Se alguém quiser saber «a verdade» sobre o que aconteceu à Celeste a propósito do pai dela, o melhor é não lhe perguntar, porque ela tem uma imaginação prodigiosa, não tem muito em que ocupar a mente e nunca conta uma história da mesma forma duas vezes seguidas. Seja como for, nem tudo se passou com ela; houve outros intervenientes. Aliás, uma parte importante da história não pôde ser narrada por ela na primeira pessoa porque, apesar de ser a actriz principal, era suposto não estar consciente. Recolhi este relato de um número surpreendentemente variado de fontes. Levou-me mesmo uns anos a perceber que os vários pedaços se relacionavam; que no fundo disto tudo estava a ima- ginação criadora de uma camponesa pobre e diabética que, não encontrando no seu dia a dia de fadiga e tédio outra forma para se entreter, foi construindo todo um edifício ficcional por meio do qual ia interpretando os males de que padecia: a memória dolorosa do desprezo do pai, a morte prematura da mãe, a dia- betes, o tédio da vida rural, a pobreza e a falta de prestígio. Diga- -se, de passagem, que muito conseguiu ela. É claro que não se curou da diabetes, mas obteve outros benefícios: entreteve-se a ela e a toda a família; resolveu muita da dor que a memória do pai lhe causava; e, não tendo conseguido adquirir propriamente prestígio, acabou por chamar sobre si a atenção de quase toda a freguesia. Quem sabe mesmo se um dia destes a Celeste não
transforma a sua «doença» em proveito próprio, tornando-se ela mesma uma médium. Bem capaz disso era ela e resolvia logo um outro problema: o da pobreza.
Mais uma vez, quero começar por preveni-los de que já con- tei esta história noutro local. Na altura não quis que pensassem que estava a ajudar um pouquinho. Portanto, descrevi-a em três curtos parágrafos, em termos secos e precisos. «Que grandes- síssima injustiça», pensava, enquanto ia escrevendo, «um teci- do tão rico, uma estrutura tão cheia de possibilidades, e eu a tratá-la em linguagem de cientista, como que a matá-la.» Desta vez, no entanto, posso mandar passear a «verdade positiva», pois não temos aqui utilidade para ela. Posso contar a história como ela merece ser contada. Se não conseguir fazê-lo, acre- ditem que a culpa é toda minha, e não da Celeste, porque a mim e aos vizinhos de Paço ela não teve a mínima dificuldade em entreter.
Antes de começar, porém, queria relatar o que a Celeste me disse um dia em que a trazia de carro da vila, onde ela tinha ido ao centro de saúde consultar o médico. Habituada a falar em recintos abertos, a Celeste berrava mais do que propriamente falava. Em tempos, dizem, foi bonita. Hoje é uma mulher gorda, forte, de meia altura, com um sorriso pronto, do género alarve mas bondoso. Sentou-se atrás e debruçou-se sobre o assento da frente para que eu e a Ruth a ouvíssemos melhor. Podíamos não ter compreendido, mas não podíamos ter dei- xado de ouvir. Disse-me ela que o médico lhe tinha explicado que sofria de «diabetes» e que muita razão tinha ele, porque eram diabinhos pequeninos que lhe estavam a comer o corpo; bem os sentia ela. Eu conto isto, não para mostrar que a Celeste era destituída de toda e qualquer educação formal (o que é um facto, apesar de ter andado na escola), mas para mostrar como até as correspondências mais inocentes podem ser usadas como meio de construção de significado quando há necessidade para isso. Neste caso, é importante perceber-se que as fronteiras entre as diferentes fontes de infortúnio não são estanques. Ela tinha uma «doença de médico» e era perseguida por almas penadas, mas o Inimigo nunca andava muito longe.
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Se o que as almas revelaram à Celeste é verdade, a cena que vou agora descrever passou-se num dos piores períodos pelos quais os habitantes do Alto Minho passaram na sua história re- cente — os anos 40. Não havia emprego em parte nenhuma, o «jornal» (salário agrícola) era pago a uma ninharia, porque havia muito quem trabalhasse só pela comida; os produtos da terra eram pagos ao produtor a preços baixíssimos; o crédito era extorsionário; já desde os anos 30 que não havia para onde emigrar, toda aquela gente nova estava para ali a passar fome, sem saber que fazer da vida; e não havia terra para dar de comer a todos.
No casebre dos Sousa as coisas não iam melhor, pelo contrá- rio. Em 1943 tinha-lhes nascido uma filha, a última de quatro. Chamaram-lhe Celeste. Os pequenos cresciam. Por pouco que se lhes desse de comer, não era justo que passassem fome — o pior é que estavam naquela idade em que ainda não ganhavam sequer para comer. Só agora o mais velho, com 9 anitos, tinha começado a aliviar a carga; trabalhava para o Cerqueira pela comida — o que já não era mau, que lá não se passava fome, como em casa dos pais dele. Os Sousa viviam mesmo no cen- tro do lugar e bem viam que não eram os únicos a sofrer. Até o Nelo Brasileiro, que tantos contos tinha na gaveta, fazia os filhos trabalhar de sol a sol e só comiam carne de vaca na Pás- coa. Para os Sousa isso era inacessível. Comiam uma sardinhita de vez em quando; quando os da Torna faziam a matança, lá lhes levavam uns pedacitos de porco para fazer enchido, que depois punham no caldo dos miúdos, e pelo Natal e pela Páscoa comiam um rabo de bacalhau.
O sustento vinha-lhes sobretudo de umas leiras que a mulher tinha herdado perto do lugar. Eram três leiras jeitosas que davam milho, vinho e castanhas e tinham boa água. A de cima partia com umas terras do Matos. Estávamos em tempo de «bessadas» (as lavradas) e o Matos já as tinha feito. O Sousa estava agora a acabar as dele. Para o grosso da terra, ele tinha pedido ajuda a vi- zinhos, mas hoje só faltava fazer as bermas e, como as terras eram pequenas, fazia ele isso sozinho. Ele e o Barrumão tinham cada um uma vaca e faziam uma parelha com as duas — esta semana
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estavam com ele, amanhã iriam para as terras do parceiro, que sempre eram maiores. Na altura, as terras eram lavradas mesmo até às bermas. Qualquer cantinho de terra contava; sempre eram mais quatro ou cinco espigas, o que, bem vistas as coisas, era mais um dia de consumo de pão-milho lá em casa.
O sol tinha-se posto há muito, a luz já começava mesmo a faltar. Estava tudo terminado. O Sousa olhou orgulhoso para o campo com a terra levantada, ainda escura nas partes que já não tinham apanhado sol, mas seca e solta onde a bessada tinha sido feita há mais tempo. Trabalho bem feito. «Se Deus quiser, este ano passaremos menos fome que no que lá vai» — e bem difícil tinha sido, com aquelas chuvadas de Julho a estra- garem o milho todo. Entre a leira do Sousa e a do vizinho não havia nem sequer um centímetro de terra por lavrar, a divisão era visível só por virtude dos marcos: três pedras enterradas pelo bisavô do Matos e da mulher do Sousa quando tinham feito as partilhas e dividido o campo pelos filhos. Terra era coisa que não lhe tinha faltado, ao velho. Eram outros tempos!
Foi então que o Diabinho lhe falou à orelha. E se ele mexesse os marcos e depois passasse o arado por cima? Quem é que havia de saber que a terra não era dele? Não havia sequer regis- to das partilhas, estava tudo em nome do velho! As partilhas que se iam fazendo eram todas informais. Assim dava-se menos de comer aos tipos da vila.
Verificou que ninguém estava por perto, mexeu os marcos para o rego seguinte e passou o arado por cima para arranjar a terra. Não havia maneira de ser descoberto. Ia a meter-se ao caminho quando deu com o filho mais velho, que lhe trazia um pedaço de broa, uma cebola e uma caneca de vinho. Prendeu as vacas, sentou-se numa pedra e comeu e bebeu em silêncio. Pareceu-lhe que o miúdo tinha um sorriso matreiro nos lábios.
— Viste?
— Vi sim, meu pai.
— Olha que é por causa da fome que tu e os teus irmãos pas- saram este ano!
— Eu sei.
— Mais alguém terá visto?
— Não senhor, que eu fui ali por cima do que é da Tina para ver se estava lá alguém.
— Fizeste bem. E agora em casa não quero palavra, estás a ouvir?
— Sim senhor.
— Que isto de mulheres não se pode confiar nelas, não têm tento na língua. Estás a ouvir?
— Estou, sim senhor.
No ano seguinte repetiu-se a mesma cena. Desta vez o miúdo já era mais crescido e tinha ficado com o pai para o ajudar com o gado. Ainda o quis mandar embora, mas o moço fez que não percebeu e voltou a tempo. Ao lusco-fusco diz o pai, enver- gonhado:
– Sobe então à bouça da Tina a ver se vem gente.
O pão dos Sousa aumentou outra vez mais um pedacito esse ano.
Mas as coisas começaram a pôr-se feias. O Matos desconfia- va. Ao outro dia de manhã foi encontrá-lo lá com os da Eira a verificar os marcos.
— Então que se passa? – diz o Sousa, já com cara de poucos amigos.
— Estes marcos estão muitos soltos. — Pois terá sido o arado que bateu neles. — Tu lá sabes, ladrão! – respondeu o Matos.
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Não fosse o Zé da Eira ter afastado o cabo da enxada com a mão, o Matos tinha ficado com a cabeça em bocados da paulada que o Sousa lhe dirigiu. Foi preciso afastá-los à força, que se matavam. Nunca mais se falaram e até à morte do Matos, muitos anos depois, as duas famílias estiveram de rela- ções cortadas.
Quando a Celeste tinha 12 anos, a mãe morreu de pneumo- nia. Ficaram todos muito desamparados; não fosse ela ter assumido o governo da casa, que teria sido daqueles homens? Felizmente, conforme a década de 50 ia avançando, as coisas foram melhorando. Começou a emigração clandestina para a França. O irmão mais velho foi o primeiro a dar o salto, logo depois de ter voltado da tropa. Foi a pé com mais dois de Paço que já conheciam o caminho. Ainda arranjou trabalho em Es- panha por uns tempos e, finalmente, acabou em Paris. Uns anos depois seguiram-no os outros irmãos. Ficou a Celeste em casa, a olhar pelo velhote e a cuidar das terras.
Por fim, ela casou-se com o Tôno Monteiro, um vizinho que trabalhava com os irmãos em Paris. Não fosse a insistência dos irmãos com o pai, não tinha mesmo casado, porque o pai dizia que ela não podia olhar por ele se se casasse; ia ter filhos e ele é que ia sofrer.
Com a ajuda do marido conseguiram até sair do casebre em que viviam. Passaram a usá-lo como corte e fizeram uma casa de cimento ao lado da estrada. Coisa de pouca monta, mas sempre era menos fria e miserável. A Celeste andou muito tem- po magoada com a atitude do velho para com o seu casamen- to, mas sobretudo o que ela nunca perdoou foi a atitude do pai quando este se decidiu a fazer partilhas. Principiou por dizer que quem decidia a divisão era ele e que, se algum deles dis- putasse a sua decisão, que dava a terça dele e a parte que her- dara da terça da mulher aos outros. Era em Agosto e estavam os irmãos todos de retorno da França — a atmosfera começou logo a azedar-se. A parte mais importante da herançazita era a leira que dava com os terrenos dos do Matos. A Celeste, que tinha olhado sempre pelo velho, pensava que seria beneficiada. Disse logo que os irmãos teriam de perceber que ela não os
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O pai da Celeste
poderia compensar imediatamente pelo que lhes cabia do valor das terras, mas que, com o que o Tôno ia ganhando em França, lhes pagaria em poucos anos. Responde o irmão mais velho:
– Isso depois veremos.
Logo naquela noite, depois da ceia, o irmão pediu ao pai para irem dar um passeio. Queria falar com ele. No dia seguinte o Cunha veio fazer a louvação. O Sousa chamou-o à parte e disse-lhe que fizesse os lotes como muito bem lhe apetecesse, com a condição de que o filho mais velho levasse indivisa a lei- ra em questão. Se fosse preciso compensar os outros, deixava- -lhe a terça. Se mesmo assim não chegasse, tirava-se da parte da Celeste, que a terra onde ela tinha construído a casa nunca tinha sido paga.
O Cunha disse-me que fez tudo o que pôde para demover o Sousa. Explicou-lhe a injustiça para com a filha e ameaçou-o de recusar-se a fazer a louvação, mas o velho insistiu em que quem era o dono era ele e que mandaria vir outro louvado, em vez dele, se não fizesse o que ele queria. Não se mudava nada. Segundo ele, não devia nada à filha. Ela não tinha feito mais que a sua obrigação. De qualquer forma, desde que ela se tinha casado, deixara de o tratar como ele merecia.
A partir daí, a Celeste nunca mais chamou pai ao velho. Da- va-lhe de comer o caldo todos os dias, mas era com repugnân-
cia e porque o marido lhe tinha feito ver que, mesmo assim, o velho ainda estava em condições de os fazer pagar pelo terreno em que tinham construído a casa. Quando ele teve de ir para o hospital com um cancro da próstata, foi um alívio para ela. Por fim, os médicos deram-no por perdido. Como ele insistisse que gostava de morrer na terra, trouxeram-no de volta. Disse- ram que teria, no máximo, dois dias de vida. Mandou-se logo mensagem aos irmãos para virem de França e o padre foi fazer a extrema-unção.
A parte que se segue foi-me contada pelo padre. Ao sair de casa da Celeste, o Sr. Reitor virou-se para a filha e disse: «Não lhe dêem mais nada de beber ou comer que não seja sumo de limão com muita água e açúcar.» Pensou que mais mal do que ele já estava não era possível e podia ser que ainda lhe fizesse bem. O padre é muito crente em medicinas tradicionais e em herbalistas — trata tudo lá na residência com chás e mezinhas, do que muito se queixa a irmã às comadres. Até já tirou um «curso» sobre isso em Braga.
O que deixou toda a gente espantada é que o velho começou a sentir-se melhor desde a primeira vez que lhe deram a limo- nada. No dia seguinte, quando o padre o foi visitar, já estava melhorzinho. Depois estabilizou, nem bem, nem mal. Os dias passaram e as lágrimas dos filhos foram secando; tornou-se aquilo uma espera silenciosa e irritadiça. Telefonaram para o hospital para o levarem de volta, mas receberam a resposta de que já não havia nada que eles pudessem fazer: se o velho não morria, tanto melhor.
As partilhas mal feitas eram como que um veneno entre eles. O irmão mais velho, que tinha sempre sido o preferido do pai, dizia que não tinha nada a ver com a questão, que a decisão tinha sido do velho e estava tomada; os outros diziam que a Celeste devia mas era pagar ainda o dinheiro correspondente ao terreno da casa para os compensar. Ela, é claro, que ficara sem terra agrícola, perguntava como é que eles, que estavam tão ricos em França, tinham coragem de deixar uma mulher sem uma horta sequer para dar de comer aos filhos. Ao que as cunhadas respondiam que, se o marido dela não tinha feito
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tanto dinheiro como os delas, era porque era um tonto e não era culpa delas que a Celeste tivesse escolhido mal.
Puseram-se todos a discutir aos gritos. O Sousa, que queria paz, tê-los-ia ainda calado se não fosse o filho mais velho res- ponder-lhe:
– E você, meu pai, não morre?
Nessa tarde, quando o padre lá chegou, estava a casa cheia de vizinhos. Tinha sido preciso chamá-los porque os irmãos e os cunhados tinham-se metido todos ao murro por causa de uma cabra, que a Celeste dizia que era dela e eles achavam que era do pai. A partir dessa noite, o Sousa nunca mais pronunciou uma palavra, nunca mais aceitou fosse o que fosse de comida ou bebida. Finalmente, morreu ao fim de três dias.
Depois da morte do pai, o marido da Celeste já não voltou à França. A verdade é que nunca tinha conseguido fazer muito dinheiro por lá. Como agora já não tinham terras, como have- ria ela de dar de comer aos filhitos? Fizeram-se caseiros de uma quinta dos herdeiros do Barrumão, que estavam emigrados, e de umas terras da Sãozinha. O Tôno trabalhava na «arte» para um empreiteiro da freguesia vizinha e ajudava a Celeste no tra- balho da terra quando era necessário. Entretanto, já iam no quinto filho.
Foi depois do nascimento deste que as coisas começaram a dar para o torto. A Celeste desleixava o arranjo da casa. O ma- rido e os filhos andavam sujíssimos, porque ela não tinha von- tade de lavar roupa. Sentia-se mal e perdia o apetite. Houve noites em que nem sequer lhe apeteceu pensar em dar-lhes de comer. Metia-se na cama a meio da tarde e ficava para lá, nem adormecida, nem acordada. Quando o marido chegava do tra- balho, tinha de ser ele, com a filhita de 10 anos, a fazer o caldo para o resto do bando. A princípio chegou mesmo a zangar-se. Depois deixou de protestar, porque sabia que aquilo era doença que ela tinha.
Alguma coisa se estava a passar. Andavam todos num estado miserável. Os filhos estavam amedrados, sujos e maltratados; o pai desesperava de ter uma vida decente, tudo lhe corria mal; a mãe sentia-se muito doente e deprimida. Uma tarde a Celeste
entrou pelo terreiro da Sãozinha adentro num estado de terror e excitação nervosa que fazia pena ver.
– Ai, Sãozinha. Jesus, Maria, José! Ai, Sãozinha, que me pas- saram a mão pelo cu ali no monte do Rosário. Ai, meu Deus. Ai, meu Deus!
A vizinha não percebia o que se passava.
– Mas então, mulher, se foi só isso, não é grave. Acalma-te, caralho! E quem te fez isso, afinal? Diz lá, quem foi?
Por fim, conseguiu acalmá-la. O que assustava a Celeste é que não tinha visto ninguém. Estava sozinha a cortar erva no meio de uma leirita que para lá têm e, de repente, sentiu que lhe apalpavam o rabo. Virou-se logo para dar um bofetão, mas nada... não estava lá ninguém. Ficou muito assustada, mas con- tinuou. Da segunda vez, no entanto, até lhe pareceu que lhe levantavam as saias. Deu-se de um terror irreprimível e correu, pernas-para-que-te-quero, até encontrar alguém.
A partir desse dia, os «fenómenos» reproduziram-se com mais frequência. Por várias vezes a Celeste sentia que lhe agarravam o braço ou que lhe tocavam, apesar de não estar ninguém per- to. Até já nem gostava de andar sozinha. Sentia outras vezes um formigueiro por todo o corpo — mais tarde explicava estas sen- sações como sendo «os diabetes». De noite passavam-se coisas estranhas naquela casa. Uma noite ela e o marido acordaram com a cabeceira da cama a bater violentamente contra a parede. Ouvia-se por toda a casa, os miuditos choravam de medo. Mal o Tôno acendia a luz, parava tudo; logo que a voltava a apagar, a cama começava outra vez a bater, primeiro devagar e depois com crescente violência. O cãozito que tinham ladrava desal- madamente. Nessa noite ninguém dormiu com o susto.
Uma manhã, quando ela e o marido se levantaram, encon- traram o filhito mais novo, que não tinha ainda feito um ano, deitado no meio do terreiro. Dormia descansado, embrulhado num cobertor, com as galinhas a debicarem à sua volta. Nunca conseguiram averiguar quem é que o pôs lá porque a criança não sabia ainda andar.
Finalmente, a crise chegou quando um dia, ao pôr-do-sol, a filha mais velha, que por essa altura já tinha 12 anos, viu um