uma relação de causalidade de conteúdo.
Por fim, sobre o grau de envolvimento do sujeito de consciência, conforme Sanders e Sweetser (2009) e Sanders et al. (2009), identificamos semelhanças em (22) e (23). Ambas são construídas com um sujeito de consciência objetivo. Em (22), vemos um espaço de conteúdo não volitivo: com a presença de um sujeito consciente a partir do uso do sinal manual HOMEM como sujeito sintático. Em (23), há também uma relação causal objetiva não-volitiva, porém a colaboradora não apresenta um sujeito sintático em sua produção linguística.
Apresentamos, no Quadro 17, uma síntese dos resultados identificados sobre a causalidade de conteúdo (ou real) em Libras, conforme a fundamentação disposta em Sweetser (1990), em Sanders, Spooren e Noordman (1992) e em Sanders e Sweetser (2009) e Sanders et al. (2009):
Quadro 17 – Categorias semânticas nos dados de causalidade de conteúdo (real)
(19) icônica (sem conectivo manual); +semântica; +polaridade; objetiva. (20) icônica (sem conectivo manual); +semântica; +polaridade; objetiva.
(21) não icônica (com conectivo manual causal); +semântica; +polaridade; objetiva. (22) icônica (com conectivo manual temporal); +semântica; +polaridade; objetiva. (23) icônica (com conectivo manual temporal); +semântica; +polaridade; objetiva.
Fonte: a pesquisadora.
No quadro 17, segundo os dados dispostos de (19) a (23) de nosso corpus, identificamos que, em Libras, a ordem entre os eventos, de natureza objetiva, tende a ser icônica (causa-consequência) quando o conectivo causal não está expresso. Quanto às relações de coerência, essas ocorrências apresentaram o mesmo padrão (mais semânticas e com polaridade positiva), assim como com relação à expressão do sujeito de consciência
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(objetivas). Desse modo, como já examinado em diversas línguas naturais, as produções listadas de (19) a (23) são uma evidência de que a causalidade de conteúdo ou real em Libras marca a correlação de causalidade direta entre os conteúdos de dois eventos, especialmente caracterizadas por ocorrerem em um nível semântico e apresentarem os fatos de maneira objetiva.