As causas do trabalho infantojuvenil doméstico compreendem um conjunto de fatores, e não apenas um fator isolado. Predominantemente, a principal causa apontada como responsável por esse fenômeno é a questão socioeconômica, o que é fato, porém este não constitui o único fator determinante, havendo também, neste caso específico, ainda uma forte influência do aspecto cultural como elemento de aceitação social. Aliada a esses fatores, a insuficiência, e muitas vezes, certa ineficácia das políticas públicas direcionadas a temática em estudo, também atua como elemento decisivo para a incidência do TID em nossa sociedade.
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MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Nota Técnica. Disponível em: <http.portal.mte.gov.br/portal- mte/>. Acesso em: 25 de outubro de 2012.
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No tocante a questão econômica, o fator renda ocupa particular importância na caracterização dessa atividade, uma vez que o baixo rendimento econômico das famílias está intimamente relacionado com as condições de pobreza das mesmas. Com base nessa constatação, Erotilde Minharro conclui que “muitos veem na utilização do trabalho de
crianças uma solução para minimizar a miséria, não percebendo que este é – na verdade – um mecanismo desencadeador da perpetuação da indigência”.162
Embora não seja a única desencadeadora do TID, sem dúvida, a miséria está muito presente na vida de crianças e adolescentes inseridos nessa realidade. Estudo divulgado pela OIT apontou que o labor no âmbito doméstico estava diretamente ligado à situação de pobreza das famílias dessas crianças e adolescentes, cujos pais geralmente trabalhavam em atividades de baixa qualificação, enquanto que metades das mães também eram domésticas, sendo que apenas 16,2% possuíam carteira assinada.163
Outra investigação empreendida patrocinada pelo mesmo organismo internacional, voltada diretamente para o tema revelou que das 1.029 crianças e adolescentes entrevistados 64,3% afirmaram que começaram a realização das funções entre 12 e 15 anos, 26,88%, na faixa de 5 a 11 anos e 9,091% com idade entre 16 e 17 anos, o que demonstra que o ingresso no setor se dá muito precocemente, exercendo influência negativa na escolaridade das mesmas.164
Ainda com relação a esta discussão, fundamentada no mesmo estudo, Simon e Felipe Schwartzman, com base na PNAD 2002 do IBGE, apontam duas origens para o labor da comunidade infantojuvenil na seara doméstica relacionadas ao aspecto econômico:
[...] Por um lado, famílias da área rural mandam suas filhas para trabalhar como domésticas nas residências das cidades próximas; por outro, nas áreas metropolitanas, mulheres adultas que trabalham como domésticas transmitem a profissão para as filhas. Em ambas as situações, as filhas ficam sujeitas à boa ou má vontade das famílias para as quais trabalham para ir à escola, receber uma remuneração minimamente aceitável, e não serem submetidas a condições de trabalho inadequadas.165
162 MINHARRO, 2003, p. 89. 163 SCHWARTZMAN, S.; SCHWARTZMAN, F. F., 2004, P. 51. 164
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. O Trabalho Infantil Doméstico nas Cidades de Belém, Belo Horizonte e Recife: Um Diagnóstico Rápido. Brasília: OIT, 2003, p. 24. Disponível em: http://www.oit.org.br/sites/default/files/topic/ipec/pub/trabalho_infantil_domestico_2_354.pdf. Acesso em: 24 de outubro de 2012.
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O panorama encontrado denota a necessidade de uma maior atenção ao tema dadas as peculiaridades que o envolvem, quando se leva em consideração que a tolerância que ainda existe não só por parcela da sociedade, como até mesmo pela própria família dos protagonistas dessa triste realidade, além das causas econômicas, tem fortes raízes em concepções culturais oriundas da estrutura escravocrata que predominou no país durante muito tempo e que relegou às meninas negras o serviço doméstico, além da valorização do trabalho como algo salutar para os filhos dos mais pobres, e a própria conotação de gênero, que confere a essa atividade um caráter eminentemente feminino.
Outro elemento a ser analisado é a relação entre educação e a inserção da infância e adolescência nessa realidade. Estudos demonstram que quanto maior é a escolaridade das mães, menor é a incidência do TID. Ao contrário disso, quanto menor o nível de escolaridade das mães, maior é a possibilidade dos filhos ingressarem nessa atividade, laborando quase sempre em condições desfavoráveis e expostos a longas jornadas de trabalho.166 Dessa forma, em se tratando de pessoas advindas de famílias de baixa renda, cuja possibilidade de superação das condições de pobreza seja reduzida, com deficiência de escolaridade, e não beneficiadas por políticas públicas que possibilitem a priorização dos estudos e o exercício de todos os direitos inerentes à infância, acabam empurradas para o mercado de trabalho.
Aliados aos fatores econômicos e sociais aparecem os de ordem cultural, que também exercem forte influência sobre a incidência do TID em nosso meio. O primeiro deles, aplicável a todas as categorias de laboristas infantojuvenis, está relacionado à ideia do trabalho como melhor alternativa para infantes e adolescentes oriundos das classes menos favorecidas, herança histórica que acompanha a sociedade brasileira desde os tempos da escravidão, como já visto.
O segundo está relacionado a aspectos tradicionais que envolvem a atividade, já que desde cedo as crianças, principalmente as meninas são inseridas em afazeres domésticos, desempenhando tarefas como lavar, cozinhar, cuidar da casa, dos irmãos menores, dentre outras, o que inicialmente se dá no próprio ambiente familiar, e que mais tarde pode influenciar na decisão de prestar esses serviços em lares de terceiros. A ocupação dos pais também poderá ser um fator de direcionamento para esse mercado, já que as filhas de mulheres empregadas domésticas têm uma maior probabilidade de ingressar no mesmo setor.167
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SEGER, Cilene Inês. O Trabalho Infantil Doméstico no Brasil. 2006. 80p. Monografia (Conclusão do Curso de Direito). Feevale, Novo Hamburgo – RS. p. 45.
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A própria inserção das mulheres no mercado de trabalho também tem sua parcela de influência, pois criou a necessidade, preponderantemente para as meninas de assumirem as tarefas domésticas enquanto as mães trabalham, inclusive cuidando dos irmãos menores, o que muitas vezes as afasta da escola, contribuindo para a evasão escolar. Tais obrigações, muitas vezes tornam-se extensíveis a outras residências, como a de vizinhos, por exemplo, onde costumam principalmente cuidar de outras crianças,168 tarefa que se traduz em grande risco não apenas para as cuidadoras, como também para quem está sendo cuidado, dada a ausência de maturidade física, psíquica e cognitiva que possibilite o preparo para lidar com essa realidade.169
Essa influência cultural acabou por favorecer, ao longo da história, a valorização de ideias equivocadas a respeito do TID, que ajudaram a construir os denominados mitos que cercam este universo. Patrícia Saboya Gomes refletindo sobre o tema, faz a seguinte afirmação:
Algumas falsas idéias cercam o trabalho infantil doméstico. Ao contrário do que se pensa, ele não é um “ofício” mais leve. Crianças e adolescentes que exercem essa atividade perdem, muitas vezes, a chance de freqüentar regularmente a escola, podem ter problemas de ordem psicológica e social por ficarem longe do convívio de suas famílias e estão sujeitas a uma série de injustiças que vão desde a baixa remuneração e as longas jornadas de trabalho até a possibilidade de serem vítimas de abuso sexual por parte dos patrões.170
Nesse sentido, Jane Vilani faz o confronto entre alguns dos mitos envolvendo o trabalho infantil, também aplicáveis ao TID e as verdades correspondentes que demonstram que o labor precoce é algo prejudicial e não favorável a crianças e adolescentes. A autora assim os apresenta:
1. O MITO: “A causa da incorporação de crianças pelo mercado de trabalho é a precarização das relações de trabalho. Ora, o trabalho é formativo, uma escola de vida que torna o homem mais digno”.
A VERDADE: “O trabalho precoce é deformador da infância. As longas jornadas de trabalho, as ferramentas, os utensílios e o próprio maquinário
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SEGER, 2006, p. 45.
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FÓRUM ESTADUAL DE PREVENÇÃO E ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL NO MARANHÃO (FEPETIMA). Trabalho Infantil Doméstico: Não Deixe Entrar na sua Casa. São Luís: MA, 2009. Disponível em: < http://www.unicef.org/brazil/pt/cartilha_TID_MA.pdf>. Acesso em: 26 de outubro de 2012. pp. 9-10.
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inadequado à idade resultam em vários problemas de saúde e elevação dos índices de mortalidade”. (texto reproduzido do jornal Folha de S. de Paulo, 1º de maio de 1997). Se a precarização das relações de trabalho atinge de modo nefasto o trabalhador adulto, teoricamente apto à defesa de seus direitos, ela massacra a criança trabalhadora, vítima indefesa de toda sorte de exploração!
2. O MITO: “O trabalho tem de ser considerado um fator positivo no caso de crianças que, dada sua situação econômica e social, vivem em condições de pobreza e de risco social”.
A VERDADE: esse pensamento implica perpetuação da pobreza daquela família e de suas futuras gerações, além de discriminação escancarada. 3. O MITO: “É melhor a criança trabalhar do que ficar na rua, exposta ao crime e aos maus-costumes”.
A VERDADE: crianças e adolescentes que trabalham em condições desfavoráveis pagam com o próprio corpo, quando carregam pesos excessivos, são submetidos a ambientes nocivos a saúde, vivem nas ruas ou se entregam à exploração sexual.
4. O MITO: “Trabalhar educa o caráter da criança, é um valor ético e moral. É melhor ganhar uns trocados, aproveitar o tempo com algo útil, pois o trabalho é bom por natureza”.
A VERDADE: a infância é tempo de formação física e psicológica; tempo de brincar e aprender. O trabalho precoce impede a freqüência escolar e prejudica toda essa formação, inclusive a profissional. È certo que a Constituição Federal de 1988 erigiu o valor social do trabalho como um dos fundamentos do Estado democrático de direito; todavia, antes de 14 anos, o direito resguardado é o de não trabalhar, e esse tempo deve ser preenchido com educação, com brincadeiras, com exercício do direito de aproveitar a infância.
5. O MITO: “É bom a criança ajudar na economia da família, ajudando-a a sobreviver.”
A VERDADE: quando a família torna-se incapaz de prover seu próprio sustento, cabe ao Estado apoiá-la, e não à criança.
6. O MITO: “Criança desocupada na rua é sinônimo de perigo, de algo perdido, sintoma de problema”.
A VERDADE: esse era o fundamento do vetusto Código do Menor, de 1927, bem como da posterior ‘doutrina da situação irregular’. Estamos hoje sob um novo paradigma constitucional – a doutrina da proteção integral, que entende a criança como sujeito de direitos, alvo de proteção obrigatória do Estado, da família e da sociedade.
7. O MITO: “Criança que trabalha fica mais esperta, aprende a lutar pela vida e tem condições de vencer profissionalmente quando adulta.”
A VERDADE: o trabalho precoce é árduo e nunca foi estágio necessário para uma vida bem-sucedida – ele não qualifica e, portanto, é inútil como mecanismo de promoção social. [...].171
Na realidade, tais ideias constituem barreiras para a plena erradicação não só do trabalho infantojuvenil doméstico, mas do trabalho infantil em geral. Entender a exploração de mão de obra de crianças e adolescentes de forma irregular como algo “natural”, seja por
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VILANI, Jane Araújo dos Santos. A Questão do Trabalho Infantil: Mitos e Verdades. In: IBICT, Revista Inclusão Social. Brasília, vol. 2, nº 1, 2007. Disponível em: <http://www.revista.ibict.br/inclusao/index.php/ Inclusão/article/viewFile/57/79>. Acesso em: 24 de outubro de 2012, pp. 88-89.
questões relacionadas à pobreza que no entender de parcela da sociedade possam justificar a inserção daqueles cidadãos em tal atividade, ou, qualquer outro fator que tenha ligação com os mitos mencionados pela autora, traduzem um sério equívoco que precisa ser superado, pois o trabalho precoce acarreta para aquela comunidade consequências nefastas de ordem econômica, educacional, física, psíquica, moral e social.