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Causas de perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos

No documento 2014 BRASIL EM DESENVOLVIMENTO (páginas 47-51)

BIODIVERSIDADE E SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS: UMA AGENDA POSITIVA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

2 CONCEITOS E CAUSAS DE PERDA DE BIODIVERSIDADE E DE SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS .1 Conceitos

2.2 Causas de perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos

Conforme mencionado anteriormente, a AEM constatou que cerca de 60% dos serviços ecossistêmicos encontram-se atualmente em processo de degradação. Isso ocorre principalmente devido a cinco grandes causas: perdas de habitat, mudanças climáticas, espécies exóticas invasoras, sobre-explotação e poluição (figura 2). Esses fatores são sempre sinérgicos; por exemplo, em algumas localidades, mudanças no uso da terra podem resultar na perda de espécies, em uma maior carga de nutrientes (se a terra for convertida para agricultura de alta intensidade), uma maior emissão de gases de efeito estufa (se a floresta é cortada) e um maior número de espécies invasoras (devido a perturbações de habitat). Ainda segundo a AEM, as mudanças ocorreram em um ritmo mais rápido nos últimos cinquenta anos do que em qualquer período da história da humanidade. As causas de mudanças que resultam em perda de biodiversidade e

6. Complexidade estrutural, no caso das florestas, abrange a existência de diversos estratos de vegetação, como o herbáceo, arbustivo, sub-bosque, dossel, além de uma grande quantidade de matéria orgânica em decomposição sobre o solo, de raízes etc., criando uma série de microambientes para as espécies. Quanto à diversidade de organismos, esta compreende o número de espécies de plantas e animais, muitas vezes especializados em determinados estratos da vegetação, além dos microrganismos no solo, entre outros.

levam às mudanças nos serviços ecossistêmicos estão ou em nível estável, sem mostrar evidência de declínio ao longo do tempo, ou aumentando em intensidade. De fato, todos os cenários considerados pela AEM indicaram que as taxas de mudanças na biodiversidade tendem a continuar ou mesmo se acelerar nos próximos anos (MA, 2005).

A figura 2 apresenta as principais causas de mudanças na biodiversidade e nos ecossistemas, mencionadas previamente. A cor da célula indica o impacto de cada fator de mudança na biodiversidade em cada tipo de ecossistema ao longo dos últimos cinquenta a cem anos.

Alto impacto significa que durante o último século o fator em particular alterou significan-temente a biodiversidade, enquanto baixo impacto indica que este teve pouca influência.

As setas indicam a tendência do fator: as horizontais indicam uma continuidade no nível atual de impacto, as diagonais e verticais indicam mudanças progressivas de aumento no impacto.

Assim, se um ecossistema sofreu um impacto muito alto de um determinado fator no século passado (tal como o impacto de espécies invasoras em ilhas), uma seta horizontal indica que é provável que este impacto muito alto continue (MA, 2005).

FIGURA 2

Causas principais de mudanças na biodiversidade e nos ecossistemas

Perdas de

Impacto do fator na biodiversidade ao longo do último século Tendência atual do fator Baixo

No que se refere às perdas de habitat em ambientes terrestres, o processo de colonização humana em regiões com vegetação nativa (florestal ou não) provoca, invariavelmente, a trans-formação de áreas contínuas em diversos fragmentos de área total menor, isolados uns dos outros por uma matriz de paisagens de origem antrópica, como pastagens, plantações ou mesmo ambientes urbanos. Esse processo pode ser separado em dois componentes principais: a perda de habitat das espécies per se, decorrente da remoção da vegetação natural, e o isolamento das áreas naturais remanescentes em fragmentos menores, separados uns dos outros pela matriz de origem antrópica, resultante do processo conhecido como “fragmentação”. Embora por mecanismos diferentes, ambos contribuem para a redução no número de organismos que o ambiente pode suportar, levando à extinção local de espécies e subespécies (Wilcox, 1980).

Esses efeitos combinados da perda de habitat e da fragmentação fazem com que o desmata-mento seja uma das principais ameaças à biodiversidade terrestre e de águas interiores, bem como aos serviços ecossistêmicos por ela providos, o que torna fundamental a obtenção de dados sobre a sua dimensão e evolução ao longo do tempo. No Brasil, os seis biomas terrestres7 passaram a ter suas respectivas taxas de desmatamento monitoradas em diferentes momentos. Na Amazônia Legal,8 estas são monitoradas anualmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) desde 1988, por meio do Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes).

Nesse período de mais de 25 anos, o desmatamento nesta região oscilou entre um máximo de 29,10 mil km2, no ano de 1995, e um mínimo de 4,57 mil km2, em 2012. Em 2013, houve o desmatamento de 5,89 mil km2, o que representou um incremento de 29% em relação ao ano anterior. Grande parte dessa queda acentuada deveu-se à implementação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a partir de 2004.

O PPCDAm trouxe algumas novidades importantes ao combate do desmatamento, tais como a criação acentuada de unidades dec onservação na região, a adoção de medidas econômicas (como o embargo à produção advinda de municípios que mais desmatavam), a melhoria na tecnologia de monitoramento do desmatamento (com a criação, pelo INPE, de outro sistema de monito-ramento, o chamado Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real – Deter), além do fomento ao desenvolvimento de atividades produtivas sustentáveis. Outra novidade significativa foi em relação à governança para tratar do problema, que passou a integrar o mais alto nível da agenda política do governo federal, envolvendo treze ministérios sob a coordenação geral da Casa Civil da Presidência da República (Ipea, GIZ e Cepal, 2011).

Nos biomas extra-amazônicos, por sua vez, o monitoramento oficial da cobertura vegetal (que inclui também vegetação aberta, não apenas florestas) iniciou-se apenas em 2008, por meio do Programa de Monitoramento do Desmatamento nos Biomas Brasileiros por Satélite (PMDBBS), implementado tecnicamente pelo Centro de Sensoriamento Remoto do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O monitoramento tem como linha de base os Mapas de Cobertura Vegetal dos Biomas Brasileiros (MMA, 2007),

7. Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

8. A Amazônia Legal é uma área que corresponde a 59% do território brasileiro. Engloba a totalidade de oito estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) e parte do estado do Maranhão (a oeste do meridiano de 44ºW), perfazendo aproximadamente 5 milhões de km². Seus limites ultrapassam, portanto, aqueles do bioma Amazônia, tal como reconhecido pelo IBGE (2004).

os quais utilizaram imagens de satélite obtidas em 2002. Em um primeiro momento, houve a mensuração de taxas acumuladas de desmatamento desses biomas para o intervalo 2002-2008 (extraindo-se uma média anual para o período), e, a partir de 2009, as taxas de desmatamento foram obtidas em períodos anuais. Para o bioma Cerrado, a última taxa de desmatamento foi calculada para o ano de 2010, enquanto para a Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal os dados correspondem ao ano de 2009. Não foram divulgadas atualizações recentes relativas às taxas de desmatamento dos biomas extra-amazônicos.

Os biomas extra-amazônicos apresentaram queda nas taxas de desmatamento para o ano de 2009, quando comparadas à média anual do intervalo 2002-2008. Nesse período, o Cerrado sofreu um desmatamento absoluto de 85.075 km2, o que corresponde a uma taxa média anual de 14.179 km2 nos seis anos considerados. Nos dois anos seguintes, houve quedas nas taxas de desmatamento do bioma, observando-se valores de 7.637 km2 e 6.469 km2 para 2009 e 2010, respectivamente. Ainda assim, o Cerrado é o bioma com maiores taxas de desmatamento da atualidade, superando aquelas encontradas no bioma Amazônia em períodos correspondentes.

Embora haja um Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no bioma Cerrado (PPCerrado) desde 2010, estruturado nos moldes do PPCDAm, não há uma avaliação recente de seus resultados.

Além da perda de habitat, as mudanças climáticas de origem antrópica observadas recentemente, principalmente no que se refere ao aumento de temperaturas regionais, já têm impactado de modo significativo a biodiversidade e os ecossistemas. Essas mudanças alteram as distribuições de espécies, os tamanhos populacionais, os períodos de reprodução e a migração e causam um aumento na frequência de surtos de pragas e doenças. Ao final do século XXI, estima-se que as mudanças climáticas e seus impactos poderão se tornar a principal causa direta de perda de biodiversidade e de mudanças nos serviços ecossistêmicos, em nível global (MA, 2005).

A disseminação de espécies exóticas invasoras e de vetores de doenças, outra das causas de perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos apontadas pela AEM, continua a aumentar tanto por translocações intencionais quanto por translocações que se referem a introduções acidentais, resultantes do comércio e de viagens. Em termos globais, estima-se que as espécies exóticas invasoras contribuíram com 39% das extinções de espécies animais cujas causas são conhecidas, desde o ano 1600. Além disso, mais de 120 mil espécies exóticas de plantas, animais e microrganismos já invadiram os Estados Unidos, o Reino Unido, a Austrália, a Índia, a África do Sul e o Brasil, causando danos ambientais e perdas econômicas significativos (Lopes et al., 2009).

No que se refere à sobre-explotação, sobretudo de recursos pesqueiros, em várias partes do mundo a biomassa em pescarias, tanto de espécies-alvo quanto da fauna acompanhante (capturada incidentalmente), foi reduzida em cerca de 90% quando comparada àquela anterior ao estabelecimento da pesca industrial em larga escala, e as pressões continuam a aumentar.

No Brasil, após as pescarias marítimas resultarem na produção de 760 mil toneladas de pescado em 1985, a produção começou a diminuir, a despeito do aumento do esforço de pesca,

atingindo 435 mil toneladas em 1990. Em seguida, os valores passaram a oscilar, atingindo o mínimo de 419 mil toneladas em 1995 e o máximo de 540 mil toneladas em 2007, o que seria um indicativo de um processo de exaustão dos estoques marinhos pesqueiros tradicionalmente explotados no país (Ipea e SPI, 2014).

Por fim, tem havido um aumento significativo nos níveis de poluição, sobretudo devido à maior carga de nutrientes. Em razão das ações humanas, dobrou o fluxo de nitrogênio reativo nos continentes. Projeções indicam que pode haver um aumento adicional de dois terços até 2050 e que o fluxo global para ecossistemas costeiros sofrerá um aumento de 10% a 30% até 2030, com a maioria desse incremento ocorrendo em países em desenvolvimento. Fluxos de nitrogênio em excesso contribuem para a eutrofização da água doce e de ecossistemas mari-nhos costeiros e para a acidificação da água doce e de ecossistemas terrestres, com implicações para a biodiversidade nesses ecossistemas. O nitrogênio também contribui para a criação de uma camada de ozônio a nível do solo (que leva à perda de produtividade agrícola e florestal), para a destruição de ozônio na estratosfera (que leva à deterioração da camada de ozônio e ao aumento na radiação UV-B que atinge a Terra, causando maior incidência de câncer de pele) e para as mudanças climáticas. Os efeitos resultantes na saúde incluem: consequências da poluição de ozônio sobre funções respiratórias; aumento da incidência de alergia e asma, devido a um aumento na produção de pólen; risco de síndromes em recém-nascidos; risco aumentado de câncer e outras doenças crônicas, devido aos nitratos na água potável; e risco aumentado de uma série de doenças cardíacas e pulmonares, devido à produção de partículas finas na atmosfera (MA, 2005).

No documento 2014 BRASIL EM DESENVOLVIMENTO (páginas 47-51)