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1.12 Cefaleia e Doença Inflamatória Intestinal

A cefaleia é a segunda queixa que mais frequentemente leva uma pessoa a procurar atendimento médico, em uma análise universal. Perde apenas para as odontalgias. Consideradas suas múltiplas causas, tipos, formas de apresentação e variações, dados da literatura permitem inferir que a sua prevalência pelo período de um ano chega a 90% e, se levada em conta a prevalência ao longo da vida, ela atinge 99% das pessoas (AAMODT et al., 2008; GONDIM; LEITÃO, 2016).

A cefaleia engloba um variado grupo de doenças e/ou sintomas de doenças com distribuição espacial universal e que se manifestam em uma considerável miscelânea de tipos relacionados a etiologia, frequência, duração, intensidade, velocidade de instalação e remissão, concomitância com outros sinais e sintomas, fatores desencadeantes, fatores atenuantes, sensibilidade a certos fármacos, localização, lateralidade, particularidades características da dor etc. Essa multiplicidade de fatores associados provocou muitas dificuldades e controvérsias acerca da nomenclatura e da classificação das cefaleias, o que motivou a Sociedade Internacional das Cefaleias (International Headache Society – IHS) a criar a Classificação Internacional de Cefaleias, cuja última revisão foi realizada em 2013 e corresponde a sua terceira edição (International

Classification of Headache Disorders ICHD-3 beta-2013) (GONDIM; LEITÃO, 2016).

Como comentado, os primeiros estudos sobre MEI na DII realizados nos anos 1970 e 1980 foram retrospectivos e praticamente não citavam as afecções neurológicas ou relatavam prevalências muito baixas, da ordem de 0,2%. Mais adiante, em 1995, em uma série retrospectiva realizada pelo neurologista Lossos e colaboradores foi registrada, entre as MEI, uma prevalência de 3% de doenças neurológicas significativas. Porém essa série continha vários critérios de exclusão que limitavam a interpretação dos dados colhidos. Nenhum desses estudos fez qualquer registro acerca da ocorrência de cefaleia (primária) como manifestação neurológica da DII (OLIVEIRA et al., 2008; GONDIM et al., 2015).

Talvez o primeiro registro da manifestação de cefaleia (primária) como complicação neurológica na DII tenha sido publicado no segundo maior estudo retrospectivo sobre o assunto, intitulado “Complicações Neurológicas e Neuropsiquiátricas na DC”, datado de 1997. Esse estudo retrospectivo realizado por Elsehety; Bertorini revelou uma prevalência de 33,2% de doenças neuropsiquiátricas em pacientes com DC, entre as quais AVE (4,7%), neuropatias periféricas (2,8%), miopatias (1,6%), epilepsias (5,9%), cefaleias (4,3%) e depressão maior (4,3%) (ELSEHETY; BERTORINI, 1997).

Trabalhos desenvolvidos em diversos países e regiões nos últimos anos têm fortalecido a ocorrência da maior prevalência de certas afecções neurológicas em pacientes com DII em

comparação com a população em geral, embora com significativa variação quanto aos dados obtidos (GONDIM et al., 2008; OLIVEIRA et al, 2008). Entre as manifestações neurológicas, esses estudos têm demonstrado que as cefaleias se encontram entre as de maior prevalência (AAMODT et al., 2008; LIPTON et al, 2001; OLIVEIRA et al., 2008; FORD et al., 2009; DIMITROVA et al., 2013). Em outras doenças do trato gastrointestinal, tais como doença celíaca, sensibilidade ao glúten e síndrome do intestino irritável, o mesmo tem sido encontrado em relação às cefaleias (DIMITROVA et al., 2013).

É importante ressaltar que os dados de prevalência obtidos nos diversos trabalhos têm mostrado diferenças marcantes e, eventualmente, conflitantes, relativos às cefaleias primárias como MEI nos pacientes com distúrbios gastrointestinais e com DII.

Na Noruega, um trabalho realizado com 51.000 pessoas demonstrou uma maior prevalência de cefaleia em pessoas com sintomas gastrointestinais do que em relação àquelas que não os apresentavam e que a associação entre sintomas gastrointestinais e cefaleia aumenta com o aumento da frequência da cefaleia (VAN HEMERT et al, 2014).

Na primeira publicação do estudo epidemiológico NEURODII sobre manifestações neurológicas em pacientes com DII em uma coorte de pacientes com DII realizada na Universidade Federal do Ceará, cefaleia foi a queixa neurológica mais comum em pacientes com DII, com prevalência de 54,8% em pacientes com DC e 56,9% em pacientes com RU. Das cefaleias, 25% foram diagnosticadas como enxaqueca, sendo 13% para os portadores de DC e 14% para os portadores de RU. A prevalência de enxaqueca em todos os pacientes com DII foi de 14% (OLIVEIRA et al., 2008a). Em uma outra publicação feita no mesmo ano e realizada a partir da continuidade do mesmo estudo, não foi constatada diferença significativa na prevalência de cefaleia (todos os tipos) entre DC, RU e gastrite/dispepsia (grupo controle). Essa publicação, entretanto, mostrou prevalência de enxaqueca e possível enxaqueca em pessoas portadoras de RU em relação aos pacientes com DC e ao grupo controle (gastrite/dispepsia). Não houve diferença na prevalência de enxaqueca entre DC e grupo controle (OLIVEIRA et al., 2008b).

Além da DII, vários estudos evidenciam a associação entre distúrbios gastrointestinais e cefaleia, principalmente do tipo enxaqueca (LIPTON et al., 2001). Inclusive, há autores que enxergam a cólica intestinal infantil como uma representação da manifestação precoce de enxaqueca, uma vez que mães com história de enxaqueca têm filhos com 2,6 vezes mais chance de manifestarem cólica na infância que os filhos de mãe sem enxaqueca. Crianças com enxaqueca têm probabilidade maior de terem manifestado cólica infantil (VAN HEMERT et al., 2014).

Há registro de alta prevalência de enxaqueca em pacientes com doença celíaca (AAMODT; HAGEN; ZWART, 2008), do mesmo modo, há indicações de que a doença celíaca é

mais presente em pessoas com enxaqueca. Em estudo recente realizado com quatro pacientes com doença celíaca e enxaqueca, o tratamento com dieta livre de glúten reduziu consideravelmente a enxaqueca (frequência, duração e intensidade) em três pacientes e em um houve cessação completa das crises (VAN HEMERT et al., 2014).

Como se pode perceber, diante da gama de dados extraídos da literatura compulsada, a DII é um problema complexo, emergente e preocupante de saúde pública, com taxas crescentes de incidência e prevalência no Brasil e no mundo. A DII é agravada por diversas MEI, das quais as neurológicas são um problema maior por seu alto impacto na morbidade e na qualidade de vida dos pacientes, apesar de frequentemente negligenciada ou subnotificada, como ocorre em particular com as cefaleias e as NPs. Percebe-se ainda a escassez de estudos sistemáticos e prospectivos para investigar a frequência e importância dessas duas complicações neurológicas, resultando em informações variáveis e pouco consistentes.

Feitas estas considerações iniciais e configurada a importância e a atualidade do tema, efetuou-se esta investigação com o objetivo de avaliar a prevalência e as características clínicas da cefaleia e seus subtipos em pacientes com DII, bem como analisar se há ou não correlação entre cefaleia e NP nesses pacientes.

2 OBJETIVOS