Fernando Pessoa
2.2. Cenário e colaboradores
A pesquisa contou com a participação de professoras e alunos (as) de duas escolas públicas municipais localizadas em bairros distintos de Campina Grande: Pedregal e Bodocongó II. Buscando preservar os nomes das instituições envolvidas, a escola localizada no Pedregal será denominada de Escola A e a localizada em Bodocongó II de Escola B.
O primeiro contato em ambas as escolas teve como objetivo observar o espaço escolar e o cotidiano das crianças, tanto na hora do recreio, quanto na sala de aula.
Escola A:
Situada no bairro do Pedregal, é uma escola relativamente pequena: tem 07 salas de aula, uma sala de direção, uma biblioteca (que permanece fechada), cozinha e banheiros, estes em condições precárias. Os turnos funcionam da seguinte forma:
• Manhã: Pré I e II; 1º, 2º, 3º, 4º e 5° anos;
• Tarde: Pré I e II; 1º, 2º, 3º e 4° anos;
• Noite: Multiseriado numa turma com alunos de 2° ao 4° anos, na faixa etária de 15 à 63 anos.
Ao todo são 405 alunos divididos entre os três turnos, respectivamente:
• 165 pela manhã;
• 140 à tarde;
• 100 à noite.
De um modo geral, a comunidade que a escola acolhe é carente, assim como a instituição, que, comparada à escola B, é desprovida de brinquedos pedagógicos e outros materiais. No entanto, percebe-se que ao menos no turno onde a pesquisa foi desenvolvida, há, por parte dos profissionais, o desejo de fazer sempre o melhor pelos alunos que ali estudam. Desde o porteiro, até a direção da escola, todos demonstram carinho e compromisso com a educação das crianças.
Os recursos disponíveis aos professores são: quadro, giz, folhas de papel ofício e livros literários que ficam guardados na sala da diretora (e não na biblioteca), mas que podem ser utilizados pelas docentes, caso julguem necessário.
A turma escolhida para a vivência foi o 1° ano (antiga alfabetização), turno da tarde. Nela há ao todo 22 alunos, sendo 09 meninos e 13 meninas, entre cinco e dez anos de idade. Não são crianças carentes de leitura literária, visto que demonstram o reconhecimento de muitos títulos de narrativas e de poemas infantis. Esse fato foi percebido durante os momentos em que estivemos interagindo com elas: muitos dos poemas selecionados para a vivência já faziam parte do dia a dia escolar dos alunos, que os recitavam com familiaridade e satisfação.
Quanto à formação da professora, tem o ensino médio caracterizado de Logus e é formada em Pedagogia pela UVA (Universidade do Vale do Acaraú4).
Está pela primeira vez numa escola pública como prestadora de serviço, tendo toda a sua experiência (08 anos) em escolas particulares da cidade de Campina Grande. Apresenta amplo interesse pela leitura literária, especialmente por poemas infantis e está sempre à procura de conhecer mais elementos relativos ao gênero e de aprender as melhores maneiras de abordá-lo junto às crianças.
A professora revelou que ainda sente dificuldades em dividir o tempo entre as atividades “obrigatórias” e aquelas relacionadas à apreciação do texto literário.
Reconhece que oferece muito mais ênfase ao currículo escolar, mas mesmo assim, não deixa de proporcionar às crianças momentos de prazer.
A sala de aula onde foi desenvolvida a pesquisa é ornamentada com textos poéticos e outros cartazes relativos aos conteúdos que estavam sendo trabalhados. Tem ainda um “Cantinho da Leitura" onde se podem encontrar textos narrativos, poemas, jornais e revistas.
4A UVA é uma universidade particular que funciona em regime especial, no qual os alunos têm aulas apenas durante os sábados, num período de aproximadamente 8 horas.
Foto 1 (Cantinho da leitura)
Na parede estavam anexados os seguintes textos poéticos:
• “A casa e seu dono” (Elias José);
• “As tias” (Elias José);
• “As borboletas” (Vinícius de Moraes);
• “O tatu” (trava-língua).
Os dois primeiros poemas e o trava língua já estavam fixados antes da nossa chegada à escola e o poema “As borboletas” de Vinícius de Moraes foi colocado pela professora durante os dias que estivemos observando aquele ambiente escolar.
Escola B:
A Escola B está localizada no Bairro de Bodocongó II. É composta por 07 salas de aula, uma sala de direção, sala de professores, laboratório de informática, sala de leitura, banheiros e refeitório, além de amplo espaço físico
para as crianças brincarem na hora do recreio. É uma escola bem cuidada no que se refere à limpeza e organização espacial. Nela os turnos funcionam da seguinte forma:
• Manhã: 1º, 2º, 3º, 4º e 5° anos;
• Tarde: Pré I e II; 2º, 3º, 4º e 5º anos;
• Noite: 1º, 2º, 3º, 4º e 5° anos – EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Ao todo são 550 alunos divididos entre os três turnos, respectivamente:
• 202 pela manhã;
• 228 à tarde;
• 120 à noite.
Assim como na primeira escola, esta também acolhe uma comunidade carente, mas bem menos do que na Escola A. Aqui, julgando pelo vestuário e por outras aparências, as crianças são menos desprovidas economicamente. São, em sua maioria, filhos de comerciantes do bairro, policiais e empregados do comércio. Esta escola também dispõe de mais recursos pedagógicos, como por exemplo, muitos brinquedos educativos, livros literários, 11 computadores e 03 impressoras, TV, DVD com karaokê, som, caixas amplificadoras, câmera digital, além de papéis diversos, lápis de cor, cola e outros materiais de uso pessoal.
Segundo declaração da diretora, esses materiais foram comprados com uma verba enviada pelo PDE (Programa de Dinheiro Direto na Escola).
Foto 2 (Sala de leitura)
Foto 3 (Brinquedos Pedagógicos)
Embora todos esses recursos estejam disponíveis, não foi visto a utilização deles pelas crianças durante todo o tempo em que permanecemos nesse espaço.
As aulas limitavam-se ao uso do quadro negro e às atividades realizadas a partir do livro didático.
Nesta escola, desenvolvemos a pesquisa numa turma de 2º ano (antiga 1ª série), turno manhã, com 26 alunos (11 meninos e 15 meninas), numa faixa etária entre sete e nove anos. A professora dessa escola tem o ensino médio pedagógico (normal), é formada em Pedagogia pela UFCG e prestadora de serviço em duas escolas do município. Não demonstra muito interesse pela leitura literária ou parece não ter sido orientada para tal. As poucas vezes que tenta utilizar a literatura em sala de aula, estabelece um objetivo relacionado a ensinar a ler e a escrever. Propõe atividades escritas durante toda a manhã e em nenhum momento indicou a leitura de um texto literário com objetivos diferentes do mencionado anteriormente.