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4. CAPÍTULO IV – NARRATIVAS DO MASSACRE E TEXTURAS CAUSAIS

4.2 Operadores analíticos

4.3.3 Causalidade impedida

É porque o bloqueio à explicação possui valor para o estudo da causalidade que esse aspecto da tessitura causal merece um espaço analítico próprio. Poderíamos apenas citar o reconhecimento, por parte da revista, da impossibilidade de se estabelecer uma explicação causal definitiva, mas estaríamos desconsiderando que essa dificuldade se dá porque, no caso do massacre de Realengo, a causalidade é intrínseca ao indivíduo, isto é, ao sujeito daquele acontecimento transposto à condição de personagem daquela narrativa, de modo que há outros aspectos do acontecimento e sua história que merecem ser considerados como partes da explicação causal. Wellington cometeu suicídio e teria levado consigo toda a explicação, todos os motivos. No entanto, o atirador deixou evidências e, pode-se dizer, o próprio acontecimento como consequência de suas ações para que possamos interpretá-las.

Somente ao final da reportagem Cruel, aterrador e inexplicável (BRASIL et al., 2011), após lançar uma série de suspeitas acerca das motivações do atirador, é que a revista admite a dificuldade de compreensão do acontecimento:

Suspeita-se que ele selecionou suas vítimas pelo sexo. Dez das crianças mortas eram meninas e receberam tiros característicos de execução, na cabeça e no tórax. Um grupo de cinco estudantes disse a VEJA ter ouvido Wellington afirmar em meio ao massacre que não queria matar meninos. Wellington, segundo vizinhos e parentes, nunca teve um envolvimento amoroso com quem quer que fosse. “Acho realmente que era virgem”, diz um vizinho. Sobre a destreza com que alvejou suas vítimas, a polícia acredita que, nos últimos meses, quando ficou sem trabalho, ele tenha praticado pontaria numa mata próximo à sua casa. No momento em que entrou na escola, Wellington já havia planejado cada detalhe da matança. Antes de sair de casa, destruiu móveis e queimou o computador. Agora, a expectativa da polícia é

recuperar o HD da máquina, uma tentativa de desvendar a mente perturbada de Wellington – e assim ajudar a compreender um pouco o que parece apenas cruel, aterrador e inexplicável. (BRASIL et al., 2011, p. 84, grifo nosso)

Além de atrelar a compreensão do massacre ao desvendamento da “mente perturbada” de Wellington, é curioso o fato de que, embora reconheça o “pouco” que se pode entender do acontecimento, Veja faz dessa impossibilidade uma necessidade a ser suprida. Por isso percebíamos, já no capítulo anterior, a existência de um imperativo de causalidade no bojo dessas narrativas. O pouco que se pode apreender do acontecimento em razão da morte de Wellington é, para a revista, suficiente e justifica a busca pelos nexos causais que fazem

sentido face às evidências apontadas pela narrativa. Daí porque Veja não volta a tratar dessa dificuldade. Pelo contrário. À medida que avança a cobertura do acontecimento – e sua história – é como se mais pudesse revelar acerca das causas do ocorrido.

Na segunda edição da cobertura, a reportagem O retrato da mente de um monstro (BRASIL, 2011) traz menos indagações do que as reportagens da primeira edição, publicada menos de uma semana após o massacre. Valendo-se, como de costume, das avaliações da polícia, Veja “comprova” a premeditação do atirador e usa esse indício para corroborar suas teses causais e, assim, explicar o acontecimento.

A polícia também conseguiu prender três pessoas que venderam ilegalmente a munição e os dois revólveres usados no massacre. Comprovou-se que Wellington planejara tudo nos mínimos detalhes e com antecedência. Sete meses atrás, comprou uma das armas de um segurança que havia sido seu colega quando trabalhava numa fábrica de embutidos. A outra foi adquirida, em janeiro, de um mecânico. Por tudo, pagou 1500 reais, quantia que estava economizando havia mais de um ano. Guardava parte do dinheiro dentro de uma garrafa de refrigerante, que mantinha escondida em seu quarto. Wellington passou a fotografar a si mesmo exibindo os revólveres como um trunfo – como mostram as imagens acima [FIG. 12; 13]. Em uma das fotos, ele aparece trajando a camisa verde e a calça social preta que usou no dia em que cometeu os assassinatos na escola de Realengo. Diz a psicóloga americana Dorothy Espelage: “Ele repete o padrão de outros que cometeram crime semelhante. Excluídos ao longo da vida, eles buscam a fama no seu gesto final”. (BRASIL, 2011, p. 95)

Antes de acusar a revista de admitir a dificuldade de explicação do acontecimento como artifício retórico em favor da arbitrariedade com que desenvolve suas texturas causais, devemos considerar a naturalidade desse movimento em direção à compreensão do acontecimento, a despeito de suas contradições. Além do que, como dissemos em nosso primeiro capítulo, a própria atividade de narrar implica a constituição de um percurso explicativo das ações e acontecimentos inscritos no curso de uma história. O que é válido questionarmos, no entanto, é o modo como a revista desenvolve a tessitura causal, percebendo sua postura epistemológica em relação ao acontecimento.

Depois de observarmos essas narrativas, é preciso reconhecer que Veja trata o massacre como enigma a ser revelado. Porém, contra seu discurso inicial sobre o “inexplicável”, tece uma história segundo a qual o acontecimento pode, realmente, ser compreendido em todas as suas nuances. Se há espaços para dúvidas e incertezas, eles são meticulosamente controlados. A revista narra o massacre como se pudesse, de fato, “desvendar a mente perturbada” do atirador, traçar seu perfil, explicar as circunstâncias que o levaram a agir daquela forma, e os acontecimentos passados que voltaram de forma assombrosa sob a forma da vingança.

Devemos nos perguntar, então, o que constrange essa modalidade narrativa a oferecer mais respostas do que indagações, mais explicações do que dúvidas? Ou por que se utiliza das brechas, ausências e porosidades do acontecimento para forjar explicações a qualquer custo?

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