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Cedrela, quando é preciso ser mãe e pai

No documento Ewerton José de Medeiros Torres (páginas 163-167)

―A minha história é meio sofrida. Tu quer saber mermo todinha?‖ [risos]. Dessa forma preocupa foi que Cedrela começou a narrar sobre si. Mãe de dois filhos já crescidos, ela tem um passado de sofrimento, mas esbanja um presente de bastante alegria junto de suas amigas do Grupo Mulheres Filhas da Terra, da comunidade de Canoa de Dentro, em Pedra Lavrada. ―Assim, logo quando eu cheguei aqui, eu vim pra cá pra casa dos meus pais. Eu morava em Natal (RN). Morava lá em Natal, mas sou daqui. O pai do meus filho que é de lá. Aí fazem 12 anos que eu tô morando aqui e meus filho... Ele nunca ajudou em nada, [...] e tão aí criado, né, graças a Deus; um estuda, um mora em Campina [Grande] e a outra tá em casa...‖.

Em um relato emocionado, ela relembra sua história de superação e dedicação, que revela a grandiosidade da força que uma mãe possui. ―É que assim, quando eu conheci esse cara lá em Natal, a gente casou, liguei pro meu pai, né, eu engravidei, a gente inexperiente, né. Adolescente. Aí engravidei, pai disse assim – Só que eu não disse, não, que tava grávida – aí pai foi e disse ‗Tem que casar‘, né, ele não conhecia. Trouxe aqui pra ele conhecer e obrigou casar, e me casei com ele, né. Aí depois de convivência, né, aí vem o menino, aí o menino nasceu com problema, aí foi aí que eu disse assim ‗Eu sempre fui mulher e hoje que eu sou mulher, né, que eu fui mãe, e na realidade fui mãe e pai do meus filho‘. Aí ele nasceu com problema e eu passei praticamente uns dois anos morando no hospital, com meu filho, né. Aí veio a menina, engravidei da menina com três anos, aí eu fiquei louca, sabe. [...] Aí é uma dificuldade você com um marido que não sabia se movimentar em nada, entendeu? Só você... Aí foi, eu votava em São Gonçalo do Amarante (RN), que é uma cidadezinha lá vizinha a Natal, aí ficava melhor d‘eu pegar um encaminhamento desse hospital pra o outro em Natal que era o Valéria Santiago. Consegui com uma autoridade, vereador. Aí quando ele conseguiu, tirei o menino do outro hospital, que num ia fazer nunca, que num ia pegar peso, [estava] com 14 kg e ele tava com quatro anos. Hoje ele é saudável. Graças a Deus recuperei. Por isso que eu me acho uma mulher guerreira e me acho mulher‖.

A trajetória de volta dela à comunidade de Canoa de Dentro foi visto como um alívio depois de um relacionamento sem companheirismo, mas quando chegou podia contar apenas o apoio dos pais, foi quando ela, corajosa como é foi em busca de qualquer tipo de trabalho, desde que fosse digno. ―Separei, né, aí vim embora com meus dois filhos. Aí aqui não tinha de que sobreviver, sabe? Aí teve esse intercâmbio, aí eu achei interessante, porque eu fui, aí foi aí onde eu tive conhecimento. Comecei fazer [as polpas de umbu] em casa mais meu pai e

Cariniana, né, e daí entrou outras pessoa no grupo, outras mulheres. Aí é onde foi que eu tive

uma ajuda muito boa, né, qu‘eu num tinha de onde tirar dinheiro, num tinha... Assim, emprego aqui num tinha, uma dificuldade muito grande. Aí até hoje eu tô no grupo, acho que é uns oito ano, nove ano, num lembro quantos ano faz o grupo, mas acho que tem isso aí, por aí. E é de onde eu ganho o pão, que boto dentro de casa pro meus filhos, inté hoje‖.

Cedrela agradece bastante aos apoios que receberam do PATAC e do Coletivo para o

desenvolvimento do projeto da casa de beneficiamento delas. Além dessas instituições ela é grata pelo projeto que acessou para a construção de sua moradia, bem como ao fundo rotativo, que possibilitou que ela acessasse recursos para benfeitorias, como a cisterna. ―Tem uma cisterna depois da minha casa, aí veio uma cisterna. A gente fez cercado, criação, fez... Mudas, a gente fez... Foi, a gente fez muda, foi. E também vêi tela também pra gente fazer. É o mesmo fundo rotativo com várias atividades, pras mulheres do campo e também para os agricultor, né; mas foi muito bom, eu sou muito gratificante, o projeto, o Coletivo, principalmente o Coletivo, né, o Procase, que também, tudo junto, né, e... Só tem a agradecer‖.

Ela comenta mais sobre o processo de separação, que foi um trauma na época, e também de todo o trabalho que teve para criar os filhos. ―É porque ele não queria ter responsabilidade de me ajudar em casa, entendeu? Eu quem trabalhava, eu fazia entrega pra um... Fazia faxina, eu fazia bolos pra entregar num restaurante lá, aí depois eu montei mais a mulher que é a madrinha do meu filho hoje em dia, né, montemos pra fazer em casa entregas de bolo, salgados, a gente trabalhava, entregava num restaurante. Aí aqui, vim pra cá e foi onde eu me engajei, né, que num, a gente não conhecia ninguém daqui. [...] Eu também trabalho que tiro férias daqui do colégio [,na merenda escolar], das pessoas que precisa, e trabalho, tenho um pontozinho que eu vendo bolo, faço essas coisa. É, eu me viro nos 30, eu me viro nos 30 e também participo do grupo. E quando tem essas reuniões assim, que eu posso sair, eu também vou, quando tem festa também...‖.

Como ela desempenha diversos trabalhos, sua renda é variável e de fontes diversas. ―A maioria, junto com esse aí do grupo de beneficiamento, e daqui do meu pontinho, é a renda,

que eu me sustento e sustento meus filho. E o Bolsa Família, porque eu acho que a menina já vai ser cortada, porque já ficou de maior, aí não estuda mais‖.

Ainda que tenha vivido bastante tempo de sua vida na zona urbana, ela percebe que nunca houve uma desvinculação com o ambiente rural. ―Eu me considero agricultora, porque, assim, só porque eu colha fruta, né, e faço, a gente faz os plantio das muda. Mas assim, quando eu era pequena, quando eu morava aqui, antes d‘eu sair pra fora, eu ajudava o meu pai a limpar mato, botar água em casa, e colher também feijão, milho... Hoje em dia eu num faço isso, porque a gente tem o trabalho da gente da mulher, né, e a gente, a gente é... Agricultora, mas a gente tem o papel das fruta, né, colher as fruta e tá já no beneficiamento de frutas‖.

Ela fala da preocupação que o Grupo Mulheres Filhas da Terra tem em atrair mais jovens, para fomentar a sucessão na atividade de beneficiamento das frutas, porque tem famílias como a dela, que os filhos já possuem outras aspirações. ―A minha filha morava lá em Campina, que ela terminou técnico em enfermagem, aí vai fazer o concurso público agora, aí eu num sei, né, se... Deus queira que passe, pra também trabalhar. E meu menino trabalha já, mas a minha vontade é deles se engajar também no grupo, que eles são jovens ainda. A gente quer engajar mais os jovens no grupo de beneficiamento, que é muito importante pra comunidade da gente‖.

O grupo poderia ser expandido também para outras mulheres poderem participar, mas como revela Cedrela, muitas mulheres na comunidade ainda sofrem em virtude do machismo nos casamentos. ―As mulheres daqui não aceita, assim... Tem marido que não aceita a mulher sair de casa pra tá nessas reunião, saindo, entendeu? Elas gosta de comentar muito. ‗Fulana tá saindo demais e o marido em casa e isso, e isso...‘. Quando eu ia pra esses intercâmbio a gente passa dois, três dias fora, aí eu vivo com outra pessoa hoje, né, faz sete anos que vivo com ele, aí outras pessoa comentava com ele, aí ele dizia ‗Não, deixe ela!‘.‖ E explica esse posicionamento dele: ―Quando ele me conheceu eu já vivia, né, de dentro [do grupo], aí ele me entende‖. O seu atual companheiro não vive da agricultura. Apenas mora com ela na zona rural. ―Ele trabalha, e só chega à noite. Ele trabalha no comércio, aí ele só chega à noite‖.

Dividindo seu tempo entre os trabalhos domésticos em casa, o pontinho de vendas, a fabricação de bolos, a casa de beneficiamento, e as outras demandas que surgem, Cedrela fala da cumplicidade das companheiras do grupo. ―A importância, assim, que eu acho, assim, o grupo é a gente ser unido, né, tudin, e quando tiver faltando... Assim, no grupo a gente é muito unido, né, e quando falta um a gente nunca reclama, porque a gente sabe que as outras foram pras outras atividade, né, que tem que ir, ou uma ou outra. Duas, três sai, e fica as outras três ou duas fazendo‖.

O grupo foi seu primeiro refúgio depois que voltou do Rio Grande do Norte, e possui uma gratidão enorme pelas meninas, suas amigas. Em meio a contratempos, inconveniências, dúvidas e objeções, ela conseguiu, com as companheiras de trabalho construir uma história que se orgulha. ―A gente já passou dificuldade no grupo, já pensamos, assim, até em desistir. Eu mesma, da minha parte, eu tinha dia que eu dizia assim ‗Eu vou desistir, num tem futuro, não‘, porque você trabalhar o ano todinho e às vezes você só ter 100 reais, 150, entendeu? Porque a gente trabalha, assim, pela produção. E tem ano que é bom, a produção, e tem ano que a gente não vende pra canto nenhum, né? É as dificuldade isso aí. É, e eu também tinha dia, assim, que eu dizia ‗Não, eu num vou desistir, não‘, foi onde eu... Eu tô aqui hoje em dia, por causa desse grupo e eu num vou desistir, não, e por que desistir, né? Aí eu digo ‗Rapaz...‘, e tem gente que lá fora diz assim ‗Ei, tu ganha um salário pra tá naquela casa lá, cês passa o dia todin, sai de noite. Não, cês ganha um salário!‘, eu digo ‗Não‘, aí eu vou explicar e [respondem] ‗É mentira, é sua mentira, cês ganham um salário‘, eu digo ‗Ganho não, vá perguntar às outra! A gente só trabalha e recebe o que a gente vende‘, e assim mermo a gente não, às vezes, nem... É pouco, a gente deixa no caixa, uma reserva, nunca tira pra gente. As menina diz ‗Vamo dividir, isso e isso‘, eu digo ‗Não, vamo deixar no caixa, é melhor. Numa precisão...‘.‖.

A experiência de ser mulher, sobretudo mulher trabalhadora, igualmente traz para

Credrela um orgulho. Orgulho baseado em sua própria coragem. ―Pra mim, a mulher... Eu

num sei, porque eu sempre fui guerreira, nunca desisti, que eu já passei por muita dificuldade e eu acho que eu, eu nunca vou desistir por ser mulher. Porque tem gente, assim, que diz assim ‗Não, vou desistir, isso é coisa de homem também‘, que às vezes a gente também pega lá o produto lá no umbu, no umbuzeiro, pra trazer pra cá, de moto ou empurrando num carro de mão. Às vezes tem gente, mulher mesmo, diz assim ‗Isso é pra homem, isso né pra mulher, não‘. Aí, eu me acho mulher, eu me orgulho de ser mulher por tá realizando esse trabalho‖. E a respeito de que mulher admira, ela foi conclusiva em dizer. ―Eu mesma. Eu me admiro muito. Porque a minha história, porque, assim, eu já contei o que eu já passei, a minha história. Eu já dei meu testemunho, mas na igreja, entendeu? Mas o que eu já recuperei, assim... Passei na minha vida, eu me sinto uma grande guerreira e uma grande mulher‖.

Em relação ao futuro dessa organização coletiva que faz parte, ela consegue visualizar uma perspectiva otimista. ―Eu imagino, assim, a gente melhorar mais... Não, já é melhor, né, a gente avançar mais nossos trabalho, que foi uma conquista também, que eu era doida pra comprar uma motinha pra mim esses anos todinho, né, reservando um dinheirinho. Consegui graças a Deus! Agradeço também ao grupo, e só tenho que agradecer o grupo também, que eu

já realizei muitas coisas, trabalhando nesse grupo. É pouco, eu não vou dizer que é muito, num é? O ganho da gente... Mas é uma luta. Eu num vou desistir, não. Só desisto se eu botar outra no lugar. Um jovem! [risos]‖.

No documento Ewerton José de Medeiros Torres (páginas 163-167)