Mais tarde, comecei a dizer que ser comunista é um estado de espírito. E é. Pode-se ler Marx, as obras mais importantes que Lenin escreveu, mas no fundo, no fundo, é um estado de espírito. (…) Marx nunca teve tanta razão como agora (SARAMAGO, 2008a, s/p).
Um espectro de Marx ronda os romances saramaguianos57. O autor que é constantemente lembrado pelo seu posicionamento político - muito embora não deveria haver obrigação de semelhança entre as opções pessoais do escritor com a de sua “instituição autoral”58-, realiza uma incisiva crítica ao regime econômico capitalista em seus romances.
Assim, a partir do intertexto lúdico com que inauguro este capítulo, poderíamos começar a desvendar os elementos circundantes da crítica do autor ao capital, não apenas àquele concebido em sua gênese, mas aos contornos e agravamentos contemporâneos às suas narrativas.
Vimos, no capítulo anterior, como alguns de seus romances evidenciaram o enfraquecimento da esfera estatal com a destituição de um certo ideário de Estado Moderno, o que possibilitou que as forças econômicas assumissem essas lacunas e atuassem dividindo com ele parcelas de poder na sociedade. Em Ensaio sobre a cegueira, o interesse do capital fez com que os indivíduos fossem isolados, enquanto que em Ensaio sobre a lucidez, esse mesmo interesse gerou um “bode expiatório” para que os governantes recuperassem a gestão da cidade e, por fim, de modo mais evidente, em As intermitências da morte foi questionado o gerenciamento dado ao capital pela presença dos maphiosos que agenciam os corpos à outra vida. Nesse último, ressalta-se a ironia de essa ser uma solução atenuante à dor dos moribundos e, portanto, travestida de um propósito ‘humanitário’.
Entretanto, em alguns romances essa tônica assume uma centralidade, tonando-se até mesmo o eixo temático. É o caso do romance A Caverna, em que o edifício de um grande
57 Karl Marx inicia seu Manifesto Comunista com a seguinte afirmação: “Um espectro ronda a Europa – o
espectro do comunismo”. Adiante, Derridá intitulará seu texto de Espectros de Marx fazendo uma alusão tanto ao texto do manifesto, como a “sobre-vivência” da herança do marxismo.
58 Barthes realiza distinções no processo da escrita, separando a noção de scriptor da de auctor. O escritor seria
“aquele de quem se fala”, uma representação social, enquanto o autor “é o eu que se coloca como fiador daquilo que escreve; pai da obra; assumindo sua responsabilidade” (BARTHES, 2005, p.173-174). Por outro lado, Saramago não se mostra muito afeito a essas distinções da narratologia literária, basta lembrarmos das considerações que elabora acerca do narrador, colocando-o indistintamente como sendo o próprio autor em sua obra. Sobre esse ponto, conferir o texto O autor como narrador, publicado pela Revista Cult, em 1998.
Centro comercial assume posição fulcral na narrativa contrapondo todo o avanço que representa em relação ao protagonista, Cipriano Algor, e sua profissão como oleiro. E de
Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas59, em que dilemas éticos são suscitados no
contabilista, artur paz semedo, mediante incipientes reflexões sobre o impacto de seu trabalho na indústria bélica. Em determinado ponto dos respectivos enredos, essas narrativas irão ensejar momentos de anagnorisis60, em que as personagens são levadas a um embate e percepção clarificada sobre as artimanhas do capital e os aprisionamentos que lhes são gerados pelo constante mecanicismo da racionalização dos processos econômicos.
Em virtude de não ser o nosso objetivo uma análise abrangente sobre as relações econômicas nos romances, focalizaremos os três aspectos de maior relevo nas obras: a) os desdobramentos possíveis advindos das relações de/com o trabalho; b) a política das trocas; e c) os aspectos éticos resultantes dessas relações naquelas sociedades. Para isto, em nossa primeira seção, localizaremos a gênese do modelo de uma Economia Moderna e capitalista em que estão inseridas as sociedades dos romances para a posteriori observarmos nessas obras as pistas sobre aqueles possíveis agravamentos e nuances apontados por Saramago nesse mesmo modelo; por último, realizaremos algumas considerações, estabelecendo pontos de contato entre os aspectos econômicos de cada uma dessas narrativas.
3.1 – A organização econômica ficcionalizada nos romances saramaguianos
Se toda a política necessita de uma economia, a economia determina uma política; isso é o que se está a passar [com a globalização]. (SARAMAGO apud
AGUILERA, 2010)
A maneira de uma sociedade se organizar sempre esteve intrinsecamente vinculada ao modo de circulação de seus bens e serviços. Nos romances eleitos para a leitura apresentada neste capítulo, temos de alguma forma focalizadas as relações econômicas das sociedades ali transfiguradas, bem como uma crítica direcionada por Saramago à natureza dessas mesmas relações.
59 Passaremos a designar apenas por Alabardas, a título de contribuir para maior fluidez do texto. Nas citações
das obras constarão, A caverna como AC e Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas como AL.
60 Conforme Massaud Moisés (2004, p.23), “termo empregado por Aristóteles para designar o ‘reconhecimento
(...), a passagem do ignorar ao conhecer’ [...]. A anagnórise assinala o momento da descoberta de um fato oculto, cuja revelação altera substancialmente o futuro das personagens.”.
Um exemplo das transformações econômicas ocorridas ao longo do tempo pode ser vislumbrado pelo enfoque dado ao trabalho, que nem sempre foi valorizado como forma de enriquecimento. Ao contrário do que se imagina, essa é uma concepção bastante moderna que podemos desmistificar tomando Platão, n’A República, como contraponto, que considerava o crescimento econômico como algo pernicioso61 à formação da cidade ideal. Nas sociedades
primitivas, a produção gerada com o trabalho era voltada quase que exclusivamente para uma cultura de subsistência, ou seja, voltada ao setor primário da economia, enquanto o excedente era destinado a trocas.
Ao nos debruçarmos sobre as relações econômicas dos romances saramaguianos observamos em um primeiro momento que as sociedades em que estão inseridas as personagens de A caverna e Alabardas não estão pautadas em uma atividade econômica que possua como base de organização da produção e de consumo apenas o prisma da sobrevivência. Soma-se a isso a percepção de que as relações não são pautadas única e exclusivamente a partir das trocas de objetos ou de dons62, modelo oriundo de sociedades mais antigas.
Segundo Marcel Mauss (2003), nas sociedades arcaicas existia um sistema de
prestação totais em que o exercício da permuta era evidenciado. Havia incutida nessa prática
certa obrigatoriedade tanto em dar como em receber os objetos, isto porque acreditava-se que eles possuíam um sentido além de sua materialidade63, eram considerados como dádivas e expressavam as relações construídas naquele clã. Nisto está embasada o que Mauss aponta como a tríplice obrigação para os seres humanos: dar, receber e retribuir64.
61 Não significa que a riqueza não fosse bem vinda à cidade, mas ela não deveria ser possibilitada aos artesãos:
“Achas que o oleiro, tendo enriquecido, irá querer continuar a ocupar-se do seu ofício?”. No livro IV d’A República, 433a-b, Sócrates define “[...] que cada um deve ocupar-se com a tarefa para a qual sua natureza é mais bem dotada [...] cumprir a tarefa que é a sua sem meter-se em muitas atividades” e, a partir de então, estabelece a divisão social dos estamentos na cidade ideal: os artesãos, os guardiões e os governantes. Os últimos lugares sendo ocupados apenas pelos filósofos.
62 Para Caillé (2002), o sociólogo Marcel Mauss supera o seu tio Durkheim ao entender o fato social não apenas
explicável pela religião, mas em uma constante imbricação entre o utilitário e o simbólico: “Os fatos sociais, poder-se-ia dizer, para resumir da melhor forma possível a especificidade da abordagem maussiana, passam a ser
totais (Tarot, 1996) e não devem mais ser considerados como coisas e sim como símbolos”(p.39). Ele acredita
ainda que na obra de Mauss a concepção de símbolos se assemelha a de dons, elas são idênticas ou “pelo menos coextensivas”(p.37). Dessa forma, as trocas incluem uma perspectiva também simbólica.
63 A crença de haver uma espiritualidade latente no objeto obriga sua circulação, “a coisa dada [...] tende a
retornar ao [...] seu ‘lar de origem’, ou a produzir, para o clã e o solo do qual surgiu um equivalente que a substitua” (MAUSS, 2003, p.200).
64 Deste modo, as dádivas não deveriam permanecer estáticas (MAUSS, 2003, p.251). A recusa a dar e a retribuir
a dádiva recebida acaba por destruir o indivíduo que as aceitou. E a recusa a aceitá-la significava uma recusa à criação de vínculos com aquele que a oferta: “Tudo se passa como se houvesse troca constante de uma matéria espiritual compreendendo coisas e homens, entre clãs e os indivíduos, repartidos entre as classes, os sexos e as gerações”. (MAUSS, 2003, p.72). Dessa forma, elas encerram um valor simbólico, aceitá-la é comprometer-se
As transações efetuadas nos romances demonstram se afastar dessa circularidade, pois a experiência antropológica das trocas só é possível em uma sociedade em que os objetos não são vistos como mercadorias65, mas como possibilidades de criar vínculos fortificados. Naquelas sociedades as trocas eram efetuadas sobretudo entre coletividades e não entre individualidades, estimulados pelo sentimento de pertença à comunidade. Durante as narrativas podemos observar que as relações de troca presentes naqueles sistemas econômicos não cumprem plenamente este movimento, uma vez que atingem interesses individuais e são mediadas pelo capital monetário: “E onde é que iremos descobrir essa preciosa camioneta, perguntou Marta, Alugamo-la, Custa muito dinheiro, não terei que chegue, disse o oleiro” (AC, p.50).
Os dois romances escolhidos apresentam enredos que trazem objetos produzidos pelos protagonistas, entretanto, conforme dito, esses não são instrumentos de união e vínculo, como na experiência maussiana, mas são frutos de uma produção com intuitos comerciais, destinados a obtenção de rendimentos. No desenrolar das narrativas a relação das personagens com esses objetos será problematizada e, a partir de reflexões realizadas, ela será de alguma forma promotora de uma desestabilização dos indivíduos.
No romance A caverna, os objetos-centro do relato são umas louças de barro fabricadas pela olaria de Cipriano Algor. Essas sempre foram vendidas a um grande Centro comercial até que, em determinado momento, surgiram no mercado objetos de plástico que as imitavam a baixo custo. A partir de então, o Centro deixa de adquirir seu trabalho e o oleiro tenta buscar alternativas, confeccionando bonecos que não terão boa aceitação dos consumidores. Sem perspectivas, o oleiro vê-se obrigado a ir morar nesse mesmo Centro que o ultraja para acompanhar sua filha e genro, mediante promoção à guarda residente do último. No início, ele reluta, mas paulatinamente o oleiro perde, junto de sua profissão, sua pertença àquele lugar social para buscar se ajustar a outro, o que efetivamente não ocorre.
De outro lado, em Alabardas, os objetos de produção do protagonista não são inofensivas louças, mas armas. Artur paz semedo é um funcionário exemplar que trabalha no fabrico das indústrias Belona S.A. sem questionar-se acerca do uso feito de suas produções socialmente, o que faz com que sua esposa, uma engajada pacifista, o deixe. Mediante provocações sofridas ao ler um livro de Malraux, o desafio é lançado pela ex-mulher:
com o desafio de retribuição e retribuir é uma forma de não ser desigual ao doador. O exemplo dado pelo antropólogo é o potlatch, ritual exercido por tribos indígenas norte-americanas.
65 Para Karl Marx (1996, p.154), “a mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas
pesquisar os arquivos da indústria em prol de conhecer melhor sobre seu trabalho; diante da curiosidade sobre a possível sabotagem de obuses por funcionários da empresa, artur descobrirá as artimanhas do capital.
Podemos perceber, portanto, a partir destes objetos que, nos textos saramaguianos, seja no trabalho da manufatura de Cipriano Algor em A caverna ou no trabalho industrial de
artur paz semedo em Alabardas, é possível observarmos naquelas sociedades uma
organização em que as relações de trocas são efetuadas por uma estrutura pautada em relações comerciais de compra e venda. Essas relações incluem agentes econômicos, tais como os consumidores, os comerciantes e o mercado, que são evidenciados, por exemplo, no livreiro de Alabardas, nos consumidores consultados na pesquisa do mal, ou neste próprio Centro comercial de A caverna.
Longe da sacralidade existente na experiência das trocas66, a relação das personagens com os objetos no âmbito do mercado incide sobre suas vivências de uma forma diferenciada, tornando as relações menos harmônicas que outrora. Esta problematização das relações das personagens com seus objetos aparece sutilmente: quando artur paz semedo descreve seu ofício de faturamento como “miuçalhas das munições” (AL, p.10), o que denota o pouco valor destinado às peças de seu trabalho, quando almeja passar ao setor das grandes armas ou quando os bonecos de Cipriano Algor são descritos com certo desprezo: “os seis bonecos pareciam aquilo que dramaticamente eram, seis objectos insignificantes, mais grotescos uns do que outros pelo que representavam, mas todos iguais na sua lancinante inutilidade” (AC, p.48).
Atrelado à apresentação desses objetos, Saramago parece apontar-nos para o aspecto vazio de significado da reprodução e da produção em massa de mercadorias, característica marcante da modernidade e de sua economia. É possível estabelecer um paralelo com Walter Benjamin que percebeu nas obras de arte deste tempo uma perda de seu caráter único na sociedade, mediante a facilidade de serem disseminadas suas cópias, “o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é sua aura” (BENJAMIN, 2011, p.168). Ou seja, Benjamin percebe na alteração dos modos de produção, um embate extensivo aos eixos culturais.
Durante o desenrolar dos enredos, a crítica benjaminiana pode ser vertida sob diversas perspectivas: na parcela ínfima da linha de produção exercida por artur paz semedo, na crítica
66 Não pressupõe dizer que durante as trocas efetuadas pelas sociedades arcaicas não houvesse ações
interessadas. Segundo Marcel Mauss, não há nenhuma ação que seja genuinamente desinteressada, e toda reciprocidade gera um vínculo entre as partes, assim como a recusa significa não querer manter aproximações com aquela pessoa. Isto porque, “a dívida faz parte do sistema do dom” (CAILLÉ, 2002, p. 307).
do oleiro ao simulacro dos pratos de plástico, na busca deste em adequar-se ao mercado com a tentativa de padronização dos bonecos ou, a contrapelo, pela própria profissão do oleiro que imprime suas marcas sobre cada produto, particularizando-os. A produção realizada pelas personagens nas narrativas diz muito sobre a sociedade em que estão inseridas, justamente pelo fator de impacto que exerce sobre ela. Há também nas personagens certa relutância e dificuldade de adaptação, pois muitas das alterações sofridas no âmbito econômico demoram a ser sentidas nos demais âmbitos sociais, conforme afirma Benjamin (2011, p.165).
Nesses enredos, temos assinalados alguns indícios perceptíveis de uma Economia Moderna, como por exemplo, em sua estrutura comercial, no trabalho assalariado e na divisão do trabalho, mas essa economia se coloca em constante avanço, adquirindo novas características. Um desses avanços no plano socioeconômico poderá ser percebido, conforme vimos no capítulo anterior, quando o Estado Moderno perde uma parcela de gerência da sociedade ou de sua “violência legitimada”, conforme assevera Weber (2013, p.67), relegando uma parte de suas forças para o setor econômico. Desde então, os governos locais estão rendidos ao capital buscando subterfúgios, como o favorecimento da livre inciativa, com esperança de que ele se mantenha em seu território: “A política se transformou num cabo de guerra entre a velocidade com que o capital pode se mover e a capacidade de “frenagem” dos poderes locais.” (BAUMAN, 2008, p.38)
O termo Economia Moderna surge apenas no século XVIII, com Adam Smith, em A
riqueza das nações, quando há efetivamente a sua sistematização como disciplina autônoma.
Contrapondo o fortalecimento do Estado Moderno vivenciado no mercantilismo pela acumulação de metais como o ouro e a prata, sobretudo com as práticas colonialistas, Smith (1996) defendia uma menor intervenção estatal e um maior liberalismo econômico, o que o fez afirmar a sua célebre metáfora do mercado que se autorregula através de uma mão
invisível, no qual o Estado surge com uma parcela mínima de contribuição.
Ao contrário do que se viveu no período mercantilista, há uma descentralização do poder e a separação das funções do Estado, conforme vimos nas propostas de Locke e Montesquieu, favorecendo o desenvolvimento da economia67. Dessa maneira, podemos
observar que o poder econômico existente nas sociedades ficcionalizadas nos romances divide com o Estado uma parcela de gerenciamento dos indivíduos, a economia interfere em suas rotinas, escolhas e até mesmo em suas liberdades, conforme veremos adiante.
67 Vale ressaltar que, para Hunt (1989), a partir do surgimento do mercantilismo começamos a delinear um
período de transição considerado como a primeira forma de capitalismo e, portanto, os primeiros passos para uma Economia Moderna.
Em um modelo econômico moderno, a perspectiva adotada é a de que a divisão e organização do trabalho seja um dos principais motivos para o enriquecimento das nações e não mais a acumulação dos metais. Para Adam Smith, apenas o trabalho poderá levar ao acúmulo de capital68, pois “o produto do trabalho é a recompensa natural do trabalho, ou seja, seu salário” (1996, p.117). Essa relação econômica está em contraposição a concepções filosóficas da subsistência, como a que vimos com Platão na Antiguidade, voltando-se ao trabalho como produção assalariada.
Nos romances, os dois protagonistas possuem vínculos de trabalho que não são pautados em um regime de assenhoramento, como no sistema feudal, por exemplo, mas em uma remuneração. Cipriano Algor assina contrato de exclusividade de vendas com o Centro comercial, não é assalariado, mas recebe pela compra de sua produção; enquanto artur paz
semedo é assalariado na indústria Belona S.A. Essas relações não são feitas com o Estado,
nem estão evidentes as intervenções dele; um dos traços que nos sugere que essa é uma sociedade mais afeita ao laissez-faire do liberalismo econômico.
A despeito disso, a ambientação de A caverna sugere o paulatino apagamento da manufatura frente ao crescimento da indústria e do mercado presentes na Cintura industrial e no Centro comercial, respectivamente. Contexto diferenciado de Alabardas, em que a ambientação remonta à realidade apenas industrial, embora os documentos pesquisados por
artur nos remetam também a transações comerciais. Em todas essas sociedades está presente
a divisão dos trabalhos, em maior ou menor grau. Naquele, Cipriano Algor divide suas tarefas com sua filha Marta. Na confecção dos bonecos, ela é a responsável pela pintura e ele pelo forno, por exemplo. Neste, artur paz semedo se ocupa do “faturamento das miuçalhas”, ou seja, das peças menores, como as munições dentro de uma engrenagem que chega às armas de grande porte. Ambos estão vinculados ao setor secundário da economia e a produção da olaria de A caverna está estritamente veiculada ao segundo momento deste, a manufatura.
O esforço conjunto das personagens confeccionando bonecos, em A caverna, para salvar a olaria aponta para o clássico exemplo de Smith sobre a implantação da divisão do trabalho em uma manufatura de alfinetes. Embora esse modelo da divisão do trabalho seja conhecido pelo meio industrial, Smith (1996) utiliza como exemplo a introdução do método na manufatura, pois nela está a oportunidade de visualizarmos melhor este processo devido ao
68 Smith se distancia das concepções dos fisiocratas que acreditavam no enriquecimento apenas com o trabalho
agrícola e, dos mercantilistas, que acreditavam por sua vez, apenas no comércio externo. O autor crê em um amálgama entre essas esferas: “As nações mais opulentas geralmente superam todos os seus vizinhos tanto na agricultura como nas manufaturas; geralmente, porém distinguem-se mais pela superioridade na manufatura do que pela superioridade na agricultura.” (SMITH, 1996, p.67)
número pequeno de funcionários envolvidos na realização do produto: “A divisão do trabalho, na medida em que pode ser introduzida, gera, em cada ofício, um aumento proporcional das forças produtivas do trabalho” (SMITH, 1996, p.66). Em A caverna, ao alterar os objetos em busca de encontrar um novo nicho de mercado, o autor faz diversas pausas explicativas sobre a metodologia utilizada e sobre as mudanças no processo de confecção, ao passar de louça para bonecos. Os auxílios de sua filha somam-se ao de seu genro e agilizam o processo de composição do novo produto ofertado pela olaria, mas a diferença em relação à indústria é