3. MÉTODO
3.3 Cenário
Na intenção de melhor se fazer entender o porquê se fala de onde se fala, trazemos como cenário de atuação da pesquisa a política de Assistência Social, mais especificamente, dentro da Proteção Social Básica (PSB) em um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos
(SCFV). Conforme consta na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais elucidada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS, 2014), o princípio norteador das ações previstas é a convivência, tendo como pressuposto garantir a proteção social a quem dela necessita. O trabalho aqui, se configura na atuação da própria pesquisadora como psicóloga neste espaço, que se revela na busca de refletir a realidade em constante alerta aos elementos presentes nas relações produzidas e reproduzidas. A ação da Psicologia no cenário da comunidade é aquela que busca, a partir das demandas identificadas pelo diálogo com o contexto, a aproximação dos sujeitos através da presença no SCFV em momentos coletivos e/ou individuais – quando necessários –, além de visitas domiciliares e participação direta na vida da comunidade, uma vez que identificados espaços potenciais para tais articulações.
Articulada ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a política de garantias de direitos se faz em um longo processo de consolidação, tal como é o sistema que a organiza, iniciado somente em 2005. Para que seja de fato efetivada, integração é a palavra que de fato precisamos materializar em nossa prática, já que o SUAS é organizado de maneira territorial, levando em consideração as demandas da própria região a qual as pessoas estão implicadas, organizando as ações da política de Assistência Social ao encontro da complexidade dos serviços públicos. Nesse sentido, quando falamos na atuação dentro da Proteção Social Básica, a direção deve ser aquela que previne e protege, a partir de uma concepção de convivência e fortalecimento de vínculos (PNAS, 2004).
Fazer proteção é conhecer os riscos que permeiam o entorno daqueles que a procuram, de forma que, conforme explícito na Política Nacional de Assistência Social (2004), conhecer os riscos é também reconhecer as possibilidades de enfrentá-los, entendendo que a necessidade e a ausência dentro daqueles que precisam da Assistência Social é seu princípio, mas que a capacidade de agir ao encontro das demandas deve ser a raiz do que nos orienta.
Nos pautamos na convivência como meio de alcançar um horizonte de emancipação da política em questão, sendo que o fortalecimento de vínculos se torna o eixo final e norteador de nossas ações. Se faz necessária essa diferenciação, pois, uma vez alcançado o vínculo fortalecido, o território onde há a convivência, seja pela partilha ou somente pelo ato de conviver pela obrigatoriedade de localização, tende a ser aquele lugar onde as pessoas podem, de fato, pertencer (MDS, 2017).
A comunidade onde atuamos e estamos vinculados é um empreendimento do PMCMV para famílias com baixa renda e advindas de áreas de risco, hoje distribuídas em 2.380 Unidades Habitacionais. As pessoas chegaram até este território sem vínculos e redes de apoio, uma vez que quando retiradas de seus locais de moradia anteriores, prometeram-lhe casas. Somente quando chegaram ao referido lugar, é que se depararam com apartamentos de 36m², sendo que nessa contagem de espaço, a garagem está inclusa. Um dos únicos serviços públicos da rede socioassistencial da região, nossa atuação no SCFV abrange um número alto de pessoas que habitam o território, embora não alcance nem de perto, a devida proporção do número de pessoas que ali estão. Importante aqui deixar explícito que a partir dos princípios normativos do SUAS, a organização dos equipamentos públicos deve ser territorial, fato este que não acontece na região em questão, já que não possui referência do Centro de Referência de Assistência Social, porta de entrada da política de Assistência Social.
Embora os dados não sejam oficializados, a aproximação com o referido território se deu de acompanhamentos anteriores de famílias moradoras de outras regiões de Campinas que se mudaram para a comunidade aqui representada. Uma vez já vinculadas à política de Assistência Social pelo Serviço de Proteção Especial de Média Complexidade, a presente organização se organizou para estar no território, identificando grande vulnerabilidade e risco social. A área em questão, extremamente isolada do planejamento urbano, é considerada área rural e possui um grande pasto aberto no fundo de sua malha, que não é de acesso público para
a população. Por não se abastecer de serviços territoriais, os moradores acabam por utilizar os equipamentos dos bairros vizinhos, sobrecarregando os serviços e alimentando a precarização da saúde, educação e assistência, em um sistema que se abastece de desigualdades como pressusposto.
Por estarmos no território e entendermos a precariedade da região, ainda realizamos atendimentos para mais dois bairros vizinhos que sofreram grandes impactos com a chegada do grande empreendimento do PMCMV – embora nosso maior público seja disparadamente vinculado ao loteamento. De acordo com o Relatório de Informações Sociais de Campinas (PMC, 2016), há apenas um Serviço de Proteção Especial de Média Complexidade8 e nenhum Serviço de Proteção Especial de Alta Complexidade9 na região Noroeste, um número extremamente inferior à quantidade de demandas e vulnerabilidades do território em questão.
Diante do todo exposto, é a partir de muita complexidade, precarização e ausência de políticas públicas que se desenvolve o presente trabalho e, ainda assim, busca-se constantemente a atuação em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Assistência Social em conformidade com o SUAS, que preconiza o enfrentamento da questão social como princípio que move (ou assim deveria) aqueles que nessa luta se situam. O cotidiano aqui é pelo não isolamento territorial, pois assim como aqueles que moram nessa região, a rede de proteção e garantia de direitos acaba por permanecer fragilizada em sua continuidade.