2.1 A PSICOPATIA: PANORAMA HISTÓRICO E OS ELEMENTOS
2.1.3 Causas
Quando se depara com a criminalidade na atual sociedade, desde uma bagatela até um crime de grande repercussão, é difícil analisar o caráter do
13 HARE Op. Cit, pág. 53.
14 FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina Legal, Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 10 Edição, 2015.
criminoso ou de tentar compreender o que levou determinado indivíduo a agir dessa maneira, indo contra as regras da sociedade.
Porém, é muito importante analisar as características genéticas e ambientais dos indivíduos. É imprescindível fazer uma comparação entre aquele que cresceu em um bairro violento, oriundo de uma família desagregada e abusiva e o seu oposto, ressaltando que no histórico de um psicopata, esses comportamentos são muito mais extensivos e graves do que no histórico da maioria das outras pessoas15. Ou seja, o meio em que desenvolveu sua vivência está diretamente relacionado com o histórico de sua personalidade.
Com base em estudos apontados, há duas teorias que tentam explicar a psicopatia, como se manifesta ou de onde surgiu. A primeira é a Teoria Biológica, que defende os fatores genéticos como os principais contribuintes para as bases biológicas do funcionamento do cérebro e suas conexões para a estruturação básica da personalidade16.
A segunda é Teoria Ambiental, que esta relacionada ao fato de que a psicopatia é resultado de um trauma psicológico muito grave advindo da sua infância ou adolescência e que de alguma forma contribuiu para o modo como o individuo responde as experiências de vida e ao seu ambiente social17.
Ao que pese a existência de duas vertentes responsáveis, por tentar de alguma maneira explicar a origem e a causa da psicopatia, é importante ressaltar que os estudos clínicos sobre a psicopatia sempre apresentaram grandes dificuldades de serem realizados. Ainda há divergências entre os próprios estudiosos do assunto, sendo que uns acreditam na Teoria Biológica e apontam que alguns estudos realizados por uso sistemático de novas técnicas de neuroimagens (RMf e PET-SCAN)18 ajudam a reforçar o diagnóstico deste transtorno e do funcionamento do mesmo.
De acordo a autora Ana Beatriz Barbosa Silva “os estudos da neuroimagem apontam o envolvimento de estruturas cerebrais frontais, especialmente o córtex orbito frontal e a amígdala”19. Sendo importante destacar que o lobo frontal desempenha um papel fundamental na regulação do comportamento humano, de
forma que o psicopata tem um dano precoce nesse local em especifico, não conseguindo o mesmo ter equilíbrio sob seu próprio comportamento20.
Segundo Hare:
A partir dos estudos realizados, com o intuito de aprimorar o conhecimento acerca de um indivíduo psicopata, não há discordância de que realmente tais agentes tenham friamente calculado ou planejado seus crimes ou ainda que tenha se tornado psicopata pelo meio em que viveu ou com o passar dos anos, mas sim, de acordo com os estudos avançados de Hare, que o cérebro de um psicopata é fisicamente diferente de uma pessoa normal e que algumas partes ligadas ao julgamento moral não são ativadas frequentemente (HARE, 2013).
Uma forma de explicitar, de maneira mais compreensiva, é que os fatores de risco são muito mais precoces do que se poderia imaginar. Independente do que exatamente ocorre, quanto à atuação cerebral, isso acontece antes dos 03 (três) anos de idade22. Portanto, qualquer tratamento não terá eficácia se não iniciado ainda cedo e não somente na fase adulta (PRADO, 2011)23.
Quanto a Teoria Ambiental, mesmo que haja a discordância de muitos pesquisadores com relação a essa teoria, não se pode deixar de considerar que a maioria dos fatores externos associados à ausência de laços afetivos, realmente podem produzir efeitos e estes serem associados a comportamentos que definem o transtorno de psicopatia.
Porém, é de grande valia ressaltar o fato de que nem todo indivíduo psicopata tem histórico sofredor durante a sua infância, bem como, não são todos
20 ABREU, Michele O. Da Imputabilidade do Psicopata. Rio de Janeiro: Ed. Lumen Juris, 2013.
21 HARE Op. Cit.,, p. 63.
22 HARE Op. Cit.,, p. 63..
23 PRADO, Ana Carolina. Entenda melhor como funciona o cérebro de um psicopata.
Revista Superinteressante. Novembro, 2011. Disponível em:
<http://super.abril.com.br/blogs/como-pessoas-funcionam/entenda-melhor-como-funciona-o-cerebro-de-um-psicopata/> Acesso em: 02 Jul. 2014.
que apresentam um histórico de vida distorcida, mas que tem mais propensão a desenvolver esse transtorno de personalidade.
Portanto, os fatores sociais afetam o modo com a evolução do transtorno e se manifesta no comportamento. Isto é, um indivíduo que tem uma mistura de traços de personalidade psicopática, mas cresce em uma família estável e tem acesso a todos os recursos necessários para a sua educação, pode vir a ser um empresário, político ou outro profissional de sucesso. Porém, se combinadas com a mesma personalidade psicopática, em um indivíduo que vem de uma família completamente desestruturada e com histórico de privação e conturbação, pode vir a se tornar um mercenário ou um criminoso violento (HARE, 2013).
A já referida psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva afirma que não há dúvidas que os psicopatas apresentam um déficit na integração das emoções com a razão e o comportamento, mas afirma que os mesmos não possuem uma lesão no córtex pré-frontal e na amígdala. Afirma ainda que tal ocorre porque os pacientes que possuem essas lesões apresentam comportamentos que lembram os psicopatas pela indiferença e falta de empatia, mas esses mesmos pacientes apresentam certa incapacidade de se adaptar a uma vida social, ao contrário dos psicopatas.
Chega-se a conclusão de que a psicopatia apresenta dois elementos causais fundamentais: uma disfunção neurobiológica e o conjunto de influências sociais e educativas que o psicopata recebe ao longo de sua vida. Sendo uma junção das duas teorias apontadas. Contudo, é importante salientar que a psicopatia pode ser diferenciada de outros distúrbios da personalidade, com base em seu padrão característico de sintomas interpessoais, afetivos e comportamentais.