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Cecilia, Euphrazia, Hypolitha,  Florinda, Plácida e Victoria:  entre o  vertical  e o horizontal

2  O  SERTÃO  DAS  LAGENS:  FORMAÇÃO  SOCIOECONÔMICA  DE  UMA  SOCIEDADE

4.3 OS JOGOS FAMILIARES: AS HIERARQUIAS RACIAIS

4.3.2  Cecilia, Euphrazia, Hypolitha,  Florinda, Plácida e Victoria:  entre o  vertical  e o horizontal

 

4.3.2  Cecilia,  Euphrazia,  Hypolitha,  Florinda,  Plácida  e  Victoria:  entre  o  vertical  e  o 

horizontal 

   

As discussões vão florescendo ao realizar as análises qualitativas dos assentos de batismo, 

para  uma  visão  empírica  a  escravaria  de  Anastácio  Gonçalves  de  Araújo,  que  permite 

argumentações  pertinentes  sobre  o  compadrio  em  Lages,  será  empregada.  Não  pretendemos 

realizar  um  estudo  de  redes,  mas  sim,  inspirado  nos  estudos  de  Marcelo  Santos  Matheus,  para 

exemplificar  as  construções  dos  potenciais  grupos  de  convívio  forjados  nas  relações  fluídas 

proporcionadas pelo local de convívio. No caso a ser ilustrado, a escravaria de Anastácio G. de 

Araújo e o trânsito espontâneo entre as propriedades, por meio do compadrio. Ademais, ao tratar 

do compadrio, Matheus assinala que a expressão grupos de convívios em detrimento às famílias 

negras  torna­se  mais  aplicável  ao  local  de  análise,  isto  pela  heterogeneidade  dos  espaços  e  das 

relações de compadrio, no que concerne à condição jurídica, cor e outros aspectos. Argumentos 

que se repetem em Lages, considerando a formação heterogênea na cidade, como assinalado no 

Capítulo 1.  

  482 MATHEUS, Op. Cit., p. 260.   483 Ibidem, p. 260.   484

Cecília, Euphrazia, Hypolitha, Florinda, Victoria e Plácida pertenciam a Anastácio G. de 

Araújo, e durante a vigência da Lei de 28 de setembro de 1871 tiveram 20 filhos ingênuos. Suas 

escolhas de compadrio asseveram o proposto nas discussões quantitativas trazidas até então (Tabela 

1), porém trazem outros elementos a serem visualizados, como uma rede de apoio entre as mulheres 

e  homens  escravizados  por  esse  proprietário.  A  família  Gonçalves  de  Araújo,  na  figura  de 

Anastácio, que segundo seu registro de matrimônio era nascido em Lages, contudo o assento de 

batismo e nenhum rastro da família pôde ser encontrado em Lages até a década de 1840

485

.  Já os 

primeiros registros de Anastácio em Lages datam da década de 1850, quando contraiu matrimônio 

com Maria Christina Vieira, em 1859, com quem teve, pelo menos, três filhos: Clara, Manoel e 

Laurindo. Anastácio era filho de Tristão Gonçalves de Araújo e Maria Amada do Espírito Santo, 

possuindo dois irmãos: Ana Maria Gonçalves de Araújo e Tristão Gonçalves de Araújo filho

486

.  

Os  registros  relacionados  à  família  apontam  que  estes  vieram  para  Lages  com  seus 

escravizados/as, mães das mulheres citadas acima, que nasceram já na cidade. Isto pensando que o 

primeiro ingênuo, Leôncio, recebeu o sacramento em 1877, filho de Cecília que ainda foi mãe de 

Apolinária, Maurício e Sebastiano. Cecília foi batizada em Lages em 1860, nascida em fevereiro 

de 1859, filha de Thimotia e Euzebio, como padrinho e madrinha estão Joze Francisco e sua esposa 

Anna Maria, todos/as escravizados/as por Anastácio

487

. Assim, tinha 18 anos quando Leôncio foi 

batizado,  a  data  do  menino  não  está  registrada,  havendo  a  possibilidade  de  o  nascimento  ter 

ocorrido  anos  antes,  costume  dos  proprietários,  repetido  por  Anastácio  em  outras  ocasiões.  As 

predileções de Cecília demonstram um estreitamento da relação da mesma com a família senhorial, 

a  madrinha  e  o  padrinho  de  Leôncio

488

  foram  os  dois  filhos  de  Anastácio,  Clara  Gonçalves  de 

Araújo e Manoel Gonçalves de Araújo que desfrutavam de tenra idade em 1877. Ambos foram os 

indivíduos que mais compareceram à paróquia como padrinho (Tabela 14) e madrinha (Tabela 13).  

 

485 Segundo site de genealogia a família Gonçalves de Araújo era oriunda de Bom Jesus na Província de São Pedro do  Rio  Grande  do  Sul,  com  Anastácio  nascendo  no  ano  de  1840,  assim  ele  teria  19  anos  ao  contrair  matrimônio,  informações que não podemos confirmar. 

486 LAGES, Diocese. Registro de Matrimônio de Anastácio Gonçalves de Araújo Neto e Maria Christina Vieira, 1859.  Livro  de  casamento  8,  p.  23.  Disponível  em:  https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY­6PR1­ 6S?i=22&wc=MFKV­DZS%3A1030404201%2C1030404202%2C1030444101&cc=2177296.  Acesso  em:  08  jun.  2021.  

487  Idem.  Assento  de  batismo  de  Cecilia,  1859.  Livro  15,  p.  71.  Disponível  em:  https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:939Z­Y5X7­2?i=70&wc=MFKJ­

DM9%3A1030404201%2C1030404202%2C1030467001&cc=2177296. Acesso em: 08 jun. 2021.  

488 Idem. Assento de batismo de Leoncio, 1877. Livro 23­25, p.  228. Disponível em: familysearch.org. Acesso em: 25  mai. 2021. 

Dos  quatro  rebentos,  a  menina  Apolinária,  nascida  em  1880  foi  a  única  a  ter  um  laço 

estabelecido  com  uma  pessoa  ainda  escravizada,  sua  madrinha  foi  Margarida,  escravizada  por 

Maria Amada do Espírito Santo, mãe de Anastácio

489. Contudo, isso não se estabelecia como regra 

entre as escravizadas desse proprietário. Das 20 crianças nascidas, 11 tiveram o apadrinhamento 

de padrinhos ou madrinhas escravizados/as, em sua maioria madrinhas, que dividiam as mesmas 

vivências cotidianas  com  suas mães. Hypolita,  Ignacia e  Florinda  foram  madrinhas dos filhos  e 

filhas de suas companheiras, além disso, Valéria e Margarida, também escravizadas, foram eleitas 

madrinhas  por  essas  mulheres

490

.  Por  outro  lado,  os  padrinhos  com  condição  escravizada 

apareceram  em  menor  número,  contudo,  Euzelio,  João,  Domingos  e  Manoel  foram  eleitos 

padrinhos  dessas  crianças

491.  As  escolhas  de  tais  mulheres  reafirmaram  a  redes  de  apoio, 

construindo, dentro do cativeiro, ligações horizontais benéficas no dia a dia. Uma construção de 

família que atravessava o horizonte da consanguinidade e as fronteiras da propriedade.  

Os padrinhos e madrinhas eram considerados “pais espirituais”, assim, as possibilidades de

reforço dos laços horizontais e os potenciais grupos de convívio também são hipóteses. Segundo 

Stuart Schwartz, a escolha de madrinhas escravizadas também era uma estratégia, fato evidenciado 

pelo número maior de mulheres nessa condição social na figura de madrinhas em Lages. Para o 

pesquisador era “uma estratégia paralela e prática” que levava em consideração a “possibilidade

de,  em  caso  de  morte  da  mãe,  a  madrinha  escrava  assumir  a  responsabilidade  pela  criação  do 

afilhado”

492

. As redes de apoio apresentam nesses momentos: Antônia era mãe de três ingênuos, 

Manuel  (1872),  Joanna  (1875)  e  Brasilino  (1885)

493

,  no  dia  do  batismo  de  Brasilino  em  11  de 

fevereiro de 1888, D. Maria Gertrudes, assinalou ao pároco que Antônia havia desfalecido. No ato 

 

489  LAGES,  Diocese.  Assento  de  batismo  de  Apolinária,  1880.  Livro  29,  p.  115.  Disponível  em:  familysearch.org.  Acesso em: 25 mai. 2021. 

490 Hypolitha foi madrinha de Izabel, filha de Plácida; Florinda amadrinhou Francisca, filha de Eufrasia e Paula, filha  de Victoria; Ignácia foi eleita por Hypolitha para amadrinhar seu filho Cassiano. Valéria foi madrinha de Timothia; e  Margarida foi madrinha de Apolinária. Idem. Assentos de batismo, 1879­1886, livros 29, 30 e 28.  Disponível em:  familysearch.org. Acesso em: 25 mai. 2021. 

491  Euzelio  apadrinhou  Marcelino,  filho  de  Eufrasia  (1886)  e  Joana,  rebenta  de  Plácida  (1884);  João  serviu  como  padrinho  de  Francisca.  filha  de  Eufrasia  (1884);  Manoel  apadrinhou  Timothia,  também  filha  de  Eufrasia  (1878);  Domingos  foi  padrinho  de  Izabel,  filha  de  Plácida. Idem.  Assentos  de  batismo,  1879­1886,  livros  29,  30  e  28.   Disponível em: familysearch.org. Acesso em: 25 mai. 2021. 

492MACHADO, Cacilda. As muitas faces do compadrio de escravos: o caso da freguesia de São José dos Pinhais (PR),  na passagem do século XVIII para o XIX. Revista Brasileira de História, [S.L.], v. 26, n. 52, p. 49­77, dez. 2006.  FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0102­01882006000200004. 

493 LAGES, Diocese. Assentos de batismo de Manuel, Joana e Brasilino. Livro 30, p. 6; Livro 31, p. 36; Livro 23­25,  p.180.  

do primeiro sacramento de Brasiliano, a mulher que o apadrinhou era companheira de escravaria 

de sua falecida mãe, Ephigenia, que nesse dia batizou seus dois filhos, Martinho e Antônio

494

. Essa 

assumiu o compromisso de “mãe espiritual” do filho de Antônia, e provavelmente foi a pessoa que

criou o menino e seus irmãos, assim como sua posição de “mãe espiritual” presumia. Nem um dos

outros filhos de Antônia possuíam madrinhas escravizadas e o fato de Ephigenia ser escravizada 

por D. Gertrudes Maria do Amaral demonstra um laço prévio entre as escravizadas.  

Voltando  à  escravaria  de  Anastácio,  as  possibilidades  e  escolhas  demonstram  que  as 

escravizadas e seus parceiros não sofriam com intensa interferência de seu proprietário, visto que, 

estabeleceram relações de compadrio com escravizados/as e livres. Na maioria das vezes trazendo 

as duas condições sociais para o apadrinhamento, além de escravizados/as de outros senhores/as. 

Contudo, nota­se que os sujeitos escolhidos faziam parte da vida cotidiana das escravizadas e de 

seus  rebentos,  os  chamados  grupos  de  convívio.  A  família  Gonçalves  de  Araújo  vivia  em  uma 

localidade  no  interior  de  Lages

495

,  distante  do  centro  comercial.  Anastácio  casou­se  com  Maria 

Cristiana Vieira, como já citado, a família de sua esposa também morava na mesma localidade, 

assim, acredita­se que havia uma circulação dos escravizados entre as propriedades.  

De fato, Stuart Schwartz e Stephen Gudeman

496

 destacaram que era incomum os senhores e 

senhoras firmarem relações de compadrio com suas escravizadas e escravizados, repassando essa 

função aos seus parentes próximos, como filhos/as. O padrão encontrado por Schwartz e Gudeman 

e outros historiadores/as se repete em Lages, entre os escravizados/as de Anastácio essa situação 

fica clara, o senhor e a esposa não apadrinharam nenhum dos rebentos de suas escravizadas. Em 

contrapartida, os três filhos foram acionados sete vezes para a função de madrinha e padrinhos, 

Clara  Gonçalves  de  Araújo  foi  madrinha  de  Simão  e  Leôncio

497,  Manoel  Gonçalves  de  Araújo 

apadrinhou Leôncio e Sebastiano, filhos de Cecília, e Joaquim, nome da mãe ilegível

498

, e Laurindo 

batizou como padrinho Olympia, filha de Ignacia e Martha, que tinha como mãe Hypolita

499

. Outros 

parentes próximos também foram preteridos para o compadrio, como, Clara de Arruda Vieira de 

  494 Idem. Assentos de batismo de Martinho e Antônio, 1888. Livro 31, p. 36.   495Atualmente se localiza na cidade de Painel, cerca de 30km de Lages.  

496  GUDEMAN,  Stephen;  SCHWARTZ,  Stuart.  Purgando  o  pecado  original:  compadrio  e  batismo  de  escravos  na  Bahia no século XVIII. In: REIS, João José (org.). Escravidão e Invenção da Liberdade: estudos sobre o negro no  Brasil.  São  Paulo:  Brasiliense,  1988.  p.  32­59.  Disponível  em:  https://issuu.com/uranoandrade6/docs/escravid__o_e_inven____o_da_liberda. Acesso em: 7 mai. 2021. p. 45

 

497 LAGES, Diocese de. Assentos de batismo de Leoncio e Simão. Livro 23­25, p. 228; livro 31, p. 13    498 Idem. Assentos de batismo de Sebastiano, Joaquim e Leoncio. Livro 23­25 p. 111­228; Livro 31, p.16.    

499 Idem. Assentos de batismo de Martha e Olympia, 1887. Livro 31, p. 17­38.    

Araújo e o esposo, filha do irmão de Anastácio e residente da mesma localidade, José Luiz Oliveira 

Ramos, casado com Clara Gonçalves de Araújo e Maria Trindade da Fonseca, irmã de Anastácio, 

dentre outros.  

Além da propensão à criação de laços de compadrio com a família senhorial e seus parentes 

que residiam próximo, também se nota o trânsito de escravizados/as

500

, firmando as relações pelo 

compadrio entre as fazendas. Como os casos de Margarida, de propriedade de Maria Amada do 

Espírito  Santo,  de  Domingos,  escravizado  por  Claudiano  Luís  Vieira,  cunhado  de  Anastácio,  e 

Luiz, escravizado de Anastácio que foi padrinho de Honária, filha de Marianna que era escravizada 

de João Domingues de Arruda, sobrinho do senhor de Luiz. Na escravaria desse senhor, tanto as 

relações “para cima” como os laços verticais são evidentes,  os  maiores  números  de  laços 

horizontais  de  compadrio  são  empreendidos  pelas  mães  pertencentes  à  família  Gonçalves  de 

Araújo. Por outro lado, os laços com a família patriarcal também são mais ostensivos.  

Entre as infinitas possibilidades, as análises dos registros eclesiásticos, inferem que os pais 

e mães buscavam proximidade física, além disso, não se descarta a influência do proprietário nas 

escolhas, ainda mais com a iminência da abolição. As cerimônias de batismos das crianças ingênuas 

com  padrinhos  e  madrinhas  escravizados/as  foram  realizadas  até  o  ano  de  1885,  após  isso,  as 

decisões  centraram­se  em  sujeitos  livres.  Levanta­se  a  hipótese  desse  fenômeno  ocorrer  pela 

tentativa de ratificar os laços de dependência, a família Gonçalves de Araújo tinha ligações com as 

famílias Vieira e Oliveira Ramos

501

, personagens importante e grande influência na região, assim, 

ter uma relação de compadrio com essas parentelas poderiam ser benéficas. Diante disso, não se 

entendem essas relações de dependência como sendo somente de um lado, mas sim, uma via de 

mão dupla entre os sujeitos de condições sociais distintas.   

  500 MATHEUS, Op. Cit., p. 261.  

501  Por  casamento,  como  demonstrado,  Anastácio  uniu­se  com  Maria  Christina  Vieira  e  Clara  G.  de  Araújo  posteriormente aparece como Clara G. de Araújo Ramos, casada com José Luiz de Oliveira Ramos. Seu filho Manoel,  casou­se com sua prima Clara Arruda Vieira, filha de Prudente Luiz Viera e Maria Thereza de Arruda. Ainda, uma  terceira filha de Anastácio, chamada Maria que contraiu matrimônio com Leandro Arruda Vieira, também filho de  Prudente e Maria Thereza. LAGES. Diocese de. Registro de matrimônio de Clara G. de Araújo e José Luiz de Oliveira  Ramos,  1877.  Disponível  em:    familysearch.org/ark:/61903/3:1:939Z­YP9C­Y5?cc=2177296&wc=MFKJ  HZ9%3A1030404201%2C1030404202%2C1030520701. Acesso em: 15 mai. 2021. Idem. Registro de matrimônio de  Manoel  e  Clara,  1880,  p.  39.  Disponível  em:  familysearch.org/ark:/61903/3:1:939Z­YP9H­ DL?cc=2177296&wc=MFKJ­H3D%3A1030404201%2C1030404202%2C103052160.  Acesso  em:  15  mai.  2021.  Idem. Registro de matrimônio de Maria e Leandro, 1884, p. 11. Disponível em: familysearch.org/ark:/61903/3:1:939Z­ YP9H­4X?cc=2177296&wc=MFKJ­HMS%3A1030404201%2C1030404202%2C1030522101.  Acesso  em:  15  mai.  2021.  

De todo o modo, entre as alternativas as mães e os pais buscavam, no momento do primeiro 

sacramento, a construção de alianças que garantissem segurança, uma proteção por parte de pessoas 

com  status  social  superior  aos  delas  na  sociedade.  Caso  houvesse  a  necessidade,  essas  pessoas 

teriam mais condições de apoiá­las

502. Por outro lado, o controle expresso no número de sujeitos da 

família  próxima  do  senhor  poderia  significar  dificuldades  na  conquista  da  liberdade,  como 

apontado por Deborah Gonsalves Silva em sua dissertação sobre o compadrio em São Raimundo 

Nonato.  Para  a  historiadora,  “o apadrinhamento desses rebentos, considerados livres em

decorrência da lei, pelos familiares do senhor de sua mãe pode ser considerada mais uma estratégia 

utilizada pelo senhor no sentido de garantir a permanência do batizando em sua propriedade”

503

.  

A  complexidade  das  relações  de  compadrio  expressa­se  nas  disputas  cotidianas,  apesar 

disso,  como  Damasceno

504

  aponta,  a  dificuldade  em  afirmar  quem  escolhia  os  padrinhos  e  as 

madrinhas, se os pais, o proprietário ou os párocos, “não diminuía a importância da relação de

compadrio na vida da família da criança, apenas evidencia que componentes horizontais e verticais 

estavam presentes na realização dessas escolhas”. Uma faca de dois gumes, com estratégias de

ambos os lados, o compadrio salienta que tantos os proprietários como os escravizados/as tinham 

interesses  nas  melhores  escolhas  para  o  apadrinhamento,  visando  benefícios  futuros, 

principalmente  tratando­se  dos  ingênuos,  crianças  pretas  e  pardas  livres,  com  fortes  laços  de 

dependência e os primeiros com o batismo instituído por lei.  

Este  subtítulo  colocou  luz  sobre  as  relações  de  compadrio  construídas  por  e  a  favor  de 

Cecília,  Simão,  Olympia,  Leôncio  e  outros.  Averiguou­se  o  papel  do  apadrinhamento  como 

elemento que compõem as estratégias familiares, indo além das afinidades, laços estabelecidos nos 

primeiros anos de vida de um indivíduo, forjando redes de apoio que podem acompanhar os sujeitos 

por toda a vida. À face do exposto, na sequência, acompanham­se as trajetórias de famílias negras 

lageanas e suas estratégias e redes de apoio.  

 

 

  502 DAMASCENO, Op. Cit., p. 171.  

503 SILVA,  Déborah  Gonsalves. Arranjos  de  sobrevivência:  relações  familiares  entre  escravos  no  sertão  do  Piauí  (São Raimundo Nonato, 1871­1888). 2013. 113 f. Dissertação (Mestrado em História) ­ Curso de Pós­Graduação em  História Social, Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2013, p. 81 

 4.4. OS CAMINHOS DA LIBERDADE: A LUTA DAS MÃES PELA EMANCIPAÇÃO 

 

 

4.4.1 “Serão restituídos da liberdade”: Anna, Izabel e Helena e a liberdade condicionada  

    Aos vinte e dous de junho de mil oitocentos e setenta e sete 171leo, nesta Matriz de Lages  baptizei e puz os santos 171leos na inocente Idalina, parda, nascida em dois de Abril deste  anno, filha de Thereza Maria José, liberta por seu senhor Francisco Alves de Sá em dez  de maio deste anno segundo consta na carta de liberdade que foi apprezentada; forão José  escravo de Francisco Luiz d’Oliveira, solteira, e Maria José, liberta, todos desta Parochia

de Lages505.  

 

A menina Idalina nasceu em abril de 1877, um mês antes de sua mãe, Maria Thereza José 

conquistar a liberdade. Maria Thereza espera estar com sua carta de liberdade em mãos para batizar 

sua filha, desta forma, o pároco não registra Idalina como livre pela Lei de 28 de setembro de 1871. 

Além disso, a liberta Maria Thereza reforçou os laços transversais com José, ainda escravizado e 

Maria José, liberta. Ao apresentar a carta de liberdade assinada por seu ex­senhor, Maria Thereza 

conquista  a  plena  custódia  da  filha.  Esse  cenário  não  foi  encontrado  por  outras  mães  libertas  e 

libertandas, principalmente as que gozavam da situação de liberdade condicional.  

Renilda  Vicenzi

506

,  ao  analisar  as  tipologias  das  manumissões  em  Lages  apresenta  os 

seguintes  números:  no  período  de  1850  a  1888  houve  51  alforrias,  dessas  52,9%  foram 

incondicionais,  29,4%  condicionais;  13,7%  obtiveram  a  alforria  pelo  pecúlio;  e  13,3% 

conquistaram a liberdade na pia batismal. A historiadora identifica uma maior possibilidade de os 

escravizados/as  libertarem­se  após  1850,  na  primeira  metade  do  século  XIX  houve  somente  15 

alforrias, com uma maioria de escravizados/as conquistando sua liberdade por pecúlio. Além disso, 

é  identificado  que  a  maioria  das  alforrias  (34)  foram  adquiridas  pelas  mulheres,  retificando  o 

encontrado pela historiografia em outras regiões, que apontou várias motivações, como o fato de 

as mulheres envelhecerem mais rápido e consequentemente a perda de valor, facilitando a compra 

da  alforria.  Contudo,  como  já  apontado,  as  especificidades  da  escravização  feminina  e  a 

proximidade com a família senhorial facilitavam a conquista da liberdade. Vicenzi

507

 ainda afirma 

 

505 LAGES, Diocese. Assentos de batismo de Idalina, 1877. Livro de batismo 23­25, 1872­1777, p.239. Disponível  em: familysearch.org. Acesso em: 15 jun. 2021.  

506  VICENZI,  Renilda.  Por  caridade  ou  bons  serviços:  alforria  de  escravos  em  Lages,  província  de  Santa  Catarina  (1820­1888).  In:  ESCRAVIDÃO  E  LIBERDADE  NO  BRASIL  MERIDIONAL,  6.,  2013,  Florianópolis. Anais  [...]. Florianópolis:  Editora  da  Ufsc,  2013.  p.  1­19.  Disponível  em:  https://labhstc.ufsc.br/files/2013/04/Renilda­ Vicenzi­texto.pdf. Acesso em: 10 abr. 2021. p.5.