2.2 Outros fragmentos da história – LUME
2.2.2 Martha Graham: um pouco de outra história
2.2.2.1 Cecy Frank: o distante e o próximo que me coabitam
No Rio Grande do Sul, a sua aceitação demorou a ser conquistada, sendo com Cecy Frank que essa técnica ganhou fôlego.
Nascida em Venâncio Aires (RS), Cecy Frank (1924-2000) inicia seu contato com a dança aos 22 anos de idade, através da disciplina de ginástica rítmica, ministrada por Zaida Marques Palhares, na Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ESEF-UFRGS), onde concluía sua Licenciatura Curta em Educação Infantil. Devido ao interesse e à dificuldade de algumas alunas, Zaida passa a ministrar
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Conforme Serres (2001):
Os que têm necessidade de ver para saber ou crer, desenham ou pintam e fixam o lago de pele inconstante e oscilado, tornam visível, com cores e formas, o puro tátil. Mas, para cada epiderme, seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo: cada rosto pede uma máscara tátil original. A pele
historiada traz e mostra a própria história; ou visível: desgastes, cicatrizes de feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças, manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar (...) (p. 18 - grifo meu).
aulas particulares a algumas alunas, na Escola de Bailados Clássicos de Tony Petzhold21. Com Tony, inicia seus estudos em balé clássico - técnica que predominava na época, fruto dos ecos do Municipal do Rio de Janeiro - em didática da dança e em teoria musical durante duas décadas. Às suas palavras:
quando me formei na Escola de Educação Física, em 1946, comecei minha carreira como estudante de dança. Eu era um pouco desajeitada, mas a dança me foi abrindo um caminho que não esperava. A minha vida se voltou inteiramente para a dança a partir dos meus 22 anos. Iniciei com o balé clássico, o que, para aquela idade, era brutal. Felizmente, encontrei uma professora maravilhosa que me ajudou na introdução à dança moderna(FRANK apud FREIRE, 2005:24).
Desse modo, é na dança clássica que inicia sua experiência como bailarina, dançando montagens como Quebra-nozes e A Bela Adormecida, e integrando o Porto
Alegre Ballet, companhia criada por Tony Petzhold e Elbio Consentino, em 1959.
Entretanto, apesar de participar de montagens de repertório clássico, suas aparições eram sempre ―alguma coisa de caráter moderno‖, o que salienta sua inclinação às linhas modernas de dança (Freire, 2005:24).
A minha primeira apresentação foi um Noturno, de Chopin, onde vestia uma túnica comprida, estilo Mary Wigman, aberta dos dois lados para facilitar os movimentos e com os pés descalços. Meu primeiro contato com o palco foi uma dança com linhas modernas. Com ballet, cheguei também a dançar com sapatilha de ponta, mas não era a minha tendência (...) Nunca fui uma bailarina clássica e, nas apresentações da escola, sempre fazia alguma coisa de caráter moderno (FRANK apud FREIRE, 2005:24).
Motivada pela leitura do livro da professora de dança Gertrude Shurr (EUA), sobre técnica de dança moderna, embarca para esse país em 1961, para uma curta temporada, contatando várias escolas, dentre elas Martha Graham Center of Contemporary
Dance.
21 Tony Petzhold (1914-2000): bailarina, professora de dança e coreógrafa gaúcha. Uma das precursoras da
dança clássica no Rio Grande do Sul. Sobre ela, ver: FREIRE, Ana Luiza Gonçalves. Tony Petzhold; uma
No entanto, o encontro com Nina Verchinina, em 1963, em Curitiba, no II Encontro de Dança do Brasil, marcaria sua trajetória em dança. Com ela, contatou essa técnica, passando, a partir de então, a freqüentar as aulas ministradas por essa professora no Rio de Janeiro e a dedicar-se ao seu estudo. Tal identificação a leva, em 1969, oito anos após sua primeira ida ao país, para Nova York, no intuito de estudar na Martha Graham
School of Contemporary Dance, permanecendo até 1971. Ao regressar ao Brasil, mora por
quatro anos em Bento Gonçalves (RS), onde dá continuidade ao seu trabalho também como coreógrafa, algo que já fazia desde seus primeiros anos de estudo em dança e que incentivava seus alunos a realizar. Em 1976, retorna aos EUA para fazer um estágio na escola de Martha Graham e, em 1982, permanece mais um período para se aperfeiçoar.
Dedicando-se ao estudo sistemático dessa técnica - Cecy registrava as aulas, descrevendo-as metodicamente, em um diário de trabalho22- encontra ―as respostas para sua necessidade de expressão, assumindo essa linguagem como o meio para seu trabalho de ensino e de criação‖ (Freire, 2005:31). Dessa forma, em entrevista concedida ao Jornal NH, coloca, sem ser mística, que dança é a sua religião:
(...) É a minha maneira de integrar-me a Deus. E o que é Deus? Aquele velhinho de barbas brancas? Não. É a energia cósmica que une todas as coisas. A dança é uma manifestação do ser humano, da energia deste ser que existe dentro de nós. Por isso, essa escolha do método Graham, que é baseado na respiração, na troca de energia (FRANK apud FREIRE, 2005:32).
Apesar disso, Cecy não repudia o ensino clássico, sugerindo a ―combinação dos dois‖, uma vez que ambas as técnicas - Martha Graham e ballet - são por ela vistas como possuidoras de amplo embasamento científico, embora a primeira seja mais recente.
Sinto que a dança como técnica de Martha Graham é pouco divulgada. Considero essa técnica equivalente ao ballet. Como ele, Martha Graham tem também um embasamento científico. Embora seja ainda recente, a dança moderna nasceu na década de 40. Ela não tem ainda embasamento científico, a exemplo do ballet. Se
22 O legado de Cecy Frank - textos, imagens, anotações em aula,entre outros - encontra-se sob os cuidados de
Galdes Frank, sua sobrinha, na cidade natal, Bento Gonçalves (RS), local para o qual a professora se dirigiu nos últimos anos de sua vida. Parte de seu acervo foi doado à Escola de Educação Física (ESEF/UFRGS) e ao CEME- Centro de Memória do Esporte.
você estuda os dois, perceberá afinidades. Uma coisa completa a outra. Digo para meus alunos, estudem o clássico. Não quero que vocês sejam bailarinos bitolados, presos a uma só técnica. Estudem também o clássico. O jazz. Hoje em dia o horizonte da dança é muito mais amplo. O bailarino não pode ficar numa só técnica. Eu considero a técnica de Graham a mais científica e nem por isso a
prego como algo exclusiva. É a mais perfeita no conhecimento do corpo e no entrosamento de mente e espírito - ou sei lá o que for essa energia que vem do centro biológico. Todo o movimento se expande do ser para fora e de fora para dentro (Ibidem, p. 31 - grifo meu).
Como professora, Cecy trabalhou em sua área de formação acadêmica -
Licenciatura Curta em Educação Infantil pela ESEF/UFRGS - sendo alfabetizadora em várias regiões de Porto Alegre e finda sua carreira nessa área, em 1969, ano em que conclui tempo de serviço no Instituto de Educação de Porto Alegre. Passa, nesse momento, a se dedicar inteiramente à dança moderna.
Entretanto, foi, desde 1954, convidada a ministrar aulas de dança em vários locais de Porto Alegre e do interior do estado, até praticamente seu falecimento em 2000: Escola de Bailados Clássicos (1954;1976); Clube Aliança de Bento Gonçalves/RS (1972 a 1975); Escola de Dança e Artes da professora Dora Rezende Fabião em Caxias do Sul/RS (1973); Academia Mudança/POA (1978 a 1981); Curso de Especialização em Técnica Desportiva, ministrando a disciplina de Teoria da Dança na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (1977 a 1979) e, em 1979, na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), ministrou curso similar; além de demonstrações e oficinas curtas em festivais do estado (Freire, 2005).
Desse modo, sua ampla participação na cena da dança gaúcha reflete-se, também, no intenso envolvimento em vários projetos para a formação de um grupo profissional de dança. Isso porque, segundo Freire (2005), ela ―acreditava que, quando a dança fizer parte da cultura do indivíduo, ela estará desempenhando o seu verdadeiro papel social‖ ajudando, assim, a criar, em 1991, com a presença de vários representantes da dança locais, o Centro de Formatividade em Dança23.
23 O Centro de Formatividade em Dança foi um projeto que tinha como objetivo ―ampliar os horizontes dos
Além disso, participa da criação dos seguintes grupos em Porto Alegre: Porto
Alegre Ballet (1959); Codança (1968); o Grupo Experimental de Dança (1974) e cria os
grupos Choreo (Porto Alegre,1982); Grupo Kadush (Bento Gonçalves, 1997) e o Grupo de
Dança Vanguarda (Bento Gonçalves, 1999) (Freire, 2005:37).
Desses, o Grupo Choreo recebe especial destaque, pois resulta de um momento de inquietação dessa artista em relação aos referenciais em dança, vigentes na época no estado do Rio Grande do Sul, uma vez que ―tinha a convicção de que um bailarino poderia ainda iniciar-se e trabalhar unicamente com a técnica de Martha Graham, contrariando as idéias da época, no Rio Grande do Sul, onde era extremamente valorizada a técnica do
ballet como fundamento para qualquer trabalho em dança‖ (Freire, 2005:47).
A postura de Cecy em relação à dança, que começou a praticar aos 22 anos, a exemplo de Martha Graham, que também iniciou a dançar já adulta, era de que o mais importante seria valorizar a capacidade do bailarino, apesar de afirmar sempre que 90% era composto de muito trabalho e 10% de talento. Valorizava muito esse aspecto em seus alunos (...) Porém, concordava que o bailarino pertencente a uma companhia deveria necessariamente passar por todas as técnicas de dança (idem).
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Em 1984 comecei a fazer aulas de dança no “Choreo - Espaço Alternativo de Dança”, em pleno Bonfim, Avenida Osvaldo Aranha... Tudo era mesmo “alternativo” com o sentido que essa palavra tinha no início dos anos 80: ofereciam-se aulas de dança contemporânea com Cecy Frank e os bailarinos do Grupo. Comecei fazendo aula com Gládis Frank e fui convidada a ser estagiária no grupo Choreo. Até 1987, fui bailarina do Choreo; lá dançávamos coreografias da Cecy, mas também trabalhos criados por outros integrantes do Choreo, o que mostrava a afinação da Cecy com idéias como criação coletiva e participação dos bailarinos no processo coreográfico. Na verdade, a aprendizagem da técnica de Graham, ensinada por Cecy Frank durante quase 30 anos em Porto Alegre, é complexa, exige dedicação e, acima de tudo, identificação com esse sistema: contrações, releases, posições complexas no solo, quedas a partir da posição de pé, controle do corpo nos giros, intensidade e
anatomia e fisiologia), bem como expressão corporal (...)‖ Foi elaborado por Andrea Druck e Margareth Markus, em 1990, funcionado, a partir de 1991, em dois núcleos: na Casa de Cultura Mário Quintana e no VIDA - Centro Humanístico, ambos em Porto Alegre. Por falta de verbas, as aulas e o centro duraram somente por um semestre.
sentimento... Na minha trajetória, fui conhecendo outras técnicas e incorporando outros conhecimentos, mas os princípios do seu ensinamento ficaram marcados no meu corpo. A identificação com o trabalho de Cecy Frank transformou-se em admiração pela sua atuação como professora, pela sua generosidade em partilhar o conhecimento, pela sua integridade na relação com os bailarinos (ela sempre nos incentivou a fazer aulas com outros professores e conhecer outras técnicas!), pelo seu exemplo como estudiosa e pesquisadora. Não podemos esquecer que Cecy Frank manteve viva, nos corpos dos seus alunos e bailarinos, a tradição da dança moderna em Porto Alegre24.
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Atuando de 1982, ano de sua fundação, até 1998, o Grupo Choreo foi um dos mais significativos grupos de dança gaúcho, por sua estética marcante, conquistada com uma disciplina muito exigente, característica de Cecy. Esse processo iniciou com sua saída da Academia Mudança, na qual ministrava aulas de dança contemporânea25, no anseio de construir um lugar próprio, no qual pudesse consolidar um grupo trabalhando sob os preceitos da técnica de Martha Graham, dedicação máxima de sua carreira e de sua vida. Os alunos que a acompanharam construíam o Grupo Choreo, fazendo parte da sua primeira formação26.
O que norteava o grupo era o anseio de ―compreender e interpretar a natureza humana, sua dramaticidade, sua alegria, seu ponto de vista e eventos que influenciavam no cotidiano, usando uma linguagem criativa fundamentada na técnica de Martha Graham‖ (ibidem, p. 49).
Nesse sentido, trabalhavam com exercícios diários, elaborados nessa técnica e ―elementos de criatividade‖, pois Cecy incentivava seus alunos à criação coreográfica,
24 Depoimento de Mônica Dantas, bailarina e professora do Departamento de Educação Física da UFRGS,
Mestre em Ciências do Movimento e Doutoranda em estudos e práticas artísticas pela Université du Québec, à Montreal.
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Cabe salientar ao leitor que, nesse trabalho, não irei conceituar nem apontar as diferenças ressaltadas por alguns autores em relação ao que se denomina ―dança moderna‖ e ―dança contemporânea‖. Isso não será feito, pois o intuito é apresentar o trabalho de Cecy Frank e Nair Moura para, a partir dele, pensar o conceito de totalidade dessa técnica.
26 Nesse momento inicial, o grupo contava com o seguinte elenco: Ângela Dip, Cleber Menezes, Felipe
apesar de seu processo de criação para o grupo ―ser todo escrito, predominando o estudo e não a experimentação‖ (ibidem, p.48).
Segundo Freire (op.cit.), ―o Grupo Choreo representou um diferencial no que se refere à linha técnica utilizada em dança na década de 1980‖, tendo o respaldo amplo da mídia impressa na época, ―como podemos averiguar nos comentários de Antônio Hohlfeldt, Cláudio Heemann e Aldo Obino. Eles sempre permeavam o trabalho de Cecy, descreviam com clareza ao que assistiam, conferindo um tom de originalidade e ousadia ao texto jornalístico‖ (p. 42). Em crítica à Zero Hora, Antônio Hohlfeldt coloca:
Finalmente um gênero teatral começa a mostrar sinais de progresso. Porto Alegre está ganhando novos grupos de dança. Numa movimentação coreográfica que já supera em profundidade o resultado obtido em áreas como a do teatro dramático. A dança está crescendo em quantidade e qualidade. Ainda bem. Porque durante décadas pesou sobre ela um número não pequeno de preconceitos. E, ao que parece, sufocada por eles, a dança não conseguia expandir-se. Parece que, tendo conquistado o interesse dos jovens por oferecer formas de expressão e desenvolvimento pessoal, a dança está mostrando bons resultados. Produzindo espetáculos de mérito (...) Este ano coube ao Grupo Choreo, de Cecy Frank, revelar-se com espantoso rendimento técnico (...), mostrando um grupo de câmara que faz dança contemporânea da melhor qualidade. Para agrado geral, nesses grupos, os rapazes estão dançando tão bem quanto as moças. Sem perder sua identidade masculina. O que é um grande progresso para nossos elencos coreográficos. Que foram prejudicados, durante gerações, por mal-entendidos em relação ao desempenho dos homens na dança. (...) Mas Porto Alegre, em termos de arte cênica, caminha em passo de tartaruga.Às vezes, até nem caminha. Pára. E quando recomeça, tudo precisa ser laboriosamente refeito. As experiências não se acumularam, nem se desenvolveram. Não houve revezamento. Simplesmente as atividades foram interrompidas. As conquistas esquecidas. Tudo precisa ser reiniciado. Da estaca zero outra vez!27
Acredito que, aqui nesse trabalho, não caiba uma explanação minuciosa referente à trajetória desse grupo, abarcando seu percurso artístico, uma vez que não é o foco desse estudo.No entanto, indico o trabalho de Ana Luiza Gonçalves Freire (op.cit.), pesquisadora em dança e bailarina, que desenvolveu um trabalho teórico sólido sobre a vida e obra dessa artista, intitulado Cecy Frank, o qual utilizei como relevante referência.
27 Reportagem publicada em Zero Hora, Porto Alegre, 13 de agosto de 1982, Caderno de Cultura (In Freire,
Entretanto, destaco mais uma crítica publicada sobre o trabalho de Cecy, feita por Cláudio Heemann para Zero Hora 28, que salienta a importância dessa artista para
a história da dança no estado do Rio Grande do Sul.
Não exatamente uma surpresa para o panorama artístico da cidade, mas sobretudo uma grande afirmação de talento é o espetáculo de dança do Grupo Choreo, dirigido por Cecy Frank. Cecy Frank é uma das mais conhecidas e credenciadas de nossas professoras de dança erudita. Sua formação e seus aperfeiçoamentos, feitos especialmente nos estados Unidos, junto a nomes consagrados como Martha Graham, lhe solidificaram a capacidade e os conhecimentos. Sua dança contemporânea é sólida, exigente, cheia de força e vitalidade. Tem qualquer coisa de religioso e monástico no trabalho de Cecy Frank. Suas danças são desenhadas com clareza, o esquema rítmico é sempre de grande vivacidade e a linguagem corporal é vigorosa e densa.
(...) O uso do espaço e a flexibilidade de corpo do Choreo são de uma desarmante objetividade. Seu palco não tem mistério, nem cenários, nem luzes complicadas. Tudo está concentrado na dança e no desempenho.
Até o ano de 1994 Cecy dirigiu o grupo, ano em que passa a direção do mesmo a Nair Moura, professora com a qual estudei e conheci essa técnica.
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