2. Os jovens e a sociedade
2.4. Causas que podem levar os jovens a mudar de vida
Tal como em tempos transactos, os jovens de hoje buscam um sentido para a sua vida, procuram a sua felicidade. Contudo, a forma como a sociedade está organizada e enquadra a pirâmide de valores, conduz, muitas vezes, à perda de
referentes de sentido, os quais facilitam o surgimento de diferentes, ou até divergentes, estilos de vida, reforçados por uma visão economicista, materialista, mais visual, etc.
Um aspecto relevante desta perda ou substituição destes referentes é a mudança de valores na sociedade no seu conjunto, que se traduz, por sua vez, tanto em mudanças nos estilos educativos no interior da família e na escola, como em mudanças nas orientações de valores dos próprios jovens, incluindo a perda ou a substituição de valores de conduta pessoal, social, como a disposição ao compromisso e a participação social e política55.
Apesar dos tempos revoltos a que se assiste, os jovens tornam-se susceptíveis a algumas causas que os podem levar a mudar de vida.
Panorama Europeu
Os dados oferecidos pelos inquéritos do Eurobarómetro56 entre 1982 e 1990, ostentam as seguintes tendências:
1. As três grandes causas invocadas pelos jovens europeus, entre 1987 e
1990, que os levariam a mudar de vida foram: a construção da paz no mundo, a
protecção do meio ambiente e os direitos humanos. O apoio massivo dado a estas
causas observa-se em quase todo o espaço europeu, sendo estas mesmas as mais invocadas, também no inquérito de 1990, entre os países comunitários, excepto nos países como a Grécia, a França, a Itália e Portugal, onde estas causas não ocupam as mesmas prioridades. A liberdade individual, na Grécia, a luta contra a
pobreza, em França e Portugal (48% e 6%, respectivamente) e a luta contra o racismo, em Itália (52%), foram as prioridades avançadas pelos jovens destes
países.
55 Como dissemos, na Introdução deste trabalho (ponto 3.1 Os jovens no contexto social), os valores vão sendo substituídos por outros valores que também impulsionam à participação.
56 Um dos instrumentos de investigação regularmente utilizados a nível europeu para a medição de orientações de valores, atitudes e opiniões, tanto de adultos como de jovens, são os inquéritos “Eurobarómetro”, cujos resultados referentes aos jovens são publicados pela Comissão Europeia (Comissión des Communautés Européennes) com o título “Les Jeunes Europeens”/“The Young Europeans”. Estes estudos constituem, pelo seu carácter comparativo, uma das fontes de informação e de consulta mais úteis para a análise de tendências de opinião e mudanças de atitudes nos diferentes países da União Europeia.
2. A luta contra o racismo, à medida que a idade vai avançando, é uma causa
que vai perdendo adeptos, tanto para homens como para mulheres. As diferenças entre os jovens e as pessoas com mais de 55 anos são muito grande. Por outro lado, esta causa é defendida com maior intensidade pelas mulheres do que pelos homens em todos os grupos de idades. O mesmo sucede com a ajuda ao terceiro mundo, mais defendida pelas mulheres, de distintas idades, do que pelos homens.
Panorama Nacional e Bracarense
Esta tendência europeia, pela defesa destas grandes causas, é advogada também pelos jovens do Distrito de Braga, embora em escalas de prioridades distintas. Estes últimos invocam, prioritariamente, a paz, a defesa da família e a
luta contra a miséria, como causas pelas quais lutariam.
A paz é um bem pelo que todas as pessoas lutam e os jovens buscam-na como um tesouro para viver, ao ponto que estariam dispostos a dar a sua vida por esta causa. A importância deste valor, no universo simbólico juvenil, é também corroborado pelos diversos inquéritos, especialmente pelo inquérito do Instituto de Ciências Sociais, no qual havia uma questão sobre as causas sociais pelas quais os jovens seriam capazes de lutar e fazer sacrifícios, tendo sido a paz a única causa que reuniu o apoio maioritário entre os jovens (62%), revelando ser uma aspiração importante destes mesmos (ICS, 1896-87). Deste modo, vemos que a valorização da paz é um fenómeno geral e que corresponderá, possivelmente, a um dos ideais mais válidos, nos dias de hoje.
A família seria também uma causa que levaria os jovens a transformar a sua vida. Estes vêem naquela a célula de estabilidade emocional, equilíbrio e segurança. Nos dias que passam, a família tem vindo a ser desfigurada, em relação à imagem que dela se herdou, manifestamente em factos como a ruptura matrimonial e a decadência das tradições familiares; contudo, continua a ser a família a transmissora de comportamentos, atitudes, valores, crenças que vão dando sentido e ancoram a pessoa, numa sociedade tão competitiva e complexa, como a actual.
No inquérito “Valores e atitudes dos jovens”, realizado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento (IED), em 1983, verificava-se que os jovens atribuíam um grande sentido aos valores da família, na medida em que lhe
atribuem uma imagem mais positiva do que negativa, apresentando-a como “grupo de pessoas que se ajudam mutuamente em todas as circunstâncias” (83%), “local de segurança afectiva” (72%), “local importante porque nela se encontram as raízes de cada um” (67%), “local onde as pessoas aprendem a preparar-se para a vida” (62%), “meio mais adequado para a formação da personalidade” (54%) e “meio de garantia da nossa segurança económica” (53%).
Numa sociedade em que se luta pela equidade, mas na qual, de dia para dia, se dilatam e acrescem as desigualdades, os jovens, independentemente do género e
idade, dizem que estariam dispostos a lutar contra a miséria (cf.: F. 2.4.1 e T. 2.4).
Como constatam os números, não são os grandes problemas ideológicos ou de os que hoje estimulam e movem a juventude. Os problemas onde se aborda questões ligadas à pessoa e à cultura são os que mais afectam os indivíduos. Os grandes problemas económicos e mundiais não deixam de importar, ocupam, sem dúvida, as grandes manchetes dos jornais e dos noticiários, mas, o que realmente move e faz mudar de vida, é, no dizer dos jovens, aquilo que afecta, directamente, a pessoa, como é a paz e a miséria. Os jovens vistos, desta óptica, surgem como apreensivos, sujeitos voltados para a acção, para o desenvolvimento e compromisso, daí que, por vezes, é normal vê-los envolvidos em debates para se encontrarem novas formas de mudar o rumo da sociedade.
Causas que podem levar os jovens a mudar de vida, Braga, 2002 Figura 2.4.1
2 1 2 7 1 5 26 5 14 27 3 7 A igualdade dos sexos
A protecção da natureza A paz A luta contra a miséria A defesa do país A defesa da família A defesa da sua fé religiosa A defesa da sua ideología política Os direitos e liberdades individuais A liberdade sexual A revolução Nenhuma
Fonte: Inquérito aos jovens da Diocese de Braga, 2002 Base: População jovem entre 15 e 29 anos (N: 1124)